Sísifo selecionou os companheiros mais confiáveis para acompanhá-lo na missão de grande importância. A cada dois séculos, era obrigatório que a deusa Athena passasse por um ritual no templo de Mnemosine a fim de recuperar todas as memórias de vidas anteriores, de modo a obter informações preciosas que pudessem ser úteis para a Guerra Santa e que não haviam sido registradas em documentos oficiais.

O Grande Mestre garantiu que apenas ele e alguns cavaleiros de prata seriam suficientes para a missão, pois o templo não era distante do Santuário, sendo uma viagem de pouco risco, que levaria somente algumas horas. Mesmo assim, o cavaleiro não se sentia sossegado. Montou um esquema de segurança reforçado com cavaleiros de prata, que lhes serviriam como olheiros durante o trabalho.

Sasha já havia se acostumado à rotina do Santuário, embora a falta de liberdade ainda a incomodasse. Quando conversavam, ela adorava falar de seus dias no orfanato, quando vivia com outras crianças, circulava pela cidade e conversava com diversas pessoas. Era assim que deveria, idealmente, viver, mas o destino havia lhe roubado aquele fundamental prazer para forçá-la a ser uma deusa da guerra. Quanto a isso, não havia nada que Sísifo pudesse fazer.

Para reforçar sua segurança, ela vestiu uma manta com capuz, que, embora não fizesse jus à sua posição sagrada de deusa, era a melhor forma de as pessoas na rua não a reconhecerem. Além disso, a carruagem que a levaria fora construída especialmente para aquele trabalho e teria o tempo todo a escolta de cavaleiros de prata, posicionados próximos ou distantes, com ordens de impedir que qualquer pessoa se aproximasse dela.

Quanto a Sísifo, permaneceria dentro da carruagem e seria a última linha de defesa dela. Assim, acreditava que possuía o melhor esquema para levá-la e trazê-la com segurança. Como a área para a qual iriam era constantemente vigiada e protegida pelo Santuário, sabia que dificilmente apareceria algum inimigo. Afinal, espectros de Hades só surgiam em locais distantes e evitavam o confronto direto.

Infelizmente para Sasha, as janelas da carruagem precisavam ficar fechadas para a sua segurança, de modo que não podia acompanhar a mudança do cenário. Para distraí-la dessa triste medida, Sísifo focou-se no objetivo, o templo de Mnemosine, que era relativamente grande e com construções diferentes de outros locais sagrados, onde se realizavam muitos rituais de recuperação de memórias. Por algum acidente ou doença, não poucas pessoas iam buscar ajuda das sacerdotisas de Mnemosine. Naquele dia, no entanto, o templo estava fechado para atender somente a Athena.

“As paredes do templo estão cobertas de inscrições, que dizem ser as memórias da própria deusa Mnemosine. Nas paredes, nos tetos, nos pilares. Inclusive, cada tipo de ritual depende das inscrições de uma ou de outra sala. É por isso que as instalações são grandes por lá.”

“Como você sabe tanto sobre esse templo, Sísifo?”

“Eu tive que visitá-lo enquanto buscava o paradeiro da senhorita, Athena-sama. Tenho certeza de que gostará de conhecer o templo. É um lugar muito rico, cuidado por sacerdotisas muito gentis.”

“...Eu estou com um pouco de medo… das memórias que podem surgir lá…”

“Está preocupada com os pesadelos, não é?”

Ela assentiu com a cabeça, entristecida.

“Desde que o poder de Athena aflorou em mim, tenho tido esses pesadelos… de guerras passadas. E se eles piorarem depois de passar pelo ritual?”

“Não se preocupe, Athena-sama. Todas as reencarnações anteriores tiveram esse problema com pesadelos resolvido com o ritual de Mnemosine. Um dos motivos de o Grande Mestre ter decidido que este é o momento certo é, em parte, os seus pesadelos. As memórias virão, queira ou não, mas tê-las com mais exatidão, pelo ritual e com a assistência das servas de Mnemosine, tornará o processo menos difícil. Não se preocupe tanto.”

Sasha sorriu-lhe tristemente e olhou para baixo:

“Quando eu recuperar as memórias… espero que as memórias de Sasha não sejam prejudicadas.”

“Não há nenhum motivo de preocupar-se com isso. Enquanto elas forem preciosas, continuarão com a senhorita.”

“Obrigada, Sísifo. Eu só quero continuar sendo eu mesma depois disso, mas com novas lembranças.”

“Acredito que a senhorita seguirá mantendo as lembranças desta vida bem firmes em seu coração.”

Então ela tinha o medo de sair outra pessoa do ritual. Era compreensível, considerando que a guerra tinha o poder de mudar uma pessoa para o pior. Mesmo um guerreiro generoso podia perder a fé na humanidade ao ver os limites da crueldade nos campos de batalha.

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A viagem transcorreu sem problemas. Um dos cavaleiros de prata que mandara ir na frente retornou, dizendo que tudo estava normal no templo e que já aguardavam a deusa. O que guiava os cavalos parou bem ao lado da porta do templo, a fim de expor Sasha ao mundo o menos possível. Todos estavam seguindo suas ordens à risca e com todo o empenho. Se retornassem em segurança ao Santuário, Sísifo se certificaria de dar a eles uma boa recompensa na taverna.

Uma sacerdotisa veio recebê-los, de forma discreta, para fazer parecer que recebiam uma pessoa como outra qualquer. Sasha adentrou o templo rapidamente, ao lado de Sísifo. Os cavaleiros de prata posicionaram-se em pontos pré-combinados, a fim de manter toda a área segura para eles. Tudo estava indo de acordo com o plano.

Assim que Sasha entrou no templo, acompanhada de Sísifo e de mais dois cavaleiros de prata, a sacerdotisa chefe apareceu e apresentou-se:

“É uma honra recebê-la em nosso humilde templo, deusa Athena. Eu sou Calíope, sacerdotisa chefe deste local e a pessoa que conduzirá o sagrado ritual de restauração de memórias da senhorita. É um prazer, senhores…”

Sísifo assentiu com a cabeça, num cumprimento formal, e comentou:

“Em nome do Santuário, agradecemos profundamente pelo serviço que o templo de Mnemosine nos presta a cada reencarnação da deusa. Se não fosse pelo ritual de restauração de memórias, nossa deusa sofreria por muito tempo, sonhando com as guerras passadas. Como cavaleiro, meu coração fica tranquilo sabendo que ela está aos seus cuidados. Por favor, torne essa fase o menos difícil possível à nossa deusa Athena. Nós, cavaleiros, daremos todo o suporte necessário para que o evento aconteça de maneira segura.”

“Senhor Sísifo de Sagitário, estou certa?”

“Sim, senhora. Vejo que se lembra de mim.”

“Sim, o senhor veio buscar informações do templo alguns meses atrás. Foi muito gentil conosco. Pode confiar em nós. Faremos o ritual… com o máximo de cuidado.”

“Eu agradeço, senhora.”

“Sigam-me, por aqui. É preciso que se preparem antes. Senhor Sísifo, gostaríamos que nos auxiliasse durante o ritual, para que a deusa se sinta mais segura, tendo alguém conhecido por perto e para que possa protegê-la. Contudo, terá de preparar-se antes de acessar a sala. Pode fazer isso?”

“Certamente, senhora Calíope. Terá toda a assistência no que eu for útil.”

“Muito bem… vamos.”

A sacerdotisa guiou-os para cômodos vizinhos. Tiveram de se separar, mas um dos cavaleiros de prata teve a permissão de entrar no de Sasha, sob a condição de não vê-la nua. Sísifo entrou no outro e recebeu a instrução para banhar-se antes do ritual, pois ninguém poderia entrar na sala carregando as impurezas do mundo externo. Apesar de ter se banhado naquele mesmo dia, de manhã, seguiu as regras e tomou outro banho, lavando-se muito bem. Vestiu-se com uma túnica pertencente ao templo e foi guiado até a sala sagrada. Logo Sasha também apareceu. Os cavaleiros de prata foram obrigados a ficar do lado de fora.

Como havia um pouco de receio na face dela, ele sorriu-lhe.

“Está tudo bem, Athena-sama. Eu estou aqui. Não precisa carregar esse peso sozinha.”

Sasha sorriu-lhe de volta e caminhou até o centro da sala, que tinha o formato de octógono. Havia, ainda, uma serva como auxiliar, que cobria a boca e o nariz com um lenço e espalhava uma fumaça aromática por todo o ambiente. A sacerdotisa inspirou profundamente e começou a entoar um canto de difícil compreensão. Sísifo conseguia distinguir algumas palavras, mas não depreender seu sentido. Mesmo assim, não estava preocupado. As sacerdotisas de Mnemosine eram aliadas históricas do Santuário.

Um cosmos puro surgiu de Calíope enquanto entoava versos mais rápidos e indecifráveis. Enquanto os ouvia e respirava aquela fumaça, Sísifo foi se sentindo gradualmente sonolento. Lutou contra aquela estranha vontade. Precisava, de todas as formas, manter-se acordado para garantir a segurança de Sasha. Aparentemente, o efeito era o mesmo na deusa, que acabou perdendo a consciência. A sacerdotisa segurou-a para que não se machucasse e deitou-a no chão. Em seguida, virou-se para Sísifo.

“Não se preocupe, senhor Sísifo. Para o ritual, é preciso que ela esteja inconsciente. Mesmo assim, a ligação entre os senhores continuará ajudando, ainda mais se o senhor também entregar-se ao mundo dos sonhos. Está tudo bem.”

Confiando em suas palavras, Sísifo deitou-se no chão e logo dormiu. Esperava acordar quando tudo estivesse terminado.

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Despertou num pequeno cômodo, na cama. Vestia roupas de viagem e aparentemente havia aceitado a oferta para passar a noite no templo de Mnemosine, o qual investigava a fim de encontrar quaisquer sinais da deusa Athena. Ela, apesar de já ter nascido, vivia fora do Santuário e precisava ser encontrada antes que fosse atacada pelas forças de Hades. Tratava-se de uma missão de grande importância.

Sentia uma forte dor de cabeça. Levantou-se devagar, lavou o rosto na bacia e olhou-se no espelho. O cansaço da viagem refletia-se na face. Entretanto, precisava continuar procurando Athena, não importava por quantas terras ainda passasse. Vestiu-se, arrumou seus pertences e saiu do quarto. Uma sacerdotisa já o esperava.

“Conseguiu ter uma boa noite de descanso, senhor Sísifo?”

“Sim, consegui. Obrigado por me deixarem passar a noite. Acho que já colhi todas as informações do templo, então preciso ir.”

“Pois não. Nossa sacerdotisa chefe gostaria de conversar com o senhor antes que parta. Ela já virá. Poderia aguardar um pouco?”

“Sim, é claro que sim.”

Enquanto esperava, Sísifo observava em volta. Sentia um leve odor de sangue. Olhou para o chão e viu manchas vermelhas aqui e ali.

“Por que tem sangue no templo? Alguém se machucou?”

“São sacrifícios utilizados em rituais especiais, senhor”, explicou a sacerdotisa. “Temos feito bastante nestes dias, e sinto dizer que não conseguimos limpar o templo com perfeição. Sinto muito que isso o incomode.”

“Não, não é que me incomode… Só fiquei curioso, porque está diferente da última vez que vim… Hum… Por que eu vim na última vez mesmo?”

Antes que pensasse mais nessa questão, ele viu a porta do cômodo vizinho ao seu abrir. Uma garota de cabelos roxos, ainda criança, saiu timidamente, com um vestido azul escuro.

“Ah… Obrigada por terem deixado eu passar a noite aqui.”

“Está tudo bem, querida. Conseguiu descansar?”, respondeu a sacerdotisa.

“Sim… Mas… Eu me sinto um pouco estranha… E tenho dor de cabeça.”

“Não se preocupe, eu vou pedir que façam um chá para você. É uma pena que o ritual não tenha dado certo.”

“Não tem problema. O importante é que vocês tentaram.”

“Ritual?”, perguntou Sísifo, entrando na conversa.

“Acontece que esta pobre menina não consegue achar o caminho de casa. Ela esqueceu onde fica o orfanato em que vive, e, para ela, é muito importante voltar pra lá. Tentamos trazer sua memória de volta, mas infelizmente não conseguimos. É uma pena.”

“É mesmo uma pena”, concordou Sísifo. “Mas está sozinha? Não há ninguém olhando por ela?”

“Não… Ela veio sozinha até aqui, pedindo por ajuda.”

Tomado de pena, o cavaleiro aproximou-se da pobre órfã e agachou-se na sua frente para fitá-la à mesma altura.

“Eu sinto muito que o ritual não tenha dado certo para você, criança. Espero que consiga encontrar seu lar.”

“Obrigada! Você é muito gentil!”

“Rezarei por você.”

A sacerdotisa apareceu, sorrindo. Estava acompanhada por uma auxiliar com uma expressão séria ou até mau humorada.

“Ah, senhor Sísifo. Que bom que despertou. Eu gostaria de despedir-me do senhor. Como se sente?”

“Com mais forças do que ontem, graças à sua hospitalidade e colaboração. Eu colhi informações suficientes deste templo e devo continuar a minha busca pela deusa Athena. Agradeço imensamente a todas."

“Que a deusa Mnemosine o proteja durante a sua jornada.”

“Obrigado, senhora Calíope. Antes de eu ir, gostaria de saber: pretendem abrigar esta criança até que ela encontre um lugar para ficar?”

“Sim, senhor. Não podemos deixá-la sozinha, não é?”

“Entendi. Por favor, cuidem bem dela.”

Sísifo virou-se, já com a intenção de ir para a saída do templo, quando a menina interveio na despedida:

“Espere, senhora Calíope! Eu não posso ficar aqui, preciso encontrar meu orfanato! Quero dizer… Desculpe por ter gritado e obrigada por ter me acolhido… Mas eu preciso partir. Vou ficar bem sozinha! Afinal, prometi que voltaria a encontrá-los um dia… Por isso… Eu também preciso ir embora.”

“Não se preocupe, criança. Achará seu orfanato mais rápido ficando aqui. Entraremos em contato com todos os orfanatos do continente por você.”

“Mas…”

Ele sempre cruzava com histórias bastante tristes em suas viagens. Como cavaleiro, por estar cumprindo ordens, não conseguia parar e ajudar todos. Normalmente, confiaria o bem-estar da criança às competentes sacerdotisas de Mnemosine, que sempre foram aliadas do Santuário. Contudo, alguma coisa naquela criança chamava-lhe a atenção. Talvez fosse o olhar triste, talvez fosse sua capacidade de sorrir estando perdida… Tinha a estranha sensação de que era errado sair do templo sem ela.

“Eu posso levá-la comigo por um tempo”, ofereceu.

“Como é?”, perguntou a sacerdotisa.

“Minha missão é de investigação; é importante, mas com risco mínimo. É mais seguro ela viajar comigo do que sozinha, sendo ainda tão jovem.”

“Senhor Sísifo, não precisa se incomodar. Nós vamos encontrar a casa…”

“Eu aceito!”, respondeu a menina, vindo a juntar-se a ele. “Eu quero ir até eles.”

“Bem, parece que chegamos a uma decisão aqui. Senhora Calíope, se não se importa, eu gostaria de ajudar esta criança a encontrar sua casa. Não se preocupe, vou cuidar bem dela.”

“...Nós agradecemos, senhor Sísifo.”

“Muito bem, então estamos indo. Qual é o seu nome, pequena?”

“É Sasha.”

“Eu sou Sísifo. Está pronta para partir?”

Sasha assentiu com a cabeça, sorrindo, e segurou-lhe a mão.

“Ótimo. Senhora Calíope… Sacerdotisas… Muito obrigado.”

Calmamente partiram. Uma das sacerdotisas aproximou-se de Calíope:

“Senhora… Vai mesmo deixá-los ir? O plano era alterar suas memórias para que se separassem.”

“Se eu continuasse a insistir, ele ficaria desconfiado… Além disso, a ligação emocional entre eles é mais forte do que suas memórias. Cavaleiros não costumam levar pessoas inocentes em suas missões, e essa garota não hesitou em ir com ele. Inconscientemente, eles sabem que não podem se separar. Mas já fizemos o suficiente… Ele não terá tanto cuidado com a segurança dela, pensando que é só uma criança normal. Ao menor descuido… eles atacarão. Não é mesmo, senhor Hipnos?”

O deus do sono saiu de trás de um pilar e aproximou-se, sorrindo.

“Muito bem… Eu pouparei suas sacerdotisas, Calíope. Espero que tenham seguido bem as minhas ordens quanto aos corpos dos cavaleiros de prata que matei.”

“Foram enterrados à noite, senhor.”

“Ótimo. Seu trabalho termina aqui. Estão livres.”

E, sem dizer mais nada, Hipnos desapareceu no ar, para o alívio das sacerdotisas. A assistente de Calíope aproximou-se de sua superiora e comentou:

“Ele consertou a janela da ala oeste na última vez que veio. E é assim que retribuímos?”

“Era isso, ou todas morreríamos.”

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Assim que saíram da cidade, Sísifo tratou de conversar melhor com sua nova companheira. Afinal, apesar de estarem juntos, tinham objetivos diferentes.

“Escute, Sasha… O meu objetivo como cavaleiro é encontrar a atual reencarnação de Athena, que mora em algum lugar da Europa. Por isso, preciso investigar cada cidade pela qual passo. Não tem problema eu fazer esse trabalho enquanto procuramos por seu orfanato?”

Ela negou com a cabeça e respondeu, sorrindo.

“Eu só não queria ficar parada, esperando. Parecia que não era certo eu ficar parada enquanto os outros cumpriam uma promessa que eu mesma fiz. Obrigada por vir comigo, senhor Sísifo.”

“Você tem coragem em querer viajar sozinha, eu respeito isso. Mas o mundo é muito perigoso para uma jovem de sua idade. Não saia de perto de mim. Estou pensando em seguir pela estrada norte, procurando de cidade em cidade.”

“Por mim, tudo bem.”

“O que você consegue lembrar? O cenário, como era a casa do orfanato, a cidade…”

“Eu lembro da casa… E do meu irmão, de Tenma e das outras crianças… Era uma casa pobre. Muitas vezes tínhamos fome. E a cidade… tem ricos e pobres.”

“Consegue lembrar como ela era?”

“Só lembro de paredes, portas… e de um sentimento de rejeição com os mais pobres.”

“Lembra de nomes de lugares de lá?”

“Não… Desculpe, lembro muito pouco de lá…”

“E como você se separou deles e veio parar no templo de Mnemosine?”

“Não lembro… A sacerdotisa chefe disse que me encontrou inconsciente perto do templo… Ela acha que sofri um acidente… por isso não lembro nada.”

“Entendi. Talvez, se passar mais um tempo, comece a se lembrar de algumas pistas. Enquanto isso, seguirei com a minha investigação. Vamos.”

Começaram a caminhar. Felizmente Sasha era uma criança bem comportada. Não daria trabalho.

“Quem é Athena?”

“É a deusa da guerra na mitologia grega. Conhece?”

“Não…”

“Há muitos e muitos anos, cantava-se sobre deuses e heróis que viviam nestas terras. Zeus, o maior dos deuses, seus filhos e filhos de seus filhos. Cada deus representava uma coisa diferente. Hermes, o deus mensageiro. Hefesto, o deus da forja. Afrodite, a deusa do amor. Athena, a deusa da guerra.”

“Então… Se ela é da guerra, quer dizer que deseja a guerra?”

“Não, não é assim… Pelo contrário. Athena é uma deusa que guerreia para proteger as pessoas. Ela não ama a guerra, ela ama a paz. Mas, para que haja a paz, muitas vezes é necessário que haja guerra, infelizmente.”

“E existe uma reencarnação de Athena?”

“Existe… em algum lugar desta terra, escondida em alguma casinha. E eu vou encontrá-la.”

“E quando encontrá-la?”

“Ela deverá retornar ao seu lugar de direito, que é o Santuário de Athena, e lutar pela paz e a harmonia da Terra. Enquanto estiver perdida no mundo, correrá perigo. É para isso que cavaleiros de Athena como eu existem: para mantê-la segura.”

“Cavaleiro de Athena? Você?”

“É isso mesmo. Por isso, não se preocupe. Você está sendo protegida por alguém especialista em segurança.”

Sasha sorriu, embora ainda mostrasse aquele rostinho triste, que o tocou no templo. Sempre que ela sorria, ele tinha vontade de dar-lhe motivos para sorrir de verdade, como uma criança deveria fazer. Tão pequena e tão adulta. Era verdade: órfãos envelheciam mais rápido por terem de assumir responsabilidades dos adultos cedo demais.

“E de seus pais? Lembra-se deles?”

“Meu irmão lembra, mas eu era muito pequena. O orfanato era a minha família. Sem eles… eu me sinto sem chão. Estou preocupada. Existem centenas de orfanatos nesta terra, não é…?”

“Ah, pequena… Se existe algo que aprendi nesses anos como cavaleiro é que o mundo é pequeno. Não se preocupe, você vai encontrá-los.”

“E você, senhor Sísifo? Tem família?”

“Minha mãe costumava ser uma serva do Santuário de Athena. Ela se foi quando eu era pequeno. Meu irmão também não pode mais andar entre nós. Tenho um sobrinho. É um garoto esperto. Ele deve ser da sua idade, aliás, mas não é nem um pouco parecido. Como apronta!”

Era bom ter alguém com quem conversar durante a viagem. Geralmente Sísifo caminhava em silêncio por longas e cansativas estradas até encontrar as cidades. Contou sobre Regulus e sobre como era difícil treiná-lo entre uma missão e outra. Falou de sua amizade com outros cavaleiros e de suas funções diárias no Santuário. Sasha escutava tudo com atenção e perguntava por detalhes, de modo que a viagem pareceu durar menos tempo do que imaginava.

Quando alcançaram a cidade, Sísifo cogitou comprar um cavalo treinado para que Sasha não tivesse de caminhar até a exaustão. Havia dinheiro suficiente, e ele sempre podia arranjar alguns trocados pescando peixes quando acampava. Às vezes, o Grande Mestre comentava como ele era econômico em excesso, e que era o que menos gastava nas viagens. Desta vez, faria uma pequena extravagância em nome do conforto de Sasha.

Antes de mais nada, foram atrás da igreja da cidade. Normalmente os orfanatos eram mantidos pelos padres, de forma que, para a Sasha, era a primeira opção. Enquanto buscavam o padre da igreja, Sísifo incentivava a criança a reconhecer o local.

“Olhe para os muros e janelas, tente comparar com os das suas lembranças. Mesmo um pequeno detalhe pode puxar sua memória perdida.”

“Está difícil, senhor Sísifo… Desculpe.”

“Está tudo bem, provavelmente é porque estamos no lugar errado. Não é sua culpa, ok? Mas precisamos ter certeza. Vamos conversar com o padre e ver se conseguimos alguma pista.”

O padre, infelizmente, negou reconhecer Sasha. Comentou que o orfanato era pequeno, e que ele conhecia todas as crianças ali. Ofereceu-se para abrigá-la, mas o próprio Sísifo recusou. Ela não queria um orfanato, mas o seu lar. Antes de irem, Sasha comentou:

“O senhor deve ter conversado com alguém do templo de Mnemosine, não é? Elas disseram que perguntariam para os orfanatos locais.”

“Não, não me perguntaram nada, senhorita. Talvez não tenham tido tempo hábil para isso?”

Aquilo era bem estranho. Contudo, Sísifo achou que Sasha não tivesse estado por tempo suficiente no templo para mobilizar as servas. Saltou para o próximo assunto:

“Tenho outra pergunta. Estou procurando por uma jovem, ainda criança, mas não é uma criança qualquer… É uma menina que tem poderes sobrenaturais, além do conhecimento humano.”

“Está dizendo… uma criança com o poder do demônio?”

“Não… Apenas com poderes.”

“Olhe… Não sei bem o que está procurando, mas posso garantir que todas as crianças desta cidade são muito saudáveis e normais. Se uma criança com poderes ocultos aparecesse… Tenho certeza de que o senhor não iria querer nada com ela.”

“...Entendi. Desculpe por perguntar algo tão estranho. Então, permita-me mudar de assunto. Conhece alguém disposto a vender cavalos? Estou interessado em adquirir um para facilitar nossa viagem.”

“Ah, o senhor tem sorte. Hoje de manhã, encontrei um mercador que conseguiu dois cavalos, muito bem treinados e mansos. Vai encontrá-lo no final da rua. É bom ir logo, ou os perderá.”

“Isso é ótimo. Vamos para lá agora. Tenha um bom dia, senhor.”

Ao saírem da igreja, Sasha questionou-o:

“Está procurando uma criança com poderes de demônio, senhor Sísifo?”

“Não, é claro que não! Acontece que as pessoas comuns não aceitam religiões como a minha, nem aceitam a existência daquilo que é desconhecido sem achar que isso está ligado a alguma força do mal. A deusa Athena está além disso. Ela é uma pessoa que tem o poder de unir todos deste planeta. É alguém capaz de trazer uma luz para um mundo mergulhado na maldade. Ela é a nossa esperança.”

“Esperança?”

“Sim. Entenda, ela é muito boa. E é por isso que devo procurá-la… o que não é nada fácil. Apenas com leitura das estrelas e investigação convencional, fica muito difícil. Enfim, vamos dar uma olhada nos cavalos.”

“Tem bastante cavalos selvagens na região.”

“Sim, mas não tenho tempo para treinar um. Teremos de comprar um já domado, vai ajudar bastante na viagem. Você pode escolher o nome dele ou dela.”

Nikolas, o mercador, recebeu-os alegremente e conduziu-os até um pasto, onde havia quatro cavalos, dois pertencentes a ele para carregar a mercadoria e duas fêmeas à venda. Sísifo observou-os demoradamente, intrigado. Eram belos animais, muito bem cuidados… e havia algo a mais nelas. Aquela era a sensação conhecida como deja vu, como se já tivesse lidado com aquelas éguas. Mas por quê? Era a primeira vez que as via.

“O que pode me dizer sobre essas duas, senhor Nikolas?”

“Hum… Para ser sincero, não muito, porque só estão comigo há algumas horas. Mas foram muito obedientes no caminho até aqui, conhecem os comandos e com certeza foram bem treinadas. Eu não posso levar as duas comigo, por isso estou disposto a fazer um preço especial para o senhor. Gostaria de vê-las de perto?”

“Sim…”

Sísifo entrou no pasto e experimentou chamá-las. As duas vieram, trotando calmamente. A estranha sensação de já ter visto aquelas éguas continuava, deixando-o ainda mais intrigado. Ambas eram mansas, não o estranharam, e, em algum canto de sua mente, havia uma voz dizendo que uma tinha melhor temperamento, a de crina escura. Seria apenas a intuição falando? Acariciou-lhe o pescoço, e ela não demonstrou nem um pouco de medo. Talvez fosse mesmo a melhor opção para carregar Sasha em trajetos longos.

“Gostei dessa. É muito gentil. Vamos conversar sobre o preço?”

O mercador não mentia quanto a dar um desconto por causa da viagem, ainda que não fosse um preço tão abaixo da média. Sísifo cogitava pechinchar, quando viram um rapaz correndo e gritando:

“Fujam! Fujam, são monstros! Monstros surgiram do chão!”

“Monstros?”, repetiu Sasha, levando as mãos à boca.

“Vamos dar uma olhada no que está acontecendo. Ei, Nikolas, guarde essa fêmea de crina preta pra mim!”

“Ela já é sua, senhor!”

Era um ataque muito aleatório para ser real. Qual seria o motivo? E por que numa cidade tão minúscula? Provavelmente eram só pessoas querendo pregar uma peça. Por isso, Sísifo não se preocupou muito em deixar Sasha longe. Além disso, ela ainda estaria mais segura perto dele.

Contudo, quando viu homens feitos de pedras, movidos a cosmos, andando pelas estradas e destruindo tudo em volta, segurou a mão de Sasha com força.

“Tem algo de muito errado aqui. Estou sentindo um cosmos maligno vindo dessas criaturas… Mas por que aqui e agora? O que o exército de Hades deseja? Desejam me impedir de encontrar Athena?”

“Senhor Sísifo… aqueles homens… são homens?”

“Não sei… o corpo inteiro deles parece ser feito de pedra. Fique perto de mim. E… não se assuste com o que farei.”

Sísifo até considerou deixar Sasha com o mercador, mas temeu que houvesse mais daquelas criaturas fora de sua visão. Assim, preferiu manter a garota junto dele e lutar enquanto a protegia. Não sentia, afinal, grandes cosmos vindos daqueles seres. Para garantir a segurança dela, depositou a armadura de Sagitário no chão e abriu o cofre. Cada parte da vestimenta dourada encontrou seu caminho até seu corpo, vindo a protegê-lo por completo. As asas eram excelentes adendos, não só para voar, mas também para proteger qualquer pessoa que estivesse perto dele.

Tirou o arco e lançou um ataque de aviso, que acertou o chão, perto dos pés da criatura mais próxima.

“Como cavaleiro de Athena, eu demando que cessem os ataques e se identifiquem. Quem são vocês?”

Contudo, seu ataque não amedrontou os bizarros seres. Uma das maiores dificuldades no início de uma luta era a falta de informações sobre os inimigos. Não tão fácil adivinharia se formas humanóides como aquelas eram vivas ou não, o que alteraria completamente sua maneira de lutar. Por cautela, ele sempre partia do princípio que tinham consciência, mesmo que não pudessem falar. Por isso, jamais usaria o arco diretamente contra eles, sendo considerado covardia. Guardou a arma e preparou o punho.

“Se continuarem, terei de atacá-los. Este é o último aviso.”

Outra vez, de nada adiantou o diálogo. Restou-lhe a força, infelizmente. Ainda com a possibilidade de que aqueles fossem humanos controlados por alguém, Sísifo atacou, mas não com muita força. Aquela quantidade de cosmos era superior ao que envolvia as criaturas de pedra e devia ser o suficiente para derrotá-las.

Seu golpe atingiu em cheio o mais próximo e atravessou-lhe o peito. Rochas espalharam-se no chão, como se tivesse atingido um muro. Era completamente feito de pedras.

“Não são pessoas…”, comentou Sasha.

“Isso facilita as coisas para mim”, respondeu ele, voltando a pegar o arco. “É mais fácil acabar com eles à distância.”

Uma única flecha de luz foi lançada, vindo a multiplicar-se até alcançar o mesmo número de humanóides. Cada uma delas trespassou os peitos de pedras, destruindo-os com relativa facilidade. Voltou-se ao rapaz que viera avisá-los e perguntou:

“Há mais desses andando por aí? Leve-me até eles e acabarei com todos.”

“...Sim… Mas e ela? São muitos, vai ser perigoso para uma criança.”

“É pior ela ficar sozinha sem minha proteção.”

“Está tudo bem”, assegurou Sasha. “Eu não estou com medo. Deveria estar, mas não estou. Vamos lá, senhor Sísifo.”

“Sim. Não sei de onde essas criaturas estão vindo, mas o primeiro passo é detê-las.”

Aquela menina era mais corajosa do que imaginava. Qualquer criança ficaria tão chocada com aquelas criaturas que choraria e pediria para ir embora, mas Sasha demonstrava total calma ao seu lado. Parecia estar mais preocupada com a segurança das outras pessoas do que de si. Saía-se muito bem na viagem, para uma menina tão nova.

Sísifo seguiu o rapaz até uma área com várias daquelas criaturas, atacando pessoas e destruindo casas. Havia também um maior, com cerca de três metros de altura, arrebentando paredes inteiras com apenas um soco. Seu cosmos também era bem elevado, ainda que não fosse páreo para um cavaleiro de ouro. Sísifo concentrou-se primeiro nos fracos, lançando flechas de luz para derrotá-los, com o cuidado de não machucar ninguém. Preferiu até destruir o braço de um antes, pois estava próximo demais de uma criança. Ele então correu até ela e tirou-a do perigo. Sasha acompanhou-o o tempo todo, esforçando-se para correr na sua velocidade.

“Eu fico com ela enquanto você luta com esse maior”, ofereceu-se o rapaz.

“Não será preciso”, respondeu Sísifo, queimando o cosmos. “Este é o último deles, correto?”

“...Sim, é…”

“Muito bem, vamos acabar com isso. Chiron’s Light Impulse!”

A onda de energia, aliada ao vento, atingiu o corpo do gigante de pedra em partes diferentes, causando sua destruição. Além do golpe, ele ainda lançou mais flechas de luz, a fim de exterminar por completo as rochas daquela criatura, por ainda sentir poder emanando delas. Em seguida, aguardou um pouco até certificar-se de que todo o cosmos maligno tinha abandonado os fragmentos. Teria sido um bom desafio para um cavaleiro de bronze ou até de prata, mas ainda não chegava aos pés de um de ouro.

“Isso não acabou ainda”, comentou. “Preciso descobrir o autor desses ataques. Todos vieram daquela direção, certo? Então é para lá que iremos. Sasha… Vamos.”

Por um momento, passou-lhe na mente deixar a criança com aquele rapaz para investigar a origem dos homens de pedra. Contudo, logo desistiu da ideia. Sísifo prezava a sua intuição, e ela dizia para não soltar a mão da criança. Como Sasha não parecia estar com medo, resolveu levá-la.

“Isto pode ser perigoso. Está pronta pra ir?”

“Sim”, respondeu Sasha, com firmeza. “É seu trabalho, não é? Lutar pela paz e a harmonia na Terra… Nós combinamos que você faria o seu trabalho enquanto cuidasse de mim. Além disso, essas pessoas precisam de você.”

“É, é exatamente isso. Obrigado por entender. Vamos.”

Caminharam adiante, a despeito dos pedidos do rapaz para que voltasse. Sísifo esperava encontrar um grandioso inimigo à frente, mas só viu buracos na terra, com vestígios de cosmos. Examinou o lugar, procurou por quaisquer sinais de vida ali. Nada. Quem quer que tivesse causado aquele ataque não estava mais lá para enfrentá-lo.

“Estratégia de covarde. Ataca pessoas, mas não fica para assumir a responsabilidade.”

“Ele pode estar escondido, não?”, sugeriu Sasha.

“Exatamente. E por isso mesmo será difícil encontrá-lo por enquanto… Terá sido um ataque de Hades…? Rezo para que não seja…”

“E agora, senhor Sísifo?”

“Agora… Eu vou te ensinar a andar a cavalo, enquanto esperamos um pouco para garantirmos que esse inimigo não volte a aparecer. Depois, enviarei uma carta ao Santuário pedindo que investiguem este local. É isso. Fique tranquila. Estou preparado para desvios deste tipo.”

“É sempre assim? Inimigos aparecem… e você luta. Mas e se for alguém mais forte que você?”

“Bem… Então eu preciso me esforçar para ser mais forte… e mais inteligente que ele… e sobreviver.”

“Mesmo sabendo que pode morrer?”

“Principalmente sabendo que posso morrer. Essa é a forma de viver que escolhi. Mas você… Você provavelmente terá um futuro duradouro, junto de uma família, de pessoas que a apoiarão, não? É por isso que vou te ajudar a chegar em casa. Vamos andando. De nada adiantará ficarmos parados por aqui.”

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Havia um pequeno sinal de alerta em sua mente. Considerando que acabara de enfrentar inimigos, aquela missão deixava de ser uma de baixo risco, o que significava que levar uma criança consigo transformara-se numa ideia nem um pouco razoável para um guerreiro experiente como ele. Contudo, seu instinto brecava-o… Era como se uma voz gritasse em sua mente sempre que pensava em separar-se dela. Mas por quê? Era uma menina doce, com um grande coração, mas Sísifo encontrara muitas boas pessoas em vida. Sentiu uma leve dor de cabeça e deixou o pensamento de lado. Precisava voltar agora.

Nikolas preparava seus pertences para viagem quando retornaram. A visão dos homens de pedra com certeza levaram-no a adiantar sua partida. Sísifo pagou pela égua, e a outra foi atrelada à carroça. Uma pena não poder comprar duas, até porque a outra também se comportava muito bem. Entretanto, só precisava de uma para carregar aquela criança. Vários moradores locais vieram ver os estragos, mas ele não estava interessado em conversar com todos, pois não tinha explicações plausíveis para o que acabara de acontecer. Em vez disso, dirigiu-se à estalagem e alugou um quarto e uma baia para a égua, a fim de se isolarem um pouco. Precisava de paz para pensar sobre todo o ocorrido.

Ainda planejava partir no dia seguinte. Não queria perder tempo ali, quando tinha de encontrar Athena o mais rápido possível e devolver Sasha ao seu lar. Por isso, só alugou o quarto para uma noite. Como havia apenas uma cama, estendeu no chão um cobertor que sempre usava durante acampamentos, enquanto Sasha ficou com o conforto do colchão.

“Tivemos um dia difícil, não é, Sasha? Muita coisa aconteceu hoje. Tente dormir um pouco, sim? Amanhã partiremos desta cidade.”

A menina, em resposta, abraçou os joelhos, parecendo agoniada.

“Aqueles homens de pedra… e se algo pior acontecer?”

“Não se preocupe. Você está sob a minha proteção.”

“É você que me preocupa. E se machucar numa próxima vez? E se eu atrapalhar…?”

“Garanto que não vão me derrotar sem uma boa luta, porque, desde garoto, sou treinado para a guerra. Portanto, fique calma. Já pensou num nome para a égua?”

Era melhor mudar de assunto do que fazê-la pensar na posição perigosa em que cavaleiros viviam.

“Como era mesmo o nome da deusa do amor?”

“Afrodite… Também conhecida como Vênus, na mitologia romana.”

“Vênus… Pode ser Vênus?”

“É um ótimo nome. Ela também era conhecida como a deusa da beleza. Combina com uma égua tão bonita.”

“E também é cheia de amor!”

“É verdade”, concordou Sísifo, sorrindo. “Ela e a outra são um caso curioso… Não sentiram nenhum medo de nós. Bem, isso só significa que foram bem tratadas até agora. Vamos fortalecer essa confiança em nós amanhã. Agora precisamos descansar.”

“Está bem, senhor Sísifo. Boa noite.”

“Boa noite, Sasha.”

Ficaram em silêncio. Havia algo a mais de curioso na mente de Sísifo. Normalmente ele não se esforçaria tanto para ajudar uma criança dentre tantas outras. Ainda não entendia por que não confiara a segurança de Sasha às sacerdotisas, com as quais ficaria segura. Agora que ele estava sendo atacado por forças malignas, prudente seria separar-se da criança. Contudo…

Algo o segurava, muito forte. Olhou para Sasha, enroladinha sob o cobertor. Que criança diferente… Não teve medo quando mostrou seus poderes, como se confiasse plenamente nele. Seria por aquela confiança que não tinha coragem de separar-se dela? Talvez tivesse medo de que ela não acreditasse mais nele caso a deixasse sozinha por um instante… Talvez fosse o sorriso triste dela, que tanto o afetava…

Havia muitas crianças perdidas naquele mundo, abandonadas pelos pais e sofrendo dentre adultos cruéis. Mesmo que quisesse, não podia ajudar todas, pois precisava concentrar-se em seus esforços como cavaleiro de Athena. Sabia disso, mas Sasha o fizera ignorar tudo aquilo e segurar a sua mão. Não entendia o que era aquela disposição, tão misteriosa quanto a dor de cabeça persistente, desde que saíra do templo de Mnemosine. Havia algo muito errado… mas não conseguia identificar.

Vênus encostou a cabeça carinhosamente no ombro de Sísifo, como se já o conhecesse. Devolvendo o afeto, ele manteve a égua calma, enquanto ensinava Sasha a montar. Dessa forma, ela não se cansaria tanto ao longo da viagem. Além disso, quando encontrasse o tal orfanato, deixaria o animal ali para servir como força de trabalho. Esperava que essa ajuda já fosse o suficiente para deixar sua consciência tranquila.

Como não houve novos ataques, decidiu rumar para outra cidade. Lá havia uma igreja maior, onde talvez conseguisse informações concretas sobre o orfanato de Sasha. Sem querer, sua missão tinha se voltado muito mais à criança do que ao Santuário, provavelmente por preocupação com a situação atual: não queria que ela visse ataques como o do dia anterior. Mesmo que a menina não tivesse mostrado nervosismo, não era bom expor alguém tão jovem àquelas monstruosidades.

No meio da viagem, Sasha segurou a cabeça, também parecendo estar com dor. Sísifo parou, preocupado. O dia estava quente, o que podia causar uma insolação na pobre criança.

“Sasha? Está passando bem?”

“Não sei… Desde que saí do templo… sinto uma dor de cabeça às vezes.”

“Isso não é bom… Vamos parar e descansar na sombra, sim?”

“Colunas…”

“Colunas?”

“Pilares estranhos… Como aquelas ruínas bem antigas… De repente pensei num cenário assim. Não sei se é uma lembrança voltando.”

“Hum… Vamos para a sombra e você me conta sobre eles com calma.”

Foram para debaixo de uma árvore, e Sísifo serviu água para a criança, além de um pequeno lanche feito pela dona da estalagem. Sentou-se ao seu lado e tratou de investigar aquela lembrança.

“Como eram as colunas que lembrou? A cor, os detalhes…”

“Eram cinzas, de pedra, mas muito claras… e eram listradas.”

“Listradas? Por acaso não seriam…”

Ele sempre carregava um caderno consigo para fazer anotações sobre os deuses Hipnos e Thanatos, inclusive esboços dos templos. Mostrou à criança um desenho de um templo de Hades, apontando para as colunas gregas.

“Eram assim?”

“Sim! Exatamente assim! Lembro de muitas delas juntas.”

“Hum… Então podemos procurar lugares que possuem ruínas de templos greco-romanos. Essa pode ser uma dica importante.”

“Acha que posso voltar para casa assim?”

“Uma hora irá, com certeza. Vamos ver se não vai se lembrar de mais detalhes. A cidade para onde estamos indo também pode ter informações… mas não devemos nos afobar. Não quero que acabe com insolação, afinal. Hoje está bem quente.”

“Verdade. Em dias assim, eu costumava ir ao rio com Tenma e o meu irmão para pescar e nadar.”

“Ah, então parte de sua memória voltou. Lembra o nome do rio?”

“Nós só chamávamos de rio do vale… Não é uma boa dica, né?”

“Não… Conte mais sobre sua vida com eles.”

“Não era uma vida fácil… As pessoas da cidade nos desprezavam só porque éramos órfãos e pobres. Tenma sempre nos defendia. A gente fazia tudo junto. Era uma bagunça de noite, mas muito divertido. Nunca me sentia sozinha, mesmo sem ter uma família.”

“Mas eles eram sua família, certo?”

“É verdade! Sim, éramos uma família. Sinto falta deles.”

“Vamos encontrá-los.”

“Obrigada, senhor Sísifo! Antes, no tempo de Mnemosine, me sentia sozinha. Agora não me sinto assim.”

“Que bom. Não sei se poderei acompanhá-la até seu orfanato, mas farei tudo o que puder para ajudá-la.”

“Obrigada... O senhor tem sido tão bom.”

“Não posso deixá-la desamparada, posso?”

A vida devia ser bem dura para crianças como Sasha, mas a felicidade dela ao estar com sua família mostrava-se genuína. Melhor era uma vida difícil com pessoas especiais do que com conforto e sem ninguém para amar. Pensando assim, Sísifo ficou ainda mais inclinado a acompanhar aquela criança até encontrar o tal orfanato. Depois pediria desculpas ao Grande Mestre por ter se desviado de sua missão de procurar a deusa Athena.

Feita a breve pausa, ele usou o próprio casaco para improvisar uma sombra para a criança e continuou a conduzir Vênus ao longo da estrada. Passaram por vastos campos até encontrarem a próxima cidade, que tinha uma população maior e uma igreja no centro, com o dobro do tamanho da anterior. Foram direto a ela, a fim de perguntar sobre o orfanato.

Quando estavam se aproximando, depararam-se com um homem loiro, com vestes de padre, que se aproximou deles logo ao notá-los.

“Ora, mas estávamos procurando por você, criança!”

“É?”, perguntou a menina, surpresa.

“Sim, ficamos muito preocupados com você. Alone, seu irmão, sente muito a sua falta.”

“Conhece o meu irmão?”

“É claro. Eu a procurei por várias cidades porque ele foi tomado por uma tristeza enorme quando você sumiu. Ainda bem que a encontrei. Seu nome é Sasha, não é?”

“Sim!”

“Que bom… Finalmente a encontramos.”

Então aquele era o final do desvio de sua missão? Sísifo aproximou-se do padre.

“Sabe me dizer o que houve com ela? Eu a encontrei no templo de Mnemosine… Ela tinha perdido a memória sobre como havia parado ali.”

“Foi por causa de uma briga no orfanato, pelo que me disseram. Ela fugiu de lá. Todos ficaram muito preocupados. Vamos, eu vou levá-la em segurança.”

O padre gentilmente ofereceu a mão para ajudar Sasha a descer da égua, quando Sísifo se colocou entre os dois. Não sabia muito bem por que fizera aquilo. Aquele homem parecia falar a verdade e, no entanto, algo lhe dizia para não se separar da criança.

“Mostre o caminho, por favor. Eu quero me certificar de devolvê-la ao orfanato.”

“Está desconfiando de mim?”

“Eu só quero ter certeza de que ela ficará bem. Viemos muito longe para nos separarmos agora.”

“Mas será uma viagem ainda mais longa… mais de uma semana. Não se preocupe, eu vou levar a criança em segurança para casa.”

“Não tem problema. Vou acompanhá-los.”

“...Muito bem… Vamos indo.”

Em guarda, Sísifo esperou o padre afastar-se de Sasha para reassumir as rédeas de Vênus. A garota, sem querer atrapalhá-lo, disse:

“Não se preocupe comigo, Sísifo. Ele sabe o nome do meu irmão. Não quero que se afaste de sua missão por minha causa…”

Embora afirmasse aquilo, era visível a tristeza estampada naquela carinha. Ele não queria despedir-se dela com aquela expressão. Sorriu-lhe.

“Será um serviço a mais de um cavaleiro de Athena. Decidi escoltá-la até seu orfanato, sim? Quero verificar se ficará bem… Além disso, estou investigando templos antigos. Se, nas suas lembranças, há colunas como as que descreveu, então tenho certeza de que a viagem será útil para mim também. Não se preocupe, Sasha.”

“Obrigada…”, sorriu ela, parecendo aliviada. A pequena tinha medo de se separar dele também e não o escondia. Sísifo tratou de tranquilizá-la.

“Não vou deixá-la até que esteja em segurança, eu prometo.”

Era uma promessa que não devia ter feito, ao mesmo tempo em que não estava disposto a deixar Sasha ir daquele jeito. O que estava acontecendo? Voltou a sentir dor de cabeça e lembrou-se da mesa de seu próprio templo, em Sagitário. Havia uma xícara de chá, que ele oferecia para alguém… Para quem? Sacudiu um pouco a cabeça, como se pudesse espantar a dor, e continuou andando, sem deixar de proteger a doce criança.

Atravessaram a cidade quase sem parar. Quando passaram pela rua mais comercial, onde havia uma pequena feira, Sísifo pediu para que fizessem um intervalo. Queria comprar mantimentos para a viagem, além de um chapéu para Sasha, a fim de protegê-la do sol. A menina precisou descer da égua para experimentar cada modelo. O padre, com um sorriso amargo, esperou.

“Este é perfeito”, anunciou a criança, com um chapéu simples, sem enfeites.

“Tem certeza de que é esse que quer?”, certificou-se Sísifo.

“Sim, senhor Sísifo. Eu prefiro assim.”

“Muito bem… Vou levar este chapéu… Ah, e isto também.”

Pagou as compras e depositou uma pequena boneca de pano nas mãos de Sasha. Não era nada especial; apenas o único brinquedo disponível naquela feira: era feita com tecidos simples, botões no lugar de olhos e lãs simulando cabelos. Diante de seu rosto surpreso, justificou:

“Toda criança deve ter um brinquedo por perto. Ou pelo menos eu acho. É um presente meu.”

Ela abriu um largo sorriso, sem qualquer resquício de sua tristeza típica.

“Obrigada, senhor Sísifo!”

Assim era bem melhor. Crianças deviam ser crianças, com aquele sorriso puro cheio de brilho. Era isso que Sísifo mais admirava nos pequenos que passavam correndo por ele durante as viagens. Aquela menina, Sasha, parecia carregar um peso tão grande que não sorria como os demais. Que bom ver um pouco da inocência infantil voltar para ela.

“Não precisa agradecer, pequena. Vamos indo.”

Continuaram caminhando, saindo da cidade. De novo estavam atravessando vastos campos. Sísifo voltou a atenção para o padre, que ia à frente, em silêncio.

“Poderia nos dizer o seu nome, senhor?”

“Narcisus. Sou o padre responsável pela igreja que cuida do orfanato dela. E o senhor… Qual é sua relação com ela?”

“Só a estou acompanhando. Nós nos encontramos no templo de Mnemosine. Como ela estava perdida, resolvi ajudar.”

“Indo tão longe?”

“Há pessoas como eu no mundo ainda.”

“Eu suponho que sim. Precisamos ir ao norte. Será uma viagem cansativa.”

“Não ligo para isso.”

“O senhor viaja muito?”

“Bastante, a trabalho. Onde fica a cidade do orfanato dela? Sei que há ruínas por lá, acredito que romanas… Poderia me dizer onde é?”

“O senhor ficará surpreso quando vir. Apenas me siga.”

O que havia de tão misterioso na tal cidade? Sísifo não entendia o motivo de o padre querer ocultar informações, mas não pensou muito a respeito. O maior mistério que rondava a sua mente era por que ele estava fazendo tanto por aquela criança? O que a tornava tão diferente das outras? Ainda não conseguia compreender o aperto no peito ao pensar que, cedo ou tarde, teria de separar-se dela.

“Senhor Sísifo”, chamou Sasha, após alguns minutos de silêncio entre os três.

“Sim, Sasha?”

“Por favor, poderia parar…?”

Sem pensar, ele deteve Vênus e fitou a criança, preocupado.

“O que foi? Está se sentindo bem? Quer descansar?”

“Desculpe, não posso voltar! Adeus!”

Foi quando ela, o mais rápido que pôde, desmontou da égua, quase caindo, e saiu em disparada. Sua fuga foi tão repentina que, sem reação, ele apenas a observou por alguns segundos.

O foi aquele surto? Um desespero sem igual tomou conta de Sísifo, sem que esse soubesse o motivo. Apenas correu atrás de Sasha a fim de não deixá-la sozinha.

“Espere, Sasha!”

O que dera na criança? Sem querer ser bruto ao recuperá-la, apenas a seguiu. Sasha correu sem descanso de volta para a cidade, pulou um muro e escondeu-se atrás dele, com expressão de pavor, enquanto agarrava com força a boneca de pano. Ao alcançá-la, o cavaleiro aproximou-se com cuidado.

“Sasha…? O que houve?”

“Eu… não posso… Não posso voltar.”

“Ao orfanato?”

“Sim… Não sei… Não sei por quê… Se eu voltar, eles… eles…”

Lágrimas brotaram abundantes dos olhinhos dela, que tentou enxugá-los em vão, sucessivamente. Vê-la triste daquela forma afetou-o mais do que imaginava: sentia-se igualmente mal por ela, sem nem saber o motivo. Ajoelhou-se na sua frente para conversar à mesma altura:

“Lembrou-se de algo?”

“Eu não sei… Só sei que não posso voltar… Eu quero voltar… Mas não posso! Eu não posso… Me desculpe. Eu sei que veio até aqui pra me levar de volta… Desculpe, senhor Sísifo…”

“Não se preocupe comigo. Se você não pode voltar, o que pretende fazer?”

Ela negou com a cabeça, soluçando.

“Não sei…”

A dor de cabeça intensificou-se em Sísifo. Novamente pensou na xícara de seu templo. Por que, afinal, estava obcecado com aquela imagem? Esperou alguns segundos até a dor diminuir e voltou a prestar atenção na pequena Sasha. Sentia-se tão mal por ela. Perguntou-se se Aldebaran ficava igual quando encontrava uma criança órfã, pois não tinha coragem de separar-se mais dela e nem pensava em confiá-la ao amigo: queria assumir toda a responsabilidade.

Decidiu. Sorriu e apoiou a mão sobre a cabeça de sua protegida.

“Não sei qual é o motivo… Mas respeito sua decisão. Está tudo bem. Você pode vir comigo. Prometo que vou cuidar de você até que cresça e possa viver com suas próprias forças.”

Sasha ergueu o olhar para ele, que a puxou para o peito e a abraçou afetuosamente.

“Não vou deixar que se sinta sozinha, Sasha.”

Muitas coisas não se encaixavam no quebra-cabeça em sua mente, mas de uma coisa Sísifo tinha certeza: aquela era uma criança que ele precisava acolher e proteger. Desde o início, seu sentimento de não abandoná-la foi tão forte que acabou se desviando da missão de encontrar Athena. Um desejo tão intenso quanto aquele não podia ser ignorado.

Aos poucos, o choro dela acalmou-se. Sísifo pensava numa explicação para o padre, quando foi interrompido por um súbito cosmos, que explodiu bem ao lado deles. Um espectro saltou de trás de uma casa e tentou atacá-lo. No último instante, o cavaleiro desviou-se num pulo, com Sasha bem firme nos braços.

“Um espectro de Hades. Droga… Sagitário!”

A armadura obedeceu ao seu chamado e cobriu-o por inteiro, peça a peça. Assim que a vestiu, novamente a dor de cabeça atingiu-o. Ao mesmo tempo, Sasha também segurou a dela, gemendo.

“Sasha!”

“Ah… Minha cabeça…!”

Outra vez a xícara voltou à mente. Sísifo já estava próximo de odiar aquele objeto, de tão recorrente em seus pensamentos. Desviou-se de mais um ataque e contra-atacou com um golpe de cosmos, apenas para conseguir espaço e tempo. Uma lembrança ressoou com a intensa dor de cabeça: ‘Sísifo, eu não quero ver outro pesadelo’.

A voz era idêntica à da Sasha. Por quê? Eles só se conheciam há dois dias! E ela não usava nenhuma linguagem de respeito por ele ser mais velho… Isso significava que ela o via como inferior nessa lembrança…? Era como se ela… como se ela…!

“Athena!”, gritou, queimando o cosmos ao máximo. Colocou-se diante dela, servindo-lhe de escudo para o inimigo. Uma nova determinação tomou-lhe a alma, com o desejo ardente de proteger Sasha, independente do poder de quem o enfrentasse. Afinal, aquela criança junto dele era ninguém menos que sua própria deusa.

“Senhor Sísifo…?”

“Athena-sama. Acabo de recuperar a minha memória. Lembre-se também! A senhorita é Athena, a deusa da guerra! Os pilares de que fala são do Santuário, e eu… eu jurei protegê-la com todas as minhas forças. Espectro! Se não quiser morrer, afaste-se! Para defender Athena, sou capaz de qualquer coisa!”

“Heh, se eu morrer, que diferença fará? Hipnos-sama ficará contente se você morrer!”

Sísifo não pensou duas vezes ao ser atacado. Estando com a deusa ao seu lado, lançou seu melhor ataque, Chiron’s Light Impulse, derrotando-o facilmente. Contudo, não pôde relaxar. Outro cosmos aproximou-se, ainda mais poderoso. A figura que surgiu para ele foi uma surpresa: aquele padre, coberto de poder, apresentava-se como parte do séquito de Hades.

“Você… é Hipnos”, concluiu Sísifo.

“Heh… Você estudou mesmo a gente. No entanto... o mais surpreendente não é isso, Sagitário. Desde que saíram do templo de Mnemosine, venho buscando a chance para que se descuidasse da segurança dela… Mas em momento nenhum você baixou a guarda, mesmo sem saber que ela é Athena.”

“Você e as sacerdotisas armaram contra nós.”

“Elas só precisaram ser convencidas. Esperava que você mansamente entregasse a menina para nós, mas… eu subestimei o laço que os unia. Que sem graça.”

Outro cosmos surgiu no meio do embate. Sasha, gritando com a dor de cabeça, invocou o cosmos e seu báculo dourado. Ainda atordoada, disse:

“Eu… eu me lembrei. Eu sou… Eu sou Athena… Estávamos no templo de Mnemosine…”

“Athena-sama…”

“Sísifo… E ele é Hipnos…”

“Vejo que os dois recuperaram a memória. Tsc. Pensei que o efeito duraria mais”, queixou-se o deus.

Sasha, com uma nova determinação, queimou o cosmos e apontou o báculo para o inimigo:

“Hipnos! Não vou deixar que faça mal a Sísifo! Eu vou lutar também!”

“Lutar…? Não acha que é muito criança para sair falando essas ameaças aos adultos, menininha?”, retorquiu o deus, calmo e com um sorriso zombeteiro. “Não se preocupe. Pode acalmar esse pequeno coração. Não teremos mais uma luta hoje. Meu plano brilhante foi por água abaixo e estou de mau humor. Vocês tiraram toda a graça da vitória. Eu vou me retirar por hoje em paz. Isso é o melhor para vocês também, não concorda, Sagitário?”

Sísifo, sem deixar de transmitir a hostilidade pelo olhar, em silêncio, não o provocou para a luta, já que não tinha condições de enfrentá-lo sozinho, expondo Sasha ao perigo. Hipnos, como se lesse sua mente, alargou o sorriso.

“É uma sábia decisão. Muito bem, estou indo. Deixemos a luta para nosso próximo encontro.”

Aguardaram apreensivos até que o cosmos do deus desaparecesse por completo. Aliviado, Sísifo voltou-se para Sasha:

“Athena-sama, como se sente? Ainda está com muita dor de cabeça?”

“Não… Agora que lembrei de tudo, só sinto a mente pesada…”

“Eu também sinto o mesmo. Por hora, devemos nos concentrar em retornar ao Santuário o quanto antes. Deixarei Vênus, quero dizer, Hana, na estalagem e voltarei pelo ar com a senhorita. Não podemos continuar expostos desta forma fora do Santuário.”

“Então o nome dela é Hana.”

“Embora Vênus seja mesmo um lindo nome”, comentou ele. “Bem… Vamos, não podemos perder tempo.”

Era uma pena não ter com ele Shion para transportá-los rapidamente de volta. Sísifo não gostava de voar para não chamar a atenção dos civis, mas aquele era um caso à parte. Depois de confiar a égua à estalagem, planejando também tentar recuperar a outra que ficara com Nikolas, vestiu a armadura, segurou Sasha nos braços com firmeza e lançou-se no céu a uma alta velocidade. Enrolada em seu casaco para não sentir o impacto do vento, ela observou, maravilhada, o cenário abaixo, com os campos de plantação e as pequenas vilas. Apesar de a paisagem correr a uma boa velocidade, era possível admirá-la do alto.

“Que… que lindo, Sísifo!”

“É? A paisagem?”

“Sim. É diferente de ver o Santuário do alto das Doze Casas. Você sempre vê paisagens assim?”

“Evito voar muito, Athena-sama, mas estou contente que goste. Isso vai ajudá-la a distrair-se um pouco dos pesadelos. Depois dessa, provavelmente não poderemos confiar nas sacerdotisas de Mnemosine, mesmo que elas tenham sido forçadas a colaborar com Hipnos. Terá de recuperar as memórias da vida passada de forma lenta.”

“...Mas… sabe de uma coisa, Sísifo?”

“Sim?”

“Sinto como se me livrasse de um peso. Eu tinha medo de mudar depois de recuperar as memórias de minha vida passada. Tinha medo de como eu pensaria depois… Mas agora não sinto mais medo. Depois que perdi a memória e voltei a ser apenas a Sasha… entendi. Mesmo que eu perca a memória, mesmo você perca a sua também… nada vai mudar, não é?”

“É?”

“Nossos laços e desejos… vão muito além das memórias.”

E, segurando a boneca com força, riu:

“Hoje foi um bom dia.”

Para Sísifo, ver sua deusa exposta ao perigo, diante de um inimigo tão poderoso quanto Hipnos, era um pesadelo. Contudo, o sorriso dela com certeza servia de consolo para toda a situação. Sorriu de volta.

“Foi? Então… eu não poderia desejar nada além disso.”

Afinal, ela estava segura em seus braços. Ficara segura o tempo todo, mesmo que ele não se lembrasse dela. Isso o enchia de confiança: jamais deixaria de proteger aquela criança que tanto amava.

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FIM

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