Muito Além da Intuição
4 Branco como lençóis
Sasuke era quase mais branco que os lençóis de sua cama de hospital. Ele ainda era lindo, porém assombrado por anos difíceis em seu passado.
Sakura demorou muito para vê-lo, enquanto Naruto correu até o quarto logo quando soube que ele acordou. Ela esperou quatro dias. A kunoichi achou que estava pronta para reencontrá-lo desde o momento em que o viu partir de Konoha, mas estava enganada. Sakura não sabia como reagiria ao vê-lo acordado, e sabia que muito da sua relutância em visitá-lo tinha a ver com Itachi.
Tsunade orientou a todos que Sasuke não soubesse por meio de ninguém que Sakura conviveu com seu irmão mais velho por meio ano, que ela deveria ser a pessoa que contaria a ele. Mas ela mesma não sabia se queria contar, porque ela ainda não aceitava o desejo realizado de Itachi. Ela não conseguia aceitar que ele morreu, uma pessoa que merecia muito mais do que tinha. Ver Sasuke ali, em Konoha, era a lembrança viva de que ela não tinha conseguido dar para Itachi um final mais justo, e por mais que ela estivesse feliz por seu amigo estar com eles, ela não conseguia evitar guardar Itachi em um lugar muito querido de seu coração e lamentar por sua morte.
Principalmente depois de descobrir, na semana anterior, que o que ele sentia por ela poderia ser muito mais profundo do que ela imaginava.
Mas ali estava ela, na entrada do quarto de Sasuke, encarando o corpo virado para a janela. Ele não se virou para ver quem estava ali, então ela se fez presente pela voz.
― Sasuke-kun…? ― ela chamou. Ele finalmente se virou.
― Sakura.
Eles não disseram mais nada, com Sakura se sentando em uma poltrona a alguns passos de distância da cama de Sasuke. O silêncio ficava cada vez mais repressor.
― Me contaram que foi por sua causa que eu não morri ― ele disse.
― Ah, sim. Estávamos em uma missão envolvendo a Akatsuki e acabamos encontrando sua trilha de chakra ― mentiu, como fora orientada a fazer, olhando para o chão. ― Chegamos no final de tudo, e quando você desmaiou, eu curei imediatamente os ferimentos mais sérios.
― Uma ninja médica discípula de Tsunade… Quem diria, não é. ― Ele observou o céu pela janela. ― Eu não acreditei quando o Naruto me contou.
― Eu também não acreditaria, se só conhecesse a Sakura do passado. Mas aqui estou eu, em treinamento com minha Shishou para comandar o hospital inteiro a partir do ano que vem.
Ele não respondeu, e Sakura sabia que ela teria que falar para ele o que precisava, uma hora ou outra. Tomou o máximo de ar que conseguiu na boca, levantou os olhos para encarar Sasuke e começou.
― Escute, Sasuke-kun, sobre o Itachi-s…
― Ele está morto ― ele a interrompeu ― você viu isso. Já não basta o pessoal da Inteligência de Konoha, a Hokage e mais meio mundo me perguntando sobre, não preciso que você se faça de sonsa. Não me pergunte sobre.
― Não é isso! ― ela exclamou, assustada com a frieza de Sasuke. Ele havia piorado o gênio nos últimos anos, então.
A Sakura de anos atrás teria se sentido oprimida pela atitude violenta do menino em sua frente, se calando e obedecendo à necessidade de Sasuke de ser mimado e obedecido. No entanto, a atitude do colega fez algo ácido borbulhar dentro de si, não admitindo que ela fosse tratada com tal desrespeito.
A relutância de segundos atrás desapareceu completamente e ela se levantou imponente. A atitude da garota, nunca vista por Sasuke, despertou sua atenção e ele passou a olhar com uma curiosidade irritada.
― Você precisa saber por mim antes que alguém fale o que não deva! Eu fui capturada pela Akatsuki há um ano e fiquei lá por cinco meses. Eu fugi sete meses atrás. Eles precisavam de mim para algo que ninguém mais poderia fazer. Eles precisavam de mim para curar seu irmão!
― … O quê? ― Sasuke sibilou perigosamente.
― Seu irmão tinha uma doença que estava o matando com velocidade. Provavelmente lúpus, mas eu não tive tempo o suficiente para confirmar, já que eles precisavam de uma cura mais urgentemente do que um diagnóstico preciso. A Akatsuki precisava dele vivo, e a alternativa que encontraram foi achar um iryou-nin com habilidade, técnica e renome o suficiente para tratá-lo. A escolhida fui eu, a única pessoa que conseguiu encontrar um antídoto, sobreviver e salvar alguém do veneno mortal do Sasori, um Akatsuki que Chiyo-sama e eu derrotamos…
― Você matou um Akatsuki? ― ele a interrompeu mais uma vez, com tom de descrença.
― Isso não vem ao caso nesse momento ― rebateu, impaciente para finalmente falar tudo que devia. ― Eles me capturaram enquanto estávamos em uma missão atrás de você e eu fiquei na base deles por cinco meses. A história da minha fuga fica para outro dia, mas eu queria que você soubesse pela minha boca que eu fui forçada a curar o seu irmão, antes que isso chegue aos seus ouvidos do jeito errado. Se eu não o tivesse feito, ele teria morrido pela doença há cerca de seis meses.
Sakura sugou o ar de volta para os pulmões depois de ter falado com tanta rapidez, tanto pelo nervosismo quanto por não querer ser interrompida novamente. Sasuke contemplou-a por um momento, os olhos fáceis de serem lidos: raiva, surpresa, rancor, propósito.
Ela esperava que ele dissesse várias coisas, mas a mais improvável de todas saiu dos lábios pálidos.
― … E como era?
― O quê?
― Conviver com o meu irmão.
― Ah… Nós não convivíamos ― mentiu ― ele consultava comigo, eu fazia remédios para ele, tentava descobrir o que ele tinha, ao mesmo tempo que o curava, e era isso. No geral eu ficava no meu quarto ou lendo.
― Entendo.
Sabendo que o silêncio tenebroso surgiria mais uma vez, Sakura se levantou quase que bruscamente e ensaiou sua saída.
― Eu tenho que voltar ao trabalho. Melhoras, Sasuke-kun.
Ele soltou um som pela garganta que Sakura entendeu como uma despedida, e saiu dali o mais rápido que conseguiu.
Sasuke observou-a partir, o longo cabelo cor-de-rosa desaparecendo por último enquanto a porta era fechada. Tão diferente, imponente, forte. A Sakura que antes teria sacrificado tudo para ficar ali com ele por mais tempo agora o rebaixava diversas posições em sua lista de prioridades.
As coisas realmente tinham mudado muito por ali, ele pensou.
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