Se eu tivesse em minhas mãos um lápis, um caderno e uma eternidade, ainda assim eu não poderia descrever tudo o que se passava em minha cabeça. E sinceramente, eu não poderia me culpa por isso, e nem ninguém que estivesse passando pelo o mesmo que eu. Estava sendo um dia muito longo.

Logo cedo eu queimei um ovo na frigideira. E com queimar eu não quero dizer que deixei suas bordas escurecerem; eu quero dizer que ele pegou fogo, pipocou um pouco e explodiu, indo parar na cozinha toda. Eu não sei como isso aconteceu, e nessa altura do campeonato, eu já havia parado de tentar entender.

Não é necessário muito conhecimento para usar uma frigideira, e acho que é uma das coisas mais simples da vida. É prática, frita coisas, e é muito fácil evitar acidentes com ela, desde que se tenha bom-senso. Às vezes acho que até quem não tem braços consegue se virar com uma. Mas por algum motivo cármico, ela tem sido o meu nêmesis dês da adolescência, quando aprendi a cozinhar. Não era raro eu me queimar, derrubar ou esquecer a maldita coisa no fogo, e já conheci um departamento inteiro de bombeiros por causa disso. Mas eu adorava ovos fritos – na verdade, era uma das poucas coisas que eu conseguia comer sem querer vomitar, então era uma batalha necessária.

Sem um café da manhã, saí de casa e fui para o trabalho. No ponto, eu perdi o ônibus por alguns segundos. Isso em si não era um problema, afinal, era algo que acontecia de vez em quando. Mas foi desesperador quando, dois minutos depois, um caminhão resolveu tombar no cruzamento da rua, bloqueando completamente o tráfego.

Sentindo um aperto no peito, decidi ir a pé para o escritório, e após duas horas andando um trajeto que levaria meia hora, cheguei exausto e suado no trabalho, aonde fui bem recebido por um chefe bem-humorado e compreensivo, juntamente com meus colegas que me adoram e só querem o meu bem.

Brincadeira. Quase fui demitido e todos me odeiam.

E ainda nem eram 10 horas.

No horário de almoço eu derrubei minha coca no chão.

De tarde eu descobri que ia ter que fazer hora extra no sábado porque eu preenchi cerca de cinquenta documentos e fichas com datas erradas, e teria que reimprimir todos, às minhas custas. Eu havia me baseado num calendário na minha mesa, que por acaso era de 2012. Não, eu nunca havia notado isso.

De noite, voltando para casa, sentando no ônibus, ouvi a notícia em rádio que a bolsa da China havia fechado em alta de cerca de 1,12%. Eu não sabia o que isso significa, mas não podia ser bom.

Já dentro de casa, meu gato me avisou que a comida havia acabado me mordendo no tornozelo. Rezando para que o dia pudesse finalmente acabar logo, saí até uma loja a três quarteirões de casa para comprar ração. Era uma venda de esquina pequena, mas que costumava ter tudo o que alguém precisava para sobreviver, desde que fosse refrigerante e condimentos básicos. E por algum motivo, ração de gato. Aproveitei a viagem para pegar uma caixa de ovos e um pote de manteiga. Eu merecia uma boa janta hoje.

E foi aí que eu fui assaltado. Três homens me cercaram assim que eu saí da loja. Eu já os havia visto antes; drogados que perambulavam por aí, sempre aprontando alguma coisa. Sumiram por um tempo após um deles ter sido preso, e pelo visto, haviam voltado com tudo, e me escolhido como alvo.

Eu realmente não me lembrava de ter entregado a carteira ou dito alguma coisa, mas um deles estava com ela na mão. Havia um branco na minha memória, e eu só me lembrava de estar caído no chão. Algum deles ria, mas não conseguia saber qual. Talvez fosse uma peça da minha mente, que ria de mim pela situação que eu estava. O chão era desconfortável, e pelo jeito eu havia caído em cima dos ovos. Era mesmo uma coisa engraçada. Mas era tudo tão vermelho; minhas roupas, o chão, os ovos. A lâmina na mão de um deles.

E foi aí que eu realmente me questionei se eu não estava sonhando; se tudo o que estava acontecendo não era um delírio meu, e que esse dia nunca existiu de verdade. Quando todas as lâmpadas dos postes se partiram no mesmo instante, e um jato d´água jogou um deles contra a parede, tão forte que ouvi suas costelas quebrando.

A rua ficou terrivelmente escura, mas eu ainda conseguia vê-la, dançando. Suas mãos fluíam ao redor de seu corpo, seguindo um ritmo que só ela entendia. Era hipnotizante vê-la fazendo aquilo. Era lindo. Ela era linda.

Os homens gritavam.

Minha consciência se esvaía.

Estava ficando frio. Não percebi quando fechei os olhos, ou se eu os fechei. Acho que eu vi o rosto dela de perto, mas não tenho certeza.

Eu sentia tantas coisas... Como poderia colocá-las todas no papel ? Era difícil, difícil. A sensação de estar morrendo era provavelmente a mais certa.