Mudanças
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Não é que Cecilia tivesse passado o final de semana tensa, não de jeito nenhum. Estava uma pilha de nervos. O final de semana passou voando e lá no fundo da sua mente, o pensamento que não cessava era, como o vai ser na segunda-feira?
Acordou mais cedo do que o normal, foi organizar as coisas. Acordar uma Dulce Maria não era fácil. E em uma segunda-feira, era quase necessário mais uma pessoa, mas depois de todos os “você vai se atrasar pra escola” as coisas começaram a funcionar, ou seja, Dulce começou a se arrumar.
– Mamãe minha festa é nesse fim de semana neh?
– É sim! E não se preocupe que já tudo organizado!
– Iuuupi! Pena que ainda tem muitos dias pra chegar! Queria que fosse mais rápido!
– Nem se preocupe, que quando você se der conta, já vai ser sábado! Agora vai escovar os dentes e saímos de casa! Vai Dulce!
– Tô indo! Tô indo!
Era mais uma manhã normal.
Deixou Dulce na escola, e todas as recomendações de comporte-se que poderia passar. Abraçou a filha e foi para o trabalho.
Encontrava-se nervosa, lembrou de tentar não contorcer as mãos, porque para a sua surpresa, Gustavo sabia que era seu sinal de nervosismo.
Entrou no escritório, ele não estava. Suspirou aliviada.
Gustavo não conseguia acreditar no que aconteceu. Claro que não havia nada de mais no ocorrido. Eles flertaram, era bom saber que era correspondido, que não era o único sentindo algo.
Queria saber o que ela sentia, exatamente.
Acordou mais tarde propositalmente, queria dar uma dianteira pra Cecilia, tinha certeza que ela passara o fim de semana tensa, ele também. Mas já sabia o que faria. Não seria fácil, mas era o preciso, era necessário colocar todos os pingos nos is. Arrumou-se com mais cuidado para o trabalho. Sorrindo todo o tempo, ela sempre no fundo da sua mente.
Entrou em seu escritório e o primeiro lugar para onde olhou foi a porta da sala dela, que estava entre aberta, ou seja, ela já tinha chegado. Respirou fundo e foi até lá.
Bateu, ela demorou alguns segundos para responder.
– Pode entrar!
– Bom dia Cecilia! Você poderia vir até aqui para que possamos passar a agenda de hoje?
– Claro!
Cecilia suspirou, ele não falou nada. Isso era bom não era? Afinal, o que ela esperava? Que ele chegasse com flores e chocolates? Não, assim era melhor.
– Gustavo, hoje tá bem tranquilo, você adiantou algumas reuniões semana passada. Hoje é só uma teleconferência, mas vai ser as dezessete horas. Só trabalho interno mesmo.
– Obrigado! Você poderia reservar um restaurante pro almoço? Nos vamos almoçar fora hoje. Quero conversar com você. Isso claro, se você aceitar.
– Conversar? Não... Não pode ser aqui?
– Não quero misturar assuntos pessoais com trabalho. E sei que nem você. Por favor Cecilia, nós precisamos conversar.
Cecilia sabia, que ali se encontrava em ponto decisivo. Se dissesse não, tudo estaria implícito, mas ela não queria dizer não. Por isso respondeu que sim, e perguntou qual restaurante ele gostaria.
– Eu deixo isso com você. Fique a vontade e escolha. Não se preocupe com nada. Quero apenas um lugar, que possamos conversar.
– Tudo bem!
Sorri. E fui trabalhar. Nunca foi tão complicado se concentrar no trabalho. Sabia o que sentia, se sentia atraída pelo o chefe, claro que essa era a primeira vez que pensava nisso, sem que cortasse o pensamento no meio. Dizer para si mesma a verdade, não tornava tudo mais fácil.
Pensou em tudo que estava em jogo. Ou ele iria dizer que a noite, que não houve nada de mais, foi um erro. Que ele deixou-se levar, e que nada daquilo iria se repetir. Que eles eram amigos e apenas isso. Isso lhe deu um aperto no peito. Pensar dessa forma.
Ou... Ele iria se declarar. E isso quase a deixou tonta. Tanta coisa poderia dar errado. Esse emprego era importante, era o que a sustentava e a sua filha também.
Era preciso ponderar muita coisa. Mas também não podia viver, suprimindo seus sentimentos.
Eles iriam conversar e esclarecer as coisas. Suspirou e voltou ao trabalho.
Gustavo achava que a hora do alomoço jamais iria chegar. Sabia que não seria uma conversa fácil.
Finalmente chegou.
– Cecilia você tá pronta para irmos?
– Já?! Minha nossa... Tudo bem, vamos sim! Você quer me encontrar no restaurante?
Gustavo franzio a testa.
– Não. Nós vamos juntos. E só pra ficar claro, eu não estou fazendo nada escondido.
– Eu só achei que...
– Vamos juntos, voltamos juntos. Não devemos absolutamente nada a ninguém. Agora vamos?
– Claro.
Saímos juntos. Ele tinha toda razão, não tinha o porquê de sairmos escondidos.
Escolhi um restaurante próximo ao trabalho mas era bem tranquilo, apesar de ser hora do almoço.
Logo fomos levados a nossa mesa. Passei a mão pela toalha de mesa diversas vezes, enquanto Gustavo fazia seu pedido. Não queria comer, estava nervosa demais pra isso. Acabei pedindo uma salada simples de frango. Dobrado como encontrava-se meu estômago, nada mais que isso iria descer.
Começamos a falar amenidades... O trabalho, Dulce, sua festa, a ansiedade dela, e a minha...
Ele me olhava o tempo todo. Prestava atenção em cada palavra.
– Cecilia eu gostaria de esclarecer umas coisas com você.
– Tudo bem...
– É sobre a noite de sexta-feira. Eu acho, vejo na verdade, que chegamos em um ponto, que precisamos conversar. Eu preciso.
– Eu sei.
O olhei seria. Não seria a nossa primeira troca de olhares. Tudo levava a isso. Não adiantava eu me fingir de cega, fingir que não sentia o que sentia.
Gustavo me olhou, abriu e fechou a boca umas duas vezes, acho que não sabia por onde começar. Nem eu. Não tinha como ajudar.
– Antes de mais nada, o seu emprego tá protegido, você vai trabalhar para a Rey Café, pelo o tempo que quiser.
Eu sorri, uma risada nervosa.
– Isso me preocupava, não vou mentir.
– Não precisa mais. Você é uma funcionária excelente.
Isso deveria ser mais fácil...
Gustavo olhou para Cecilia, e não sabia o que dizer. Como começar.
Ele respirou fundo.
– Cecilia, eu tenho sentimentos por você. Sentimentos esses, como eu imagino que você saiba, vão além do profissional. Você é inteligente, linda! E não é apenas uma beleza exterior, você é linda por dentro e por fora.
Cecilia não sabia o que dizer. Corou. Olhou para ele, procurando palavras.
– Eu me sinto da mesma forma, foi difícil admitir isso a mim mesma. Tanto está em risco.
– Mas eu já te disse, que sobre o seu trabalho, você não tem com o que se preocupar...
– Não é isso.
Ela o cortou colocando as mãos encima da mesa.
– A Dulce. Você se envolvendo comigo, automaticamente está entrando na vida dela também. Você já pensou nisso Gustavo?
– Foi a primeira coisa que pensei. Eu sei bem o que significa se nós nos envolvermos.
Ele também a olhava sério, sua mão vagava sem rumo pela mesa. Até que encontrou a sua.
Eles olharam as mãos entrelaçadas.
– Tenha certeza que eu jamais seria capaz de magoar a Dulce. De alguma forma, eu já me sinto ligado a ela. Independentemente de qualquer coisa, eu quero manter a minha relação de amizade com ela. Ela é muito especial pra mim.
– Eu fico feliz em ouvir isso. Mas eu sinceramente, não sei como seguir a diante. Eu quero dizer, nós dois...
O garçom voltou trazendo os pratos. A tensão poderia ser cortada com uma faca. Eles agradeceram, aparentemente nenhum dois dois estava com pressa para começarem a comer.
Gustavo continuou segurando a mão de Cecilia.
– Eu não quero apressar nada. Não quero me enfiar de uma vez na sua vida com a Dulce. Ela precisa se acostumar com a minha presença por perto.
– Isso não vai ser difícil, ela te adora!
– Isso facilita pra mim!
Mais sorrisos. Continuara de mãos dadas.
– Eu quero estar por perto. Quero poder te levar em casa, sairmos para jantar. Eu não vou apressar nada entre nós dois. Tudo no seu tempo Cecilia. Eu quero estar junto com você e com a Dulce.
– Eu só tive um namorado na vida, não deu muito certo...
– Tudo bem, eu já te falei. Eu quero estar junto de você. Nós não precisamos sair anunciando, mas o que eu sinto por você é serio.
Cecilia apertou a mão de Gustavo. Fantasiava com um momento como esse. Ele ali, declarando-se para ela.
– Ai meu Deus, que seja o que Ele quiser! Eu aceito, o quer que eu tenha que aceitar, você entende...
– Eu entendo mas eu ainda não fiz um pedido formal...
– E nem precisa, não agora. Vamos antes de tudo, ver onde isso vai nos levar.
Falei o “isso” apontando entre nós dois. Tudo que não queria era apressar as coisas.
– Eu não quero falar nada com a Dulce ainda, pelo menos não agora. Quando soubermos onde estamos. Eu converso com ela.
– Você decide como é melhor.
Gustavo queria ter sentado mais próximo de Cecilia, e talvez, só talvez, tivesse a oportunidade de finalmente beija-la. Mas não achou que aquele era o momento. Ela estava tensa.
– Tudo bem, mas será que agora podemos relaxar e comer?
– Claro.
Falei e suspirei. Era oficial, eu estava em uma espécie de relacionamento não denominado com o meu chefe.
Mas ali, naquele momento, eramos a Cecilia e o Gustavo. Por isso, mudei de assento, sentei-me ao seu lado, deixei que nossos braços ficassem encostados um no outro. Que ele tocasse meu rosto. E quando o mesmo me contou uma piada, coisa que não esperava, ri com a cabeça no ombro dele. Depois de toda a tensão para nos resolvermos, era bom relaxar. Não era um agir de namorados, pelo menos não ainda, mas decididamente mais que amigos.
Voltamos a garagem do restaurante abraçados. Quando ele foi abrir a porta, achei que fosse me beijar. Mas beijou-me no rosto, me abraçou. Eu gostei.
Gustavo disse que me levaria para casa, mas que não iria entrar. Acabei meus afazeres, o dia amanhã seria corrido, muitas reuniões.
Quando sai da minha sala, ele estava em uma ligação, eu sabia que era do departamento jurídico. Ele parou de falar no telefone e me olhou.
– Eu tô preso aqui. Eu sinto muito mas não vou poder te levar! Tudo bem?
– Sem problemas... Eu sempre fui sozinha!
– Não mais, pelo menos sempre que eu puder evitar!
Ele levantou-se, e me beijou na bochecha novamente.
– Você me avisa assim que chegar em casa por favor?
– Aviso sim. Muito cuidadoso o senhor...
Falei rindo para ele, e ele segurando a minha cintura.
– Você não faz ideia! Eu preciso voltar pra ligação! Dá um beijo na Dulce!
– Será dado! Até amanhã!
Até.
Ficamos nós olhando. Balancei a cabeça e sai da sala. Suspirei, será que a minha vida agora seria movida a suspiros?
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