Mudança e monotonia
3 Parte terceira.
Notas iniciais
Não tenho interesse pela história de outras pessoas quando eu já estou absorvido pelas minhas próprias complicações. Mas quando ele pediu para que o escutasse, eu não poderia negá-lo. Mas também lhe avisei:
— Você sabe que eu posso não ter nada para te ajudar.
— Eu não quero ajuda exatamente. — Swen disse, juntando as pontas dos dedos das mãos umas nas outras, pensativo. — É porque eu confio em você, Félix, então eu queria que você soubesse um pouco mais de mim.
— Eu não preciso ouvir a sua história para te conhecer, sabe? Você é o que você é agora. — disse, arqueando uma sobrancelha, sem entender. — Mas se quiser insistir ainda, estou ouvindo. Sério, dessa vez.
Swen me agradeceu com os olhos, e era como se eu fosse o próprio abismo dessa vez, e não uma corda para sair dele. E sinceramente não sabia o que sentir a respeito disso, apenas não senti intromissão.
Ele me falou dos quadrados mais uma vez, que lhe lembrava das caixas que estava quase terminando de retirar seus pertences.
*
Então lhe falei sobre o morro dos ventos uivantes, aquela casa em que morei, em que tudo poderia acontecer, e ninguém ficaria sabendo, por causa da atmosfera criada, artificial, como se fosse um vento forte nos rondando.
Contei a ele daquele garoto que tentava me moldar, me colocar em caixas certas, com reações determinadas. Que ele continuava me perseguindo, mesmo na mudança, com Félix presente ou não, por conta daquelas caixas que gritavam padronizações. Nos quadrados, nos triângulos. Mas nem a matemática era tão precisa quanto aquele garoto queria ser, quanto queria que eu fosse.
Me oferecendo uma monotonia diferente da que eu buscava. Minha monotonia procurada, de mudanças cotidianas, longe de aparecer. E eu não poderia fazer muito, quando ele era a minha única companhia naquela casa, meu único vizinho com a minha idade, meu único “amigo”. E meus familiares não queriam que eu ficasse sozinho. Eu não poderia ficar.
Pelo menos até que eles decidissem se mudar para aquela cidade, separados e terrificados com a própria atmosfera que todos eles se empenharam em criar. Mas não era culpa de nenhum deles quando tudo o que queriam era que tudo desse certo entre todos nós.
O morro dos ventos uivantes, entretanto, não era o caos. Era o que havia em seu interior. Se a mudança estivesse lá, estaria oculta pelos fortes ventos, mas ainda seria uma mudança.
Se Félix estivesse lá, sua própria presença seria o suficiente para que eu quisesse permanecer pelo tempo que pudesse. Por isso lhe contava isso, porque queria que entendesse plenamente porque eu estava tão apegado a ele naquele momento, queria que entendesse que estava longe da monotonia que se julgava preso.
E ele sorriu para mim, um sorriso pequeno que de tão raro me espantou um pouco.
*
Abracei Swen, mas apenas com um dos braços, para que eu pudesse dizer um obrigado próximo do ouvido dele sem que parecesse estranho, mas já estava.
Já estava estranho, diferente, em mudança. Alguma coisa. Difícil ver que eu era tão particular como ele dizia. Mas, pelo menos, me sentia um pouco, e provavelmente por ouvir que eu era especial para ele.
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