Mudanças

5 Capítulo 5


Notas iniciais
Boa pessoas! Vou fazer um pequeno esclarecimento aqui quanto a questão burocrática que se encontra no capítulo. Se eu fosse fazer de acordo com a realidade, iria demorar demais... Encher uma linguiça pra vocês, por isso resolvi ser prática. Boa leitura! Gente muito obrigada pelos comentários de vocês ♥ Desculpem qualquer erro de digitação :D

Cecilia estava verdadeiramente estarrecida com o que via na sua porta. COMO ASSIM TINHA UMA CRIANÇA!?

Cecilia acordou a menina, que no mesmo momento que a viu, ficou assustada.

— Oi. Você pode me dizer, o que faz dormindo na porta da minha casa? Só por curiosidade mesmo.

Falei sorrindo, pra ver se a garotinha relaxava um pouco, no mínimo ela estava perdida.

— Eu só parei aqui pra descansar um pouquinho moça, foi só isso.
— Tudo bem. Mas eu preciso entrar. Que tal você levantar e a gente terminar essa conversa lá dentro? Tá até mais quentinho lá!
— Tá bom.

Cecilia abriu a porta e elas entraram. Cecilia pediu que a garotinha sentasse a mesa, e no mesmo instante começou a servir tudo que tivesse na geladeira, que serviria pra fazer um sanduíche frio. Com toda certeza, ao olhar pra garotinha, viu como a mesma olhava pra comida e Cecilia sabia que a menina não tinha comido muita coisa.

— Tudo bem, vamos comer!
Cecilia falou e colocou as mãos na massa, preparando um sanduíche pra garota e pra ela.
— Então, meu nome é Cecilia. Qual é o seu?
— Dulce Maria.
A Dulce falou com a boca cheia.
— Bom Dulce, agora que já sei seu nome, eu preciso saber de mais uma coisa. Você pode me dizer onde estão seus pais?
Dulce podia mentir, dizer que morava em uma rua mais distante e que tinha perdido a hora de ir pra casa, mas aquilo não era o certo. Ela não queria mais mentir. Então respirou fundo, colocou o restinho do sanduíche no prato e começou a falar, e a chorar. Nem ela mesma entendia o que estava dizendo, mas não conseguia parar.
— Dulce, pra que eu possa te entender, eu preciso que você se acalme ok? Respira fundo e começa a falar.
— Eu fugi do orfanato cinza e triste. A gente tava de mudança pra outra cidade, quando o ônibus parou, eu desci junto com todos dizendo que ia ao banheiro e fugi. Nem deram conta, porque o ônibus seguiu viagem.
— Dulce a essa hora eles devem estar muito preocupados com você.
— Tão não Cecilia. Olha, eu vou comer e seguir viagem, você não precisa se preocupar. Eu sei me cuidar.
Cecilia nunca ouvira uma criança falar com tamanha seriedade na vida. Não que ela tivesse muito contato com crianças, mas ainda assim. Era como se Dulce Maria fosse madura demais pra idade.
— Dulce, eu não posso deixar que você siga viagem. Você é uma criança e precisa de ajuda. Olha, eu vou te levar na polícia e lá, eles podem contatar alguém pra ficar com você, até que localizem alguém do orfanato que você vivia. Tudo bem?
Naquele momento Dulce começou a chorar e a tremer um pouco. Cecilia ficou preocupada. A garotinha começou a dizer que queria ir embora, mas que nunca mais na vida voltaria para aquele lugar.
— Cecilia, lá ninguém gosta de mim. Me colocam de castigo por qualquer coisa. Me dizem que eu não sou boa o suficiente porque nenhuma família me quis. Que eu sou um peso no mundo, e eu nem sei o que isso quer dizer. Eu choro toda noite, meu coração tem um buraquinho vazio por causa daquele lugar, minha “rabiga” fica fria o tempo todo, eu não posso voltar pra lá. Não posso. Não me leva por favor.
Nesse momento o coração de Cecilia deu um parada, a meninaa estava a abraçando, não que nunca tivesse sido abraçada antes por crianças, claro que já fora. Mas naquele momento, parecia que um fio invisível estava sendo tecido e ligando as duas. Um sentimento forte.

Cecilia bem sabia o que era chorar a noite, não saber o que é ter um lar de verdade. Os pais norreram cedo e ela e irmã, acabaram em um colégio interno por anos. Só saiu de lá depois de formada e maior de idade. Sabia que por isso, estava sendo tão empática pela a história da Dulce.

Mas de qualquer forma, ela não podia ficar com ela em casa e não dizer a ninguém. Era tarde mas precisava fazer uma ligação. Ligaria para Cristovão e eles veriam o que poderiam fazer por Dulce Maria. E foi o que fez.

Por telefone Cecilia explicou tudo a Cristovão, também enfatizou que a Dulce não queria voltar para o orfanato e que ela queria fazer algo sobre isso. Garantir que a menina ficaria bem. E ele lhe disse, que única garantia seria se ela se propusesse a ficar com a mesma. Porque de outra forma, a menina seria enviada a outro orfanato.

Ela respirou fundo e perguntou o que precisava fazer. Ele explicou que precisavam ir até uma delegacia da criança e do adolescente e lá resolveriam junto a uma assistente social. Eles iriam naquela mesma noite. Cecilia disse que elas o encontrariam lá e foi falar com Dulce.

Dulce continuava sentada a mesa com um olhar preocupado e olhava a casa como se procurasse uma saída.

— Dulce, eu conversei com uma amigo que é advogado e ele me disse o que nós devemos fazer.
— Cecilia eu não voltar...
— Calma, eu preciso que você se acalme, pra que eu possa te explicar tudo. Tá bom?
— Tá bom...
— Ele me explicou, que nós precisamos ir até a polícia.
Os olhos dela cresceram. Eu vi que ela estava entrando em pânico.
— Dulce, eu preciso que você se acalme ok? Me deixa explicar tudo. Nós vamos a polícia e lá vamos falar com uma assistente social, que é especializada em cuidar de crianças como você. Que não tem família. E quando nós formos falar com ela, eu vou explicar que eu quero cuidar de você.
— Você vai cuidar de mim? Eu vou poder morar aqui na casa amarela e bonita?
— Sim, você vai.
— Mas pra que seja assim, nós vamos conversar com a assistente social e contar o que você me contou. A forma como era tratada e que fugiu sem dificuldades deles.
— É que eu sou boa fazendo planos!
E piscou pra Cecilia!
— Tudo bem, mas agora precisamos ir.
— Você segura a minha mão? O tempo todo?
— Sim, o tempo todo.

E assim as duas se encaminharam para a delegacia. Não foi uma noite fácil, primeiro porque eles explicaram que o a forma padrão de lidarem com esse tipo de procedimento, era sim, a criança ser enviada a uma instituição até que um juiz pudesse conceder a tutela para o requerente. E que o mesmo deveria estar em uma lista de pessoas aptas a adotar.

O coração de Cecilia apertou, porque afinal, ela nunca pensara muito nisso, em filhos. E agora se via nessa situação.
Cristovão interveio. Explicou mais uma vez o caso e falou da ligação afetiva feita de imediato entre elas, e fora, que Dulce sempre foi muito maltratada nesse orfanato e que era certo que ela fugiria de qualquer outro em que fosse colocada, e que Cecilia seria o mais seguro para a menina.

Enquanto isso, Dulce conversava com a assistente social e lhe explicava tudo pelo o que já tinha passado. Falou o quão feliz estava por ter achado a Cecilia e que ela tinha cheirinho de mamãe. Ela tinha certeza que aquele cheiro dela, era de mamãe sim.

E assim, após todo o estresse e de ligações de ambos os lados, a tutela de Dulce foi concedida pra Cecilia naquela mesma noite. Mas o processo de adoção, ainda levaria alguns meses. Mas como disse Cristovão, elas não tinham o que se preocupar. Era uma causa ganha.

Cecilia aceitou a carona de Cristovão e quando chegaram em casa, ela agradeceu ao amigo. Não tinha palavras que fossem suficientes para mostrar o quanto aquilo significava pra ela. E ele apenas lhe disse, que amigos serviam pra isso, ajudar um ao outro.

Elas entraram em casa. E no mesmo instante a Dulce começou a chorar.
— Ei, eu posso saber porque você tá chorando?
— É que agora eu tenho uma casa Cecilia, uma casa!
— Sim, você tem!! E também vai a escola, vai brincar e vai me prometer que nunca mais vai dormir chorando. Promete?
— Eu prometo que juro!
E Dulce abraçou a Cecilia. Um abraço apertado.
E a partir daqule momento, elas estavam formando um laço único, estavam tornando-se mãe e filha.
Dulce sentiu, que o buraquinho que tinha no coração estava preenchido, não existia mais. E a Cecilia sentia seu coração crescer. E sabia que não havia nada que não fizesse por essa menina.

Depois daquele abraço e do excesso de sentimentos, ambas precisavam dormir. O dia de amanhã seria corrido, Cecilia precisava ver uma escola pra Dulce, já que tinha que estar cedo no trabalho.
Comeram mais uma vez, tomaram banho, e Dulce mostrou a Cecilia sua mochila, ela viu que não tinha muitas roupas mas que uma servia pra dormir, pelo menos naquela noite. Também via a foto, que a Dulce disse, ser da sua mãe. Era uma mulher muito bonita. E dentro ainda tinha uma carta. Estava dirigida a Dulce, mas a menina disse que não quisera ler antes e que não queria agora.
Cecilia percebeu que Dulce falou com medo, acreditou que ela tinha receio em descobrir o porque de ter sido abandonada. Ela entendeu, e falou que iria guardar a carta, e que quando ela se sentisse segura, elas podiam ler juntas. Dulce concordou.

Naquela noite, Dulce dormiria no quarto com Cecilia, já que o segundo quarto estava praticamente inabitável, tinha muitas caixas lá e uma cama sem colchão. Ela precisava organizar muita coisa nesse curto fim de semana. Inclusive levar Dulce as compras, ela não podia ficar só com aquelas roupas. Decidiu fazer uma listinha com tudo que deveria resolver. De prioridade era a escola e um colchão. Depois disso, olhou para o lado e Dulce já dormia, sorrio e parou por segundos, pensando que em questão de horas a sua vida mudou da água pro vinho. Beijou aquela bochecha gorduchinha da sua menina e deitou pra finalmente dormir.

Dulce dormiu quase que automáticamente. E dormiu como nunca dormira na vida, sentindo-se segura.

Cecilia acordou cedo no sábado, deixou Dulce dormindo e foi preparar o café da manhã. Enquanto fazia isso, lembrou da Escola Doce Horizonte, que inclusive tinha um horário estendido, o que seria perfeito pra ela. Seria apenas uma questão de encontrar alguém pra ficar com Dulce por mais duas ou três horas até ela voltar do trabalho.
— Dulce... Tá na hora de levantar.
Pera, tá cedo! Muito cedo!
De repente ela sentou ereta, e olhou ao redou, como se estivesse se situando.
— Não foi um sonho! Eu tô aqui com você!
E abraçou Cecilia forte, pulando da cama e saiu correndo pra cozinha.
— Dulce não corre por favor!
— Tá!
Ela gritou enquanto corria.
Elas tomaram café da manhã, tomaram banho.E mais uma vez Cecilia se impressionou com o quanto mau cuidada estavam as roupas de Dulce.
Cecilia colocou um vestido nela e foi se vestir.
— Dulce, olha só, tem um colégio aqui na cidade que você pode passar o dia todo lá, enquanto eu estou no trabalho. O que você me diz?
— Mas eu vou dormir aqui neh? Em casa?
— Claro meu amor, eu vou te buscar depois do trabalho, ou você fica com alguém até que eu chegue em casa. Entendeu?
— Sim pi ri rim!
— Essa é nova! Tudo bem, vamos sair de casa e organizar tudo!

Dulce segurou a mão de Cecilia e as duas saíram de casa. A primeira coisa e mais importante a ser resolvida, seria a escola.
Dulce Maria adorou a escola, era grande, cheia de espaços infantil. Meninas em todas as idades, a escola era destinada apenas a meninas. As duas foram recebida pela a diretora Maristela. Uma senhora de meia idade mas com um sorriso bondoso.

— Então dona Cecilia... A senhora gostaria de conversar? Dulce você pode brincar ali no parquinho enquanto eu converso com a sua mãe.
— Vai Dulce!
Cecilia contou toda a história para a diretora, seria importante que ela soubesse de tudo. Principalmente em questão para a adaptação da Dulce.
— O nosso horário máximo vai até as 17h.
— Está ótimo. Eu vou falar com a minha vizinha que tem duas filhas e elas estudam aqui, pra que ela fique com a Dulce depois da escola. Até que eu chegue do trabalho.
— Então está acertado.
Cecilia passou na recepção e acertou tudo. Comprou e pagou tudo que deveria e saiu com Dulce.
O resto do dia, correu. Resolveram o colchão, mais umas roupas de cama e banho e fora, roupas e sapatos pra Dulce. Ufa!

— Cecilia eu quero ir pra casa. Não aguento mais andar. Isso de shopping de mulheres femininas adultas é muito chato!
— Dulce, eu sei. Eu também tô cansada. E sim, nós vamos pra casa nesse exato momento.
Elas foram pra casa. Chegaram cansadas. Cecilia deixou que Dulce descansasse e foi arrumar o quarto pra Dulce.

Foi uma faxina! Muito bem feita e exaustiva. Mas ela conseguiu resolver tudo. Tudo arrumado e no lugar.
Dulce amou o quarto, nunca tivera um só seu na vida, adorou que fosse amarelo, disse que amarelo era feliz, como ela era agora.

Enquanto Dulce brincava na sala com alguns brinquedos que compraram, Cecilia foi preparar o jantar, optou por uma sopa, fácil de fazer. A sopa estava no fogo e Cecilia foi falar com a vizinha. O nome dela era Ana, e tinha duas filhas, em idades bem próximas a Dulce.
Cecilia explicou a situação a Ana, que entendeu, e que sim, disse que ficaria com a Dulce depois da escola. Que Cecilia não precisava se preocupar. Foi um alivio poder resolver tudo.

Dulce saiu de casa, foi atrás de Cecilia, e a encontrou conversando com uma moça e duas meninas.
— Cecilia, eu tô cheinha de fome...
— Oi mocinha, eu já estou indo. Vem aqui que eu quero te apresentar a algumas pessoas.
Dulce vai até Cecilia e olha cheia de curiosidade, principalmente as meninas.
— Dulce, essas são a Ana, que é a mãe da Adriana e da Valentina, elas estudam na mesma escola que a sua, e você vai estudar na mesma turma da Adriana.
— Oi!
Dulce cumprimenta sorridente.

Cecilia aproveita, e explica pra Dulce que ela vai ficar com a Ana e as meninas todos os dias depois da escola, e em finais de semana que ela venha a precisar e ir trabalhar.
— Tudo bem Cecilia. Eu prometo que juro que vou me comportar direitinho!
— Eu sei que você vai!
As duas estavam entrando quando Ana chama Cecilia.
— Cecilia que tal depois do jantar a Dulce vir aqui em casa pra ver um filme e brincar junto com as meninas?! O que vocês acham?
— Por mim tudo bem, você quer ir Dulce?
— Sim pi ri rim!
Adriana e Valentina também concordaram e entraram já gritando que estavam apressadas pra comerem.

Dulce também não ficou pra trás na pressa de comer e ir brincar. Pela primeira vez parecia que finalmente teria amigas.

Dulce brincou, viu filme e conversou, contou suas experiências de vida. Já dizia que sabia muito. As meninas a tudo ouviram caladas e um pouco impressionadas, afinal, ate poucos dias Dulce sequer mamãe tinha. E isso era terrível pra qualquer criança.
Dulce fez questão de dizer o quanto feliz estava agora que encontrou a Cecilia.

Brincaram mais um pouco. E quando Cecilia foi chama-la pra dormir, Dulce já tinha combinado mais brincadeiras para o dia seguinte, afinal teria aulas numa escola diferente na segunda-feira.

Contou tudo que fez a Cecilia. E na hora de dormir, ganhou um abraço e um beijinho de boa noite, o que esperava que entrasse na rotina.

Cecilia só conseguiu colocar Dulce na cama e se preparar para fazer o mesmo. O dia foi exaustivo, tinha certeza que com o passar dos dias tudo entraria na rotina.
O mais importante no final de tudo, era que a sua menina já dormia feliz e protegida.
E no que dependesse dela, sempre seria assim.

Notas finais
Gente tô tão exausta quanto Cecilia depois desse dia corrido! Quero avisa que no fim de semana provavelmente não vou postar, são meus dias pra me organizar com os assuntos da faculdade. Obrigado por lerem! Bjos