Muito Além da Intuição
11 Reencontro
Notas iniciais
― Você mudou muito, Sakura.
Sakura estava em sua primeira missão diplomática na Chuva, junto com Naruto. Mais importante que isso, ela estava cara a cara com o seu ex-namorado de quatro anos atrás. Pronta para cumprir seu trabalho e apenas isso, estendeu a mão para um aperto e respondeu com uma formalidade desconfortável:
― Olá novamente, Deidara.
Ela e Naruto realizaram suas funções diplomáticas ao longo do dia com maestria, conseguindo ter a certeza de que, a partir dali, uma relação longínqua de amizade entre as duas vilas seria mantida. Satisfeitos com o primeiro dia de viagem e fartos de um banquete realizado por Pain, se retiraram para seus quartos no hotel em que estavam hospedados.
Sakura não se surpreendeu ao ouvir as batidas na sua porta depois de um longo banho, sabendo desde o início que aquilo aconteceria. Mesmo assim, seu coração acelerou e ela demorou alguns momentos para se levantar de sua confortável cama. Respirou fundo e tentou fazer os dedos pararem de tremer, a tentativa se provando fútil. Sabendo que seu visitante não poderia esperar para sempre, se forçou a abrir a porta.
Deidara estava vestido casualmente, o casaco e o cabelo levemente molhados por algumas gotas de chuva que escaparam por dentro do guarda-chuva, aparentemente. Ele parecida despreocupado, mas Sakura sabia que ele colocava as mãos nos bolsos quando estava nervoso, como agora.
― Entre. ― Sakura gestionou para o quarto, dando passagem para o homem. Ele hesitou por meio segundo antes de passar pela porta, se sentando no sofá de dois lugares que tinha no quarto. Sakura se sentou na cama. ― Eu imaginei que você viria ― ela confessou.
― Como eu poderia não vir? Afinal… ― Ele deixou a frase morrer, mas Sakura entendeu muito bem.
Afinal, nós não nos separamos porque quisemos.
Um silêncio opressor se instalou no ambiente e Sakura se sentiu como a genin de quase uma década atrás. Mexendo os polegares com nervosismo por um minuto, finalmente percebeu que Deidara a observava com cautela.
― … o que foi?
― Nada. É que… você está diferente. Em muitos sentidos.
Inconscientemente, Sakura passou a mão pelos longos cabelos, que agora alcançavam o final de sua cintura e misteriosamente passaram a ter leves ondulações após a puberdade.
― Foi a primeira coisa que eu percebi quando te vi na guerra. ― Deidara gestionou para o cabelo, dando seu sorriso de canto habitual. ― Eu sempre soube que te deixaria ainda mais bonita.
― Obrigada. ― Ela se contagiou pelo nostálgico sorriso e o acompanhou. ― Já você não mudou praticamente nada. Mas envelhecer alguns anos te fez muito bem, você perdeu o rosto de menino.
― Quando é que eu tive rosto de garoto, hm?! Eu já tinha plenitude de masculinidade quando você me conheceu! ― O loiro protestou, mantendo o sorriso no rosto e não conseguindo suprimir a risada em sua garganta, que saiu em forma de bufado.
― Ah, Deidara, admita que a puberdade terminou uns anos mais tarde pra você!
Riram mais um bocado e, com o ambiente leve como deveria ser, passaram a comentar dos eventos do dia, das relações Konoha-Ame e da prosperidade de Ame com a mudança completa de Pain. Evitaram mencionar o passado a todos os custos, com medo de que o feitiço se quebrasse.
No entanto, Sakura precisava dormir para o próximo dia de trabalho e a conversa foi encerrada depois de meia hora. Ela levou Deidara para a porta e ele ali ficou por alguns momentos, no tão clichê momento desconsertante de despedida. Com uma mão coçando atrás da cabeça, tentando fingir sua típica autoconfiança, ele finalmente falou:
― Nós poderíamos sair para tomar uma cerveja amanhã ou coisa assim… você agora bebe álcool, não é? Bebeu vinho mais cedo.
Sakura também esperava por aquele momento, mas era muito mais difícil vivenciá-lo pessoalmente do que em sua cabeça. Os olhos jade desceram ao chão e, com relutância, respondeu.
― Escute, Deidara, eu não sei se é uma boa ideia… eu não sei se consigo…
― Você está saindo com outra pessoa?
― Não! Não é isso ― ela acidentalmente exclamou ― mas, bem, eu–
― Então é por causa daquele cara de cabelo preto? O que morreu na guerra?
Sakura assentiu com a cabeça, incapaz de falar qualquer coisa pelo peso da situação. Que cenário legal para você, Sakura, dispensando seu ex por causa do seu outro ex, ela pensou.
― Sakura, já se passaram dois anos.
― Eu sei disso, Deidara, mas não é tão simples assim.
As palavras de Sakura fizeram algo ferver dentro de Deidara. Vê-la daquela maneira o lembrou da Sakura de dezesseis anos, cega e ingenuamente defendendo o fedelho Uchiha no telhado da Akatsuki, procurando desculpas para não seguir em frente com a própria vida.
Ela, então, não tinha mudado tanto como parecia.
― Pelo contrário, é extremamente simples! Você precisa entender que as lembranças dos que já foram precisam ser superadas pra que você possa seguir em frente!
― Eu ainda não quero seguir em frente! Eu não estou pronta!
― Cresça, Sakura! Você não é mais a adolescente que ficava remoendo o passado com esperança de que tudo voltasse a ser como antes!
― NÓS ÍAMOS NOS CASAR, DEIDARA! ― ela finalmente gritou, não conseguindo evitar as lágrimas que agora corriam pelo seu rosto. ― Eu fiquei grávida, sabia? Nós íamos ter um bebê! Um bebê lindo, metade minha e metade dele, cheio de amor! ― Sakura sentiu uma pontada de dor ao ver o rosto surpreso e afetado de Deidara, que praticamente nunca perdia a compostura egocêntrica. No entanto, continuou ― Nós perdemos ele, mas, mesmo assim, decidimos que queríamos tentar de novo logo que trocássemos alianças. Íamos nos casar e ter uma família linda antes da guerra tirar tudo de mim de repente! Ela me tirou todos os meus sonhos! Eu perdi amigos, perdi minha mestra, perdi meu noivo. Você acha mesmo que é fácil seguir em frente?! Em um dia eu estava provando meu vestido de noiva, e no dia seguinte (literalmente!), fui arrastada para uma guerra que, aliás, tinha o propósito de matar o meu melhor amigo!
Parando para recuperar o fôlego e controlar o choro, sentiu uma sádica satisfação em calar a boca de Deidara pelo menos uma vez em toda a sua vida. O rapaz, sempre com alguma coisa na ponta da língua para rebater, agora estava em silêncio, estonteado com as declarações da pequena mulher em sua frente.
Mais calma, ela finalmente partiu para a conclusão.
― Você acha que eu não quero seguir em frente? Você acha que gosto de sonhar todas as noites com um passado que eu não posso recuperar? Que eu gosto de não me sentir conectada a mais nada e nem ninguém? Dói muito, Deidara, você não tem noção do quanto dói! Mas eu simplesmente não estou pronta para superar tudo, eu não consigo!
Um prolongado momento de silêncio se passou, Deidara em uma perda de palavras. Sim, ele realmente não entendia. Como poderia? A garota que amava tinha ido para longe dele, mas ele tinha o conforto de saber que ela estava viva e que ainda havia esperança para os dois no futuro. Mas Sakura não tinha nada. Nem seu amor, nem seu filho, nem seu futuro com eles.
Era difícil admitir, mas ele era um idiota escroto que falava demais sobre o que não sabia.
― Sakura, eu…
― Você nada, Deidara. Chega. Amanhã é um longo dia e tanto eu quanto você precisamos dormir. Com licença.
Ela não esperou resposta, fechando a porta e a trancando, a mão tremendo violentamente na maçaneta. Foi apenas quando ouviu os passos de Deidara indo embora que ela permitiu que os joelhos perdessem a força, indo ao chão. Chorou descompensadamente durante a noite toda.
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