Mudei por Você
27 Capítulo 27
Desci do ônibus depois dos idosos, e fui para o mercado. Haviam poucas pessoas, porém não estava lá tão vazio.
Peguei uma cestinha – daquelas pra quem não compra quase porcaria nenhuma – e comecei a caminhar no meio dos corredores em busca de comidas enlatadas e fáceis de se fazer.
A maioria dos “alimentos” que comprei, foi macarrão instantâneo. Comprei sobremesas já prontas, refrigerantes, pães...
A compra não durou muito. Logo fui ao caixa. A fila estava enorme – no caixa rápido –, mais mesmo assim fui obrigada a esperar. Via as donas de casa esperando que suas compras passassem pela caixa... olhava bem para elas. Cada mínimo detalhe! Desde as rugas, cabelos brancos, o humilde sorriso que as deixavas lindas! Lembro que quando eu era pequena, minha mãe sempre falava que havia sofrido muito. E que se não fosse por mim ela já estaria morta... depois que nasceu Isabella, então! Se não fosse por nós, nem ela nem meu pai teriam lutado para sobreviver... seria um namorico como qualquer outro de adolescentes. Isso me faz pensar... será que se não fosse pela minha gravidez eu e Rafael a essa hora estaríamos marcando de ir dançar a noite, e meses depois ele ou eu quebraria o coração do parceiro e iria partir para outra? Será que iremos viver juntos... pra sempre?
Viajei em meus pensamentos, mais logo abri meus olhos e notei que já era minha vez de ir para um caixa vago. O caixa já era logo à minha frente, então três passos e já estava lá.
- Boa tarde! – Disse a caixa.
- Boa tarde moça.
Ela começou a passar o código de barras embaixo daquele tipo de “laiser”. Fiquei observando... achei meio engraçado... não sei por quê! Parecia que minha infância estava voltando.
- Fazendo compras para seus pais? – A caixa puxou assunto.
- Não, infelizmente não. Eu... estou fazendo compras pra minha casa... pra mim e pro meu namorado.
- Nossa! Você parece ser tão nova! Já mora sozinha com seu namorado... responsável hein!
- Haha! Eu, responsável?! – A caixa começou a me olhar com cara de quem não estava entendo nada. – Eu sou muito irresponsável, sabe...minha irmã mais nova morreu a alguns meses atrás. Estávamos só eu e ela em casa. A gente tava jogando basquete, e o Rafael... meu namorado atual, chegou no portão pra falar comigo de um assunto que ocorrera um dia antes, ou dois. E eu fui! Mais não fui pra conversar como gente! E não percebi que a bola de basquete tinha ido pro meio da rua. E Isabella foi buscá-la... eu... eu não vi! Um carro a atropelou e... foi o fim... e o tempo foi passando, passando e, eu e Rafael começamos a namorar e no mesmo dia, a gente... rolou! Não era pra acontecer, não era! E agora eu to grávida. – Dei uma longa pausa. Já ouvi o barulho dos alimentos serem colocados na sacola e voltei olhar para a caixa. – Contei tudo.
- Que história... olha, boa sorte pra você e esse Rafael. Sejam felizes! – Via nos seus olhos e no tom da sua voz que ela desejava aquilo de coração.
- Obrigada. – Vi no monitor o valor do que comprei e entreguei o dinheiro a ela. Peguei as sacolas, sorri para a caixa e saí de lá.
Me senti tão bem contando a história pra ela. Ainda tem muito chão pela frente! Muito chão...Assim que sai já vi no ônibus estacionando no ponto. Corri até ele. Subi quase sem fôlego, paguei minha passagem e sentei-me do lado da janela. O ônibus saiu do lugar e começou a andar. Fui observando cada detalhe... as pessoas, os cães na rua... em certos lugares que o ônibus passou, cães disputavam a comida no lixo, jogada pelas pessoas. Me lembrei de quando minha mãe ficava vendo programas na manhã, e ensinavam receitas diferentes todos os dias! Havia coisas no lixo que dava sim para aproveitar.
O ônibus parou no ponto, na frente da minha nova casa e eu desci. Abri o portão e entrei. Corri para a porta e a abri. Tudo o que conversei, me lembrei fez com que eu ficasse mais ansiosa pra falar com a minha mãe! Queria ver o que tinha acontecido por lá, onde estava morando, se havia encontrado alguém especial, se fez amizades... Ah que saudade!
Coloquei as sacolas das compras na mesa da cozinha e corri para o quarto onde estava meu celular.
Chamando, chamando, chamando...
- Alô?! – Sua doce voz soou em meus ouvidos depois de tempo. Pelo seu tom notei que ela estava feliz, que estava tudo indo bem. Bom, mas acho eu que ela não sabia de nada do que havia acontecido.
- Mãe! – Gritei. Estava muito feliz, e que saudade! – Mãe, sou eu Clarie!!
- CLARIE! Filha! Ah que saudade, como você esta? Já conseguiu conquistar o tal menino? Tem visitado a Isa? Como esta indo na escola? Conseguiu mais amigos? E já arrumou um emprego?
- Calma mãe, calma! Vou responder todas as perguntas, tim tim por tim tim! E eu também quero saber tudo! – Suspirei fundo e comecei a contar, por ordem das perguntas. – Eu estou muito bem... bom mais ou menos, mais o que aconteceu irei contar à você depois. E sim! Eu e Rafael estamos namorando. Agora ele esta procurando emprego... acho que ele conseguiu um numa pizzaria... pelo menos terei pizza de graça feito pelo meu namorado. – Coloquei ênfase na palavra “meu”. – E, eu não tive tempo pra visitar a Bella, mais amanhã mesmo irei ver como ela esta e levarei algumas flores... eu to com tanta saudade mãe! Tanta! E eu tive que parar de estudar... infelizmente. Nunca pensei que seria tão ruim parar de estudar. Não, mãe... ainda sou amiga apenas da Alice e do Rafa. Mais estou mais sociável logo consigo mais! Não, mãe... ainda não arrumei um emprego. Nem procurei pra começo de conversa...
- Ah meu anjo... Que bom que esta namorando... e... por que teve que parar de estudar meu bem?
- Mãe, você esta sentada? – Perguntei. Ouvi um “u-hum” do outro lado. – Pois bem... depois que você foi embora eu e o Rafa começamos a namorar. Mais aconteceu uma serie de coisas e... aconteceu. E eu fiquei... grávida.
- CLARIE! Como pode minha filha, como pode?! Quando eu estava aí conversamos tanto sobre isso! Ah Clarie, por que meu bem, por quê?!
- Desculpa mãe, desculpa! Você não tem noção de como eu fiquei mal! Eu quis até me matar! Mais automaticamente eu cometeria uma “morte-dupla”. Me desculpe mãe!
- Clarie – havia um tom de mistério em sua voz. –, eu já passei por isso, sei como é difícil, como sofremos, mais de forma alguma vou deixar você se matar. Eu sou capaz de roubar um avião e chegar até aí em dois segundos, ir nadando até ai, mais você não vai fazer isso. É difícil? É! Mais não existe motivo algum pra acabar com sua própria vida! A cada coisa que acontece conosco, por mais difícil que seja só da mais força pra continuarmos indo em frente. E essa força Clarie, sempre, absolutamente sempre, é de forma positiva.
- Mãe... obrigada. Esse foi o melhor conselho que já recebi. Ah mãe... bem que dizem que a mãe é sempre a melhor amiga. Pensei que você iria atravessar a linha telefônica e acabar comigo, mais no fundo, no fundo eu sabia que você compreenderia, embora fosse difícil. Eu sei que você não vai parar de pensar nisso, mais enfim... ah, mãe obrigada!
- Meu anjo, mais é obvio que a mãe é a melhor amiga. É sempre ela que daria a vida por seu filho! As verdadeiras amigas é claro que também fariam isso, mais a mãe nunca pensaria duas vezes, Clarie, nunca.
- Ah mãe, obrigada...
- Se precisar de qualquer coisa, é só me ligar.
- Ah... obrigada de novo mamãe.
- Agora eu tenho que ir Anjo. Tenho que voltar ao trabalho. Vá sempre ao médico, se cuide!
- Beijão mãe. Te amo! – Desliguei o telefone, e sorri... sorri! Quando as pessoas que convivemos estão longe, aí sim percebemos que as amamos muito! Que sofremos de saudade...
Pouco depois o telefone já tocou novamente.
- Alô?
- Oi Clarie! Meu amor eu consegui o cargo de pizzaiolo aqui! Eu contei tudo a ele e ele me aceitou na hora!
- Rafael, que bom! Boa sorte! Ah, eu acabei de falar com a minha mãe.
- E então?...
- Ela ficou meio brava, mais acho que se ela não tivesse também passado por isso eu já estaria morta.
- Bom então, ela compreendeu, né? Melhor assim. Tenho que trabalhar Clarie. – Ele disse a ultima frase com uma voz de vencedor, poderoso, convencido.
- Vai lá Rafa. Trabalha direitinho e não queime a pizza.
- Poxa Clarie, se eu colocar fogo aqui não é culpa minha! Eu ainda estou aprendendo.
- Ah, por favor não faça isso. Tchau Rafa, boa sorte.
Desliguei o telefone e fui à cozinha guardar as compras. Estava tudo se encaixando...
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