Mudando os Rumos
8 Capítulo 8
Capítulo 8
Quando paramos de nos beijar, ambos estávamos ofegantes.
Meu coração batia acelerado.
Há muito tempo eu não era beijada daquela forma.
Ou melhor, eu nunca havia sido beijada daquela maneira.
Os beijos do Quim sempre foram gentis, porém desprovidos de intensidade de paixão.
Ainda eram os mesmos beijos hesitantes, tímidos.
Demos as mãos e ele começou a me conduzir pelo caminho.
Eu ia em silêncio ao seu lado.
Quando vi, estávamos na porta de sua casa.
— Vem, você precisa tirar essa roupa molhada senão vai ficar doente. – disse me conduzindo até o banheiro.
Entrei no banheiro, e comecei a tirar meus sapatos.
Ele me trouxe uma toalha limpa e um roupão.
Mostrou a porta em frente, indicando que aquele era seu quarto, e saiu do banheiro fechando delicadamente a porta atrás de si.
A república onde ele vivia era maior do que a pensão onde eu morava, havia mais quartos e dois banheiros. Tinha também uma pequena sala com sofá e televisão.
Não vi ninguém na casa, provavelmente tinham saído para aproveitar a noite de sábado.
Entrei embaixo do chuveiro, a água era quente, agradável.
Não pensava em nada naquele momento, apenas sentia a água caindo sobre meu corpo.
Quando terminei o banho, me sequei, vesti o roupão e enrolei a toalha na cabeça.
Detestava ficar com o cabelo molhado, mas acho que ninguém devia ter um secador de cabelo por ali.
Minhas roupas estavam completamente molhadas.
Deixei as peças em um canto do banheiro.
Quando saí, fui até o quarto que DC havia me mostrado e entrei.
Ele já estava lá dentro, sentado na cama.
Ele também havia tomado banho e trocado de roupa.
Vestia uma regata e uma bermuda.
Quando entrei, ele se levantou e veio até mim.
— Podemos conversar agora? – disse me encarando sério.
Não respondi.
— O que aconteceu com você? Por quê você apareceu aqui daquele jeito? Por quê gritou comigo?
Eram muitas perguntas... E eu não sabia responder nenhuma delas.
Me sentei na cama ignorando suas palavras e fiquei olhando para a janela vendo a chuva cair.
— Magali, você tá me assustando! O que você tem? Responde, por favor! – disse em tom de súplica.
Depois de um longo suspiro, respondi:
— Não tenho nada... Estou bem.
— Opa, com certeza. Você tá ótima! Aparece aqui no meio da noite, toda molhada gritando feito uma louca. Bem normal mesmo... – sua voz era de um sarcasmo ímpar.
— Por que você me beijou? – perguntei de repente lhe interrompendo.
Ele ficou calado me encarando, seu rosto ficou levemente corado.
Parecia que estava escolhendo as palavras, por fim respondeu:
— Você estava meio histérica naquela hora, eu não sabia o que fazer... Foi a única coisa que me veio na mente naquele momento.
Então aquele beijo não tinha significado nada pra ele?
Me senti uma completa imbecil.
Aquele tempo todo me iludindo, achando que ele sentisse algo por mim...
Senti as lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto.
— Eu preciso ir embora – disse me levantando bruscamente.
— Tá louca? Olha só a chuva que tá caindo lá fora.
— Eu quero ir embora.
— Magali, pára de ser teimosa! Não tem condições de você sair agora.
Sentei na cama bufando de raiva.
Eu não queria olhar para o rosto dele.
Não queria ouvir a voz dele.
— Vou pegar uma roupa pra você vestir.
Quando a chuva passar eu te levo em casa.
Soltei um suspiro de impaciência.
— Você é tão magrinha... Acho que não tenho nada que te sirva – disse enquanto procurava algo no guarda-roupa.
— Eu já disse que quero ir embora! — gritei.
— E eu já falei que te levo assim que a chuva passar! – ele respondeu nervoso.
Ficamos por um momento nos encarando.
— Toma, pega essa camiseta. – disse me entregando a peça de roupa.
Peguei a peça da mão dele e joguei em cima da cama.
Ele ficou apenas me olhando sem dizer nada.
Ele pegou um dvd que estava em cima da escrivaninha e disse:
— Eu preciso assistir esse filme, tenho que fazer uma resenha dele pra aula e entregar na segunda. Vou estar lá na sala. Quando você estiver mais calma, e se quiser, pode ir assistir comigo. – disse enquanto se virava e saia.
Fiquei observando enquanto ele deixava o quarto e fechava a porta atrás de si.
Comecei a pensar em tudo o que tinha acontecido naquele dia, cada detalhe.
Quando me lembrei da cena ridícula que havia feito mais cedo, me senti envergonhada.
Não havia a menor lógica para eu ter me descontrolado daquela forma.
O DC não havia feito nada de errado, fui eu quem me deixei levar achando que algo pudesse estar acontecendo entre nós.
Ele flertava comigo ás vezes, mas até aí, não era nada de mais.
Em nenhum momento ele havia demonstrado que tinha interesse amoroso por mim.
E mesmo que tivesse, ele sabia que eu era comprometida.
Eu lhe devia um pedido de desculpas...
Vesti a camiseta que ele me deu.
Ela ficou enorme em mim, parecia um vestido.
Me senti desconfortável por estar sem nada por baixo, mas minha roupa íntima estava completamente encharcada, não tinha como vesti-la.
Tirei a toalha da cabeça e penteei os cabelos.
Saí do quarto e fui até a sala.
Ele estava sentado no sofá assistindo ao tal filme.
Sentei na outra ponta do sofá em silêncio.
Ele apenas me olhou sem dizer nada.
O filme se chamava Freud Além da Alma, e retratava o início de sua carreira e de suas descobertas.
Eu não estava com a menor vontade de ver aquele filme.
Só queria ficar ali, junto com ele.
— Tá com fome? Quer comer alguma coisa? – ele me perguntou.
Sua voz agora era carinhosa.
Acenei positivamente com a cabeça.
— Acho que sobrou pizza de ontem, vou ver... – disse enquanto ia para a cozinha.
Logo ele voltou com a caixa de pizza e um copo de refrigerante e colocou em cima da mesinha de centro.
— Você não vai comer? – perguntei.
— Não tô com fome, eu já comi mais cedo. — ele respondeu sem tirar os olhos da tevê.
Comi em silêncio.
Depois de comer, comecei a me sentir sonolenta.
Aquele dia tinha sido muito estressante e exaustivo.
Também sentia um pouco de frio.
Minha pele estava arrepiada.
A chuva ainda continuava caindo forte lá fora.
Me encolhi no sofá.
— Tá com frio? – disse me olhando.
— Um pouco. – respondi baixinho.
Ele levantou e logo voltou com um cobertor.
Me enrolei nele e deitei encolhida no canto do sofá.
Acabei adormecendo.
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