Notas iniciais
Essa fic foi escrita especialmente (e exclusivamente xD) para minha amiga Nanda como presente de Natal. ^___^
Espero que ela goste e vocês também!

- Bom, pessoal, então isso é tudo por hoje. — Kai se levantou, guardando os papéis dentro da pasta.

– É bom mesmo! — respondeu Aoi, já irritado. — Se você dissesse que a gente tinha que ficar por mais cinco minutos, eu ia morrer de tédio.

– Yuu, não seja chato... — Uruha interveio, fazendo bico. — Faz parte do trabalho.

Mesmo assim, o Kai sempre obriga a gente a ficar trabalhando até a véspera do Natal... — o moreno continuou, mal-humorado como sempre.

– De qualquer forma.... — Kai voltou a falar, sorrindo já acostumado com o temperamento do colega. — estão dispensados, crianças! Boas festas e não quero mais ver a cara de nenhum de vocês até o ano que vem!

Os quatro riram, levantando-se animados. Todos tinham planos para as festas de fim de ano, e não viam a hora de tirar uma folga. Aoi e Uruha planejavam há tempos uma viagem a Kanagawa e Ruki passaria o Natal na casa dos pais, já que o sr. Matsumoto o havia praticamente intimado a passar pelo menos um Natal a cada cinco anos com eles.

Reita também iria para a casa dos pais, não porque havia sido intimado nem nada do tipo, mas porque adorava mesmo as comidas típicas que sua vó fazia nessa época do ano. Além disso, apesar de nunca admitir, já estava com saudades da família.

Os três primeiros já haviam saído, depois dos costumeiros cumprimentos e desejos de boas festas, quando Reita sentiu uma ponta de curiosidade sobre os planos de Kai para aquele fim de ano. Ninguém nunca sabia por onde andava o líder nessa época, tão reservado ele era. Reita sempre ficava curioso com relação às coisas que o outro fazia fora do ambiente de trabalho. Ninguém sabia quais eram seus hobbies além da música.

– Vai pra casa dos seus pais, Yutaka? — perguntou então, só agora notando como o moreno parecia cansado, no semblante um ar bastante carregado.

– Não, meus pais sempre viajam em Dezembro. Pra aproveitar as férias. — Sorriu melancólico.

– Não vão comemorar em casa como todo mundo? — o loiro voltou a perguntar, uma curiosidade genuína permeando suas palavras.

– Ninguém costuma celebrar o Natal na minha casa. São muito tradicionais.

– Sei... que chato. — Reita disse então, sem pensar. — Quero dizer, não é chato! É que...

Kai sorriu, mostrando suas covinhas amplamente para mostrar que não estava ofendido.

– Tudo bem, é chato mesmo. Ninguém ganha presente. — riu baixo, enquanto caminhavam para o elevador. — Mas não é tão ruim, quando eu estudava no templo, era pior. Tinha que passar o dia todo orando.

– Isso parece mesmo ainda mais chato – O loiro riu também. — Mas então onde você vai passar o Natal?

Kai pareceu envergonhado por um momento, evitando de repente o olhar do outro. Reita percebeu mais uma vez como ele parecia debilitado. Excesso de trabalho, com certeza. Suas olheiras estava maiores que o normal e ele parecia um pouco pálido.

– No meu apartamento. — respondeu, simplesmente, parecendo ainda mais incomodado pelo fato de estarem ali no elevador, portanto, sem ter como escapar da indagação.

– Vai passar o Natal sozinho?! — Reita quase gritou, surpreso, envergonhando-se no mesmo momento da reação exagerada. Tinha que parar com essa mania de falar as coisas sem pensar.

– Eu não ligo! — Kai respondeu, no mesmo tom surpreso, como se tentasse se desculpar pelo que havia dito. — Já estou acostumado, nunca celebramos o Natal na minha casa.

– Mas... Eu sei que não é uma comemoração que faça muito sentido na nossa cultura, mas mesmo assim, não parece certo alguém passar essa data sozinho.

Kai sorriu com a afirmação do loiro. Reita sempre o surpreendia com essas declarações repentinas. O que mais gostava no colega de banda era essa facilidade com que dizia o que pensava, sempre tão sincero. “Seria legal passar um Natal com ele.” Sua mente viajou vagamente por essa idéia.

A porta do elevador se abriu.

– Eu já sei! — Reita disse, então, ambos caminhando para seus respectivos carros. — Por que você não vem comigo pra casa da minha mãe? Você pode passar o Natal com a gente, minha vó faz uma comida muito boa.

Kai arregalou os olhos, pasmo com o convite. Sentiu-se extremamente tocado por aquela demonstração de amizade tão honesta. E, quando se tratava de Reita, ele sabia que nada que o loiro dizia era da boa pra fora, ou somente por educação.

– Muito obrigado, Akira, de verdade. Mas de jeito nenhum eu poderia aceitar.

– Por que não?

– Eu sentiria como se estivesse invadindo seu feriado. — Kai sorriu, corando um pouco.

– Deixa de ser besta! Pode vir! — o loiro respondeu enfático, como se aquilo nem fosse algo pra ser discutido.

– Obrigado mesmo, mas eu vou ter que recusar. Não me sentiria confortável. De verdade, eu não me importo de não comemorar essa data.

– Tem certeza? — Reita perguntou mais uma vez, já diante de seu carro. — Eu vou pra lá hoje à noite, você pode ir comigo.

– Tenho. De qualquer forma, eu não tô me sentindo muito bem. Acho que preciso descansar.

– Você tá mesmo com uma cara estranha.... — Reita comentou.

– Mas eu tô bem... Boas festas, Reita! — Kai disse então, virando-se para ir até seu carro. No entanto, teve que se apoiar na janela do carro do loiro para não cair.

– O que foi? — Reita perguntou, segurando-o pelo braço. — Tá passando mal?

– Não, não, foi só uma tontura. — Kai lhe assegurou, abanando o ar. — Eu só preciso comer alguma coisa. — Sorriu fracamente.

– Acho melhor eu te levar num médico...- Reita disse, meio desconfiado. Já tinha percebido algo de errado com o moreno há algum tempo.

– Não precisa, eu tô bem! — Kai apressou-se em dizer, horrorizando-se com a idéia de dar esse tipo de trabalho para o outro. Mas quando tentou se firmar em pé sozinho, sentiu a vista escurecer por completo.


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– O que é que eu tenho que fazer pra conseguir a porra de um médico aqui? — foi a primeira coisa que Kai ouviu quando seus olhos se abriram, um clarão cegante forçando-o a fechá-los novamente. Ouviu o som de muitos passos rápidos e rodinhas deslizando pelo chão. Dezenas de pessoas falando ao mesmo tempo.

Onde diabos estava? Tentou se levantar, mas sua cabeça rodava.

– Acalme-se, sr. Suzuki. Nós já vamos atender seu amigo. Temos muitos pacientes na emergência essa noite. — uma voz feminina, aparentemente calma, foi a única coisa que conseguiu discernir em meio ao barulho.

Emergência?

– Yutaka? Yutaka! Você acordou! Enfermeira, ele tá acordado! — a voz afobada de Reita parecia agora estar há apenas centímetros de distância dele. Kai tentou abrir os olhos, uma imagem embaçada se formando diante de si até ver claramente o rosto do loiro diante de si, de fato, a poucos centímetros de seu rosto.

– Reita, onde é que a gente tá? — perguntou, confuso.

– Você desmaiou, cara! Eu te trouxe no pronto-socorro. — Reita falava rápido, como se não houvesse tempo para maiores explicações. Virou-se para a enfermeira que o havia atendido segundos antes. — Se bem que de pronto-socorro isso aqui não tem nada!

– Sr. Suzuki, eu já disse que o senhor precisa se acalmar! — a enfermeira já não parecia tão calma quanto antes, e Kai sentiu o rosto queimar.

Que vergonha! Além de desmaiar na frente do loiro, ainda o colocava naquela situação!

– Eu tô calmo! Só quero que o médico veja meu amigo, não acho que isso seja pedir demais! — Reita falou num tom irritado.

– Quer se sentar? — perguntou então,voltando-se para Kai, que se esforçava pra se mexer. Só então o moreno percebeu que estava deitado sobre uma maca. A porta do quarto estava aberta, de forma que era possível ver toda a movimentação lá fora. — Parece que véspera de Natal é dia de acidentes, a sala de emergência tá cheia!

– Akira, eu... me desculpe. — foi só o que Kai conseguiu balbuciar, a vergonha atingindo níveis estratosféricos.

O loiro arregalou os olhos como se Kai tivesse acabado de dizer a coisa mais absurda da face da Terra.

– Só você mesmo pra passar mal e ainda pedir desculpas... — disse então, sorrindo.

– Eu tô te dando todo esse trabalho, eu nem sei o que me deu... — o moreno começou a dizer. A última coisa de que se lembrava era de desejar boas festas ao amigo.

Reita já ia responder, quando foram interrompidos pela enfermeira, que anunciava.

O médico vai vê-lo agora, sr. Yutaka.

– Já era tempo! — Reita afirmou, indo em direção ao médico que ainda estava no corredor. — Doutor, ele desmaiou de repente!

Kai sentiu-se corar novamente. Não tinha idéia de como Reita podia ser tão super protetor! Na maior parte das vezes, era ele quem assumia esse trabalho, sempre cuidando dos outros membros da banda. Com certeza, devia tê-lo assustado bastante pra despertar isso no loiro.

– Acalme-se, garoto. — o médico entrava agora na sala, sorridente, segurando alguns papéis. Era bastante jovem, cerca de 30 anos ou menos, ainda que aparentasse muito mais maturidade que os dois ali. — A enfermeira já fez todos os exames de sangue e pelos resultados, trata-se de um caso simples de anemia. — Você tem trabalhado muito, meu jovem?

Kai estava de boca aberta. Haviam feito exames e ele nem tinha percebido!

– Ele é viciado em trabalho, doutor. — Reita respondeu antes mesmo que o moreno pudesse assimilar a pergunta do médico. — Não pára um minuto!

– Com certeza foi o excesso de stress que causou esse desmaio, combinado a má alimentação e falta de sono, é claro. — o médico continuou, examinando agora os olhos de Kai, que quase ficou cego com a luz que os atingiu. Estava completamente zonzo.

– Eu já disse muitas vezes que ele precisa pegar leve, mas ele não escuta! — Reita continuou a falar, num tom que oscilava entre preocupado e bravo. — Está sempre correndo atrás de tudo, não deixa ninguém ajudar...

Kai estava pasmo com o sermão que ouvia. Geralmente era ele quem dava os sermões para Reita e o resto da banda e não o contrário!

– Escute seu namorado, garoto. Você precisa se cuidar. — O médico sorriu, compreensivo, sentando-se na mesa calmamente, enquanto prescrevia uma vitamina.

– O quê?! — ambos os garotos gritaram ao mesmo tempo, como se tivessem acabado de anunciar a terceira guerra mundial.

– Não, nós não somos... quero dizer, ele não é meu...eu não sou... — Reita se confundia com as palavras, como se precisasse urgentemente concertar o erro.

O rosto de Kai estava vermelho a ponto de explodir, e ao se deparar com o nervosismo crescente do loiro, tratou de finalmente dizer algo.

– Nós só trabalhamos juntos, doutor. Eu passei mal e ele me trouxe aqui porque estávamos no mesmo estacionamento.

Reita olhou para o moreno meio incrédulo. Ele havia sido extremamente seco na resposta ou havia sido impressão sua? De certa forma, era realmente aquilo o que havia acontecido, mas Kai parecia ter ficado chateado por algum motivo. Sentiu-se mal.

“É claro que ele tá chateado, Reita. Você ficou falando mal dele pro médico! Ele deve estar puto com você!”

– Ah, entendo. — o jovem médico olhou novamente para ambos, primeiro para Reita, depois para Kai, cujo rosto já havia voltado a cor normal. — Me desculpe por isso, mas é que vocês pareceram.... íntimos a princípio.

Agora foi a vez do loiro quase explodir de tão vermelho. Olhou pra baixo sem jeito, como sempre fazia quando ficava envergonhado.

– Mas então, doutor... — continuou — ... ele vai ficar bem?

– Sim, sim, não se preocupem! Nada que umas vitaminas e um pouco de descanso não resolvam. Mas isso é importante! — voltou-se então para o moreno, olhando-o sério – Você PRECISA descansar. Seu corpo ainda está muito fraco e se fizer o menor esforço antes de se recuperar totalmente, pode sofrer outro desmaio.

– Eu vou me cuidar, doutor. — respondeu Kai, tímido.

– Eu sugiro que fique aqui a noite toda em observação. A não ser, é claro, que tenha alguém em casa que possa ficar de olho em você.

– Isso é mesmo necessário? Eu moro sozinho e....- Kai começou, aflito. — De jeito nenhum queria passar uma noite no hospital. Tinha coisas pra fazer em casa!

– Se eu bem conheço ele, doutor, ele vai querer voltar pra casa o mais rápido possível pra continuar trabalhando lá. — Reita disse quase que simultaneamente ao pensamento do moreno. Kai arregalou os olhos. Desde quando Reita o conhecia tão bem?

– Isso está fora de cogitação! — o médico voltou a falar num tom alarmante. — Imagine se você desmaiar ou sua pressão abaixar e não houver ninguém em casa?

Olhou para o loiro e sorriu de maneira estranha.

– Seu amigo não pode ficar com você essa noite?


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– Ok, Reita, agora que já saímos do hospital, você pode ir pra casa. — ambos se encontravam agora diante da porta de entrada do hospital, que se localizava em uma avenida relativamente movimentada. A neve começava a cair, ainda que fracamente.

– Do que você tá falando? Tá com amnésia agora? Não ouviu o que o médico disse? Eu vou ficar com você essa noite.

– Eu sei que você disse isso só pra ele me deixar ir, e eu agradeço de verdade, não só por isso, mas por ter me trazido até aqui e tudo mais. — Kai sorriu honestamente. Não esperava, obviamente, que o loiro o seguisse mesmo até em casa como se ele fosse uma criança que não soubesse se cuidar — Foi muita gentileza, eu sinto muito ter estragado seu fim de noite...

– E como você vai embora, posso saber? Seu carro ficou no estacionamento da PSC.

– Eu vou pegar um táxi, é claro.

– Kai, deixa disso.... — Reita revirou os olhos, pousando uma mão no ombro do amigo. — Eu disse ao médico que iria ficar com você essa noite e é o que eu vou fazer.

– Mas Reita, é véspera de Natal, você estava indo pra casa dos seus pais. Eu não preciso de companhia, eu estou bem, sério... — Kai começou, mas suas palavras não soaram convincentes. Sua voz fraca e seu semblante cansado também não ajudavam. O moreno suspirou — Só quero chegar em casa e tomar um banho quente, vou ficar bem.

– Pode fazer o que quiser quando chegar em casa. — o loiro disse então, impassível. — Mas eu vou junto e não quero nem saber. Além do mais, já avisei meus pais o que estava acontecendo enquanto você estava desacordado e disse que talvez não pudesse ir hoje. Eles entenderam.

– Reita, você não precisa assumir esse... compromisso. Já fez muito por mim, eu...

– Fica quieto e entra no carro. — o loiro virou os olhos mais uma vez, quase empurrando o moreno em direção ao estacionamento.

Kai sentiu o rosto corar mais uma vez, mas agora não sabia exatamente a razão. Um misto de vergonha e alguma outra sensação que não conseguia definir invadiram seu corpo. Não estava acostumado a ter alguém “cuidando” dele, por assim dizer.

Era muito desconcertante.

Caminhou lentamente, seguido pelo amigo, que o escoltava como se ele fosse uma criança pronta pra sair correndo e fugir. Kai sentiu-se estranho, como se aquilo não estivesse acontecendo e fosse apenas algum dos sonhos malucos que costumava ter com o baixista.

Entraram no carro e Reita deu a marcha ré, pegando a avenida em direção a casa do moreno.

– E o meu carro? — Kai perguntou, apenas pela necessidade de dizer algo e quebrar o momento de silêncio constrangedor que se instalou ali.

– Você pode buscar quando estiver se sentindo melhor. Além disso, sua casa não fica muito longe daqui.

Kai olhou através da janela, sentindo-se exausto. Não tinha forças nem pra argumentar que aquilo era um exagero e que Reita realmente não devia perder seu tempo com ele.

Mas conhecia bem o loiro. Quando ele metia uma coisa na cabeça, não havia quem tirasse, e se ele achava que precisava acompanhá-lo até em casa, nada o faria mudar de idéia.

Cerca de vinte minutos depois, chegavam ao prédio de Kai. O moreno respirou fundo, começando a se sentir um pouco desconfortável. Sentia que estava abusando da boa vontade do outro.

–Reita, você realmente não precisa...

– Mas eu vou. — respondeu o outro, travando as portas do carro e caminhando em direção a entrada do prédio, com Kai ao seu lado.

Após um cumprimento de cabeça do porteiro, ambos seguiram em direção ao elevador. A noite estava bem fria, e só o fato de entrarem em um lugar um pouco mais quente já fazia com que o moreno se sentisse um pouco aliviado.

Mas esse alívio deu lugar a novo constrangimento ao ouvir Reita comentar:

– Você acha que aquele médico era gay?

– O quê? Por que você tá me perguntando isso?

– Sei lá... — o loiro deu de ombros — ... ele achou que a gente fosse.

Kai sentiu seu rosto começar a esquentar novamente. Já era a quarta vez em poucas horas! Por que Reita sempre tinha a mania de falar o que pensava? Alguns poderiam considerar isso uma qualidade, mas o moreno via mais como um defeito, já que sempre se sentia desconfortável com as coisas que o outro falava.

– Eu não acho que a gente daria um bom casal.... — o loiro falou novamente, em claro tom de zombaria, mal contendo o próprio riso.

– Por que não? — o moreno devolveu a pergunta sem pensar, só então notando como aquela conversa estava maluca.

Reita riu novamente, dessa vez um pouco surpreso pela pergunta do outro, e Kai só queria sair correndo dali de vergonha.

Suas preces pareciam ter sido atendidas quando a porta do elevador se abriu antes que o loiro pudesse dizer mais alguma coisa. O que foi uma boa coisa, já que a estranha tensão entre os dois começava a ficar forte demais ali dentro.

– Meu apartamento é ali. — disse o moreno, a voz ainda fraca, caminhando até a porta, seguido do amigo. Sentia-se cansado e com frio, uma estranha sensação de dormência atravessando seu corpo. Só esperava não estar ficando com gripe também!

– Eu sei, já vim aqui antes, lembra? — o loiro disse, quando ambos entraram.

– Ah, é mesmo.

O apartamento de Kai era pequeno, como a maioria dos apartamentos de Tóquio, mas era bem organizado, dando a impressão de ser maior do que era. O moreno colocou suas coisas sobre uma pequena mesa, dirigindo-se para a cozinha, que se separava da sala apenas por um balcão.

– Eu ainda tô me sentindo péssimo de fazer você ficar aqui... Quer um chá, ou alguma outra coisa?

– Não, obrigado. Não se preocupe comigo, você tem é que se preocupar com você mesmo. — o loiro disse, naquele tom de sermão novamente.

– Desde quando você é tão responsável assim, Akira? Acho que nunca te vi falando desse jeito... — o moreno sorriu, voltando-se para a pia pra fazer um chá, quando uma tontura o fez se apoiar rapidamente no granito à sua frente.

– Yutaka! Você tá bem? — o loiro gritou, indo de encontro a ele e segurando-o pelo braço. — É melhor você se deitar.

– N-não é nada... eu estou bem. — respondeu o moreno, se arrepiando com o toque do outro em seu braço. Não gostava quando ele se aproximava muito. Sentia-se sempre incomodado com os toques dele, por mais amigáveis que fossem. Sempre sentia... algo de errado.

– Vem, eu te levo. — Reita continuou segurando-o, a outra mão agora presa em sua cintura, de forma a mantê-lo em pé. Uma espécie de corrente elétrica invadiu ambos os corpos quando seus braços se tocaram pela segunda vez, fazendo-os se separar por um segundo com o pequeno choque.

– Você tá elétrico. — disse Reita sorrindo, um sorriso tão doce que Kai não soube o que responder, limitando-se a sorrir timidamente de volta. Sentia a cabeça zonza, mas agora não tinha muita certeza se era pela possível gripe.

Chegando à porta de seu quarto, Reita o ajudou a se sentar apesar de seus protestos de que estava bem o suficiente pra fazer aquilo sozinho. O loiro sentou-se ao seu lado.

– Quer que eu traga alguma coisa?

– Não, foi só uma tontura... — o moreno começou a falar, quando de repente sentiu a mão do outro sobre sua testa, paralisando-o.

–Você tá quente. — Reita disse então, parecendo não notar o embaraço do amigo. Deslizou então sua mão para o rosto de Kai, chegando ao seu pescoço, delicadamente.

– O-o que v-você tá fazendo? — perguntou o moreno, confuso. Não imaginava que os dedos do baixista fossem tão macios.

Por que estava pensando nessas coisas?

– Você tá suando... — o loiro disse então, parecendo preocupado. — Kai, acho que você tá com febre. Deve ter sido o vento que pegamos na saída do hospital. Fraco como você tá...

– E-eu to legal, acho que é só uma gripe... — o moreno gaguejou, sentindo sua pele esquentar ainda mais devido ao contato do outro, que ainda mantinha uma das mãos, agora em uma de suas bochechas. Não se lembrava do amigo alguma vez tê-lo tocado daquela maneira.

Era estranho... e gostoso.

Kai se assustou com o pensamento, movendo-se para longe do toque do amigo, afastando-se sobre a cama como se estivesse se ajeitando mais pra trás.

– E-eu.... acho que preciso tomar um banho e me deitar um pouco... — as palavras deixaram sua boca automaticamente, uma sensação de cansaço extremo o invadindo. Sentia o corpo pesado, como se uma onda de calor o estivesse cercando.

– Ok, eu não sei fazer chá muito bem, mas vou tentar. — o loiro sorriu com a reação do amigo ao toque, levantando-se. — Eu já volto.

Kai aproveitou o momento sozinho para se dirigir ao banheiro, livrando-se rapidamente das roupas que vestia e entrando debaixo do chuveiro, fechando a porta atrás de si. A água atingiu seu corpo como uma faca afiada, o que o fez pensar vagamente no quanto sua febre devia estar alta.

Deslizou os dedos sobre o próprio rosto e corpo, tentando se livrar do suor que o cobria, não conseguindo conter a imagem de Reita que insistia em permanecer em sua mente confusa.

Ele o havia tocado com tanto... carinho.

“Não, Yutaka! Não! Ele só está preocupado, você tá vendo coisas onde elas não existem. Não tem nenhuma chance de ele se sentir assim com relação a você...”

O moreno fechou os olhos, respirando fundo. Por que pensar nisso agora? Havia guardado essa vontade, não sabia nem se podia chamar isso de sentimento, de estar assim perto dele por tanto tempo, e agora bastava um toque em sua testa pra ver se ele estava com febre e já ficava se iludindo.

“Yutaka, pare de agir feito uma garota!” Kai fechou os olhos, deixando que a água levasse embora todas aquelas besteiras. Era véspera de Natal. Reita devia estar era irritado por se sentir obrigado a ficar ali de babá.

O baterista desligou o chuveiro após alguns minutos, sentindo-se um pouco mais leve. Alcançou a toalha próxima a pia do banheiro e tratou de se enxugar rapidamente. Quem sabe ainda conseguia convencer Reita a ir pra casa e deixar de lado aquela história de ficar ali “cuidando” dele. Vestiu um pijama de mangas compridas e tratou de ir pra cama, tentando parecer o mais saudável possível.

Cerca de cinco minutos depois, o loiro apareceu com uma xícara fumegante.

– Já tomou banho? — levantou as sobrancelhas, sorrindo de canto. — Acho que eu demorei muito na cozinha...

– Só tomei uma ducha. Escuta, Reita, eu estou me sentindo bem melhor, você pode ir pra casa e...

– Está me expulsando?

– Claro que não! — o moreno apressou-se em dizer, aflito. — Eu só não quero que se sinta obrigado a ficar aqui, sendo que eu já estou bem.

– Você não parece muito bem. — Reita afirmou, categórico. Kai não sabia se o loiro havia ficado ofendido ou simplesmente não acreditava nele. Reita ofereceu-lhe a xícara. — Mas não vou ficar aqui contra sua vontade.

– Não é isso, é que... — Kai começou, intercalando as palavras com goles curtos da bebida, tentando cobrir parte do rosto com a xícara. — ... eu fico sem jeito...

O baixista riu. Kai parecia uma criança, encolhido na cama, como se fosse um garotinho. Seu rosto estava pálido e ele evitava contato visual a todo custo. Não imaginava o quanto ele poderia ser adorável. Estava sempre dando ordens, passando sermão ou reclamando de algum trabalho mal feito, por isso aquela cena era no mínimo rara.

Reita não era do tipo que reparava nesse tipo de coisa, mas era impossível não perceber como o baterista ficava uma gracinha todo sem graça daquele jeito. Só uma pessoa sem coração seria capaz deixá-lo sozinho ali.

O moreno continuou bebericando o chá, sem dizer palavra. Mil coisas passavam por sua cabeça, mas ele não conseguia verbalizar nenhuma delas.

– Tá bom? — o loiro perguntou então, sorrindo amigável para a xícara.

– Tá ótimo. — Kai apressou-se em responder, colocando a xícara na mesa da cabeceira. — Não precisava ter se incomodado.

– Não é incômodo nenhum, é o mínimo que eu poderia fazer... — o loiro se sentou ao lado de Kai na cama, sem cerimônias, alarmando o moreno mais uma vez, que inclinou-se pra trás automaticamente.

– Você tá com medo de mim, Kai? — Reita perguntou gentil, curvando-se pra frente à medida em que o baterista mantinha a distância. — Sempre se afasta quando eu me aproximo...

– Eu... — o moreno começou, ruborizando. Não sabia que resposta dar àquela pergunta tão direta. Por que Reita tinha que ser sempre tão direto? Em tudo? — Não é medo...

– O que é, então? — o loiro perguntou mais uma vez, inclinando-se ainda mais, seus rostos agora bastante próximos, fazendo com que Kai prendesse a respiração por um breve segundo. — Você sempre faz isso quando eu chego perto, mesmo quando estamos ensaiando. Parece que tem medo que eu faça alguma coisa...

O moreno abaixou os olhos, em silêncio. Reita continuou.

– Hoje mesmo, apesar de você estar claramente fraco demais pra ficar sozinho, procurou milhares de desculpas pra que eu não ficasse aqui com você.

– Não é isso! — Kai ergueu o olhar, forçando-se a encará-lo – Eu estou muito grato de você estar aqui, de verdade!

– Então qual é o problema? — o loiro aproximou-se ainda mais, pousando uma das mãos na cama, ao redor de Kai. Com a outra, tocou seu rosto mais uma vez, mas agora, sem a desculpa de estar medindo sua temperatura.

– Por que está fazendo isso? — Kai fechou os olhos, amando e odiando a intimidade daquele toque.

– Porque você está doente. — ouviu a resposta calma do outro, sentindo o hálito quente do loiro de encontro a seu rosto. Reita sorriu. E antes que Kai pudesse explicar que não era a isso que se referia, sentiu os lábios do outro sobre os seus.

O toque foi suave, como se não passasse de um simples carinho em seus lábios. Mas algo naquele simples contato, talvez pelo calor da febre, fez com que o corpo de Kai estremecesse em uma quase agonia.

– Não, Reita... — sussurrou em voz baixa, os olhos ainda cerrados, pousando uma das mãos sobre o peito do outro, que ainda se mantinha bem próximo, seus rostos quase colados.

– Por que não? — ouviu a voz sussurrada do baixista, que também tinha seus olhos fechados, as palavras fazendo com que seus lábios roçassem de leve nos de Kai.

Reita sentia o calor vindo do corpo febril do moreno, e aquilo era como fogo aumentando seu desejo de tê-lo. Inclinou-se sobre ele, deitando-o na cama, indefeso. Algo naquela fragilidade dele o estava tentando de maneira inexplicável.

– Eu quero, mas você... — o moreno falou em voz quase inaudível, tremendo diante de um toque mais intenso do loiro em seu quadril. Seu corpo parecia muito mais sensível que o normal devido à febre, e cada contato dos dedos do outro o arrepiavam sem que pudesse se controlar.

– Eu também quero... não agüento mais fingir que não. — o loiro disparou então, beijando o pescoço do baterista, que não pôde conter um gemido não só pelo ato em si, mas pela sinceridade de Reita, que havia em poucas palavras despejado sobre ele exatamente o que queria ter dito há tanto tempo.

Em um acesso de coragem, talvez estimulado por seu estado exaltado, Kai abraçou-o, puxando-o ainda mais pra si, como se estivesse com medo de que ele desaparecesse, e tudo não passasse de um delírio de sua mente febril.

– Eu quero ficar com você. — o moreno falou então no ouvido do baixista, como se aquela fosse a única chance que teria de dizer o que realmente sentia. — É disso que eu tenho medo... de que você não queira o mesmo.

Reita sorriu diante da insegurança do outro, sentindo seu cheiro gostoso, apoiado na curva de seu pescoço.

– Eu não vou te deixar sozinho, Kai. — o loiro respondeu, simplesmente, abraçando-o também. — Você não precisa se preocupar. Mesmo quando não estiver mais doente, eu ainda vou estar aqui com você.

Os olhos de Kai se encheram de lágrimas, uma sensação estranha e nova o invadindo. Era só o que queria naquela noite. Ter alguém junto de si, alguém que ele sabia que se importava.

– Obrigado, Reita. Eu também... você sabe, eu...

O loiro afastou seus cabelos, tocando seus lábios com a ponta dos dedos.

– Feliz Natal.


Notas finais
Muito obrigada por ter lido! Espero seus reviews!
E Boas Festas! ^____^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!