Mudanças
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Gustavo não conseguia acreditar no que aquela garotinha tinha acabado de falar. Cecilia estava verdadeiramente mortificada e fazia uma expressão que beirava o desespero. E eu? Bom, eu não pude resisti e cai na gargalhada.
Cecilia não conseguia acreditar no som que estava ouvindo, trabalhando para o homem a meses, nunca o tinha ouvido gargalhar como agora.
– Dulce Maria minha filha!
– O que mamãe? Ele achou engraçado e eu nem sei o porque.
Gustavo parou de rir, com um pouco de custo e olhou as duas.
– Achei engraçado, porque ninguém nunca me chamou assim. Você realmente é uma criança? Tem certeza Cecilia?
Cecilia não conseguia acreditar que além de saber rir, ele agora lhe chamava pelo primeiro nome.
– Eu só estou curioso com uma coisa... De onde você tirou isso?
Perguntou a Dulce.
– Da minha mãe ué. Ela que disse lá em casa, que o chefe dela é emburrado e que se ela se atrasa você briga com ela.
– Interessante. Qual é o seu nome?
– Dulce Maria.
A garotinha me deu um sorriso genial. Igual ao da mãe.
– Eu me chamo Gustavo. Bom Dulce, eu espero que você se comporte, e que eu não precise ficar emburrado com você. Sua mãe e eu precisamos trabalhar. Ok?
– Ok. Mas não fica muito perto da minha mamãe, eu não gosto de homens masculinos que eu não conheça perto dela.
Eu fiquei sem ação. Cecilia parecia ter perdido o dom da fala.
Eu não conseguia acreditar no que a Dulce estava falando. Depois dessa ultima, a levei até a minha sala, que era um anexo da sala do Lários.
– Dulce... Minha nossa senhora Dulce! Eu tô tremendo Dulce Maria!
– Mas eu não fiz nada mamãe...
– Tudo bem. Eu preciso ir trabalhar, vai ser em uma outra sala. Qualquer coisa que você vier a precisar, fala com a Silvana. Tá vendo aquela portinha ali? É o banheiro.
– Eu vou ficar bem! Pode ir. E mamãe?
– Oi...
– A gente pode ter pizza no jantar? Eu já tô de castigo... É só uma pizza!
– Tudo bem. Eu tô indo, por favor, se comporta.
– Prometo que juro!
Sai da minha sala mais tremula. Não achei que o Lários fosse ser tão bom comigo, como foi com a Dulce.
– Sua filha é muito esperta. Quantos anos ela tem?
– Cinco. E obrigada, sinto muito pelo o emburrado. Crianças não tem filtro mas a Dulce, essa é especial.
– Aparentemente, ela aprendeu sobre isso em casa.
Ele deu um sorriso lascivo, nunca o tinha visto sorrir daquela maneira. Eu corei.
– Me desculpe sobre isso senhor Lários.
– Tudo bem.
– Vamos trabalhar!
Fomos para a teleconferência e tudo ocorreu sem problemas.
Voltamos para a sala e eu ouvia a Dulce cantar, fui em sua direção, e ela me olhou e sorrio. Eu dava a minha vida por aquele sorriso.
– Mamãe a gente já pode ir?
– Sim!
– Pizza! Pizza! Pizza!
Ela entoava enquanto eu pegava a minha bolsa. Quando estava fechando a porta, ela me disse que havia esquecido um desenho. Voltou para buscar, e quando passou na mesa do Gustavo, ela parou na frente dele.
– Eu fiz pra você!
Ela disse entregando um desenho pra ele.
– Ah muito obrigado! Espero que você não tenha me desenhado emburrado!
– Eu fiz você sorrindo, você fica muito bonito quando sorri. Neh mamãe?
Cecilia corou pela a segunda vez no mesmo dia. Gustavo a olhava como se esperasse uma resposta.
– Se a gente demorar mais aqui, não vai ter pizza!
Falei como sequer tivesse ouvido a pergunta da Dulce, claro que o meu rosto vermelho me denunciava mas era o máximo que podia fazer depois de tudo.
– Então vamos logo porque a minha “rabiga”... Barriga tá cheinha de fome já!
– Tchau Gustavo.
– Tchau Dulce, Cecilia.
– Até logo.
Chegar em casa foi fácil, o complicado da noite, foi convencer uma Dulce Maria que ela mesmo sem ter que ir a escola no dia seguinte, ainda assim precisava dormir cedo.
– Mas mamãe...
– Sem mais Dulce. Eu preciso descansar, você no fundo também está cansada, meu amor. E mesmo não indo a escola, você vai precisar acordar no horário normal pra ficar com a Ana, enquanto eu vou trabalhar.
– Você deveria me levar.
– Não mesmo! Nem pensar!
– Porque?
– Simples, o trabalho da mamãe, não é lugar pra você ir.
– Tudo bem.
– Boa noite meu amor, dorme bem.
– Te amo mamãe.
Cecilia saiu do quarto da Dulce e foi arrumar algumas coisas, organizar a casa. Porque assim que Dulce chegava, é como se o rastro de um furacão fosse sendo deixando.
Ela estava psicologicamente exausta, e o dia de hoje não fora fácil. Não tanto pela a travessura da Dulce, mas sim, pelo ocorrido no trabalho.
Ela não queria e não devia deixar a imaginação tomar conta. Mas em um certo momento, foi impossível de segurar. E ali imaginou, um dia qualquer, passeando no parque com a Dulce... E o Gustavo junto. Balançou a cabeça pra retirar essas imagens da mente.
Tudo que Cecilia não queria nessa vida, era se envolver romanticamente com o Gustavo. Mas vê-lo interagindo com a Dulce, por mais rápido que tenha sido, mexeu com ela.
Cecilia só tinha tido um único namorado, aquele que considerou mais importante. Ou pelo menos, que ela considerava como um relacionamento mais maduro. Foi com o André. Eles se separam depois de um tempo, o mesmo forçava demais a barra. Não sabia, ou não queria esperar pelo o tempo da Cecilia. Por isso, ela resolveu dar fim ao relacionamento. Na época ele fazia faculdade de medicina, e depois não se falaram mais. A vida seguiu.
E hoje em dia, com 24 anos e uma filha de cinco, pouco parava pra pensar nessa parte da sua vida. Sempre sonhou com uma família, sua família. E estava feliz com a família que tinha, ela e Dulce.
Cecilia deitou-se para dormir, mas sua cabeça parecia um redemoinho de tantos pensamentos. Pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo. O corpo cansado devido ao adiantado da hora mas seus pensamentos, esses não cessavam. E a ultima coisa em que pensou foi o quão bonito o Gustavo ficava sorrindo.
Gustavo chegou em casa e foi recebido por Silvestre. O mesmo lhe olhava estranho.
– O senhor está bem?
– Sim Silvestre. Tá tudo bem.
Falei ainda sorrindo.
– O senhor gostaria que eu servisse o jantar?
– Sinceramente, não precisa se incomodar com isso. Eu faço um sanduíche com qualquer coisa que tenha na geladeira. Pode ir deitar se quiser.
– Sim senhor.
Silvestre se retirou, e fui para o meu quarto. Olhando ao redor. Tudo que eu havia conquistado nesses quase seis anos. Como minha vida tinha mudado.
Sempre achei que teria a Tereza, que seria com ela que eu poderia dividir todas essas conquistas. Mas não. Minha vida deu uma guinada ao contrário de tudo que eu achava que seria, e que depois disso, de tudo pelo o que passei nunca me preocupei em reconstruí-la. Ou nunca conheci ninguém que valesse a pena.
Mas aquela garotinha, parece que deu um clique dentro de mim. A essa altura da vida eu já poderia ser pai, ter uma família pra quem voltar toda noite. Talvez fosse hora de começara olhar com mais cuidado as mulheres que conhecia, vai que ali eu pudesse encontrar uma companheira.
Não que as ultimas me dessem qualquer esperança, pelo o contrário, eram ouvir as palavras empresário bem sucedido, que os olhos delas brilhavam, mas todas, sem nenhuma exceção, eram interesseiras. Com o passar do tempo, você começa a ter um uma especie de tato pra esse tipo de gente.
Voltei a pensar na Cecilia, pensamentos esses que não eram novidades nenhuma. Eu poderia não falar muito mas era um ótimo observador. Podia dizer só de olha-la se ela estava estressada ou não, se voltada bem do almoço, sabia que ria por qualquer besteira que lhe fosse contada. Mas eu me aproximar, fora de cogitação. Seria facil demais me deixar levar, ela é uma mulher doce, linda, inteligente. E eu sei, o quão a serio ela leva o seu trabalho. E ela sendo uma mãe solteira, ao que tudo indicava, coloca uma relação amarosa em outro nível.
Tomei banho, voltei pro quarto e quando estava abrindo minha pasta, o desenho que a Dulce me fez caiu. Ela me desenhou atrás de uma mesa e sorrindo. Sorri novamente olhando.
Desci pra comer, quando fechei a geladeira, decidi prender o desenho ali. Não entendo o porque, mas ele me dava uma sensação de alivio. Algo bom estava vindo. Não sabia como, ou quando mas estava vindo. Ou fosse o simples fato, de um desenho aquecer um coração surrado.
Gustavo deitou-se, e que dia que tinha tido, foi chamado de emburrado por uma criança de cinco anos, e isso foi o ponto alto do seu dia.
Antes de pegar no sono, lembrou o quão bonita Cecilia ficava ao corar. Queria faze-la corar mais vezes.
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