Motivos para uma escolha
1 Motivos para uma escolha
Fuligem e fumaça cobriam a paisagem, como todos os dias na ilha do Clã das Cinzas, desde que Varang se lembrava. O clima parecia uma lembrança perpétua de que as coisas ali eram sempre as mesmas, sem muita garantia de mudança. Varang sabia que se quisesse algo diferente e melhor por ali, teria que ela mesma fazer isso com as próprias mãos.
Ela se levantou de uma vez, disposta a começar o dia. Ajeitou as vestes em volta do peito e cintura. Colocou um bracelete no braço esquerdo, feito de pedras e couro, no braço direito, uma pulseira mais delicada. Em sua cabeça, colocou de volta seu arco, imitando as asas de um poderoso toruk, em cor vermelha, seu símbolo máximo de autoridade. As pernas estavam envoltas por bandagens. Ela pegou o arco e algumas flechas, preenchendo a manhã com alguma caça.
Antes disso, tinha outro lugar em mente para visitar. Caminhou pelo caminho que cortava o vilarejo, via alguns ocupados, cuidando dos pa'li e ikran, voltando com a caça da manhã nas mãos, algumas mulheres teciam cestos e tecidos, homens construíam algo com seus instrumentos. Era uma vida simples, mas que poderia ser muito melhor longe daquele lugar isolado e quente, ainda assim, era o que eles conheciam como lar.
Seus liderados a cumprimentaram, dizendo "eu vejo você", Varang respondeu em tom soturno. Depois de mais um tempo de caminhada, chegou até onde queria. Fazia muito tempo que não visitava as fontes borbulhantes. Era costume do seu povo se banhar ali, geralmente ao fim do dia, mas como líder, se quisesse um tempo sozinha, era bem cedo que tinha que ir para lá.
Ela mergulhou com cuidado, deixando que a água a aquecesse, chegando a deitar a cabeça para trás e fechar os olhos, aproveitando o momento de relaxamento. Era bom estar sozinha, mas de repente, sua mente a levou a cogitar como seria se ela não estivesse sozinha ali.
Não havia um pretendente para Varang no momento, nem do povo dela, muito menos de outra tribo. Ninguém faria a livre escolha de se tornar um pária se aliando ao clã dos excluídos e evitados pelo resto de Pandora.
A tsahik Meylit a alertava sempre que podia sobre perpetuar a descendência dela, e já que os pais de Varang não estavam mais ali para escolher um noivo para ela e muito menos a própria Olo'eyktan não tinha ninguém em mente para escolher, mesmo entre seu povo, restava a ela ficar sozinha e adiar seu eventual casamento mais um pouco.
Disposta a deixar tais pensamentos para trás, ela encerrou seu banho e se pôs a fazer o que tinha ido até ali para fazer. Caminhou mais um pouco até encontrar um dos vulcões onde pretendia caçar. Ajeitou o equipamento nas costas e se pôs a escalar, com cuidado, mas também muita agilidade e destreza. Em um pouco mais seguro, se abaixou, se preparando para a caça, com o arco e flecha em posição em suas mãos, fechou os olhos se concentrando, as orelhas atentas ao som se retorcendo, esperando pelo som de um pássaro do vulcão.
Ao reconhecer o grito do pássaro mais próximo, Varang abriu os olhos de uma vez e mirou na direção dele, obtendo sua caça. Com o animal em mãos, ela retornou para sua cabana, onde o preparou por conta própria e aproveitou a refeição. Já alimentada, ela foi até seu principal guerreiro, o líder responsável pelo treinamento de seus guerreiros.
—Eu vejo você, Rayfu — ela o cumprimentou.
—Eu vejo você, Varang — ele respondeu.
—Tem o relatório das últimas vigias? — ela procurou saber.
—Sim, não há nada fora do comum — ele disse — tivemos alguns viajantes do vento, uma canoa Metkayina em viagem, mas nada além disso.
—Ótimo trabalho, continue vigiando e não hesite em me chamar se houver algo suspeito ou um invasor — ela instruiu.
—Cumprirei meu dever, Olo'eyktan — Rayfu prometeu.
Ele tinha sido um soldado leal, compreendendo a causa deles e o quanto deveria lutar para conquistar o melhor paraco seu povo.
Varang observou um pouco o treinamento dos guerreiros e então retornou para sua cabana. Pela altura do sol, logo seria hora de encontrar com os anciãos da tribo. Kita, Weynan, Gatek e Noybi eram os membros mais velhos da tribo e seus conselheiros, embora nem sempre eles concordassem em tudo.
—Olo'eyktan, eu vejo você — Weynam, o mais velho entre os quatro a cumprimentou — trazemos a você notícias e petições do povo.
—Fale, ma'Weynan — ela requisitou.
—O jovem Embak está pronto para seu rito de passagem, gostaria que acontecesse na próxima lua cheia — ele solicitou.
—Será feito, Weynan — ela prometeu.
—Durante a pesca do grupo, foi encontrado um novo trecho do rio com mais peixes, pedimos sua solicitação para usá-lo — a anciã Noybi pediu.
—Podem usá-lo, contanto que não ultrapassem a fronteira — Varang recomendou.
Antes que qualquer outro pedido ou questão fosse trazido pelos outros dois anciãos, um dos guerreiros interrompeu a reunião.
—Ma'olo'eyktan — disse o guerreiro com urgência — me desculpe interrompê-la, mas capturamos um invasor estrangeiro, creio que a senhora gostaria de inspecioná-lo em primeira mão.
—Desculpe por isso anciãos, retonaremos quando possível — Varang dispensou os quatro e seguiu o guerreiro com pressa.
Eles caminharam juntos até a praia, o limite da ilha para com o mundo exterior. Logo a vista de Varang avistou o intruso sendo segurado por mais dois guerreiros. A primeira coisa que chamou sua atenção foi que ele não estava se debatendo, muito pelo contrário, estava fraco e cansado, quase como se estivesse se deixando ser carregado. A curiosidade tomou conta dela, porque aquela não era mais uma situação de invasão comum, aquele homem para estar tão cansado e abatido, com certeza gostaria de abrigo.
Além disso, segundos elementos que saltavam aos olhos eram seus trajes nada tribais, talvez muito mais coberto do que qualquer outro na'vi já visto. Seu cabelo era curto demais para ser um guerreiro, mas seu porte físico dizia outra coisa. Por fim, ela notou suas mãos e pés, o dedo a mais, como o povo do céu. A mente de Varang fez conexões sobre os rumores que tinham ouvido, seres de outro mundo invadiram Pandora e podiam até mesmo replicar criaturas iguais aos na'vi. O homem à sua frente parecia ser um desses casos, sendo mais que um rumor e passando a ser bem real a partir de agora.
—O que temos aqui? — Varang tomou um passo a frente para desfazer aquele mistério, sem hesitar, ela tocou o queixo dele, o fazendo olhar para cima, conseguindo vê-lo bem melhor.
Dava para notar, observando seu rosto de mais de perto, que ele era forte e até mesmo bonito, apesar dos olhos pequenos e amarelos.
—Quem é você? Qual o seu clã? Foi expulso? — ela continuou a perguntar, disposta a provar se ele era quem ela pensava.
—Eu... me perdi do meu povo — disse o homem, soando exausto, rendido — sou do povo do céu, nascido entre eles.
—Então fez dos Omaticaya seus inimigos — Varang respondeu, confirmando o que já imaginava.
—Eles são, seu líder é — o homem especificou.
A mente de Varang, ambiciosa e querendo se aproveitar da vantagem que tinha, resolveu acolher o forasteiro. Nunca tinham se deparado com alguém do povo do céu tão de perto, porém talvez aquele homem fosse o passo de mudança que ela estava procurando.
—Cuidem das feridas dele, não toquem na sua montaria, e depois que ele estiver alimentado, o tragam até mim — ela instruiu, decidindo de uma vez por todas, acolhê-lo entre os seus.
De volta à sua cabana, Varang tinha muito o que pensar. Primeiro, o tal homem, por ser do povo do céu, podia ensiná-los o que sabia sobre eles, colocando o povo das cinzas em vantagem sobre os outros clãs. Tê-lo com eles poderia significar uma barganha no futuro, o povo do céu ajudaria o povo das cinzas, se tivessem um dos seus entre eles. O homem teria uma dívida eterna com Varang por poupar sua vida e lhe oferecer abrigo.
Porém, ela sabia que para assegurar uma aliança como essa algo muito sério teria que ser feito. Um pacto de sangue ou de fogo talvez não fosse o bastante para o homem do céu. Varang conhecia exatamente o que assegura tal coisa e lhe daria segurança, um casamento.
Casar com um estranho foi uma questão que ela logo ponderou, poderia ser perigoso para ela, ele podia ser agressivo, até mesmo ardiloso, até mesmo enganá-la. No entanto, ela faria seu máximo para lembrá-lo constantemente de que devia sua vida a ela, não importasse o método que usaria. Deixaria claro logo no início que ela mandava ali. Além disso, olhando para seu estado, ela poderia ensiná-lo os costumes de seu povo e moldá-lo ao que ela queria. Uma outra vantagem que Varang não podia negar era que as características físicas diferentes dele a atraiam, sua pele azul, nada como a sua cinza azulada, os olhos amarelos e pequenos, não grandes e laranjas, como os dela e de seu povo. Seu corpo era forte, mostrando que era um guerreiro, o mínimo adequado para o consorte de uma olo'eyktan. Assim, ela decidiu fazer do desconhecido, seu marido.
Varang deixou que seu agora feito hóspede descansasse e se recuperasse. Seus curandeiros a avisaram de que ele parecia bem melhor agora, então assim, ela decidiu pôr seu plano em prática. Solicitou que o homem fosse trazido até ela, esperando por ele, sentada em sua cabana de forma autoritária, propositalmente.
—Qual seu nome? — Varang iniciou a conversa, dessa vez, procurando conhecê-lo.
—Miles Quaritch — ele respondeu, parecendo assustado aos olhos dela, mas fazendo todo o possível para ainda manter a pose de guerreiro, o que ela considerou um bom sinal.
—Miles será mais fácil — ela decidiu de imediato — eu sou Varang, líder do clã das cinzas. Pelo seu porte e ferimentos, e o pouco que contou, você era um guerreiro do povo do céu.
—Isso, minha missão era matar Toruk Makto — ele continuou sucinto em suas palavras, muito obediente, outro bom sinal.
—Uma missão louca, no intuito de se vingar pelo que ele fez com o seu povo? — ela especulou — bom, vocês são os invasores aqui, eles estavam se defendendo.
—Queremos... garantir o sustento do meu povo, precisamos de Pandora e é por isso que estamos lutando por isso — ele disse com cautela, mas sendo verdadeiro à percepção dela.
—Eu preciso de Pandora também, meu povo precisa — ela explicou — e eu tenho lutado por terras melhores assim como você, mas os outros clãs nos isolaram aqui e tivemos que nos adaptar. Pelo que entendo, você sabe de formas mais eficazes de luta que as nossas, então diante disso, eu quero lhe fazer uma proposta.
—Diga — ele pareceu muito disposto.
—Eu quero que seja meu aliado, ensine o que sabe ao meu povo e terá meus guerreiros e a mim ao seu serviço — Varang ofereceu.
—Isso me parece muito bom, mas você quer que eu faça algo além disso, você quer algo de mim — aqui, Miles demonstrou sua perspicácia, algo que ela estava disposta a contornar.
—Precisamente — ela declarou — é tradição do meu povo honrar acordos importantes com cerimônias importantes. Um acordo assim deve ser selado com um casamento.
—Casamento? Quer se casar comigo? Um completo desconhecido? — ele reagiu de forma um tanto alterada, os olhos arregalados dele demonstraram medo a ela — você não acharia mais vantajoso casar com alguém do seu povo ou de outro clã?
—Já disse que não convivemos bem com outros clãs — ela insistiu — você aparecer aqui é a melhor oportunidade que eu vou ter e acredite, no seu caso, não sairá vivo daqui por conta própria, eu sou o melhor que você tem para sobreviver aqui.
Varang esperou pela resposta, estava disposta a mantê-lo vivo, mas sob punição, caso sua resposta fosse negativa. Ainda assim, ela confiava no próprio poder de persuasão para convencê-lo do que ela queria, e no final, conquistar seu objetivo.
—Eu aceito sua proposta, me caso com você — ele concordou, assentindo devagar, submisso.
—Fez uma sábia decisão, Miles — ela chegou a sorrir, mas fazendo questão de mostrar que esperava obediência e lealdade dele — eu prometo mais uma vez, não irá se arrepender.
Ela se levantou e desfez a distância entre os dois, segurando braços dele, o observando em silêncio, deixando que seu rosto ficasse cravado em sua mente. Olhos assustados a olharam de volta, assim, Varang o soltou.
—Realizaremos a cerimônia hoje mesmo, à noite — ela explicou em tom mais sério — se arrume com nossos trajes e se acalme, não esqueça que agora está entre aliados.
—Sim senhora — ele disse num tom sério.
—Vá agora, o verei mais tarde — ela o dispensou, reconhecendo certa ansiedade nela.
Miles a deixou em silêncio, sua noiva sabia que muita coisa estava passando em sua mente.
Depois de algum tempo, Varang estava certa do que estava fazendo. Casar-se com Miles traria vantagens não só a seu povo, mas também para ela mesma.
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