Mudanças
35 Capítulo 35
Notas iniciais
A semana passou correndo. Sem mais confusões na escola, o local do casamento estava quase acertado, mas ainda havia o problema da data, eles precisavam saber, quando os papéis estariam prontos, pra aí sim, marcarem uma data. Os outros detalhes, Cecilia queria a opinião da irmã.
Sexta-feira a noite, no dia seguinte a tia Fátima iria chegar, Dulce só falava com ela pelo o celular da mãe. Ver ao vivo dava um frio na barriga. Ela fez um desenho e escreveu um pequeno cartão pra tia. E amanhã entregaria pra ela. Tudo estava mudando, a mamãe iria se casar com o papai, o irmão já estava na barriga dela, a tia perucas e o tio Vítor também iriam sair do apartamento logo. Logo, logo, seria apenas, ela e os pais. Não que fosse ruim, mas ela gostava da casa cheia.
Cecilia estranhou a quietude da filha, já estava a mais de uma hora no quarto, em plena sexta-feira a tarde.
Quase se esbarraram no corredor.
— Porque tanto tempo no quarto? Tá se sentindo bem amor?
— Tô mamãe! Eu tava escrevendo um cartão pra tia Fátima e fazendo um desenho! Pra ela se sentir bem vinda.
— Tudo bem. Você quer me mostrar?
— Sim pi ri rim!
O desenho era bem detalhado, céu azul, flores, e o que parecia uma família brincando. Pelo o Cecilia viu a irmã iria ficar sabendo da sua gravidez pelo o desenho, porque nele ela já estava redonda. E estava tudo bem. Parecia uma boa maneira da irmã saber da novidade.
Dulce apontou quem seria Fátima no desenho, e ela brincava junto com eles. Também lhe mostrou o cartão, onde dizia que ela é o irmão estavam felizes pela tia morar pertinho.
Por segundos, Cecilia pensou se a filha ficaria decepcionada se descobrisse no final das contas, que ela esperava uma irmãzinha e não um príncipe, como a mesma já chamava o bebê.
Ela iria conversar com filha. Talvez, apenas talvez, esse querer um irmão, fosse ciúmes ou insegurança.
A mãe lhe disse que tudo estava lindo. Que a tia iria amar. Dulce reclamou que estava com fome, a mãe lhe disse que cortaria frutas para elas, mas ela lhe disse, que sua fome era de pipoca. A mãe que ficasse com as frutas. Cecilia acabou optando por ficar com os dois. A tarde foi de filme, pipoca e frutas.
Gustavo ansiava pelas noites de sexta-feira, era quando tinha mais tempo com a filha e a futura esposa. Tinham tempo para serem família. Durante a correria da semana, eram dias de deveres de casa, assuntos de casamentos, datas a serem escolhidas. Mas hoje, por hoje, eles poderiam ficar no sofá, ver um filme, mesmo sabendo que Cecília dormiria em segundos, que Dulce veria tudo com ele e ambos iriam rir no final, que o momento que Cecília acordava. Essa rotina era perfeita. Sua vida estava finalmente chegando onde ele queria mas que o mesmo, jamais teve a coragem de dizer a si mesmo.
A cunhada chegaria no dia seguinte, decidiu que faria um almoço, assim todos poderiam se conhecer, e Cecília teria um tempo com a irmã.
Ao chegar em casa, ficou um tanto quanto desapontado, não foi recebido com entusiasmo, na verdade, foi recebido pelo absoluto silêncio.
Ao adentrar a sala, soube o porquê, a filha e a mulher dormiam no sofá. A casa em absoluto silêncio. Dulce abraçada a mãe, na verdade, mas parecia proteger a barriga que ainda era inexistente. Ambas agarradas uma a outra, como sempre foram e ele sabia, que sempre seria assim. Pegou o celular, e fez uma foto. Mais uma para a grande coleção. Um dia, ele iria revelar essas fotos. Fariam um álbum maravilhoso com elas.
Foi para o quarto, tomou banho, se arrumou e foi acordar suas meninas.
Gustavo sentou-se no chão, em frente ao sofá. E lá sentado, cantou uma música. Cantou É o Amor. Sabia que acordaria as duas. Mas Cecilia saberia que a música seria pra ela.
Cecilia acordou sorrindo, ouvir essa voz, era sempre a melhor forma de acordar, exceto talvez, quando ele cantava o mesmo, mas no seu ouvido. Fazendo com o que seu coração vibrasse.
— Papi essa música é muito velha! Mas é linda!
Dulce saiu do abraço da mãe, e ainda com carinha de sono, cheirinho de sono, o abraçou, ele sentia-se completo com ela. Ele sabia que perdeu algumas fases importantes, mas nada poderia tirar dele, tudo que ainda estava por vir.
— O Papi é velho! Você deveria saber disso!
— Então você é um velho muito bonito Papi, nem tem barrigona!
Os pais riram.
Toda a família acomodada na mesa, jantar servido, Dulce não para de falar. Os pais já sabiam que hoje a noite seria travada uma batalha para que a pequena dormisse. Afinal, estava ansiosa pela chegada da tia.
A batalha foi realizada, Dulce dormiu. Os pais foram para o quarto, e quando Cecilia saia do banheiro, enrolada na toalha, Gustavo a estava olhando.
— Deixa eu te ver?
— O quê? Assim? Não eu morro de vergonha!
Ela dizendo isso, e o rosto completamente vermelho.
— Amor, eu já vi tudo! Eu fecho os olhos e posso te ver...
— Para Gustavo!
— Anda, deixa eu ver se a nossa barriguinha já tá aparecendo!
Ele falou de um jeito, com um brilho nos olhos. Era difícil dizer não pra ele. Ela deixou que a toalha caísse e ficou de frente pra ele.
Ele olhou, chegou mais perto, mas a barriga continuava lisinha, como sempre fora.
— Amor, não tem nada ainda!
— Bom, eu vou te mostrar uma coisa que eu descobri hoje cedo.
Dizendo isso, Cecília pegou na mão de Gustavo e a colocou bem no ventre. Lá embaixo, já havia o que ela poderia chamar de ponto. Era arredondado é duro. Era ali, que o bebê estava.
Gustavo quando sentiu, o ponto que a mulher lhe mostrava, percebeu. Já era redondo, mas tão pequeno e frágil.
Ele a virou na frente do espelho, para que ela ficasse de lado, e eles viram. A pequena protuberância.
Cecilia deu um gritinho quando ele a pegou pela cintura e a beijou. A pegou no colo e a deitou na cama, encheu-lhe de beijos. Dá cabeça aos pés, venerou o lugar onde se encontrava o filho. Em seu ouvido, baixinho, enquanto faziam amor, ele lhe disse o quanto a amava, o quanto ela mudará a sua vida.
Ela sabia que cada beijo, cada suspiro, era uma forma de demonstração do amor que nos sentiam. Palavras eram insuficientes.
Cecilia sabia que deveria levantar, mas sentia-se pesada e relaxada demais. Procurou o relógio na mesa de cabeceira, eram quase sete da manhã, isso foi argumento suficiente para que ela levantasse.
Colocou o pijama. E foi acabar de fazer isso, e a sua menina bater na porta.
Gustavo acordou no susto e nu. Ele foi meio acordado e meio dormindo direto para o banheiro.
— Calma filha! Bom dia!
— Bom dia mamãe! Cadê meu Papi?
— Tá no banho! Porque nós duas não vamos escolher uma roupa bem legal pra você?!
— Tudo bem! Eu posso usar um laço azul?
— Claro.
Enquanto elas escolhiam a roupa, apesar de cedo, a casa já estava em movimento. Estefânia disse que ajudaria Dulce no banho, para que Cecilia pudesse fazer o mesmo.
Quando entrou no quarto, Gustavo estava pronto.
— Ainda bem que ela bate na porta!
Dizendo isso e beijando a mulher.
— Eu sei! Eu a eduquei muito bem, obrigada!
— O seu time é perfeito, porque se eu me lembro bem, você também dormiu nua, eu acordo e te vejo de pijama!
— Não fazia cinco minutos que eu tinha colocado! Eu sabia que ela estava vindo pra cá!
Cecília escolheu sua roupa. Ficou um pouquinho apertada na cintura, mas já era esperado.
Quando desceu, Dulce estava já estava na mesa, com o pai e os tios. A mesma tentava convencer o pai, a chamar o irmão de Steve.
— Eu posso saber o porquê de Steve?
— Simples, ele vai ser tão lindo quanto o Capitão América!
Gustavo fechou a cara, o restante da família sorriu.
— Não Dulce, eu não acho que Steve seja um bom nome.
— Mas mamãe, você mesma disse que ele era lindo!
Gustavo olhava da noiva para a filha, Cecília já tinha ficado vermelha.
— Sim... Ele, não o nome!
— Bom, se eu, posso opinar, vamos apenas suspender qualquer nome de super heróis!
— Tudo bem! Mas Antônio seria um nome bonito!
— Antônio?
Gustavo não via onde Antônio era nome de super herói.
— É papai, Tony Stark!
— Ok já chega! Sem heróis!
Gustavo estava quase se engasgando com o suco.
O tempo passou, e logo a família estava no aeroporto. Dulce perguntou ao pai, quando eles poderiam viajar de avião, ele lhe disse que nas férias escolares, e ela escolheria o lugar.
Cecilia já podia ouvir os gritos de Disney na cabeça da filha. Mas o olhar que ela lhe deu, fez com que a menina pensasse melhor antes de soltar a ideia.
Cecilia olhava o terminal de desembarque, sabia que em meio aquelas cabeças, estava a da sua irmã. Não demorou muito, e Dulce gritou e apontou para tia. A mesma já vinha numa mistura de sorriso e lágrimas. Era a mesma forma que Cecília se encontrava. Cecilia saiu na frente e abraçou a irmã. Um abraço tão necessário é esperado por ambas. Gustavo segurou um pouco Dulce, para que a mulher tivesse uns minutos com a irmã. Ele podia ver que ambas se olhavam, e se abraçavam, e se olhavam mais uma vez. Nunca perguntou quanto tempo elas não se viam.
Dulce se remexia para que o pai a soltasse. Conseguiu e saiu correndo, não era o mesmo nervosismo de encontrar a tia perucas, como da primeira vez. Esse nervosismo era bom, e lhe dava vontade de chorar. Já tinha visto a tia, já tinha falado com ela, mas sempre a distância. Então quando passou ao lado da mãe, ficou surpresa com o abraço apertado que a tia Fátima lhe deu. Lhe disse que estava feliz por vê-la finalmente, ao vivo. Por poder abraça-la.
Dulce lhe entregou o cartão. Fátima agradeceu e foi olhar.
— Dulce porquê sua mãe parece uma bola?
Dulce Maria riu.
— Não é uma bola tia! É o meu irmãozinho dentro da barriga dela!
Fátima olhou para a irmã, que lhe fez um sinal positivo. Ambas voltaram a chorar.
Gustavo se aproximou.
— Papai porquê elas choram tanto?
— Porque estão emocionadas. É só isso.
Gustavo foi apresentado. Mais abraços. Ele podia ver que Fátima era uma boa pessoa. Afinal, como não seria, sendo irmã de quem era.
Buscaram as malas. Enquanto estavam no carro, Dulce sugeriu que o almoço fosse no seu restaurante favorito. Gustavo avisou em casa e Vítor e Estefânia foram os encontrar lá.
Os assuntos eram muitos. Fátima falou da vida no Recife, não quis entrar em detalhes sobre o fim do casamento, afinal, Dulce estava lá.
Gustavo deixou a cunhada e a irmã na antiga casa. A muito custo, conseguiu convencer uma Dulce que estava irredutível a sair de perto da mãe, porque queria participar dos assuntos de mulheres femininas. Ele lhe disse que iriam a praça tomar sorvete. Depois de uma breve argumentação sobre o número de bolas, a filha foi com ele.
Fátima lhe disse o porquê do marido deixá-la, ela não podia ter filhos, é isso causou uma crise e ambos foram se afastando. Ela só descobriu depois do casamento, quando começaram as tentativas e nunca dava certo.
Cecilia a consolou, e lhe disse que ela não estava sozinha. Eram uma família. E estavam juntas.
Cecilia lhe contou sobre tudo, os detalhes do seu encontro com Dulce, a mudança que Gustavo representava para ambas, a descoberta da paternidade, e o do filho que esperava.
Depois de tantas lágrimas por infelicidade, era bom chorar de alegria. Fátima estava feliz por sua irmã. Nunca a viu tão radiante.
Fátima despediu-se da irmã, era a hora de colocar a vida de volta aos trilhos.
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