Notas iniciais
Esta one-shot é inspirada na música "Amianto", da banda Supercombo. (https://www.youtube.com/watch?v=vRiA8cq0ZtA) Sugiro que ouçam a canção durante a leitura. Espero que gostem! :D

Fred dirigia devagar, atento à estrada. Depois de trabalhar até mais tarde o sono o vencia, por isso ele aumentou o volume da música e balançou a cabeça acompanhando o ritmo, qualquer coisa para impedir que adormecesse ao volante. Quando chegou ao prédio seu alívio era visível. Ele estacionou o carro na garagem e entrou no elevador, apreciando aqueles breves minutos de total silêncio e calmaria. Os primeiros minutos que ele tivera neste longo dia.

Parou em frente à sua porta e remexeu os bolsos, procurando pelas chaves. O tilintar delas parecia ressoar pelo corredor como sinos em uma igreja, e Fred percebeu que já deveria ser muito tarde devido ao silêncio que reinava ali. Antes mesmo de acender as luzes ele jogou as chaves dentro do vaso ornamental sobre a mesinha no hall de entrada. Fora um presente de sua mãe para o apartamento novo. O intuito era que ele acomodasse flores, algo para alegrar o ambiente, dissera ela, mas Fred o utilizava para guardar as chaves e as moedas que encontrava nos bolsos.

Tirou os tênis que calçava e os deixou por aí mesmo, indo direto para o sofá. Por alguns minutos apenas ficou ali, em silêncio, sentindo seu corpo relaxar, percebendo o quão doloridos estavam seus ombros e seu pescoço depois de horas curvado sobre a sua mesa de trabalho. Então procurou o controle remoto por entre as almofadas e ligou a televisão, distraidamente passando por vários canais até encontrar um que parecia remotamente engraçado. Contudo, Fred nem mesmo teve tempo de rir da primeira piada antes de adormecer.

Fred acordou subitamente, desorientado. Olhou ao redor e localizou o controle remoto no chão e então desligou a televisão. Com um riso fraco percebeu que esta era a dica mais clara de que sua infância tinha acabado, pois adormecera no sofá e acordara no mesmo lugar. Com um olhar fugaz para o relógio na parede constatou que já eram quase três horas da manhã e deu-se conta que estava faminto. Preguiçosamente foi para cozinha a fim de preparar alguma coisa. A vida adulta podia lhe privar do tele transporte mágico para a cama, mas lhe garantia horários muito mais flexíveis.

Abriu a geladeira e decidiu preparar um sanduíche. Ele prestou atenção aos sons que produzia, como o prato sendo colocado na bancada de mármore da cozinha, ou pão sendo cortado, uma gaveta sendo aberta ou suco sendo servido no copo. Quando se mudou para o apartamento ele apreciava este silêncio, o total oposto do que acontecia na casa de seus pais. Hoje, no entanto, a solidão parecia ecoar pelo ambiente.

Considerou checar as mensagens em seu celular, mas algo lhe dizia que só encontraria mais trabalho e já tivera trabalho suficiente por hoje. Como o verão estava em seu auge e o calor deixava seu apartamento abafado, mesmo às três da manhã, ele decidira aproveitar seu jantar tardio na sacada.

Deslizou a porta de vidro sentindo a brisa fresca em seu rosto. Sentou-se na cadeira que deixava ali e aproveitou a serenidade da madrugada e os sons da cidade que parecia nunca dormir. Foi quando deixou seu copo no chão que ele a ouviu.

Por um segundo Fred pensou que fosse apenas mais alguma moradora do prédio sofrendo de insônia e buscando um pouco de alívio para o calor na sacada. Mas havia algo de errado naquela cena. Aquela menina chorava baixinho e estava sentada no parapeito da sacada, suas pernas balançando no vazio.

— Olá. – disse ele, um tanto assustado.

Ela assustou-se e por um segundo se desequilibrou. Fred levantou-se rapidamente como se quisesse segurá-la. Felizmente ela conseguiu se segurar, mas ele continuou com a mão estendida, como se precisasse salvá-la a qualquer minuto. Ela estava na sacada à sua esquerda, no andar de cima, e mesmo que fosse impossível alcança-la, ele ainda não conseguia se mexer.

— Está tudo bem? – ele perguntou, sem saber o que dizer. Ela riu amargamente, como se a pergunta fosse um tanto ridícula. Como ela não fez menção de responder, ele insistiu. – Qual é o seu nome?

— Isso importa? – ela respondeu e Fred assustou-se com voz dela. Soava completamente desprovida de emoção.

— É claro que importa. Eu me chamo Fred. – ele sorriu, nervoso.

— É só um nome, Fred. – ela olhava para cidade com imensa concentração, mas parecia não ser capaz de vê-la. – Não faz a menor diferença...

Fred observou o modo como seus pés balançavam quando ela lançou um de seus chinelos no ar. Ela observou com sincera curiosidade e admiração aquele objeto caindo até atingir o chão. Ele também observou com preocupação a ansiedade que tomava conta dos olhos dela enquanto aquele chinelo despencava do nono andar.

— Moça, sai da sacada... – ele falou, baixinho, tentando trazer a atenção dela de volta para ele. – Não olha para baixo.

— Eu não tenho medo de cair, Fred. Medo nenhum. Em nenhuma célula do meu corpo. – Como se quisesse provar que tais palavras eram verdadeiras ela soltou as mãos do parapeito. – É aquele impulso, você sente, Fred? Aquele impulso no fundo do seu cérebro, aquela voz louca dizendo “Vá em frente, pule”.

— Moça, não pule. – ele disse, baixinho, tentando não assustá-la. Ela voltou a se segurar. – Você precisa abandonar esta urgência de pular.

— Não é a urgência de pular. – ela respondeu, pela primeira vez olhando profundamente para ele. – É a urgência de cair.

Fred observou as lágrimas que rolavam por seu rosto enquanto ela se mantinha em silêncio, quase imóvel. Ele pensou em quanto tempo ela passou escondendo seu choro para desenvolver esta habilidade.

— Olha, eu entendo, você está tendo um dia ruim... – ele começou a falar, mas parou assim que ela começou a rir.

— Não, você não entende. Eu não estou tendo um dia ruim. Eu estou tendo uma vida ruim.

Fred deixou que o silêncio se instalasse entre os dois enquanto ele tentava entender o que estava levando aquela garota a um ato tão extremo, vasculhando sua mente em busca de uma forma de ajuda-la.

— Não tente entender em alguns minutos, Fred. Eu venho tentando entender isso por anos e veja aonde cheguei. – a voz da garota possuía um tom de compaixão, como se realmente se preocupasse com o fato de ele estar próximo demais de sua loucura. – Apenas volte a dormir, finja que eu não passo de um sonho ou de um fantasma. Na maior parte do tempo é exatamente o que eu sou.

— Eu não vou deixá-la sozinha.

— Eu sempre estive sozinha. Posso estar cercada de pessoas e continuo sozinha. Não se preocupe, já estou acostumada. – ela olhou para o nada, falando mais consigo mesma do que com ele. – Já aceitei o fato de que sempre estarei sozinha.

— Você não está sozinha. Eu estou aqui. – Fred apoiou seus cotovelos no parapeito, entrelaçando seus dedos, atento a cada movimento da garota.

— Até quando? – ela sussurrou. – Você continuará aqui enquanto eu sorrir, enquanto eu responder “sim, e você?” quando me perguntar se estou bem ou enquanto eu ainda conversar sobre o calor sufocante deste verão quando nos encontrarmos no elevador. Mas quando você tiver o primeiro vislumbre da minha loucura, vai fugir. Quando vir uma mínima fração de meu lado mais sombrio, vai partir sem nem mesmo olhar para trás.

— Eu não vou fazer isso.

— Todos fazem.

— Por que?

— Porque eu sou como um buraco negro, sugando e destruindo tudo o que há de bom ao meu redor. Carinho, amor, contatos, experiências... Eu absorvo tudo incansavelmente, esperando que alguma coisa possa preencher este vazio. E as pessoas acabam ficando esgotadas. Depois de um tempo, todos se cansam de dar amor e receber desespero em troca. Eu não os culpo. Eu também me afastaria de mim se pudesse.

— Isso significa que elas se importam. – Fred sorriu. – Se ainda lhe dão amor, é por quê se importam com você.

— Você já parou para pensar como somos todos seres essencialmente egoístas? – Fred pensou que talvez ela não tivesse escutado o que ele dissera. – Não fazemos nada pelos outros, não realmente. Você não ajuda alguém porque alguém precisa de ajuda. Você ajuda pois isso te deixa tranquilo, com aquela sensação de dever cumprido que faz você dormir tranquilo à noite. As pessoas não me dão amor e carinho porque gostam de mim, mas sim porque esperam o mesmo em troca.

— E por que você não retribui?

— As pessoas só podem dar aquilo que tem, Fred. Nada mais. Eu estou vazia e é isso que dou às pessoas. Vazio.

— Aposto que você tem muito a oferecer ao mundo. Não deve pensar nessas coisas... – Fred surpreendeu-se ao vê-la rindo novamente.

— Pois se eu não pensar, vou esquecer, não é? Vai ser como se não fosse real. – ela olhou para ele com um pouco de pena. – Você parece minha mãe.

— Bem, não dizem que nossos pais sabem o que é melhor para nós?

— As pessoas dizem muitas coisas que ouviram de outras pessoas, apenas repetindo, pelo simples fato de não compreenderem o que estão dizendo. – ela respondeu com impaciência.

Fred concordou com as palavras dela, mas se manteve em silêncio. Ela estava tão fraca que ele temia que pudesse ceder a qualquer momento. Ele pensou se conseguiria chegar até ela ou então pedir ajuda de alguém. Ele considerou o quão rápido conseguiria chegar até seu celular antes que ela percebesse suas intenções.

— Você nunca sentiu um aperto em seu coração? – ela disse, interrompendo os pensamentos dele. – Algo tão forte que simplesmente tomou conta de você? E por mais que você tente encontrar a razão disso, não consegue? E isso se transforma em um cansaço tão grande, tão pesado, tão absoluto que te imobiliza completamente? Como se uma âncora lhe arrastasse para o fundo de mar em fúria? – ela riu, cansada. – Você não sabe, é lógico que não sabe, mas é assim que eu me sinto. Todos os dias. Todos os dias eu chego em casa depois de passar o dia inteiro distribuindo sorrisos falsos e isso me esgota. É quando esta sacada parece mais e mais atraente. A resposta para tudo está lá embaixo.

— Eu canto. – disse Fred, despreocupadamente.

— O que?

— Eu canto. – ele repetiu. – Quando chego em casa depois de um dia difícil, eu canto. Isso me acalma, me distrai. Então bebo um bom café, leio um livro ou assisto a um filme. Você deveria tentar.

— Eu não bebo café. – ela respondeu, desconcertada.

— Eu queria ser capaz de fazê-la ver o mundo com outros olhos. A sua vida só está começando. As respostas que você tanto procura não estão lá embaixo. Estão lá. – ele apontou para o horizonte. – No mundo, no futuro.

— Se eu pular agora não precisarei me levantar da cama amanhã. Não precisarei enfrentar o mundo novamente, nem falar com ninguém, nem decepcionar ninguém, nem falhar novamente. Só de pensar em tudo isso já me sinto cansada. – ela olhou para ele com olhos suplicantes. – Minhas respostas estão lá embaixo.

— Tenho certeza que você tem motivos para continuar vivendo.

— Me dê um bom motivo para não pular agora.

— Você vai se machucar.

— Eu espero que sim. – ela sorriu. – Mas o que são alguns minutos de dor contra uma eternidade de paz?

— Se você pular, não poderemos conversar amanhã. – ele respondeu, sorrindo tranquilamente. – Você não verá o sol nascer, não sentira a brisa do fim da tarde, não tomará um sorvete no parque, não verá as estrelas... Você vai perder tanto coisa. Vai perder a música.

— Eu não tenho nada disso em minha vida, Fred. Não sentirei falta.

— Não se mova. – ele disse, como uma ordem. E o mais rápido que pode correu até a sala e pegou o seu violão que descansava ao lado do sofá. Voltou correndo para a sacada.

— Oh, não... Não faça isso. – ela falou, surpresa.

— Você disse que não tem música em sua vida. Então, vamos compor uma, algo especial.

Delicadamente, Fred começou a tocar notas suaves que preencheram a madrugada. Do fundo do seu coração, ele desejou que as notas preenchessem o vazio no coração dela.

— Moça, sai da sacada. Você é muito nova pra brincar de morrer. – ele começou a cantar suavemente, criando palavras para expressar seus pensamentos, tentando distanciar a atenção dela do chão frio lá embaixo.

­— Venha, desça daí. – ele continuou cantando. – Deixa eu te levar pra um café.

— Eu não bebo café. – ela disse, interrompendo-o.

— Café é uma boa palavra. Rima fácil e soa bem. – ele disse, parando de tocar. Ele observou cautelosamente quando ela colocou sua perna direita para dentro da sacada, virando-se de frente para ele.

— Eu prefiro chá. – ela sussurrou.

— Tudo bem, quando eu escrever a letra completa eu mudo para chá. – ele rendeu-se. – Que tal você descansar um pouco?

Ela ponderou sobre as palavras dele, realmente as considerou. Olhou para baixo e então olhou para Fred, tentando entender como ele conseguia sorrir daquele jeito tão sincero. Ele parecia tão feliz... Ela o invejou brevemente.

— Não gosto de dormir. Tenho muitos pesadelos.

— Eu posso te ajudar.

— Como?

— Quando eu era pequeno, tinha muitos pesadelos. Acordava aterrorizado em minha cama e corria para o quarto dos meus pais. – ele disse, olhando para o nada relembrando o passado.

— Sobre o que eram os seus pesadelos? – ela questionou, curiosa.

— Eu sonhava que estava perdido e não conseguia encontrar meus pais. Sonhava que estava completamente sozinho e isso me assustava. – ele de ombros. – E palhaços. Eu odeio palhaços.

Para a surpresa de Fred, ela riu. Não como as risadas cansadas ou debochadas que ele vira até agora. Um riso sincero, aberto e que provavelmente acordara alguns vizinhos.

— Um dia, eu tive um pesadelo muito ruim e corri para o quarto dos meus pais. A minha mãe acordou e me levou de volta para o meu quarto e me deu um colar. Ela disse que o tinha conseguido em uma viagem para o México, presente de um poderoso xamã. E que se eu o segurasse comigo, não teria pesadelos.

— E você acreditou nesta baboseira? – ela arqueou uma sobrancelha.

— Acreditei. E não tive nenhum pesadelo. – Fred riu com a lembrança. – Nem depois que minha ex-namorada me arrastou para um circo.

— Ela fez o que?

— Ela estava começando a faculdade de psicologia, estava muito animada com o que estava aprendendo e acreditou que seria uma boa maneira de me curar de meu medo de palhaços.

— Espere aí. – ela ergueu as mãos. – Sua ex-namorada? Você ainda tem este colar?

Fred buscou o colar que trazia em seu pescoço. Uma corrente muito simples com uma pequena pedra nele. Ele o retirou.

— Posso emprestar para você. – ele disse e jogou o colar para dentro da sacada dela.

Ela saiu do parapeito e foi buscar o colar no chão. Fred suspirou aliviado ao vê-la em segurança.

— Use-o bem. – ele disse. – E descanse.

— Está bem. – ela concordou, surpreendendo a ambos. Hesitante, ela seguiu para dentro do seu apartamento, mas voltou correndo. – Fred!

— Sim?

— Eu sempre ouço você cantar. – ela disse e voltou para dentro antes que ele tivesse a chance de responder, segurando aquele colar firmemente entre seus dedos.

Fred não conseguiu dormir, mas nem mesmo se importou com isso. Ele tinha o dia de folga e poderia descansar depois. Então ficou sentado na varanda, vigiando a sacada dela e escrevendo em um caderno, reunindo as palavras que iriam formar a música que começara a compor.

Quando o dia nasceu, ele viu a padaria do outro lado da rua abrir e correu para lá. Comprou alguns pãezinhos quentinhos, um pedaço de bolo que lhe pareceu delicioso e alguns croissants. Agradeceu a atendente, feliz por estas pessoas estarem trabalhando tão cedo, e voltou para o apartamento. Então, reuniu tudo o que comprara e mais alguns saches de chá que guardava em sua cozinha e deixou tudo na porta de sua vizinha do andar de cima, com um bilhete simples que dizia “Você não está sozinha”.

No final do dia ele voltou para a sacada com o seu violão. Ajeitou-se na cadeira em uma posição confortável e começou a cantar a música que havia composto. Quando chegou ao final da canção ele recomeçou, até que a garota apareceu novamente na sacada e ficou ali, do lado dentro, segura, observando-o. Ela bateu palmas quando ele tocou os últimos acordes.

— Ficou muito boa. – ela elogiou. – Mas acho que falta alguma coisa no final.

— O que? – ele perguntou, curioso.

— Não sei. Alguma coisa. Se pensar em algo, lhe avisarei. – ela deu de ombros. – Obrigada pelo café da manhã.

— Dormiu bem?

— Nenhum pesadelo. – ela disse, surpresa. Então mostrou que trazia o colar em seu pescoço, mesmo que nem ela acreditasse que aquilo realmente funcionara. Quando ela fez menção de tirá-lo, ele a impediu.

— Fique com ele. Você precisa descansar.

Com um sorriso sincero e uma voz quase inaudível, ela disse:

— Obrigada.

Esta foi a rotina de Fred por vários dias. Quando chegava em casa ia direto para a varanda tocar seu violão e cantar alguma canção. Ele queria garantir que a música fizesse parte do dia daquela garota. Ela sempre aparecia na sacada, às vezes sentava-se no chão, mas geralmente só ficava lá. Com os olhos fechados, sentindo o vento agitar seus cabelos e as notas que Fred tocava preenchendo sua mente com algo suave, doce. Algo que fazia sentido, algo que colocava um pouco de ordem no caos que era sua mente.

Todos os dias ela o agradecia e ele sorria. Não precisavam dizer mais nada. A música já era o suficiente.

Ele estava atrasado.

O trabalho o consumira novamente, um novo projeto que surgira no começo do dia e vinha acompanhado de um selo de urgência. Ela precisava terminar, precisava entregar tudo no mesmo dia. Fez tudo o mais rápido que pode, mas estava atrasado.

Dirigiu o mais rápido que pôde, ignorou sua segurança, esqueceu- se das leis de trânsito, mas ainda assim estava atrasado.

Quando chegou perto do seu prédio já não podia mais avançar. A rua estava bloqueada. Ansioso, buscou por uma vaga na rua e estacionou por ali mesmo. Saiu do carro e correu. Quando virou a esquina seu coração parou.

Uma ambulância do corpo de bombeiros e uma viatura da polícia estavam paradas na frente do seu prédio com diversas pessoas ao redor. E mesmo sem se aproximar, sem que ninguém lhe dissesse absolutamente nada, ele soube.

Ficou ali, imóvel, até que todos se dispersaram e ele pode chegar até o seu apartamento sem que ninguém falasse com ele. Fechou a porta atrás de si com um pouco mais de força do que o necessário e encarou o vazio do seu apartamento, deixando seus olhos se fixarem na sacada.

Não queria pisar ali, nunca mais. Queria sair deste apartamento. Desta cidade. Deste mundo que conseguiu destruir tantas pessoas. Então um brilho estranho chamou sua atenção.

Com cuidado foi até a sacada e encontrou o seu colar jogado no chão. Aquele simples colar que ele comprara de alguém na rua, apenas jogado ali, esperando por ele. Respirou fundo e o recolheu, percebendo um pequeno pedaço de papel que estava enrolado nele. Sentiu as lágrimas transbordando de seus olhos e colocou o colar novamente em seu pescoço, segurando firmemente aquele pedaço de papel.

Sentou-se na cadeira e acariciou seus próprios pulsos, observando as tatuagens que agora cobriam as cicatrizes que estavam ali. Marcas de um dia em que ele também cedera ao desespero. Olhou para a sacada dela e lembrou-se de quando ela disse que ele não a entendia. Mas ela estava errada.

Ele a entendia.

Ele a entendia melhor do ninguém.

Com um suspiro pesado ele desenrolou o papel e forçou-se a ler aquelas palavras escritas com uma letra trêmula em um papel manchado por lágrimas.

“Moço, ninguém é de ferro.

Somos programados pra cair.”

Notas finais
"Não é a urgência de pular. É a urgência de cair". Eu adoraria dizer que eu escrevi isso, mas na verdade é de um dos melhor episódios de Doctor Who, "The Satan Pit" (2x09).Espero que tenham gostado da história! :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!