Mr. Deja Vu
1 one-shot
Notas iniciais
Eu estava sentada em minha cama, com alguns livros abertos ao meu redor, lendo trechos de alguns renomados autores, pesquisando uma citação que coubesse em minha tese sobre Dom Casmurro. Era um vasto material, é claro, afinal de contas, quem não gostava de dissertar por linhas a fio sobre o caso Bentinho vs Capitu? Mas isso não tornava mais fácil meu trabalho... Tornava ainda mais árduo e desgastante... Ainda assim, eu adorava ver novos pontos de vista sobre aquele assunto... Uns divergiam completamente do que eu pensava, outros me davam mais fé em minhas crenças da inocência da dama mais famosa do Realismo brasileiro... A dama realista mais perfeita do mundo!
Enquanto eu divagava sobre minha paixão louca por aquela história, pude ouvir os acordes iniciais de Red tocando alto, me assustando. Meu celular estava perdido sob os livros e papeis e anotações em pequenos quadrados coloridos em que eu desenhava também corações com duas letras bem desenhadas: S e K!
Revirei a montanha de coisas e encontrei o pequeno aparelho que rogava por mim tão desesperadamente. E com a mesma ansiedade, eu o atendi, logo que vi o nome de quem me ligava naquela hora da noite...
— Moshi, moshi – brinquei e pude ouvir uma risada deliciosa soando do outro lado do fone. –Sereny desu!
— Pensei que eu estivesse no Japão... – Kouyou brincou.
— Força do hábito... – justifiquei, dando de ombros. Mesmo que não pudesse me ver, ele sabia que eu o tinha feito, porque gargalhou gostosamente.
-Entendo, entendo... Como foi seu dia? – eu sorri, instantaneamente.
— Foi normal... – disse, tentando pensar se tivera algum ponto interessante pra contar a ele. Kouyou bufou.
— Você não é muito criativa, sabia?
— Não é o que as minhas leitoras me dizem...
— Não estou falando sobre escrever... Mas eu acho que tem deixado toda criatividade nos textos e guardado pouca pra conversar comigo... – pude visualizá-lo fazendo aquela expressão adoravelmente emburrada. Por mais homem e adulto que Kouyou fosse, ele sabia ainda fazer expressões de criança... Meu maior ponto fraco!
— Mas eu não tenho culpa, Kou... Meu dia não teve absolutamente nada de emocionante pra contar... Foi completamente normal!
— O que você considera emocionante num dia?
— Eu não sei...
— Assim não dá, Sereny!
— Eu sei dizer o que não é nada emocionante... – tentei completar. Sem ter nenhuma resposta do outro lado, prossegui. – O que fez do meu dia não ser nada emocionante foi que eu acordei, preparei o café, mexi nos meus e-mails, aliás, diga ao Yutaka que levei a manhã toda pra responder o e-mail dele...
— Vou dizer – ele riu.
-Bom... Depois eu fui me encontrar com a professora orientadora... Ela me disse o que eu tinha de arrumar no trabalho e pra procurar uma citação melhor... Fui almoçar com a Chibi...
— É, ela me falou... – ele gargalhou novamente.
— O que foi que ela te falou?
— Nada... Nada...
— Você é um mentiroso terrível, Takashima Kouyou!
— Eu sei! Você não me ama ainda mais por isso? – bufei, fazendo-o rir ainda mais. – Sua irmã mencionou alguma coisa como “foi ela mesma que tinha me mandado mudar daquele jeito! E agora vem falando que é pra deixar do jeito que eu mesma tinha feito” – ele me imitou. – Alguma coisa assim...
— Ah, mas é verdade! Ela me fez mudar e agora é pra deixar como eu tinha feito, só que ela acha que ela teve essa ideia brilhante! Como ela ousa?
— Deve ter algum motivo pra ela ser orientadora, não deve?
— Eu queria saber como reclamar dela, isso sim! – resmunguei e ele gargalhou.
— Bom... O que mais você fez?
— Terminei de editar o texto da revista... – bufei descontente. – Falei com a Monique...
— É... Também fiquei sabendo dessa parte...
— Sabe? Não sei se gosto de você sabendo sobre coisas do meu dia pela boca de outros... – brinquei e ele deu risada.
— Ué... Eu preciso ter certeza de que não está me escondendo nada, não preciso? Você deveria ficar feliz por ter um namorado como eu, que tem você como assunto base de todas as conversas com todas as pessoas! – eu ri.
— Não quero te deixar convencido... Haruka já enche muito a sua bola...
— Acho que ela está um pouco decepcionada comigo... Não acho que eu seja assim tão príncipe...
— Você sempre diz isso... Acho que é mais provável ela deixar de gostar do Yuu do que parar de te achar um príncipe...
— Pelo menos uma vez, eu ganho do Yuu, né?
— Bobo!
— Mas você falava sobre ter conversado com Monique... O que a Haruka-chan queria?
— Como se ela não tivesse te dito... – disse, emburrada.
-Não disse... Só o que me disse é que eu namoro uma turrona... Como eu concordei, nós mudamos de assunto...
— Ela diz que eu sou turrona porque não entro nas dela... E isso nem acontece sempre... Mas sabe como a dona Monique fica quando é contrariada...
-O que ela queria?
— Queria me levar pra dançar... – bufei e ele deu risada.
— E nós dois sabemos que eu sou a única pessoa no mundo por quem você faz isso, não é mesmo?
— Vai explicar isso pra Monique... “Ahhh... Ny-chan... Como você é injusta comigo... Quer dizer então que você gosta mais do Kou-chan do que de mim?” e eu acabo não tendo desculpas...
— Entendo... Entendo... E foi só isso o seu dia?
— Foi... Desde que desliguei, estou procurando a bendita da citação que aquela mulher infeliz pediu... – ele gargalhou brevemente e depois parou.
— Eu te atrapalhei?
— Você, como sempre, está me salvando dessa vidinha chata – corei ao afirmar aquilo, me sentindo boba já que ele não poderia me ver.
— Viu só como você consegue me contar o seu dia? É tão difícil assim?
— Falar com você é sempre fácil... – disse, ficando ainda mais envergonhada. – E o seu dia, como foi?
— Normal...
— Kouyou! – ele gargalhou.
— Brincadeira! Eu dormi bem e acabei de acordar!
— Eu falava... Você me entendeu, Takashima Kouyou!
— Você então precisa ser mais clara, Sereny... O que quer saber?
— Que horas foi dormir?
-Hum... Essa não é uma boa pergunta...
— Não é uma boa pergunta ou eu não vou gostar da resposta?
— Os dois... A gente ensaiou e depois saiu pra beber alguma coisa... – ele se justificou.
— Bom... Eu não sou sua mãe, não é mesmo? Eu devo partir do suposto que você é adulto e sabe o que faz... – mais uma vez ele riu, eu o fazia rir muito! – Que bom que eu o divirto tanto...
— Você só sabe ser boba, Sereny? Eu, aqui, morrendo de medo da bronca que você ia me dar... Mas eu deveria saber que você nunca faria uma coisa que eu já esperava, né? Não... Você tem de falar essas coisas que eu não sei de onde tira... – ele não estava nem perto de bravo. Ele falava tudo aquilo rindo.
— Por que teria medo de levar bronca?
— Porque, por algum motivo, apesar de todos os meus defeitos gritantes lembrá-la sempre que eu sou um dos seres humanos mais imperfeitos da Terra...
— Exagerado!
— Arigato! Bom, apesar disso, você acha que eu mereço uma chance... Mas você, ao invés de tentar me consertar, aceita que não é responsabilidade sua... E eu não sei se isso me confunde ou me ofende...
— Não é pra se ofender!
— Não? Minha namorada não se importa que eu vá beber e volte pra casa às quatro da manhã?
— E ainda acorde as sete pra me ligar? – brinquei, tentando disfarçar meu estado e amenizar o clima tenso da conversa. – Você é um adulto... Há mais tempo do que eu... Deve saber melhor como agir...
— Você está dizendo que não liga? – ele riu. Eu já não sabia mais se estávamos brigando ou apenas brincando.
— Eu ligo... Mas ser sua namorada não me dá o direito de tentar mudá-lo...
— Era nesse ponto que eu queria chegar... – ele anunciou, triunfalmente.
— O que quer dizer? Toda essa sua conversa tinha um propósito, afinal?
— Elas sempre têm, Sereny, sabe disso...
— E qual é o problema?
Ele ficou um momento em silêncio. Um momento inquietante demais pra mim... Ana sempre me disse que eu tinha por hobby assustar os outros e isso não era mentira, mas Kouyou tinha o poder de me fazer pagar por todas as pessoas que eu assustara na vida com meus suspenses. Eu tinha vontade de incitá-lo a continuar, eu não tinha era força e voz...
— Não acho que seja tão ruim pra ser classificado como um problema... – ele disse por fim, mas aquilo não tinha diminuído minha preocupação. – Na verdade... Eu tenho pensado sobre isso muitas vezes nesse último mês...
Ah, que ótimo! Alguma coisa que meu namorado quer me dizer que ele vem pensando no último mês e ele ainda quer que eu acredite que não é um problema... Eu só consigo pensar no pior...
— Você se lembra da nossa conversa antes da sua partida? Uma das últimas... Sobre você ter de voltar ao Brasil porque tinha todo um plano traçado?
— Hum... – não pude responder mais do que isso... Ainda achava que tinha sido um erro voltar e meu desespero me mantinha calada.
— Lembra-se do nosso trato?
-Lembro... Dois anos aqui e você me busca... – não era um trato bom... Mas era o que eu tinha conseguido... Ainda me preocupava muito com o que eu poderia fazer quando voltasse ao Japão e o que eu faria se ele metesse na cabeça que era um japonês tradicional demais pra morar junto com uma namorada...
— Exatamente... Dois anos... E eu te busco... – ele falou pausadamente e todos aqueles espaços entre suas afirmações me afligiram ainda mais. Ele teria se arrependido da promessa?
O quarto começava a ficar pequeno (não que já não fosse minúsculo...) e eu me sentia sufocada dentro de meu próprio corpo. Meus pulmões não se enchiam completamente de ar e eu me deitei em meu travesseiro, temendo desmaiar. Algumas lágrimas silenciosas se derramaram de meus olhos sem que eu lhes desse permissão.
— Sereny... Eu vou ter de quebrar minha promessa... – ele começou e eu senti meu coração parando no peito. – Dois anos... É tempo demais... – por mais que eu ouvisse, por mais que sentisse a angústia de suas palavras, eu ainda não tinha me recuperado completamente. Quanto tempo leva pra um coração parado voltar a bater?
— O quê? – ganhei tempo, tentando entender. Ergui meu tronco novamente, ficando ligeiramente zonza.
— Dois anos é tempo demais pra esperar, meu amor... Eu não aguentei esse ano inteiro ainda... Só fico pensando em como vou suportar dois... Isso me atormenta da hora que eu acordo até a hora que eu vou dormir!
— Vai reduzir minha pena? – senti o coração batendo num ritmo vivo que até me fazia brincar e ele riu.
— Eu não consigo nem expressar em palavras como tem sido duro ficar longe de você... E depois você acha que eu estou brincando quando a chamo de bruxinha... Você me enfeitiçou, Cassandra... Tem sido uma verdadeira tortura te ter tão longe... Não consigo mais dormir direito, não consigo mais comer direito, nem beber mais eu tenho vontade! Só o que eu consigo, porque é o único jeito que eu me sinto perto mesmo com essa distância injusta entre nós dois, é ensaiar! Quero você aqui!
— Você não devia falar essas coisas injustas por telefone, Takashima Kouyou! Você devia estar aqui, na minha porta, pronto pra me levar, pra que eu pudesse abraçar você bem apertado! – ele riu.
— Isso quer dizer que você concorda com esse seu namorado irracional e possessivo? Esse namorado que, além de todos os defeitos que tem, ainda quer trazer você pro outro lado do mundo, mesmo que saiba que o certo é não fazer isso? Esse namorado egoísta?
— Não sei do que você está falando...
— Mesmo que você diga coisas como “ser sua namorada não me dá o direito de mudá-lo” e eu me acho no direito de mudar radicalmente sua vida dessa forma?
— Pra começo de conversa, eu nem queria voltar, se é que você se lembra bem daquela conversa... – brinquei.
— Eu sei... Eu sei... Fico me martirizando por isso... Porque eu fui mais um que não acreditou nas profecias da Cassandra... Mas eu já pensei em como te compensar...
— Já pensou? E como vai fazer isso, eu posso saber?
— Logo que você colocar seus pés no Japão, você será a assistente pessoal do the GazettE! – eu arfei.
— O quê? Você pode fazer isso?
-Eu não... Mas o the GazettE pode... Yutaka já tratou da sua entrevista... Nos e-mails intermináveis que você mesma mencionou... E você recebeu recomendações de todos os membros da banda, não apenas defendendo a ideia de que se fez necessária a presença de uma assistente pessoal da banda, como que você é a pessoa mais indicada pro cargo...
Minha voz ficou presa em minha garganta, sem que nada me ocorresse.
— Está viva ainda? – ele riu.
— Estou... Mas não devo mais estar acordada...
— Sabia que pra uma sonhadora tão otimista e cheia de previsões do futuro, você é muito cética? – Kouyou brincou.
— Fale baixo, as pessoas podem ouvir que eu sou uma fraude!
— Aceita ser nossa assistente?
— Que pergunta mais boba... E eu por acaso nasci pra outra coisa senão cuidar de vocês cinco? – brinquei.
— Aceita também voltar a dividir a cama comigo? Dividir essa casa com esse guitarrista cheio de manias e defeitos?
— Você precisa parar de falar tão mal do meu namorado, sabia?
— Você vai me ensinar... Você aceita? Vir morar comigo do outro lado do mundo?
— Com a condição de que nunca mais você me deixe longe de você pro meu bem... – ele deu risada. Sua risada era um bom sinal.
— Se é o que você deseja... Nunca mais se livrará de mim!
Notas finais
a próxima fanfic da série se chama "Show me Now"
Fale com o autor