Motivos de Callie.
1 Único.
Notas iniciais
Estava acontecendo algo estranho. As pessoas falando baixo demais, sussurros obscuros vindos do fundo da garganta. Olhares perdidos, por vezes melancólicos, que pairavam até chegar a uma figura. Figura qual não aparecia totalmente; porém era bela e brilhava. Um cintilar metálico que provinha de um majestoso par de asas escuras e espessas, balançando levemente com o vento frio da madrugada sem estrelas.
O mato começava a espetar as pernas nuas de alguém. Um invasor. Um chuvisco caía sobre a face assustada, colando alguns fios de cabelo na testa. Saiu de lá rapidamente. Então corria; tanto que por vezes tropeçava, e ia avançando e avançando, com galhos de árvores gélidas a estapear-lhe o rosto.
Quanto mais corria, mais longe ficava o horizonte. A oscilação do lugar a irritava; entre o branco e o preto piscava sem ritmo. Começou a se perguntar por que estava ali, o que estava fazendo ali, o que era ali. A partir dali a pessoa se atrapalhava, e olhava atordoada ao seu redor.
A cabeça girava, o corpo suava e os olhos, cansados, não sabiam para onde olhar. Eles eram sempre atraídos por aquela coisa cintilante, que parecia não ter saído do lugar em nenhum momento. O olhar foi rápido; uns segundos de agonia e então acordou.
Um suspiro tão longo e preguiçoso quanto o de um urso acabara de escapar de sua garganta. Mais uma noite, mais um pesadelo. Tinha sido tudo tão difícil desde os problemas com Luce. Coisas obscuras, sem vida e que por vezes assustava meninas indefesas, assolavam a mente daquela por algum tempo, desde uns meses para cá.
Uns cinco suspiros foram ouvidos pelas paredes e móveis, a partir da hora em que decidiu mexer o pequeno corpo da macia cama. Torradas e café, escola, aula de piano. À tarde estava meio ocupada, então não pôde decidir entre ficar em casa comendo mais torrada, ou quem sabe, sair por aí.
Se ficasse em casa não encontraria quem encontrou, e se saísse por aí, provavelmente não, também. Aquela escola de música era, geralmente, frequentada por estrangeiros. Estrangeiros de outras cidades, outros estados países, continentes e até outro plano espiritual. Passavam das 15h30min. Continuava lá, perto da janela, sentada ao piano escuro, no assento florido, dentro da luxuosa, porém pequena sala da Escola de Música Clássica Rose Bolton. Os dedos tão habilidosos deslizavam graciosamente pelas finas teclas do instrumento, soando perfeitamente bem, se não fosse interrompida em sua música favorita no piano. “November Rain”, do Guns ‘n’ Roses. O piano dava um toque mais suave e lento à música, até melancólico, coisa que a voz rouca de Axl não podia fazer, pensou um dia.
Olhou de soslaio, sem tirar os dedos do piano, para o portal da sala, que se mantinha firmemente aberto. O ar de lá fora entrava sem pedir licença, tirando a calmaria da sala. Balançava os fios castanhos e os outros, que eram cor de carvão. Por um momento se viu naquele estranho pesadelo, quando sem querer, passaram analisar um ao outro. O visitante era de um tom de tristeza tão profunda escondida no olhar de escárnio que ela sentiu pena.
Tristeza e curiosidade, já que não parava nenhum momento de olhar para tudo; ela, a decoração, o piano, a xícara de chá encima do mesmo. Vagando preguiçoso, voltou sua atenção ao sofá pequeno e rosa adornado de detalhes dourados, sentando-se como se lá fosse sua casa. Cruzou os dedos sobre a perna, e quase cerrou os olhos.
A menina sentada ao piano analisou as feições jovens do outro, e voltou a olhar a porta, no aguardo lento de alguém que pudesse ajudar aquele pobre indivíduo não convidado.
Num segundo de espera não correspondida, uma agonia crescente começou a atacar-lhe o peito, trazendo de novo o pesadelo de noites passadas. Fez-se um silêncio absoluto, e ela forçou-se a não arfar alto; o coração era apertado contra os ossos da costela, e doía. Torceu fortemente a manga do casaco de lã, e mordeu o lábio inferior. Descansou os dedos sob as teclas do instrumento. A xícara posta encima do piano assim que entrou na sala, foi tirada de lá como pretexto de se livrar dos olhares minuciosos sobre ela. Deixou-o sozinho no cômodo, prestes a sussurrar alguma coisa sem importância.
Desceu as escadarias douradas da pequena escola, sentindo os pés passearem de leve pelo piso, quase flutuando, com os curtos cabelos escuros a esvoaçarem. Estava, naquele momento, a procurar alguma ajuda. O rapaz que se instalou temporariamente na quieta sala de música não parecia disposto a trocar palavra alguma com ela, então não lhe deu tanta atenção.
Desdenhando de todos os meninos da face da Terra em pensamento, seguiu à procura de alguém que pudesse lhe ceder ajuda. Não era hora para estar fazendo aquilo. Seus pais eram muito conservadores, além de que àquela hora sua mãe estaria certamente enfeitando sua vida com alguns dos doces preferidos dela.
Não se viu mais o rapaz em lugar algum, naquela tarde fria. Pegou a bolsa que guardava apenas o celular e alguns papéis e saiu da sala, deixou a escola e pôs-se a caminhar rapidamente pela rua. Tracejou o caminho até a casa – que não ficava tão longe dali — com os sapatos molhados pela chuva.
xxx
Por que o Sol brilhava tão forte justamente quando ela se via um pouco triste? Ironia, que a forçava a acreditar que o Universo não a queria ver feliz. Pulou da cama no minuto em que ouviu o aparelho celular tocar tão alto quanto uma caixa de som. Silenciou-se, ela pôs-se a falar, no início calma, depois apática, e enfim frustrada.
Era uma ligação da Sword & Cross. Luce não poderia visitá-la naquele fim de semana, e decidiram por avisar antecipadamente, a fim de não causar transtornos. Desde o ano passado, Luce tinha sido internada injustamente. Aquele lugar era frio, escuro e velho, onde o ponto alto era um cemitério numa colina com o terreno bastante acidentado pelos anos de maus cuidados. Cinza, nebuloso e que dava bastantes calafrios; suficiente para obrigá-la a querer ir embora e levar consigo a amiga, que parecia pálida nesses últimos tempos. Aquele lugar não fazia bem algum.
Muitas histórias rondam aquele território. Tenebrosas, diria ela. Quando sua amiga fora internada lá, não se comunicavam muito. Os telefonemas eram regulados, e não se podiam usar computadores. Cartas escritas à mão (por parte de Luce) e digitadas (por Callie) eram permitidas toda quarta-feira. Estavam na terça.
A terça-feira, dia 11, que antecedia a um dia nunca comemorado por Callie. Numa tinha motivo; nunca teve namorado. Seus olhos piscaram quando ela acordou subitamente dos devaneios. Ela tinha em mente que o namoro era apenas uma consequência de alguma força não conhecida pelos humanos. Brincadeira. Era apenas uma consequência da vida; ma verdade não deixa de ser uma força desconhecida pelos humanos. Por que forçaria isso, se estava tão bem assim? Certo, um pouco bem.
Beirava à loucura aquele café da manhã que sua mãe fazia. Antes que pusesse o chapéu vermelho e saísse do quarto, o aroma adocicado invadiu sem cerimônias o recinto, inebriando a menina. Em transe, comeu, como quase todos os dias desde que foi concebida por sua mãe ao mundo. Brilhavam os olhos vidrados nas panquecas com mel, porém as imagens tremeluzentes do sonho teimavam em lhe encher a mente de escuros seres e aquele outro. O de asas.
A escola, e a tarde desocupada. Passou a fazer passeios demorados por alguns pontos da cidade, e até a fachada da Escola Rose Bolton. Ao meio fio, sentava alguém com cabelos escuros e lisos, corpo magro e de aparência melancólica. Vez ou outra virava o rosto quando um carro descontrolado passava pela rua, então era possível ver um brilho de esmeralda em seus olhos.
“Cam.” Uma pontada em sua cabeça foi o suficiente para fazê-la arfar, e sem querer, chamar um pouco da atenção do rapaz. Se manteve ereto, mas olhou para trás, em curiosidade.
Foi chamada. Baixo, quase inaudível, mas sabia que tinha sido. Apontou para o chão ao seu lado, e com o olhar perguntou. Ele assentiu, e se deu ao luxo de sorrir. Um meio sorriso, que logo se esvaíra. Desceu o pequeno degrau e sentou-se junto à ele, cruzando as pernas. Dedilhou as amarras do cadarço, e ele se manteve quieto, suspirando às vezes. Olhos cansados de vidas passadas, ela pensou de repente.
E o tempo passou. Luz do Sol ainda permanecia lá, firme, até o último raio. Alguns fragmentos de uma pacata conversa ainda pairavam no ar. Um pequeno peso nas costas, como mãos suplicando a todo custo que ela ficasse, até amanhecer e anoitecer de novo; lá. Mas mesmo forçada, teve de sair. Despediram-se com um aceno, e um abraço desajeitado por parte de Callie. Ele riu nasalmente quando viu seu chapéu vermelho voar da cabeça. Foi levado pela brisa de fim de tarde.
Correu, buscou o chapéu e correu ainda mais. Era como no sonho. Quanto mais avançava, mais longe ficava a casa. A única distinção com o sonho perturbador, era que ela sorria. Mal sabia ela... Por que pensava tanto nele relacionado ao Dia dos Namorados?
Viu a mãe, o pai e a escada. Decidiu por cumprimentar com os pés a última, e disparou para o quarto. Fechou a porta num movimento, enquanto trancava e ficava lá, parada. Com o chapéu sendo apertado entre os dedos, um sorriso doce e as quase lágrimas que inundavam os olhos brilhantes. Feliz, ela se sentia realmente, depois de um tempo de apatia.
Um pequenino embrulho fincado à fechadura da janela foi deixado, sendo percebido naquele instante. Prateado, adornado a uma fina fita cor de chumbo.
Desembrulhado e jogado à cama, analisou-o com olhos agora desconfiados. Nenhum resquício do sorriso doce nos lábios. Uma pedra? Pelos deuses. Suspiros e olhares indeterminados, de soslaio, ela mandava para o objeto. Parecia estranho que, enquanto ela andava, ele criava olhos imaginários e a seguia, como se perguntasse: “o que ela fará comigo agora?” Sentou-se em sua cama e segurou com um certo cuidado a pedra gelada em mãos. Fitou-a por horas, dias, semanas. Balançou e virou-o. Virou novamente e percebeu algo extraordinário que brilhava contra a luz. Algo que só percebia alguém que fosse escolhido, ou destinado.
“Cam.” Um outro sussurro de vozes entrecortadas foi novamente ouvido. Tossiu e sentiu um calafrio. Era aquele nome que estava gravado na pedra, e só podia ser visto de fosse posto contra a luz.
A agonia crescente perdurou por tanto tempo, que foi difícil adormecer; ela tentou, mas não conseguiu. Com os olhos vidrados na rua, pela janela, passou a noite e a madrugada. Viu os primeiros raios fracos de Sol, que iniciariam mais um dia em sua vida.
Com o embrulho em mãos, recusou o café da manhã. Saía como um fantasma a vagar pela escola, e assim passou a manhã. A quarta-feira só seria realmente útil à tarde. Nesse horário ela podia tomar um grande copo de café com chocolate enquanto tocava o piano, ou assistir à um filme antigo se a aula fosse cancelada. A quarta-feira à tarde sempre lhe reservava bons momentos.
Mesma sala, mesmo piano. Até o mesmo vento desalinhador de cabelos alheios. Parado à porta da sala, lá estava. Um casaco acinzentado lhe cobria os braços; parecia sentir frio.
“Partirei.” Anuiu com uma voz distante, e se percebeu bem, triste. Passou a andar até o piano. Começou a lhe falar como se fosse conhecedor de hábitos de anjo. Egoísmo às vezes predominava neles. Faziam com que certas pessoas, como Callie, fossem levadas a sonhar com eles sempre em figura mais importante. Aquela figura grandiosa de asas grandes e cintilantes, nada mais era que ele.
Ele. Cam.
O centro que idealizavam eram eles mesmos. E depois de passar certos minutos lhe deixando saber de motivos quaisquer, ele partiria.
Partiria para a fase mais improvável da vida, ou quase-vida de um anjo: o relacionamento. Com um humano. Tornar-se-ia, em plena tarde amena duma cidade calma, um anjo-caído. Caído, perdido. Perdidamente apaixonado.
“Eu caí.”
No vácuo entre o campo celestial e a terra dos humanos, ele tomou a difícil e importante decisão de um anjo. Cair ou subir?
“Cair. Por motivos que nem o mais sábio poderia lhe manter à par. Motivos de Callie.”
Notas finais
Vejam o meu lado, por favor ;-; -q
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