Vocês já devem conhecer um pouquinho da minha vida contada por aquele que mais amo: Shaka. Já devem ter percebido que sou Mu, advogado, casado com um médico metódico que teve, há algum tempo atrás um dia não muito agradável. Mas não é só ele, como também não sou só eu, os agraciados com a "sorte".
O meu dia de sorte começou normalmente, como um outro dia qualquer. Levantei-me, para variar, atrasado. Shaka saíra mais cedo. Quando o despertador tocou, eu ainda embalado pelos meus sonhos desliguei-o. O som estridente do telefone me fez despertar por completo. Tinha que me lembrar de dar um presente à minha secretária. Se não fosse ela talvez perdesse grandes clientes por conta de meu sono.
Levantei-me sem pressa apesar do atraso. Não consigo sair de casa sem tomar um longo banho. Depois de pronto, fui pegar alguns livros na estante, nesse pequeno instante a minha falta de sorte começou a dar mostras do que seria o meu dia. Após pegar um pequeno volume de código penal, o meu dicionário imenso, pesado, resolve criar asas e aprender a voar, mas aterrisa justamente sobre a minha unha encravada.
Sai eu pulando em um pé só, com a pasta na mão, o código na outra. Bati a porta de casa. O elevador levou milênios para chegar e quando finalmente pára em meu andar, o vizinho encontrava-se dentro dele com seu enorme pastor alemão. Eu não poderia esperar mais, entrei mesmo com o cão. Para minha sorte e de minha alergia o cachorro resolveu sacudir-se voando pêlo para todos os lados. Comecei imediatamente a espirrar como um louco. Quando cheguei em meu carro, meus olhos lacrimejavam, meu nariz parecia o de um palhaço e meu terno escuro estava lotado de pêlos nojentos de cachorro.
Entre minha casa e o trabalho, um engarrafamento fenomenal se criara por conta da visita de algum chefe de estado desconhecido de minha pessoa e completamente irrelevante a não ser para complicar a vida de pobres mortais. Um percurso normalmente feito em 20 minutos levou modesta hora e meia para ser completado. Quando entrei na garagem do edifício de meu escritório a minha vaga cativa estava ocupada por um visitante desavisado. Mais perda de tempo. Cheguei em minha sala quase na hora de sair para almoçar. Minha mesa estava aborrotada de processos para revisar e eu ainda tinha um julgamento para assistir no fim do dia.
— Dr. Mu, lamento informar mas seu estagiário ligou avisando que está acamado e não virá trabalhar hoje.
— Como assim? Aquele incompetente desalmado resolveu adoecer logo hoje! Eu não creio nisso. Só pode ser algum tipo de conspiração sórdida com minha pessoa. Srta. Marin, por gentileza me separe todos os documentos do caso do sr. Seiya que irei ao fórum pessoalmente para registrar a petição de defesa antes do estouro do prazo. E não esqueça de me dar a petição para que eu possa revisar.
— Dr. Mu, o Kiki não me deu nenhuma petição para digitar...
— Procure na mesa dele e veja se está ao menos rascunhada, não esqueça de digitar a carta de demissão dele e colocar um anúncio no jornal procurando outro estagiário.
Estagiário incompetente era demais para meu estado de espírito. Minha secretária encontrou a tal petição rascunhada na mesa do infeliz, mas acabei tendo de perder tempo refazendo-a. A letra do desgraçado era pior do que a de clínico geral de hospital público. Não tinha nada naquele rascunho aproveitável. Os modestos 15 minutos que eu teria para colocar algo no estômago foram perdidos refazendo um trabalho que deveria estar pronto. Não sou homem de desprezar e maltratar as pessoas, mas o que aconteceu ultrapassou os limites do aceitável. Entreguei para Marin o novo rascunho, assinei a demissão do infeliz e pedi a ele que mandasse um mensageiro entregar na casa dele. Não queria nem ver o nariz dele ou não poderia garantir a integridade do mesmo.
Com a documentação pronta sai apressadamente em direção ao fórum. Orava a todos os deuses para ter tempo de fazer tudo. Apressei o passo. A pressa é inimiga ferrenha da perfeição, mas não me lembrei disso antes de trombar com um transeunte e derrubar todos os documentos que carregava no chão. Volumes de processos diferentes se misturaram em uma confusão digna de arquivo de escritório de contabilidade de quinta categoria. Quando cheguei ao cartório do fórum e fui conferir as pastas, tive vontade de chorar. Levei tranquilamente longos quinze minutos organizando toda a confusão feita pela queda dos documentos para descobrir que não trouxera o mais importante deles: a famigerada petição de defesa.
Solução: ligar para minha secretária e pedir a ela que me enviasse o documento urgentemente por mensageiro, enfio a mão no bolso do paletó e...
— CADÊ A MERDA DO MEU CELULAR?!
As pessoas a minha volta olharam para mim como se estivessem vendo um extraterrestre. Logo eu, sempre tão calmo, controlado, fazendo um papelão daqueles? Mas sinceramente nada mais me importava naquele instante. Eu estava quase fora de mim. Respirei fundo, lembrando das aulas de yoga que praticava com Shaka. Um mantra para acalmar-me e sai a procura de um telefone público. Não foi difícil encontrar um, entretanto a fila estava enorme e ainda tinha uma adolescente que resolveu namorar naquele momento. Esperei, esperei e a infeliz não desgrudava do aparelho. Cinco, dez, quinze minutos e a melação não acabava. Perdi a pouca paciência que me restava.
— Senhorita, será que poderia fazer a gentileza de deixar as demais pessoas usarem o telefone?
— Vê se não me enche a paciência tio, se quiser espere que eu termine.
— Olha aqui, sua mal educada. Tio é irmão da puta que a pariu, não tenho que esperar merda nenhuma que esta porra é pública e todos temos o direito de usar, desliga logo esta merda.
As demais pessoas que se encontravam na fila me apoiaram e quase que uma pequena revolução se instaurou no meio da rua. Um bate boca fenomenal até que uma patrulhinha resolveu parar para contornar o incidente. Explicações mais para os policiais e mais perda de tempo. Se eu tivesse voltado ao escritório para buscar o documento teria sido mais rápido.
Voltei para a fila do cartório esperando a chegada do mensageiro. Ao menos o garoto não tardou muito e Marin era uma secretária competente ao contrário do meu ex-estagiário. A fila não andava, via pessoas desistirem, olhava para o relógio a cada instante. O tempo passava com uma velocidade impressionante e inacreditável. Onde estavam as atendentes? Deixei meu local na fila guardado com um colega e fui até o escritório da chefe do cartório, velha conhecida minha, ver se ela poderia colaborar comigo de alguma maneira. Ao passar pelo balcão de atendimento vejo a escrivã responsável pelo atendimento calmamente resolvendo palavras cruzadas. Me aproximei dela sorrateiramente.
— A senhorita poderia me informar se todas as pessoas que se encontram na fila, incluindo este que vos fala, têm cara de palhaço?
A garota levou um susto tão grande que quase caiu da cadeira. Eu comecei a rir histericamente. Os guardas judiciários foram chamados para me retirar do recinto pois eu estava atrapalhando o bom andamento do serviço. Eu estava atrapalhando?! Foi o maior absurdo que ouvi neste dia nefasto até aquele momento. Outra confusão instalada. Argumentos, contra-argumentos, até que um funcionário de bom senso atestou que também a vira resolver palavras cruzadas ao invés de atender a fila. Outro funcionário foi designado para o atendimento enquanto ela se entendia com a chefia. Voltei ao meu lugar e aguardei o mais calmamente possível a minha vez. Documentos protocolados, meu estômago reclamava de maneira fenomenal.
Parei em uma lanchonete próxima para uma refeição rápida. O tribunal me aguardava. Acabei de comer e fui andando apressadamente para a sala em que ocorreria o julgamento. Senti uma certa revolução no meu sistema digestivo mas resolvi ignorar.
O réu já se encontrava, o promotor, o escrivão e agora o advogado de defesa. Cadê o juiz? Onde estava aquele irresponsável que definiria a vida de meu cliente? Dor de barriga, era tudo que eu precisava naquele momento. Me levantei correndo a procura de um banheiro. A natureza me chamava de maneira irrevogável e urgente. Uma bomba atômica e tóxica sai de dentro de mim. Suspirei aliviado. Alguns minutos depois voltei para a sala de julgamento, vazia. Onde estavam todos?
— Dr. Mu, o julgamento fora adiado por motivos pessoais do meritíssimo.
Um adiamento. Era tudo que eu precisava. Agradeci a secretária que me dera o recado e resolvi ir direto para casa. Voltei ao prédio onde ficava o meu escritório apenas para pegar o carro. Um banho relaxante, uma xícara de chá e um filme pipoca eram os meus sonhos de consumo imediatos. O trajeto para casa foi novamente um exercício de paciência, mas eu estava com tanta vontade de chegar que não me importei.
Estacionei com um cuidado redobrado. Subi até meu apartamento e enfiei a mão no bolso para abrir a porta.
— NÃO! — A minha voz de desespero pôde ser ouvida por vários andares. Eu deixara a chave de casa sobre a mesa junto ao celular.
Teria de esperar por Shaka. Deixei a pasta com os documentos com o porteiro e fui até um telefone público ligar para Shaka. O celular dele estava desligado. Liguei para minha secretária perguntando se Shaka deixara algum recado para mim.
— Dr. Mu, o Dr. Shaka ligou, ele tentou comunicar-se com o sr. pelo celular mas não conseguira. Ele pediu que avisasse ao senhor que ele está com uma paciente complicadíssima e não tem hora para chegar em casa.
Um banho, finalmente conseguira relaxar na banheira. O som suave vindo das caixas de som, o cheiro do insenso. Como desejava que Shaka estivesse ali com ele.
Como por encanto ouve o som melodioso da risada de Shaka. Os olhos institivamente procuraram pelo relógio. Entrara em casa não tinham nem 20 minutos e Shaka já chegara? Estragara uma porta a toa, mas agora isto não importava mais, ele estava ali.
— Mu, está tudo bem? O porteiro me contou o que aconteceu com você.
Shaka estava preocupado comigo, mas eu podia perceber pelo tom de sua voz o quanto estava controlando a gargalhada.
— Venha, junte-se a mim e terá então muitos motivos para rir.
O som de nossas risadas preencheu o ambiente por longos minutos enquanto eu relatava ao meu amor o meu dia de sorte.
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