Mudanças Para Continuar
3 Chapter Three
Notas iniciais
Quero fazer muitas perguntas, mas não posso. Quando meu pai decide alguma coisa, não há quem queira discordar. Não vou expressar minha raiva pois sei que nunca ganho dele em uma discussão. Se ele decidiu isso, o que me resta é obedecer. Manda quem pode, obedece quem tem juízo, dizia meu avô.
Meu avô. Tenho muitas saudades dele. Se ele estivesse aqui me ajudaria nessa situação com meu pai.
— Mas posso, pelo menos, saber o nome dessa garota? — pergunto. Acho que meu tom de voz está no modo raiva e meu olhar também, mas nem ligo para isso. Não ligo para muita coisa, na verdade.
— Ela se chama Cindy — diz minha mãe. — Cindy Antariksa.
O resto do almoço foi um silêncio total como se nenhuma discussão – ou quase discussão – tivesse acontecido e não tivéssemos assunto para falar. Só trocamos palavras como: ‘’Quer mais suco, Manuela?’’’ Ou então: ‘’Esta comida está uma delícia, não acha, filha?’’’ Eu apenas assentia ou dizia sim/não.
— Estou satisfeita. A comida estava muito boa, mãe — digo, quebrando o silêncio e já levantando da cadeira.
— Fico feliz que tenha gostado, filha — responde minha mãe, com um sorriso no rosto. O típico sorriso que a maioria das pessoas abre ao ser elogiada. Sorriso esse, que talvez tenha se tornado um pouco falso por conta da quase discussão.
— Não precisa ir para a padaria hoje — diz meu pai. — Cindy virá aqui hoje à tarde e, antes que pergunte o porquê da visita: é para vocês conversarem e escolherem as fantasias para a festa.
Quando ouço isso, paro no meio do caminho, pois estava indo para meu quarto. Uma daquelas tradicionais paradas em filmes, quando alguém é atingido profundamente. Olho por cima do ombro para eles e fico com uma cara de: ‘’Estão falando sério?’’
Eu mal sei direito o nome da garota, ou melhor, da minha ‘’amiga e companheira de baladinha’’, e ela já vai vir hoje à tarde para escolhermos fantasias para a festa?! E essa festa?! Quando eu queria sair com Kim e Sarah, não tinha todo esse apoio e liberdade. Meus pais parecem estar desesperados para eu fazer alguma amiga aqui. Acalmem-se, por favor! Nós chegamos aqui faz uma semana. UMA SEMANA! Eu vou conhecer muitas pessoas na faculdade e nos passeios com Cookie! É possível entender esse básico?
Apenas penso nisso. Até que percebo que estou parada pelo menos uns quarenta e cinco segundos na mesma posição com a mesma cara. Eu só consegui assentir com a cabeça e continuei andado para meu quarto (outro ato típico dos filmes).
Chegando lá, abro a porta, entro e fecho-a rapidamente. Não estou conseguindo processar essas informações. Deito-me na cama, observo o teto e começo a falar para mim mesma, mas realmente parece que converso com o teto pois olho firmemente para ele:
— O.k. Acalme-se Manuela, acalme-se. Vamos desde o começo: haverá uma festa à fantasia daqui a uma semana e você vai ir com a filha de uns vizinhos e clientes da padaria de seus pais. Até aí, tudo bem, entendido. Você irá receber a visita dessa garota que se chama Cindy Antariksa hoje á tarde e vocês irão conversar e escolher as fantasias para a tal festa. Então, esqueça que você estava com raiva de ter sido apenas avisada, e não consultada, só agora por seus pais. Cindy deve ser uma garota muito legal, engraçada, fofa e que irá gostar de Cookie. Vocês irão se divertir muito hoje à tarde e serão grandes amigas — suspiro, finalmente. — Ufa! Acho que é só isso mesmo. Agora recupere-se e vá ajudar sua mãe com a louça porque você provavelmente está parecendo uma louca falando com o teto do seu quarto e consigo mesma.
Que ninguém nunca saiba que ‘’conversei com o teto’’!, penso levantando da cama.
Saio do meu quarto e vou ajudar minha mãe com a louça. É o que devo fazer agora. Quando terminar, acho que vou para meu quarto novamente para contar a Kim e Sarah o que aconteceu.
P.O.V Cindy:
Eu estava em casa me arrumando para sair. Meus pais disseram que conversaram com uns vizinhos e donos de uma padaria que fica aqui perto, e eles disseram que também tinham uma filha. Parece que ela tem 19 anos e chama-se Manuela Singer. Eles decidiram, sem o meu conhecimento, que eu iria para a festa à fantasia com ela e que nos veríamos hoje à tarde para escolher as fantasias.
Eles estão planejando nossa vida inteira! Parecem que querem criar um destino onde somos melhores amigas, irmãs de mães separadas. Essa ideia não me agrada nem um pouco. Eu posso muito bem fazer amizades sozinha. Sou EU quem irá escolher MINHAS amigas.
Calma, Cindy. Acalme-se. Ela com certeza é uma garota legal, fofa, divertida, gamer e que adora gatos e, quando conhecer Joe, irá adorá-lo com todas suas forças! Você até poderá apresentá-la para Lys e Cast! Será demais! Vocês serão grandes amigas. Espera, eu pensei isso naturalmente?, penso.
Sinto algo passando em minhas pernas. É Joe.
— Tenho que ir Joe — digo afagando sua cabeça. — Mas eu volto no final da tarde. Te amo meu lindo gatinho. Tchau, tchau!
Pego as chaves de casa, abro a porta de frente, saio, fecho ela e tranco-a com as chaves. Pronto, a casa está trancada agora., penso. E Joe está lá dentro sozinho, entediado, triste... NÃO! PARE, CINDY! Ele está muito bem lá. Vamos, cai fora. Sai logo antes que mude de ideia, menina!
Como a casa dela fica aqui perto — pelo menos foi isso que meus pais disseram e explicaram -, vou a pé mesmo. É bom fazer uma caminhada. Quando estou passando pelo que me parece ser uma oficina, ouço um assobio.
O quê? Quem está assobiando? Calma Cindy, com certeza não é para você. Apenas ignore. Ignore, ignore... Ignore!, penso.
Como sou muito curiosa, não consigo me conter, então olho ‘discretamente’ para a oficina para ver quem está lá. Me deparo com um loiro alto com olhos azuis fortes e uma expressão safada no rosto fazendo alguma coisa em um carro e olhando para mim. O olhar dele é um pouco sinistro, mas eu posso superar.
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