Motsatt

16 Capítulo 15 - A Calmaria


Notas iniciais
Ae pessoinhas Bem, vou explicando logo a minha demora imensa neste capítulo... Primeiro, eu estava cansada, precisava descansar um pouco, sabe? Motsatt é uma fic bem cansativa g.g Eu sou muito perfeccionista com ela... ... E falando em perfeccionismo, novamente: Lembram que mencionei que tenho sérios problemas com romance? Pois é! A leitora Teodora Juliani teve que me aturar procrastinando sobre isso incansavelmente(e obrigada por me aguentar, sua linda! :D). Nem quero pensar quando eu tiver que escrever as cenas do Nero e do par dele (sim, ele terá sua metade da laranja, mas não agora. Tenso.). Outro bom motivo é que esse é provavelmente o capítulo mais importante da fic, um dos 3 mais (porém pra mim o mais!). Bem, é isso, ao capítulo! No fim tem um desenho do Nero. Se o Nyah continuar sendo uma bitch e não pegar o desenho no capítulo, vou deixar o link aqui, pq nas notas finais tmb está sendo tenso: https://scontent-a-gru.xx.fbcdn.net/hphotos-xap1/v/t1.0-9/q89/s720x720/10502318_654936357929658_1038802589803461687_n.jpg?oh=b72de084463e8de3cf4486859f5fc7f9&oe=55359617 (outro motivo que não mencionei é que me tornei uma viciada em The Sims 3. Este negócio não é de Deus não, sugou toda a minha vida social e não social (-q) até eu me obrigar a retomá-la! Acreditam que a virada de Natal eu passei jogando The Sims?! -q)

Capítulo 15 – A Calmaria

Nero parecia tão cansado e debilitado que não se surpreendeu quando ele adormeceu em sua cama quase como se desmaiasse. Aegis, novamente em sua forma de camundongo, saltou quase como uma suicida, pousando certeira no focinho de Rarac, de onde subiu rapidamente para sua cabeça. Ele apenas soltou um resmungo e pousou a cabeça sobre suas patas.

A visão do de cabelos prateados não fazia o mínimo sentido. Mas ela parecia perturbá-lo, então decidiu acatar e refletir sobre ela. Gelo, uma árvore, fogo, um túmulo violado, sangue e um deserto. O que aquelas coisas poderiam fazer juntas para possuírem sentido?

Quando estava sentado, pensando no nada, decidiu perguntar a Lucy – e obviamente seus irmãos — porque ela havia aceitado mantê-lo em sua casa, mesmo correndo tantos riscos com aquilo – e novamente, óbvio que ela não sabia de todos os riscos -, mas para sua surpresa, a simples resposta fora que em todo aquele assunto, havia simplesmente algo que não encaixava, que a fazia lembrar vagamente da situação de seu pai.

– Seu pai?

– Sim. Armaram na empresa dele, fazendo parecer que um caso de corrupção havia sido orquestrado por ele. Assim, ele perdeu o emprego e muito dinheiro num processo, além de não conseguir trabalho pois a “fama” se espalhou. – ela balançou a cabeça. – Na época a minha mãe sofreu um acidente e fraturou a coluna na altura do pescoço, ficando tetraplégica e ele estava cada vez mais depressivo. No fim, se suicidou.

– Fala como se não fosse nada... – comentou pasmo.

– Eu era muito pequena na época. Nem lembro dele. Minha mãe também não durou muito, falência múltipla dos órgãos... Então pra mim, meus irmãos são muito mais meus pais do que eles. A sensação ao ver toda essa situação em que você está metido lembra muito a dele...

– Só que em proporções maiores.

– É.

– Sabe que estará com problemas se... Souberem que estou aqui, certo? Você e seus irmãos.

– Ah... Algo me diz que a polícia não o encontraria aqui.

“Não é quanto à polícia que me refiro...” pensou pesaroso, mas apenas assentiu, como se considerasse a resposta convincente o suficiente. Talvez depois devesse falar com Trevor e Abigail para saber o que os motivava a se envolver naquela loucura, apesar das possíveis consequências.

Manteve-se neutro em relação aos seus pensamentos e preocupações mesmo quando Far chegara. Os momento em que ambos estiveram juntos foi ligeiramente melhor, já que encontrava-se inteiramente lúcido. Para quem não soubera do ocorrido certamente parecia um milagre.

Falando nisso... Então Kogen encontrara Nero, certo? Se ele estava ali... A mais óbvia resposta era que sim...

Ao anoitecer, questionou a Trevor e Abigail as mesmas coisas que questionara para Lucy. A resposta fora praticamente idêntica a dada pela caçula. Mesmo não totalmente seguro daquela situação, tinha de admitir que estava muito melhor ali do que no porão de alguém, vomitando as próprias tripas. E assim permaneceu lá.

Os dias se arrastavam, e enquanto Jake finalmente se recuperava, assim como Nero, nem percebeu que os dias lentos e sem nada para fazer, enquanto não era visto por ninguém além dos poucos que entravam na casa – e se alguém além deles entrasse... Bem, ninguém ia no quarto dos fundos... – se tornavam meses, sem ter muito contato com o mundo exterior.

Apenas percebeu quando no dia 16 de março de 1952, Far não apareceu. Lucy só retornou também apenas depois de ter ido dormir, portanto não vira sua expressão abalada. O mesmo se repetiu no dia 17, e toda aquela situação seriamente estava deixando-o nervoso e muito preocupado. Era claro que algo acontecera, mas o quê? Nem Nero sabia.

No dia 18, Far finalmente apareceu e Lucy parou em casa durante a tarde, enquanto Jake escondia as unhas gastas, quase que feridas, de tanto arranhar as paredes por ansiedade, com falta de algo para fazer. A expressão das duas deixou-o certamente alarmado.

– O que houve?

– Near. – Far sequer tentou suavizar o fato para ser ouvido. – Ele sumiu. Faz dois dias, e ninguém faz a mínima ideia de onde ele está.

–... O quê?! – sentiu como se um soco fosse dado em seu estômago. Near... Desaparecido? Sem mais nem menos?

– Ele simplesmente disse que ia no Ollivier e ... Não voltou. Até agora.

– Já fomos lá e Ollivier disse que realmente viu Near lá. – Lucy murmurou num tom baixo. – Ele saiu com Haydée, mas ela disse que ele apenas se despediu dela e falou que iria voltar para casa.

– Que... – balançou a cabeça, as alternativas viáveis passando por sua cabeça. Sequestro, talvez tenham o assaltado ou levado para algum lugar. Maníacos também não faltavam. Mas não eram muitos pensamentos coerentes que passavam por sua mente enquanto tinha a perspectiva de seu melhor amigo ter sumido. O que poderia ter acontecido? – Eu não sei que...

– Ninguém sabe Jake. – Far apenas balançou a cabeça, toda a dor inscrita em sua voz. Estava passando por uma situação extremamente difícil. Sempre fora ela, Jake e Near, entretanto, Jake tinha que ficar escondido, longe da vista de todos, e agora Near desaparecia. O melhor amigo – ou seria melhor chama-lo de namorado? – e o irmão. Estava sendo demais para ela. – A mamãe já acionou a polícia, mas nenhuma notícia. Neah simplesmente evaporou.

E literalmente... Foi isso. Mesmo escutando o rádio todo dia ou lendo jornal, perguntando de vez em quando – tentando ao fato não tocar na ferida. -, os dias continuaram passando sem qualquer sinal de Near. Soube que Haydée e sua família se mudaram para a França, mesmo faltando poucos meses para a formatura dos terceiros anos.

Era estranho pensar daquela forma... Até algum tempo atrás, Jake estava mais do que absolutamente cotado para a formatura. Era um bom aluno, tirava notas quase sempre exemplares, certamente conseguiria entrar numa boa universidade... Apesar de nunca ter pensado exatamente no que faria. Gostava de ler, mas escrever estava fora de cogitação. Desenhava muito bem, o tipo de desenho que as pessoas param para apreciar, porém era algo bastante... Íntimo. Não era o tipo de coisa que compartilharia com todos.

Certa vez decidiu perguntar para Far se sabia como seu pai estava, e ela acabara por questionar Debrah na escola – aparentemente todo aquele incidente havia a deixado bem mais dócil, e lhe dava todos os motivos do mundo para aquilo. Certamente ela também estava o odiando mais que o usual já que ele era cotado como o principal suspeito. -. A resposta fora que ele ainda estava muito mal, e viviam agora na casa de Ariel, sua irmã. Era óbvio que Jake conhecia “tia Ariel”, assim como sabia muito bem que ela não o suportava. Simplesmente reclamava de tudo o que ele fazia e poderia dizer que o desgosto dela era recíproco. Já a ouvira discutindo com John – às escondidas, obviamente – de o porquê ele ter o adotado, e que ele era provavelmente filho de uma prostituta ou coisa do tipo para ser “vulgar”- nunca entendera sua lógica para isso -. Ficou mais do que feliz ao ver seu pai responder de maneira bastante brusca e mal educada em sua defesa.

Possuía a crença de que os Bergais também haviam o envenenado – e provavelmente o resto de sua família -, mas era impressionante como ele estava durando. O próprio Jake havia passado por uma situação horrenda devido ao veneno.

Mas se bem... Acabara recebendo uma dose dupla. Com apenas uma vivera por quase oito anos sem muitos problemas. Havia também o fato de que não era humano, então seu organismo poderia ser diferente.

Era irônico pensar... Jake não era humano e até para os padrões do mundo que viera era um anormal.

O dia 30 de abril e 1952 lhe foi extremamente triste. Era o dia em que comemorava seu aniversário, juntamente com Pearl e Celinne. E a perspectiva de passar aquele dia sem as duas meninas era quase desesperador. Na madrugada, sem conseguir dormir devido aqueles pensamentos de solidão, acabou fazendo uma pergunta para Rarac.

– Quando é meu aniversário?

O Denor ergueu a cabeça, parecendo surpreso com a pergunta repentina. Mas apenas relegou-se a soltar um suspiro canino e responder:

– No sexto dia do mês Queda de Slavir. – respondeu com seu tom de voz grave. Manteve-se calado por algum tempo, como se pensasse em algo. – Passando esta data para os padrões da Terra, seria algo como primeiro de janeiro.

– Então... Fizemos dezoito anos há um bom tempo. – murmurou mais para si mesmo, mas não passou despercebido para Rarac.

– Você estava desacordado quando isto aconteceu.

Assentiu, mantendo-se quieto depois daquilo.

– Não possui mais nenhuma pergunta?

– Eu posso fazer mais alguma?

– Dependendo do que ela for.

Mordeu os lábios, deixando com que sua mente vagasse um pouco até os momentos em que esta parecia nebulosa até um pouco depois da bagunça. Vagou até aquele estranho homem que lhe dera uma breve explicação sobre seu mundo.

– Arenai.

– O quê?

– Quando ele disse quem era... Você simplesmente perguntou: “O que alguém como você faz aqui?”. Por quê?

Rarac suspirou, antes de buscar meios de responder.

– Bem, vamos falar um pouco de política. – Jake olhou-o surpreso. – Talbor é o continente, e nele há alguns reinos, cada um com o seu, ou seus, governantes. Porém, há um sistema monárquico ligeiramente... Diferente. Há o conselho, composto por mil anciões, e eles escolhem dentre estes governantes dois, os quais se tornam os dois reis de Talbor.

– Seria algo então como se houvesse dois presidentes, que são escolhidos entre os governadores do país por uma assembleia?

– É algo do tipo. Pois bem, os principais reinos de Talbor são os Vulcari, Saluma, Mesenaes, Setvarie e Altser. Estes dois últimos seriam como se fosse os reinos dos humanos de lá. Não se engane, todos controlam seus elementos, acontece que as outras raças possuem formas ligeiramente... Bestiais. – Rarac balançou a cabeça. – Setvarie e Altser são reinos interligados como um, o que chamamos de Kazca.

– O Reino de Kazca? Seria então algo como o Reino Unido? Inglaterra, Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia?

– Sim. Cada um entretanto ainda possui sua família real. Setvarie é a casa Kandrac e Altser é a casa Demekius. O que me chamou a atenção em Arenai foram duas coisas: ele é da casa de Ergaton-Perais, que provavelmente é a família mais bem conectada e influente de Talbor, talvez até mesmo uma das melhores de Aurtrai. E para ter uma ideia do nível deles... Se uma das famílias reais, Kandrac ou Demekius, for exterminada, a família que passará a ser a família real é a Ergaton-Perais.

–... Nossa... – murmurou, sem encontrar nada mais para dizer. Era... Algo difícil de acreditar assim.

– Outra é que aquele homem é praticamente uma lenda viva, apesar de ser bem jovem. E aconteceu tanta coisa com ele que a vida dele é quase patrimônio público. Muita gente sabe, principalmente os primeiros anos. Apenas depois de seu casamento é que começou a.... “Discrição”.

– Jovem? Quantos anos ele tem? Vinte e cinco?

Rarac negou.

– Setenta e um.

– Jovem?! – exclamou, entretanto, retornou a vê-lo em sua mente. Arenai parecia estar no meio de seus vinte anos... – Espera, ele não envelhece?

– Nenhum de nós envelhece depois dos vinte e cinco anos. Você não envelhecerá depois de seus vinte cinco anos, assim como qualquer pessoa de Aurtrai. – respondeu, chocando-o. – Também... Temos uma longevidade que aqui na Terra seria fantasiosa. A menos que sejamos assassinados, ou morrermos de alguma doença... Duramos.

– C-como assim?

– Simples. Enquanto pudermos, viveremos. Se conseguir retornar a Aurtrai, não será nem um pouco incomum encontrar pessoas com quatrocentos, quinhentos anos. – seu tom de voz abaixou. – Por isso que tenho certeza de que... Mesmo que os Bergais não houvessem se intrometido, uma hora ou outra você perceberia que não era humano. Quando parasse de envelhecer, quando percebesse que dura mais que as outras pessoas...

Jake sentia algo entalando sua garganta.

– Bem, em um local onde há pessoas que vivem milênios... Alguém de setenta e um anos é jovem, certo?

– Sim.

– Arenai é um membro do Esben. Este... Esta guarda um dia foi um grupo de renomados assassinos, que faziam qualquer serviço sujo por dinheiro. Assassinato, roubo, intimidação, tudo. Este era um dos grupos do “submundo” aos quais estavam atrelados aos Ergaton- Perais. Eles então fizeram um trato, que sempre trabalhariam para eles sem questionar, se eles dessem sempre um filho a cada geração.

– Isto faria meio como se os Ergaton-Perais fossem os “donos” deles?

– Sim.

– E no caso, o Arenai foi uma dessas crianças...

– Uma não, ele foi A criança. Ele foi o primeiro. É o filho caçula de Morgiana Ergaton-Perais, e.... Bem.

– Caçula? Então foi literalmente na sorte?

– Não. Percebeu que chamei Arenai de “Criança da Noite”?

– Sim, e ele não pareceu ficar muito feliz com isso.

– Bem, há três motivos para ele ser chamado assim: O primeiro é por causa da idade dele no geral, e as coisas que conseguiu com tão pouca idade. O segundo é porque quando ele foi dado como aprendiz ao Esben, ele tinha cinco anos...

– Espera, ele era praticamente um bebê!

– Sim, e além disso, ele é o filho de um casamento da noite.

– Casamento da noite?

– É um costume praticado em certas regiões ou por algumas famílias. O “marido” visita a esposa em sua casa depois de todos terem ido dormir, e vai embora antes de todos acordarem. Assim, apenas ela sabe a identidade do amante. Caso tenham algum filho, este recebe o sobrenome da mãe, e só descobre quem é seu pai quando julgam ser o momento certo: Ou o pai quer se revelar ou algo do tipo, ou quando o pai morre e o filho vai herdar suas propriedades. Morgiana era casada com Sellshea Erkven, e com ele tinha três filhos, porém, ela se separou dele após alguns anos.

– Divórcio é permitido em Talbor?

– Sim.

– Hã... Ok, continue.

– Dois anos depois dessa separação, Arenai nasceu, filho de um casamento da noite. Quando chegou a hora de escolher a criança... Se pegasse um dos três mais velhos daria uma briga com a casa Erkven, então para evitar atritos desnecessários, escolheram Arenai, que apenas a mãe e os deuses sabem quem é o pai. E foi assim que ele entrou pro Esben. – Rarac mudou de posição e balançou seus ombros caninos. – Em Aurtrai, há uma ordem militar chamada de Ordem de Keanls Houvedalec, na qual apenas os melhores podem entrar... Quer dizer, os melhores dentre os melhores.

–... E ele faz parte dela.

– Até ele entrar, a pessoa mais jovem a ingressar possuía oitenta e sete. Já Arenai... Ele tinha dezenove. A entrada dele só foi possível pela absorção do Esben ao exército, que aconteceu durante uma guerra contra os Vulcari, na qual ele se destacou.

– Estamos falando de alguém bem...

– Ele é um prodígio. É por isso que acabou caindo na boca do povo, principalmente depois que se casou com uma plebeia. Mas bem, isso é tudo o que eu sei sobre o Arenai.

– O que é bastante coisa. – murmurou. – Obrigado.

Rarac pareceu se contentar e se ajeitou para dormir.

Mas Jake não pregou os olhos aquela noite.

Aquilo o atormentou mais do que pensava, não a conversa sobre Arenai, nem política, mas sim aquela... Quase imortalidade.

Durante a tarde, Far passou para lhe desejar um feliz aniversário – apesar dele não estar muito feliz – e novamente sentia algo entalado em sua garganta. O fato dito durante a noite anterior o atormentava. Far era humana, então obviamente ela iria envelhecer e morrer normalmente, ao contrário dele. E mais uma coisa retornou a sua mente para lhe dar uma pitada de desespero: recordava-se de Rarac dizer no dia em que descobrira sobre não ser humano e tudo mais: “Bergais são monogâmicos. Se apaixonam uma vez na vida, à primeira vista. Depois disso, não há mais volta, portanto não possuem costumes como casamentos arranjados e coisas do tipo.”.

Segundo Arenai, a mãe de Jake era Bergal. Isso o fez levantar a questão apenas consigo mesmo se herdara aquele traço dela.

E pensar naquilo era certamente desesperador. Lembrava-se muito bem de que se apaixonara por Far literalmente à primeira vista, e durante todos aqueles anos não pudera esquecê-la. E então vinha o pensamento de que Far era uma humana, então obviamente envelheceria e morreria normalmente.

Enquanto ele não.

– Certo Jake... Não se preocupe, porque você já aprendeu na prática que tudo pode piorar. – murmurou, tentando mudar para uma posição melhor, sem sucesso.

Durante a tarde, Far lhe desejara um feliz aniversário – certamente não tão feliz assim -, o que não aquietou seus pensamentos. Queria parar de pensar naquilo, mas simplesmente sua mente era preenchida a cada vez que tentava esvaziá-la, fazendo-o ficar quieto e aparentemente em outro mundo, sem perceber os minutos – às vezes dias — passando, mas que o fazia se amaldiçoar sempre que se pegava daquele modo.

Estava procrastinando novamente.

Havia algo também em seu subconsciente o qual não podia assimilar direito. Era quase uma sensação de medo subconsciente, como se houvesse um mal sempre o observando, o que lhe dava calafrios. Poderiam até pensar que estava ficando paranoico, mas temia que os Bergais estivessem quase o encontrando, e a ideia de sair dali e sumir lhe parecia cada vez mais tentadora para não por nenhuma daquelas pessoas em perigo, além de achar que sua presença estivesse incomodando – embora tudo provasse o contrário.

Mas não entendia exatamente porque não o fazia. Chegara até mesmo a falar com Rarac sobre o assunto, e ele perguntara exatamente isso: Por que não o fazia?

– Jake? Jake!

– Hm?! – olhou sobressaltado para Far. Estava tão perdido em pensamentos que nem escutara.

E era claro que ela percebia que ele estava perdido demais em pensamentos. Era impossível não perceber.

–... O que houve?

– Quê? Nada... – respondeu imediatamente na defensiva, comprovando logo o contrário, o que fez Far suspirar pesadamente. Olhando-a melhor, percebeu que usava um vestido mais leve e confortável do que os que usava para sair. -... Você vai dormir aqui?

– Sim, mencionei quando vim conversar com você. – disse, deixando-o desconcertado. – O que está acontecendo Jake? Tem alguma coisa te perturbando, certo?

– Não...

– Não minta pra mim Jake.

– Finalmente está aprendendo a habilidade de Near de detectar mentiras?

– Não, apenas é o fato de que quando te conhece bem, você acaba por se tornar previsível. Creio que é quase impossível se chegar ao nível do Neah... Mas deixando isso de lado, o que está acontecendo?

Jake hesitou. Na verdade, vacilou seria a expressão correta. Sentia-se mal omitindo a verdade de Far, ainda mais se levando em consideração o atual estado do... Relacionamento de ambos, e a situação em que o rapaz se encontrava. Suspirou, passando a mão pelos cabelos vermelhos.

– É... Complicado.

– Algo a ver com aquela coisa de povo da água, povo do fogo?

Olhou-a quase chocado. Como ela sabia sobre aquilo?!

– Digamos que... Nero me contou. – explicou-se. — Quando estava inconsciente, ele não queria dizer por que não poderíamos levar nenhum de vocês a um hospital ou coisa do tipo, e porque precisava mantê-lo escondido.

– E você acreditou assim... De primeira?

– Não acreditei até o seu cachorro falar. O que não durou muito tempo.

Olhou para Rarac, que lhe deu a sua versão canina de um sorriso sem vergonha. Repentinamente sentiu uma vontadezinha de enforcá-lo – ignorando totalmente sua gigantesca forma humana – ao pensar o quanto ele deve tê-la assustado. Convenhamos, um cachorro que você está quase cansado de ver a cara de repente falar sem dúvida assustava. Suspirou, antes de responder.

– É, algo muito a ver. – sacudiu a cabeça. – É... Complicado. – repetiu.

– Eu percebi... Não quer falar sobre isso? – Jake desviou o olhar, o que Far tomou como resposta. – Tem certeza?

– É... Eu não quero preocupar mais ninguém... Não mais do que estou. – Murmurou, mas os olhos castanhos continuaram o encarando intensamente. Aquilo o desconcertava, mas talvez... Era melhor contar ou não? Resolveu contar. – Às vezes sinto como se fosse apenas uma questão de tempo até que me encontrem... E como se eu já estivesse abusando desse tempo de “sorte”. – Ela abriu os lábios para dizer algo, mas continuou sem lhe dar tempo para responder. – Eles não tiveram nenhum escrúpulo em matar a minha família, quem dirá pessoas “estranhas”? Isso está me preocupando demais, ainda mais porque os Lovelace não tem nenhuma obrigação de me terem sob seu teto, nem estão recebendo nada por isso. É absolutamente injusto algo acontecer com eles pelo simples fato de eu estar com eles, e ainda há você...

Isso o fez lembrar novamente da questão da possibilidade de se ter puxado a uma certa característica dos Bergais, que o fez sentir sua garganta dando um nó.

– E também... Há outra coisa.

– O quê?

Antes de responder olhou para Rarac, visivelmente incomodado com sua presença ali, mas claramente sentindo isso, o Denor levantou e talvez fingindo uma certa mágoa e nariz empinado, saiu do quarto, deixando os dois a sós. Jake coçou a nuca, um tanto sem jeito quanto ao que iria dizer, além de temeroso pela reação dela. Aquele tipo de coisa certamente era sério e poderia muito ser visto como grilhões.

– É que... Logo que toda essa coisa foi explicada pra mim, Aurtrai e tudo mais, foi mencionado sobre o fato dos Bergais... Bem, isso é um tanto constrangedor, mas mencionaram que eles se apaixonam uma vez na vida, à primeira vista.

Far inclinou ligeiramente a cabeça, como se não entendesse.

– É que... A minha mãe biológica era, ou é, não sei se ela está viva, Bergal. – seu tom de voz foi diminuindo e Jake evitava olhar para Far, sentindo seu rosto esquentando. – E por causa do que aconteceu nos últimos anos, eu vim me perguntando se... Acabei... Herdando esse traço...

– Ah... – Far disse apenas, antes de sua voz morrer e um silêncio desconfortável e constrangedor se instalar. Jake quase que imediatamente se arrependeu de haver contado aquilo, afinal o que estava pensando? Como reagiria se alguém que conhecesse há tanto tempo chegasse consigo e dissesse “Provavelmente só posso me apaixonar uma vez e foi com você”? Mesmo que não nestas palavras, era isso o que fazia com ela naquele momento.

– É, eu não deveria ter dito isso.

– N-não, é só... Como eu poderia dizer...?

– Perturbador?

– Chocante. – corrigiu. -... Deve ser... O que devo dizer? Por que não queria contar?

– Porque achei que poderia... Bem, para mim é como se fosse uma pressão. – desabafou. – Sabe, alguém só pode sentir algo do tipo uma vez e isso acontece justamente com você... Eu me sentiria pressionado, acho... Pois ficaria com medo de... Sei lá, um dia acabar me cansando e ficar com aquela sensação ficar preso a essa pessoa.

–... Espere um pouco que ainda estou... Tentando pensar em algo para dizer. – Far começou. – É... Realmente inesperado.

– Pois é. – Jake passou a mão pelo rosto. – Sinceramente, para mim isso é... Não é algo que simplesmente dê para pensar direito no momento em que lhe é dito. E acho que não falei isso da melhor maneira possível, eu realmente deveria ter visto uma maneira melhor de contar.

– Jake, há quanto tempo você vem pensando sobre este assunto?

– Há alguns dias, por quê?

– Bem, se formos considerar que você demorou anos para dizer que gostava de mim, não duvido nada que normalmente demoraria anos para contar isso também.

–... Isso não foi engraçado.

– Não foi a intenção, desculpe.

– São os fatos, é, eu sei, foram praticamente anos e é bem capaz de que se eu não houvesse lhe beijado aquele dia, nunca contasse.

– Ou fossem mais oito anos.

–... É. – admitiu, o que a fez rir.

Não pressionou Far por respostas, até porque aquela não era o tipo de situação que poderia se esperar de imediato. Entretanto, ela continuou com ele por mais tempo até do que perceberam. Em dado momento, enquanto conversavam sobre assuntos aleatoriamente agradáveis que mal parecia que há pouco tempo estavam num assunto extremamente sério. Em dado momento, já haviam se deitado na cama e foi apenas uma questão de tempo até que adormecessem.

Jake acabou despertando de madrugada, e em sua mente grogue de sono, demorou a perceber-se abraçando Far por trás, enquanto esta permanecia adormecida. Não se sentiu constrangido, apenas surpreso pelo fato de ter... Acontecido sem nenhum dos dois ter realmente percebido. Em sua mente enevoada sinceramente não conseguia recordar de haverem ido dormir.

Esfregou de leve os olhos antes de puxar o lençol o mais suavemente que pode para não acordar Far e cobriu a ambos. Conseguia mesmo no escuro discernir suas costas movendo-se suavemente devido sua respiração, além do cabelo claro caindo por seus ombros. Ela remexeu-se lentamente, antes de mudar de posição em seus braços, ficando de frente para ele, mesmo que ainda adormecida.

Seriamente, como poderia não lembrar de algo assim?

Voltou a pousar sua cabeça no travesseiro, observando-a durante algum tempo, a curta conversa que tiveram. Far não lhe respondera muito bem, mas entretanto também não tentara se afastar dele para pensar sobre o assunto e algo do tipo – tanto que ela estava dormindo com ele -, então não sabia exatamente o que pensar dela. Entenderia caso ela quisesse se afastar, pois novamente como ele pensava, aquilo poderia muito bem parecer uma prisão após algum tempo. No fim, mesmo que lhe doesse admitir, para ele estaria tudo bem desde que ela estivesse feliz, mesmo que não fosse com ele.

Mas era óbvio que sentia aquela vontade absurda de continuar com Far.

Não adormeceu até que conseguiu em dado momento identificar a cor da noite mudando atrás de si, que foi no momento em que Far começou a se mover levemente, indicando que iria despertar. Afrouxou os braços envolta dela, permitindo-lhe com que espreguiçasse – mesmo que os movimentos da garota fossem mínimos – quase como uma gata. Sorriu quando sentiu o suspiro contra seu rosto.

– Espero que tenha dito que iria dormir na casa de Lucy a sua mãe, não no quarto de Lucy, senão estará dizendo uma séria mentira, mocinha. Dormindo com procurados da polícia, tsc, tsc.

– Eu disse que ia dormir na casa de Lucy. – retrucou num tom sonolento e acabou se aninhando mais contra o peito de Jake, o abraçando. Sua voz saiu abafada devido ao tecido da camisa dele. – Mas a minha intenção inicial estava bem longe de dormir com você.

– Vamos ignorar isso. – murmurou enquanto escutava um resmungo arrastado de concordância em um tom adormecido, apertando mais seus braços em volta dela. Os corpos pareciam especialmente quentes daquele modo.

– É você que está tocando no assunto. – Ela retirou minimamente seu rosto do peito de Jake, verificando os raios de sol que já apareciam. – Argh, vou ter que levantar para me arrumar. Não quero ir para a escola de jeito nenhum...

Acabou tendo que dar uma risada baixa com aquilo. Bem, nunca encontrara um aluno que não houvera passado por aquela situação uma vez na vida...

E se bem que naquela situação, não levantar era bem tentador...

– Eu tenho que... – ela empurrou-o levemente, ficando ligeiramente sobre o ruivo, que quase riu novamente. Far mal parecia estar consciente para falar a verdade, como se estivesse necessitando de uma dose urgente de cafeína ou qualquer coisa que a fizesse despertar rapidamente.

Acabou se levantando também, preparando-se para mencionar que tecnicamente ainda estava bem cedo, mas lembrou-se que Far vinha de uma casa com outros cinco irmãos – contando com Near, que esteve com eles sua vida toda... E era estranho pensar assim -. Mesmo que provavelmente cada um possuísse seu próprio banheiro, talvez gerasse aquele sentimento de urgência de ter que ir mais cedo para fazer as coisas adequadamente

Acabou que alguns minutos depois, quando o inseparável rádio de Abigail tocava já a algum tempo, saiu do quarto e desceu as escadas cautelosamente, vendo pelas janelas se não havia ninguém que pudesse vê-lo – claramente – nas ruas. Far estava ajudando a pôr os pratos na mesa e não havia nenhum sinal da enfermeira.

– Onde está Abigail?

Far apontou a para a porta dos fundos atrás de Jake. Estava aberta, então a resposta era óbvia. Voltou-se para falar com ela, algo que inclusive esqueceu, pois seu olhar foi atraído pelo colar de concha que a loira usava no pescoço. Por algum motivo era quase como se aquilo fosse algo familiar, o que era bem estranho.

–... Esse colar... Onde... Desde quando o tem?

– Hm? – ela instintivamente o tocou. – Até onde sei, desde muito tempo... Mas o encontrei apenas há alguns meses. Por quê? Só percebeu agora?

Jake balançou a cabeça, como se também tentasse descobrir a resposta, o que acabou fazendo com que Far risse. Também não quis mencionar que só o percebera naquele momento. A garota acabou rindo – afinal a resposta fora um tanto quanto evidente -, o que o fez protestar, dando alguma desculpa em sua defesa. Far no fim acabou selando muito brevemente seus lábios e disse:

– Você tem que ser mais convincente.

Bufou algo ininteligível, antes de perceber que passava tempo demais à vista de quem quer que passasse pela janela. Acabou despedindo-se e subindo as escadas novamente, retornando a aquele quarto que estava praticamente tornando-se uma moradia particular naquela casa.

O dia transcorreu normalmente – e tediosamente – como os outros, porém Far e Lucy não apareceram durante a tarde, preocupando a Jake. Ou poderia ter ocorrido algo ou... Talvez finalmente haviam tido notícias de Near. Torcia para que fosse isso, e torcia para que fossem boas, caso fosse esse o caso.

Já de noite, quando retornava do banheiro, percebeu Abigail no telefone, na sala de estar, bastante visível pelas escadas, apesar de Jake se encontrar no segundo andar.

– Como assim ela não voltou Sra. Toy? – Jake se sentiu gelando no momento em que escutou aquilo. A Sra. Toy? Se ela estava ligando, então... Abigail continuou com uma voz trêmula. – Lucy também não voltou, pensei que ela estivesse com Far...

Já sentia suas mãos trêmulas, e várias coisas se passavam por sua mente. Desceu as escadas, fazendo com que a mulher o olhasse rapidamente e parecesse que suas pupilas dilatassem. Era mais que óbvio que Far não havia retornado, se Margaret Toy estava ligando. Olhou para o relógio.

Faltava quinze minutos para as dez da noite.

Sentiu um repuxão na nuca no momento que Abigail desligou o telefone. Um repuxão insistente, como o que tivera no dia em que sofrera no dia do acidente de carro. No dia em que os Bergais atacaram e bagunçaram toda sua vida.

No dia em que mataram sua família.

Um som do lado de fora o sobressaltou, como algo sendo cravado em uma árvore. Sentindo seu coração martelar, e ignorando completamente as perguntas desesperadas de Abigail, correu pela porta dos fundos, vendo o gelo se espalhar pelas árvores, em caracteres que eram claramente uma mensagem, porém, seus olhos foram para estaca de gelo presa na árvore central, a que, no momento em que abrisse a porta, seria a primeira que visse.

E naquela estaca, estava preso o colar de Far.

Notas finais
Bem, algumas coisinhas antes de ir embora: 1 - Neste capítulo já se separa oficialmente os acontecimentos entre Coração de Porcelana e Motsatt. Para quem tiver curiosidade, CP se trata justamente do que aconteceu DEPOIS do desaparecimento do Near, e o que realmente aconteceu com ele. Infelizmente tô num bloqueio criativo com a fic, então ela está em hiatus. 2 - O apelido do Near é Neah e ele estava namorando a Lucy, por isso ela estava abalada com o desaparecimento dele.