Muito Mais Do Que Os Olhos Podem Ver
2 Where Are We Going?
Notas iniciais
POV Austin
– Eu entrei! — Trish foi a primeira a gritar — Consegui! Administração na NYU! “É com prazer que anunciamos que a senhorita Patricia de la Rosa foi aceita em nossa universidade”!
– Ai meu Deus! — exclamou Dez
– O que foi?
– Columbia… Cinema… Faculdade… Respeito… Prazer… Aceito! — gaguejou ele erguendo a carta — Eu entrei!
Trish, Dez e eu nos abraçamos.
Ally foi a única que não se pronunciou. Ela tinha duas cartas semi-abertas em suas mãos, e logo tirou os papéis das duas. Leu cuidadosamente a primeira, e em seguida a outra. Ela não se moveu desde então. Pôs os papéis na mesa e os encarou por mais alguns segundos. Seus olhos estavam arregalados. Ela pôs as mãos no rosto. Tudo sem dizer uma única palavra.
Trish a olhou com cuidado e logo disse:
– Para de fazer mistério! — exclamou ela — Diz logo que você entrou!
Ally se levantou, e nesse momento eu tive certeza que havia algo de errado. Ela passou atrás da cadeira, apoiou as mãos e abaixou a cabeça, fazendo com que seu cabelo tapasse seu rosto. Eu peguei os papéis no mesmo instante e li em voz baixa.
– “Prezada Allycia Dawson, nós da Universidade Yale nos sentimos gratos por ser uma de suas escolhas para formar o seu destino. Mas contudo devemos-lhe informar que não poderemos aceitá-la este ano em nossa universidade…” — li a outra — “Prezada Allycia Hellen, nos sentimos no dever de informá-lá que a senhora não será aceita em nossa... Universidade..."
– E então?! — disse Trish curiosa.
– Ela não entrou...
Todos olhamos para Ally, ela continuava de cabeça baixa. Alguns segundos depois ela olhou para cima, seus olhos estavam marejados de lágrimas.
– Ally... Não liga pra isso... Vão ter outras oportunidades... — disse Dez.
– Não, não vão... — murmurou Ally.
Ela olhou novamente para baixo, e em seguida empurrou a cadeira, fazendo com que ela batesse na ponta da mesa.
– Merda! — disse ela alto e saindo em seguida.
Ally sumiu pelo corredor antes que pudéssemos fazer qualquer coisa. Apenas olhei para Dez e Trish.
– Vou falar com ela. — falei me levantando — Parabéns, aliás.
Sai correndo até a Sonic Boom, que é um dos lugares em que ela vai quando não está bem. Encontrei ela apoiada no balcão da loja, ela estava de costas para mim. Entrei silenciosamente e a abracei por trás, beijei seu pescoço e disse:
– Ta tudo bem...
– Eu tinha tanta certeza... — disse ela em voz baixa — Eu tinha certeza que ia entrar. Eu estudei todos os dias o dia todo, me afastei de vocês, e não entrei...
– Hey... Não precisa ficar assim, sabemos que você fez o seu máximo, estamos orgulhosos de você mesmo assim. Eles é que estão perdendo com isso.
– Eu não planejei nada além disso. Eu ia entrar na faculdade, fazer pesquisas independentes, ser oradora da turma, me formar...
– Mas qual é a graça de ter tudo planejado?
– Você não entende, Austin. Já tem seu futuro pronto.
– Eu entendo sim! Antes de me formar eu passei semanas tentando fazer um plano se minha carreira acabasse. Mas então eu percebi que, a vida não pode ser planejada. Não tem graça se não ter surpresas.
Ela se virou para mim, como se dissesse "Continua", e assim fiz.
– Esse é o momento para cometermos erros. Pegar o trem errado e se perder no caminho... Ainda somos jovens, não precisamos ter nossa vida inteira escrita. Nossa... Nossa obrigação por enquanto é viver. Viver, mas não dormir para o futuro, por que um dia ele bate na nossa porta e estaremos prontos...
– Falando assim até parece um livro de auto ajuda. — disse ela rindo.
– Viu, você já está rindo. É um passo a frente. Ally, eu estou bem aqui. Não importa para onde você for, eu serei seu porto seguro.
Ela me abraçou com força, eu correspondi. Sua cabeça estava em meu peito, e suas mãos em volta de minha cintura. Mesmo eu sendo muito mais alto que ela, nos encaixamos perfeitamente quando nos abraçamos. Ela se acomodou em meus braços e disse em voz baixa:
– Ás vezes ser baixinha tem suas vantagens. — disse ela me olhando.
– Tipo fugir antes que os pingos de chuva te atinjam? — falei rindo baixinho
– Não, bobo. Quando eu abraço você, posso ouvir o seu coração batendo.
Eu sorri, ela abaixou a cabeça e disse novamente.
– Não acredito que não entrei…
Eu a abracei com mais força e então olhei para cima. A sala dela. Peguei sua mão e a puxei pelas escadas. Abri a porta da sala e entrei.
– Você lembra da primeira vez em que nos vimos? — perguntei olhando para ela, Ally assentiu como resposta — Eu estava tocando bateria com corn-dogs e você me mostrou a placa de “proibido tocar a bateria”, depois eu toquei os dois trompetes e o Dez tentou tocar gaita com uma tuba.
Ela riu.
– É… E a gaita foi parar na garganta daquela senhora.
– Exato. E sem aquela senhora, eu não teria aparecido aqui enquanto você tocava Double Take. E eu não teria roubado a sua música, e consequentemente não seríamos parceiros, nem amigos… Sem aquela senhora nossa história não teria existido.
– Por que está me falando isso?
– Porque tudo acontece por um propósito.
– É verdade, né? Eu posso não ter entrado na faculdade, mas eu já tinha uma “carreira”. Eu era feliz, eu gostava do que fazia…
– Vai continuar?
– Vou pensar mais um pouco. Afinal, eu não entrei na faculdade, mas só notei agora que ficar chorando pelos cantos não vai mudar isso.
– Quer voltar para casa? Ou…
– Sim. Vou pra casa. Tenho algumas coisas para resolver. Pode ficar aqui, eu vou a pé.
– Certeza?
– Sim.
– Qualquer coisa me ligue.
Nos despedimos com um beijo rápido. E logo em seguida ela desceu as escadas.
Acho que esta cena acabou de representar perfeitamente o que talvez nos tornemos daqui alguns anos: cada um em seu canto, alguns minutos juntos, talvez duas horas por semana…
*Semanas depois*
Ally realmente entrou de cabeça na ideia de voltar a compor. Ela fica acordada exatas 20 horas por dia, isto pois ela adormece ao piano e eu a levo para o quarto às duas da manhã. Mas ela não compõe apenas. Nas 20 horas diárias, Ally compõe, faz o almoço, pesquisas de imóveis e conversa com Trish sobre a minha carreira. Ou seja, agora eu tenho uma mulher multi-tarefa como esposa e segunda empresária.
Neste momento, a morena está no piano. São 11h46min, e ela vai para a cozinha em exatos quatro minutos. O tempo necessário para Lester voltar do supermercado e nós dois começarmos o almoço, fazendo com que Ally descanse até 12h30.
Assim que Lester chegou, ajudei-o com as sacolas e separamos tudo para preparar o prato predileto de Ally: macarrão a carbonara. A receita era de Ellen, então resolvemos tentar. Estávamos preparando a massa quando ela entra na cozinha e diz:
– O que estão fazendo? Saiam logo daí!
– Bom dia. — falei dando um beijo em sua testa.
– Eu sempre faço o almoço.
– Não hoje, querida. — disse Lester — Hoje faremos seu prato favorito. Descanse enquanto isso.
Ela pareceu não concordar, porém agradecida. Foi para a sala e deitou-se no sofá. Servimos o almoço e em seguida, Ally voltou para o escritório. Ou melhor, tentou. Quando a morena pôs a mão na maçaneta, peguei-a no colo e a levei de volta para a sala. Pus ela no chão novamente e ela disse:
– Austin! Eu preciso fazer as músicas, e as pesquisas e…
Antes que ela continuasse com a bronca, a interrompi com um beijo breve. Ficamos em silêncio por alguns segundos, então disse:
– O que nós, ou melhor, você precisamos fazer é relaxar um pouco. Você faz tudo nessa casa, e eu só fico aqui assistindo, ensaiando… Você precisa se divertir! — falei sacudindo levemente seus ombros.
Ela sorriu, deu meia volta e subiu as escadas. Minutos depois voltou com um casaco e sua bolsa nas mãos. Do topo da escada ela me olhou e disse:
– Aonde vamos?
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