Tomei um copo de água e novamente sentei-me ao lado do Rafael, esperando que meu pai abrisse a porta.

No mesmo instante que eu estava ansiosa, estava também querendo que aquela hora nunca chegasse... esperava não ofegar tanto, e não chorar muito, como era o esperado. Olhei a maçaneta da porta, já estava se virando. Aquilo parecia uma tortura a cada segundo que passava.

Quando papai entrou por aquela porta, havia uma felicidade em seu rosto, que nunca se vira antes. Não tinha idéia do que era, mais com certeza a alegria toda seria estragada por mim – como todas as vezes. Obvio.

- Pai... – dizia eu, tentando tomar iniciativa de começar uma conversa.

- Clarie! Filha! – ele levantou-me e me rodopiou no ar como quando eu era criança. – Eu fui promovido a presidente da CC! E na minha viagem vamos tornar isso oficial! Não é ótimo?!

- Isso é... maravilhoso.

O sonho do meu pai sempre foi tornar-se presidente da empresa de telecomunicações onde ele trabalha. E agora ele conseguiu.

Eu sou do tipo que quer que as coisas sejam mais breves possíveis, e queria muito contar a ele hoje... mais... mesmo daqui uma semana – meses ou até mais! –, ele ainda estaria pulando de alegria pela sua vitória.

- Quer saber?! – ele dizia pegando novamente as chaves do carro em seu bolso. – vamos todos comer uma pizza!

Não deu tempo de dizer nada. Papai nos puxou para dentro do carro. Logo chegamos a um rodízio mais próximo. Entramos, e haviam vários adolescentes com seus amigos comendo lanche. Aquilo me fez pensar, que em nove meses – até menos – eu perderia tudo aquilo... toda a minha liberdade.

Nos sentamos uma mesa próxima a porta de entrada. Enquanto o garçom servia as pizzas para nós, meu pai não se cansava de falar sobre suas idéias para o futuro.

- Pai, a gente pode conversar um outro assunto importante?

- Oh... desculpe. Eu estou tão empolgado! E então, como foi o dia de vocês?

- Não estou dizendo para conversarmos sobre isso pai...

- Então, sobre o que?

- Pai... você sempre cuidou de mim ao máximo, me protegeu e deu carinho horas em que você não ficava no trabalho... mas... você nunca chegou pra mim pra conversarmos direito... sobre assuntos que muitas vezes se discute normalmente com a parceira ou amigos no bar... Eu sentia muito sua falta... e sinto. Toda a falta de atenção que você e a mamãe de deram resultou no que sou hoje. Pai... olha pra mim! Acha que eu gostaria de ser assim? Eu gostaria de ser como eles – eu disse apontando pra mesa onde estavam vários adolescentes rindo como se a vida fosse perfeita... – eu gostaria de ter um pai e uma mãe unidos e que me dessem conselhos ao sair de casa! Que dissessem que me amam a todo o instante! Que... dissessem que eu não podia sair de casa às vezes, e me colocar de castigo por te quebrado um porta-retrato! Eu sinto falta de ter uma família... unida. Mas não! – eu ia aumentando meu tom sem perceber – meu pai e minha mãe se separaram por que a minha irmã morreu! Isabella morreu por culpa de vocês! Por vocês estarem toda a hora enfiados em um maldito escritório! Vocês nem ao menos percebem o que faço ou deixo de fazer o no que essas merdas resultam! – agora eu já estava gritando. Meu pai ficou com uma expressão de terror.

- Eu... eu realmente nunca parei pra pensar nisso Clarie... eu sou um péssimo pai...

- É! Você é um pai horrível! Patético!

- Clarie, se acalma! – gritou Rafael. Alice tentava acalmar meu pai.

- E por toda essa falta de atenção no que eu fazia e até em mim mesma... que eu... que eu estou grávida... por você não ter conversado comigo realmente...

- A culpa não é dele Clarie! Não jogue isso no seu pai! – gritou Rafael.

Meu pai continuava paralisado.

- Eu... não esperava isso de você Clarie! – gritou meu pai. – Eu nunca tive tempo pra conversar com você, por que eu sempre trabalhei feito um cavalo pra que não faltasse nada pra você, pra sua mãe e pra Isabella! Você sempre teve sua mãe pra conversar e te dar conselhos!

- Eu queria conversar com vocês dois! Ou você acha que eu poderia ser uma garota feliz e sempre animada com meus pais discutindo sempre, e que NUNCA me davam a devida atenção!

- Maria Helena sempre te deu atenção que você precisou! Você que nunca aceitava! Agora... colocar culpa em mim que você esta grávida? Eu nem ao menos esperava isso de você Clarie Oliveira! – ele sempre usava meu nome completo quando estava perdidamente bravo comigo – Ao amanhecer eu não quero ver uma peça de roupa sua de baixo do meu teto! Some! Nunca, jamais bata na minha porta pra pedir nada!

- Eu nunca pedi nada pra você.

- Ótimo – ele levantou-se pagou a conta e saiu. – continue assim.

Todos na pizzaria olhavam para nós calados. Não queria que fosse assim... mais eu busquei a confusão.

- Clarie, por que tudo isso? – perguntou Rafael. Olhei sua expressão, ele estava pálido, com os olhos arregalados de medo.

- Eu... isso estava preso na minha garganta a muito tempo... Ah meu Deus...

- Clarie, eu vou chamar um táxi e vamos pra minha casa... conversamos com meus pais e você fica conosco.

- Desculpa por te fazer passar por isso também Rafa...

- Plantamos o que colhemos. Estamos juntos nessa... eu estou cansado de falar isso. Fica tranquila Clarie. – disse Rafael pegando o celular do bolso.

Abracei Alice com força. Rafael foi para fora ligar a seus pais. Ele falava tão baixo ao telefone que mal pude ouvir.

- Mãe... eu tenho que passar ai com Clarie e uma amiga nossa. – ouve uma pequena pausa para que Rosa, mãe de Rafael falasse. – Sim mãe... aconteceu algo grave. Não, não! Ninguém se machucou, não aconteceu acidente algum. – mais uma pausa longa. – Em casa conversamos mamãe... Um beijo te amo.

Fui para fora com Alice, Rafael já estava ligando para um táxi vir nos buscar. Rafael chamou um e ficamos lá fora esperando. Não se ouviu nada sair da boca de nenhum de nós.

Cerca de quinze minutos depois o táxi parou em frente a pizzaria. Entrei no banco de trás com Alice, e Rafael no carona.

A casa do Rafael era perto dali, então em cinco ou seis minutos já havíamos chegado. Desci do táxi junto com Alice enquanto Rafael pagava a corrida.

- Alice, acha que os pais do Rafael vão me aceitar com eles?

- Isso depende deles. Eu não os conheço... mas acho que são legais.

Rafael nada falou quando terminou de pagar ao motorista. Foi logo abrir o portão para entrarmos.

- Eles vão nos ajudar. – murmurou Rafael, e sorrindo logo após.

Suspirei e entrei. Rafael correu para abrir a porta, Alice entrou antes de mim. Quando entrei vi Rafael beijando o rosto de sua mãe, seu pai cumprimentava Alice. Rafael tirou seus lábios do rosto de sua mãe, e então fui cumprimenta-la.

- Quando tempo não a vejo. – disse Rosa.

- É... pois é... – cumprimentei o pai do Rafael, e nos sentamos todos.

- Então, o que houve de tão grave, filho? – perguntou minha sogra.

- Mãe... eu te amo muito, e você também pai. Eu nunca havia os decepcionado... sempre fui o melhor filho possível... e... caramba... mais agora eu vacilei legal.

- Vá direto ao assunto Rafael. – disse seu pai.

- Clarie está grávida.

Foi mais rápido do que pensei.

- Rafael... você só pode estar brincando... – Rosa dizia com uma expressão fixa. Sem mexer nenhum músculo.

- Infelizmente não estou mãe... me desculpe por te decepcionar tanto... mas... aconteceu.

- Meu Deus... – ela disse pausadamente.

- Mãe... Clarie pode ficar morando conosco? Por favor...

- Rafael... Clarie pode ficar, amanhã conversamos melhor. – ela ficou completamente nervosa. Levantou-se e foi para o quarto. Logo em seguida o pai do Rafael também foi sem dizer palavra alguma. – Só uma coisa, — ela disse surgindo novamente na sala –, eu não quero que vocês dois durmam juntos. Clarie fica no seu quarto e você na sala. Eu não quero uma menina tão jovem na cama do meu filho fazendo algo que deveria esperar. – ela chorava como nunca havia visto antes. Então, ela foi novamente para o quarto. Sem dúvida deve ser uma dor e uma decepção enorme.

- Minha mãe nunca esperaria isso de mim... amanhã teremos uma longa conversa. Nós três.

- Eu, você e ela. Que ótimo... Rafael... meu pai disse que não queria ver nada meu em casa ao amanhecer, então eu vou para lá pegar algumas coisas minhas ainda hoje.

- Eu vou com você.

- Eu ajudo...

- Alice... se você quiser ir pra casa tudo bem. Esta acompanhando tudo sem ter culpa de nada... – Rafael dizia pegando as chaves do carro do pai.

- Não! Eu ajudo vocês.

- Obrigado Alice. – disse ele.