Notas iniciais
Essa já tava escrita faz tempo, mas só agora decidi postar. Espero que gostem x]

Sans ainda não tinha certeza se era uma boa ideia.

Quando Asgore lhe mandou uma mensagem no dia anterior, chamando-o pra conversar em seu dia de folga, Sans imediatamente desconfiou de algo. Claro, na superfície, ninguém poderia perceber nada: era o mesmo Sans de sempre. Tranquilo, irônico, até um bocado preguiçoso. Mas pensava que conversar com Asgore poderia trazer problemas.

Afinal, fazia pouco mais de uma semana que ele e Toriel tinham assumido um relacionamento.

Asgore e Toriel costumavam ser rei e rainha do submundo. Mas haviam se separado já há muitos anos, quando Asgore, louco de pesar pela morte de seu filho Asriel e de Chara, a criança humana que haviam adotado, declarou guerra aos humanos. Tal estado de guerra deixou todo o povo do submundo em estado de pesar e desespero por muito tempo. Não seria possível um ataque direto à superfície, pois havia a barreira que impedia qualquer um de abandonar o submundo, mas Asgore dera ordens explícitas para que qualquer humano que caísse no submundo fosse imediatamente assassinado. A Guarda Real foi criada para isso. E Toriel, horrorizada com essa atitude, após muitas discussões, se revoltou e fugiu para as Ruínas, o único lugar conectado ao mundo humano por onde um humano poderia cair. Para que, ao cair, pudesse protegê-lo e impedir que fosse morto por ordem de Asgore.

Isso tudo acabara há alguns meses atrás. Frisk, uma criança humana, caiu no submundo. Porém, ao contrário do que alguém pensaria, ela conseguiu prosseguir por todo o submundo sem ser morta por ninguém. E também, sem matar ninguém: conversando e mostrando afeto, conseguiu conquistar a amizade de todos os habitantes do submundo que encontrou em seu caminho. E, no fim, com sua Determinação, conseguiu impedir que Flowey, uma flor na qual fora injetada Determinação, destruísse todo o mundo existente. E mais do que isso, conseguiu salvar Asriel, o filho do rei, cuja alma estava unida à alma de Chara e presa ao corpo de Flowey, despertando sua personalidade e impedindo que o mal dominasse todo o mundo. E, como gratidão, Asriel usou suas últimas forças para destruir a barreira que separava o mundo dos humanos do submundo, de modo que todos os habitantes do submundo pudessem viver no mundo dos humanos.

Os primeiros meses foram difíceis. Mas apesar dos muitos choques culturais, era visível que os dois povos estavam fazendo seu melhor para extrair o que há de melhor nas duas culturas.

Porém... Asgore nunca conseguiu superar a perda de sua esposa.

Toriel havia se tornado professora em uma escola para crianças. E Asgore, na esperança de se aproximar dela novamente, se tornou o jardineiro dessa escola. Porém, era visível que Toriel não superara os desentendimentos do passado. E que não tinha a menor intenção de reatar o relacionamento com Asgore, tampouco de ser sua amiga novamente.

E agora, após um bom tempo visitando-a frequentemente, trocando piadas ruins, Sans finalmente iniciara um relacionamento com Toriel. Ela parecia mais feliz do que nunca, e Sans também se sentia assim.

Porém... uma semana após isso, receber uma mensagem de Asgore pedindo pra conversar lhe deixava ligeiramente apreensivo.

Mesmo em seus dias de folga, Asgore ainda usava o macacão que usava enquanto trabalhava nos jardins da escola. Haviam marcado de se encontrar na pracinha principal da cidade em que haviam se fixado. E lá estava ele. Apertando nervosamente as duas mãos.

Sans estava alerta. Sabia que Asgore não tentaria lutar com ele ou coisa do tipo: pra alguém que já declarou guerra à humanidade no passado, Asgore era muito pacífico. Na maior parte do tempo, parecia incapaz de fazer mal a uma mosca. Mas Sans conhecia seu poder. Sabia que, em combate direto, ele nunca deveria ser subestimado. Mesmo que Sans fosse muito poderoso, sabia que não seria fácil vencer Asgore em combate.

Porém, Sans não esperava que Asgore quisesse lutar. Asgore era pacífico demais para isso. Além disso, os choques culturais já eram complicados demais algumas vezes sem um bode-leão gigante e um esqueleto se degladiando na praça da cidade. E bem, lutar com Sans não traria Toriel de volta.

Mas mesmo assim, Asgore irradiava poder. Talvez por seu passado como rei. Sans não o subestimava.

— Hey, Rei Bode. — Sans falou, se aproximando e sentando no banco ao lado dele

— Howdy! — respondeu Asgore, em um tom fracamente animado, uma corajosa tentativa de ser cordial – Como está?

— A situação “tá osso”. Mas tranquilo. — Sans respondeu com um dos seus muitos trocadilhos ruins com ossos

Asgore riu.

— Tori sempre gostou dess... — ele começou a falar, mas depois parou

Como Sans não tinha lábios, nunca podia parar de mostrar os dentes. Mas apesar do sorriso, sua expressão deixou de parecer animada. Asgore ainda era o mesmo, mas Sans percebeu que estava fragilizado. E um pouco de solidariedade não fazia mal a ninguém.

— Você... você e Tori estão...? — perguntou Asgore, sem rodeios, indo direto ao assunto que viera conversar

— Estamos juntos. — respondeu Sans

Asgore respirou fundo. Mas sua expressão parecia a de alguém que estava carregando o peso do mundo nas costas.

— Alguém te contou? — perguntou Sans

— Não... eu só... notei que ela estava diferente. — disse Asgore, parecendo realmente melancólico

— Diferente como?

— Mais feliz. Mais alegre. Mais animada.

— Olha, ela tá assim desde que saímos do submundo. — respondeu Sans, dando de ombros – Quando Frisk aceitou ficar junto dela, a Tori quase explodiu de alegria. Ela se sente mais à vontade na presença de crianças do que na presença de qualquer outro. E realizar o sonho de ser professora também fez ela melhorar muito.

— Eu sei. Mas... desde que você começou a aparecer na hora da saída... que você acompanhava ela e Frisk de volta pra casa... eu notava algo de diferente.

Sans silenciou. Era verdade. Sans e Toriel se conheceram indiretamente. Conversaram repetidamente através da porta fechada das Ruínas, trocando piadas ruins por vários dias seguidos. Até que, em um dia de muito pesar, Toriel pediu para que Sans protegesse Frisk. Na época, Sans nem conhecia seu nome, nem tinha visto seu rosto, mas em nome de alguém com quem tinha tanta afinidade ao trocar piadas ruins, prometeu que faria isso. E assim, de maneira indireta, Sans protegeu Frisk por todo o caminho, até que ela finalmente encontrasse o fim de sua jornada e libertasse a todos. E quando viu seu rosto pela primeira vez, apenas teve a correspondência de todas as suas expectativas. Nem sonharia que fosse a ex-rainha do submundo, mas e daí? Só via o que sempre pensara: uma bela dama com um excelente senso de humor.

E embora tenha começado de maneira diferente, no final das contas os dois foram ficando cada vez mais próximos.

Demorou até que Sans percebesse que se aproximava de romance. Nunca tivera muita paciência pra isso, sempre fora preguiçoso demais pra procurar contato íntimo com alguém. Sempre achara apenas divertido de observar situações como a de Undyne e Alphys, ou dos dois bros membros da Guarda Real, mas nunca pensara em procurar algo do tipo para si. Relacionamentos, sentimentos? Muito trabalho.

Mas então, foi percebendo que gostava mais de estar na presença de Toriel do que na presença de qualquer outra pessoa. Apenas sentar no sofá e ver TV junto com ela e Frisk, trocar piadas ruins, ajudá-la a fazer tortas, o fazia sentir tranquilo. E como Papyrus costumava ficar muito tempo viajando mundo afora... logo, percebeu que sentia vontade de visitar Toriel e Frisk todos os dias.

Foi engraçado como percebera que era romance. Fora visitar Toriel e Frisk, e ficara lá até tarde. Tarde demais. Frisk fora dormir, e os dois ficaram conversando no sofá. Falando de coisas bobas e coisas sérias. Até que Toriel percebeu que já era muito tarde, e perguntou se Sans não gostaria de dormir ali aquela noite. Meio sem jeito, Sans aceitou... Toriel arrumou o sofá de maneira confortável, e lhe deu um beijo no rosto antes de ir se deitar. E então, Sans percebeu... que realmente gostava dela.

A partir daí, foi necessário apenas alguns dias para irem conversando sobre isso, e após uma longa conversa madrugada adentro, assumiram um relacionamento. Na prática, nada mudara: Sans visitava Toriel, conversava bobagens, a ajudava com os afazeres domésticos. Mas... realmente, sentia que ela estava mais feliz. Percebia que, no íntimo, ela também sentia falta de alguém ao seu lado.

Claro, acima de tudo, Toriel sentia falta de ser mãe. Perdera Asriel, e perdera Chara. Frisk fora a maior bênção da vida dela. Mas, uma vez que a criança passara a morar com ela, Toriel passara a sentir falta de alguém com quem dividir seus problemas. Suas intimidades. E Sans... sem perceber, pouco a pouco, fora ocupando esse espaço.

Asgore também notara isso. Notara o ar de Toriel mudando. E, ao ver Sans indo buscá-la na escola com tanta frequência... apenas somou dois e dois.

— Bom, é isso aí. Estamos juntos. — disse Sans

Asgore suspirou.

— Eu desconfiava disso. — disse ele — Mas... sempre tinha uma esperança... de que algum dia...

Sans não respondeu nada, apenas o olhou.

— Eu não vou tentar lutar, ou coisa assim. — continuou Asgore – Se ela está feliz com você, pra mim está bom. E... a minha atitude de guerra que afastou Tori de mim, pra começar. Não pretendo fazer nada contra vocês. Mas... cuide bem dela. Fique ao lado dela. Não deixe ela se sentir sozinha. Se um dia tiverem filh...

— Opa, epa, calma aí, Rei Bode. — disse Sans, erguendo as mãos – Uma coisa de cada vez. Estamos juntos, mas não quer dizer que vamos nos casar, que vamos ficar juntos pra sempre.

— Eu sei. É só que... — Asgore respirou fundo – Eu conheço a Tori. Acredite... se ela não gostasse de verdade de você, não estaria junto de você. Ela é assim... não faz nada levianamente.

Sans também notara isso. Toriel era constante e tranquila. Suave. Mas, acima de tudo, era sincera com tudo... seu amor era puro e sincero. Fosse o seu amor maternal, fosse o amor que começara a brotar pouco a pouco entre eles. Nascido a partir do momento que começaram a ser mais confidentes um do outro. Como Sans dizia, uma coisa de cada vez, um grande amor não explodia do nada, e ninguém garantia que chegariam a esse ponto. Mas os sentimentos de Toriel, independente do nível, sempre eram sinceros e puros. Asgore sabia disso.

— Então só... cuide dela. Eu não vou ficar no caminho de vocês. — disse Asgore, com voz de além-túmulo

— E você, Rei Bode? — perguntou Sans

— Eu... eu vou ficar bem. — respondeu ele, embora parecesse completamente melancólico

— Tô falando sério. Você tem que parar de viver assim.

Asgore o olhou de maneira séria. Mas Sans não parou.

— Olha só pra você. Eu entendo que você esteja preocupado com ela, mas olha só, você percebe no olhar dela que ela não quer mais contato com você, mas você procura um emprego de jardineiro da escola dela. Você descobre que ela está com outra pessoa, e já vem falar. Tem que parar de fazer sua vida girar em torno dela.

— E o que você sabe da minha vida? — respondeu Asgore, ligeiramente nervoso – Você sabe o que é se apaixonar por alguém de maneira tão profunda que você desistiria de todo o mundo por essa pessoa? Sabe o que é ter todo o amor do mundo, e perder? Perdi meu filho Asriel. Perdi Chara, que eu amava como se fosse minha própria cria. E depois, perdi Toriel. Você sabe como é perder tudo em seu mundo?

— Você ainda tem a si mesmo. — respondeu Sans, sem demonstrar comoção, até com um pouco de frieza na voz — E não está sozinho. Frisk está morando com Tori, mas ela vai te visitar com frequência. Você tem Frisk, tem a Undyne, a Alphys... até o Papyrus vai te ver, quando está por aqui. E se eu sei como é estar completamente sozinho... você tem uma boa ideia de como eu sei disso.

Asgore se calou. Sans estava falando de Gaster. Um tópico que costumavam evitar. Mas que fora embora... para além, muito além de quaisquer meios pelos quais poderia ser alcançado. E, por muito tempo... fizera Sans experimentar a completa solidão. E a responsabilidade de ter que lidar com seu irmão mais novo. Ampará-lo. Sozinho.

— Olha, Rei Bode... só o que estou dizendo é que você pode mais. Frisk chegou ao submundo em completa solidão. Mas o amor e a Determinação que carregava em si mudou todos ao redor dela. A deixou cercada de sentimentos bons. Você pode fazer seu melhor com o que você tem. E ainda tem muitas pessoas que se importam com você.

Asgore ainda olhou para Sans por alguns segundos, entre indignado e aborrecido. Então, suspirou, ainda parecendo bem melancólico.

— Apenas... cuide bem dela, certo? — disse Asgore

— Se algum dia Tori sofrer por minha culpa, eu corto minha cabeça e entrego pra você em uma bandeja. — respondeu Sans, sem hesitar

Então, Asgore se levantou.

— Obrigado pela conversa. Agora... tenho que ir. — disse ele

— Fique bem, Rei Bode. E... eu sei que é duro. Foi mal se falei alguma porcaria. — respondeu Sans

— Não... você tem razão. Eu precisava de um chacoalhão, um banho de realidade. Só... é difícil.

E Sans percebia que era mesmo. O que ele e Toriel tinham ainda estava no início. Mas ele notava que o que Asgore e Toriel tiveram foi profundo demais, a ponto de marcar profundamente a vida dos dois. Para Toriel, também devia ter sido muito difícil abandonar tudo. Perder Asriel e Chara, e então, por conta própria, abandonar Asgore e permanecer sozinha nas Ruínas por tanto tempo. Toriel era forte e decidida, e isso era o que Sans mais admirava nela... mas percebia que ela também sofrera muito antes de se recuperar. E Asgore ainda estava nesse processo. Seria sofrido... e Sans não sabia dizer o quanto ele sofreria até recuperar a felicidade dentro de si.

Sem dizer mais nada, cada um foi pra um canto.

*

— O que o Asgore queria? — perguntou Toriel

Os dois estavam sentados no sofá. Haviam assistido Tom e Jerry com Frisk por duas horas seguidas, até que Frisk foi ao banheiro. E Toriel aproveitou pra tocar nesse assunto. Sans não havia escondido que Asgore queria falar com ele, embora Toriel tivesse reagido de maneira cética, dizendo que ele nem deveria ir, que Asgore só queria perturbar. Mas agora, estava perguntando a respeito.

Sans deu de ombros.

— Queria saber se estávamos realmente juntos. Eu disse que sim. — respondeu ele

— Pelo amor de Deus. — Toriel suspirou – Por que ele tem que se meter na minha vida?

— Não é por aí. Ele te ama, Tori. De verdade. Não é tão fácil pra ele.

— Eu também amava ele, Sans. E não foi fácil ver a face que ele nunca havia me mostrado, quando declarou guerra a todos os humanos.

— Eu sei. Mas... ele só precisava disso. Conversar. Ele não vai se meter. Você sabe, ele cometeu erros... mas não é uma má pessoa.

Toriel levou a mão à têmpora, parecendo realmente aborrecida. Então, Sans segurou sua outra mão.

— Ei, Tori.

— Hm?

— Sabe que outro dia, uma cantora pop roubou uma joia de outra?

— Minha nossa, sério? Eu simpatizo tanto com essa menina Demi Lov...

— Poisé. Foi a Nelly Furtado.

Toriel olhou pra Sans, e então riu.

— Ai, ai... você é impossível mesmo, né? — disse ela, sorrindo

— Impunsível. — completou Sans, também rindo

Então, Frisk voltou do banheiro. Sans e Toriel pararam de falar, já com um clima mais descontraído e feliz, enquanto começava um novo episódio de Tom e Jerry.

Enquanto assistia, Sans meditava. Ainda se sentia meio abalado pela conversa com Asgore.

Mas afinal. Estavam bem. Estavam felizes.

Asgore também ficaria.

Tudo estava bem.

Notas finais
E é isso aí. Espero que tenham apreciado x]
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!