Mudei por Você
24 Capítulo 24
Saímos da casa do Rafael a toda velocidade. As chaves de casa estavam no meu bolso, só espero que papai – ainda posso chamar ele de pai? – não tenha trocado a fechadura.
Chegamos na frente da minha antiga casa, as luzes do meu quarto estavam acessas, e a porta de entrada arreganhada. Corri para dentro, Alice e Rafael vieram logo atrás. Subi as escadas, me esforçando para não fazer som algum, mais era impossível.
Abri a porta do meu quarto, já haviam malas com minhas roupas, meus pôsteres estavam dobrados em cima da cama... meu pai estava fechando o zíper de uma mala – a última – quando me viu.
- Adeus. – foi só o que ele disse, depois saiu do meu ex quarto quebrando tudo o que via pela frente.
- Adeus... – respondi em baixo tom, eu sabia que ele não iria ouvir.
Havia uma coisa que eu tinha mais que certeza de que ele não pegaria. Ele nem sabia que ainda existia. O álbum de fotos.
Peguei o álbum de baixo da minha cama, algumas fotos estavam pouco estragadas, outras não davam pra ver quase nada. Coloquei o álbum de baixo do braço e desci com duas malas. Rafael e Alice pegaram o resto e colocaram no porta-malas.
Rafael ficou mais um tempo com o carro parado na frente de casa. Suspirei fundo fechei os olhos, e quis me lembrar de toda a história que passei ali...
- Vai Rafael. – Pedi.
Ele foi.. A cada casa que passávamos, a cada esquina, lembranças me vinham à mente.
Sem que eu percebesse, já estávamos na frente da casa da Alice.Rafael abraçou-a e a beijou no rosto. Logo depois, foi minha vez.
- Obrigada Alice... você é incrível.
- Amanhã estarei na estarei na casa do Rafa. Ajudarei vocês a organizarem tudo.
- Não... sério Alice não precisa.
- Cala a boca Clarie. Eu vou.
Fiquei quieta. O que poderia dizer? Minha melhor amiga – também única – insistia para me ajudar... mesmo não fazendo parte da burrada... Amigos verdadeiros ainda existem!
- Até amanhã Alice. – Despediu-se novamente Rafael.
Assim que Alice saiu, eu sai do banco de trás e sentei-me no banco da frente. Suspirei novamente. Fitei Rafael. Ele me olhava com tristeza... aquilo o incomodava tanto quanto a mim.
Ele foi aproximando seu rosto ao meu e encostou sua testa junto a minha. Ele chorava em silencio. As lagrimas despencaram dos seus olhos, e caíram sobre meu rosto.
Meu coração se apertava cada vez mais; Era como se ele estivesse parado... como se eu estivesse morta.
O beijei. Comecei a chorar junto a ele...
Por que sofremos? Por que não morremos de vez?!
- Vamos sair dessa... com ou sem a ajuda do seu pai. – Disse ele, entre sussurros e soluços.
O abracei. Os cães no quintal da Alice começaram a latir, fazendo com que o resto dos cachorros na rua latissem. Sai do abraço e ele partiu para a casa.
Minutos depois, já consegui localizar onde estávamos. Na esquina da casa do Rafa.
Ele parou em frente à sua casa, os portões já estavam abertos. Colocou o carro na garagem, e desceu. Deu a volta no carro e a abriu a porta para mim. Desci, e ele fechou novamente a port. Abriu o porá-malas, e tirou agumas malas minhas, enquanto eu continuava agarrada ao álbum de fotos.
Ele pegou três malas, e deixou o resto no porta-malas.
- Vamos. Amanhã Alice vem para ajudar a terminar de arrumar tudo.
- E se o teste estiver errado? – Perguntei do nada. Havia sim essa possibilidade... Eu acho! Mais do que adiantaria? Já estava tudo perdido mesmo... tudo uma porcaria.
- Acho que não Clarie. Seus enjôos e o atraso... não é por acaso.
- Tem razão. – Confirmei, pegando uma das malas de sua mão, ajudando-o.
- Vamos colocar isso num canto da sala e descansar. Amanhã começaremos o dia conversando com minha mãe.
Entrei com ele sem nada a dizer. Ele arrumou a cama do seu quarto pra mim, e deitei-me. Logo adormeci.
Na manhã seguinte, levantei com o doce barulho do café sendo passado. Levantei-me e fui direto para a cozinha. Assim que parei na porta, a mãe de Rafael me fitou. O olhar profundo de uma mãe decepcionada, triste...
- Bom dia Clarie.
- Bom dia dona Rosa.
- Dormiu bem?
- Sim. Obrigada por me deixar ficar.
- Não esqueça que eu deixei apenas por uma noite.
Não havia me lembrado disso! Já estávamos organizando a mudança...
- Bom dia. – Era a voz do Rafael. A doce voz que tanto me encanto agora estava meio chorosa.
- Bom dia Rafael.
Nada mais foi dito. Ela colocou bruscamente o bule de café em cima da mesa, e nos servimos. Quase não comi nada, Rafael principalmente. Assim que dona Rosa terminou de comer, nos olhou tão profundamente, que pensei que fosse morrer naquele exato momento.
- Por que? Por que vocês amam dar uma de adultos, e querer fazer o que não devem tão cedo?! Vocês quase nem saíram das fraldas! São irresponsáveis! Dependem dos pais pra comer! Eu não acredito que fizeram isso. Não existe decepção maior! NÃO EXISTE! – Gritou.
O medo tomou conta de mim como nunca. Não sabia o que dizer... ela tinha razão!
- Não era pra acontecer... – Tentei explicar.
- NUNCA é pra acontecer entre adolescentes. Não era nem pra vocês fazerem isso.
Silêncio. Não poderíamos dizer nada. Ela estava certa.
- Clarie... eu não agüento ver vocês dois assim. Eu só vou fazer isso por causa do Rafael, e não por você. Vocês vão ficar numa outra casa que temos. Já tem móveis. Não iremos cobrar aluguel. Mais vocês vão se sustentar não nós.
- Mais mãe, eu não tenho emprego!
- Problema seu, não meu. Não fui eu que fiz o bebê. – Ela deu de ombros, e saiu.
Agora teremos sim, que nos acostumar a virar-nos sozinhos.
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