Ms. Betty Wayne
6 Capítulo 6 – Betty Wayne Forever
Os pássaros não gostavam de pousar no YellowNautillus. O submarino estava submerso em meia-lua na água, projetando sua antena protuberante para o céu. Caminhando sobre a superfície visível, se encontra o melhor capanga do empresário das Twistelletes. O chefe acabara sabendo da dedo-duro que contara para alguém sobre o esconderijo e não gostava de correr riscos, ainda que parecesse apenas paranoia. O Homem Certo Para O Serviço era um tanto excêntrico, vestia couro negro e uma máscara de orelhas pontudas. Gostava de como sua roupa chamativa brilhava com a luz do sol. Empolgado com o serviço e seu próprio visual, percorria o exterior do submarino de ponta à ponta, desfilando com reboladinhas e muito provavelmente visualizando um tapete vermelho.
Seu erro foi distrair-se demais consigo mesmo e esquecer do serviço designado. Quando se deu conta, uma espécie de lancha modificada boiava bem próxima do submarino, desocupada. Em uma reação de surpresa, rosnou e levantou as garras de sua luva de couro.
“Mamma mia! Quem está querendo bancar o espertinho com o Homem-Gato!?”
Sua resposta veio na forma de uma descarga elétrica que recebeu pelas costas. Sentiu todo o corpo arrepiar e bater-lhe os dentes. Como era um sujeito resistente, prolongou o próprio sofrimento por alguns instantes mais, antes de ser finalmente chutado para água reproduzindo o que no futuro seria chamado de um perfeito Wilhelm scream. Se tratasse mesmo de alguém tão esperto, quando voltasse à bordo, já seria tarde demais.
Aquela antena também permitia o Empresário assistir sua televisão enquanto o YellowNautillus permanecesse no nível da água. O único canal minimamente interessante exibia uma performance televisionada de Giovanni Zatara II, o jovem mágico dando progresso ao trabalho do pai. Mas ainda assim, era estranho de ver, pois funcionava mais como um ritual de bruxaria que uma performance mágica propriamente dita. Os círculos místicos estavam todos lá, além do que parecia uma deslocada magia africana mais velha que a própria humanidade. Daquelas que Lovecraft dizia ser os horrores para qual os macacos dançavam antes do homem. Ao mesmo tempo, Zatara filho lembrava os males do mau uso da feitiçaria. O Empresário lembrou de sua hipnose subliminar, o que era completamente diferente, mas o fazia sentir a garganta secar ao imaginar se um dia veria seu “feitiço” voltar-se contra ele.
Desligou a televisão se espreguiçou. Nenhum dos canais prestava, afinal. Sentiu uma canseira do nada, que era normalmente traduzida como uma sede alcoólica. Coçou a bunda por baixo da cueca enquanto ninguém olhava e foi para cozinha. Apontando para si uma pistola e sentada de pernas cruzadas na pequena mesinha de madeira, estava Betty Wayne.
“Surpreso, senhor Lex Luthor?”
Furioso, puxou as roupas como se quisesse se partir em dois à lá Rumpelstiltskin. Por fim, arrancou a peruca e a jogou no chão, pulando sobre o chumaço encardido várias e várias vezes. Disparando sua pistola, Betty preenche o local com seu gás, o mesmo que usara para os outros capangas. Era chegada a hora de correr para a sala de comando e invadir o sinal. As Twistelletes estavam agora mesmo no estádio dos Gotham Knights para se apresentarem para uma grande massa de zumbis em potencial. Betty sabia que a aparelhagem se comunicava com os amplificadores do concerto, e por sorte já estava habituada à mexer com todo tipo de máquina. Para os controles que não conhecia, foi autodidata em menos de cinco minutos. Inclinou-se sobre o microfone e olhou o relógio; era hora.
“Vocês não obedecerão mais essas ordens e esquecerão as Twistelletes para sempre. Vão ser bons meninos e meninas. Além disso, drogas são más, crianças.” Betty enviou a mensagem para o microfone.
Um apito estridente ecoa e o YellowNautillus sacode.
“Controles danificados! Controles danificados! Controles danificados! Controles danificados! Controles danificados! Controles danificados! Controles danificados! Controles danificados!” Repetia uma voz incansável de aeromoça. “Afundando.”
Luthor tinha sua garrafa de licor na cozinha, Betty aproveitou para encher um copo para si. A televisão ligara sozinha e passava um filme de guerra, os ruídos eram audíveis mesmo da cozinha. O submarino rangia e as luzes piscavam. Era possível senti-lo afundar, e os cabos que se partiam eram quase um espetáculo. Mas a senhorita Wayne conseguia se equilibrar em meio ao sacolejar e caminhar pelo corredor com seu copo em mãos, derramando menos da metade da bebida, antes de entornar o resto e cantar:
“Falling in love again, never wanted to. What am I to do? I can’t help it…”
Sua voz era como a de Vera Lynn. Em breve, toda aquela imensa antena apontada para Jesus estaria debaixo d’água.
–
Os repórteres tinham muito material para apurar. O desaparecimento misterioso do produtor musical Lex Luthor. A ascensão e fama incrivelmente rápida daquela promotora pública feminista... Ou a massa inteira de fãs deixando ao mesmo tempo show das Twistelletes antes de terminar. Para Harriet, apenas uma página dos jornais era de importância.
“Onze palavras. ‘Sem teto que corre’.” A velhinha rondava a sala, distraída com seu jornal. “Dois E’s e um V.”
Regina trabalhava em seu novo modelito, um maiô verde, vermelho e amarelo. Um torso de manequim o experimentava e até lhe caía bem. Mesmo empenhada, conseguia encontrar tempo para responder Harriet.
“Onze palavras é?”
“Sim... Existe uma palavra para atletas desabrigados?” Dá uma rápida olhada no trabalho de Regina e faz uma careta feia.
“Não, é uma charada! Conversível.”
“É isso mesmo!” Comemora. “Ora, você não odeia quando a senhorita Wayne desaparece assim sem dar notícias?”
“Isso é normal da parte dela, não é grande coisa... Ei, tia Harriet, quem era Robin, afinal?”
“Ah, menina, essa era a ratinha da senhorita Wayne!” Desata em uma risada deliciosa.
“Hmpf, mas ela é mesmo uma idiota...”
Mesmo de comentários como esse, Harriet achava graça. Acreditava mesmo que as duas garotas faziam bem uma à outra. Quando seu olhar treinado captou poeira em cima do pequeno rádio, logo apanhou e espanador que deixara perto e a varreu para longe, levantando uma pequena cortina de fumaça. Ela espirra, lacrimejando com a poeira. Aproveitou o ensejo para sintonizar a caixinha preta em sua estação favorita e se estirar no sofá para relaxar, soltando o maior suspiro que conseguia.
But I know we’ll meet again some sunny day…
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