Mosquitos

1 Capítulo Único


A penumbra cobria o cômodo, a única iluminação visível era vinda apenas de uma pequena fresta entre as cortinas opacas, produzindo um feixe de luz que fazia uma faixa reluzente no chão de madeira polida.

Numa pequena poltrona, encostada à parede bem na frente da janela uma garota estava sentada, imóvel, olhando para o céu, perdida em pensamentos e devaneios, numa tentativa falha de livrar-se do irritante sentimento de tédio que lhe apossava.

Suas costas doíam pelas longas e angustiantes horas que passara sentada, nem todo o conforto daquele móvel caro e almofadado poderia impedir de lhe ter tal desconforto depois de certo tempo.

Desistiu de ficar apenas divagando, em fantasias e sonhos que nem mesmo graça tinham, à muito sua criatividade infantil se fora e ela se deixara prender pela dura e fria realidade. Devaneios sem tramas cheias de romance ou contos místicos em reinos encantados distantes não faziam mais parte de seu repertório imaginativo.

Suspirou demoradamente e se mexeu na poltrona a procura de uma posição mais confortável, olhou para o cômodo à procura de algo interessante, mas não havia nada que lhe chamara a atenção. A televisão quebrada em cima da estante não servia para nada além de decoração. A mesa de poker, cujo tecido verde estava degradando-se pela ação do pouco uso e das traças não tinha utilidade sem um baralho em mãos.

Colocou as mãos nos bolsos à procura de algo com que pudesse se divertir e sorriu ao tocar um objeto cortante. Se assemelhava à um punhal, porém seu punho terminava num pequeno aro de metal, cujo diâmetro era perfeito para que a garota encaixasse seu dedo indicador. O nome correto para tal arma era kunai, mas ela não se importava muito com nomes e sim com resultados. Para ela só importava uma coisa: o quão rápido poderia matar alguém com tal arma.

Começou a girar lentamente, fazendo a lâmina passar pelo feixe de luz e produzir um reflexo que fazia seus olhos arderem. Aos poucos começara a aumentar a velocidade de rotação, percebendo como aquele reflexo ficava cada vez mais constante.

Sorriu ao constatar o leve e crescente aquecimento que o atrito do metal contra sua pele, e como sua pele reagia negativamente a tal aquecimento, mas mesmo assim permaneceu com seu passatempo até atingir uma velocidade praticamente uniforme, rápida o suficiente para que o reflexo do sol permanecesse constante.

Mesmo com sua demasiada concentração na arma ouviu passos se aproximando lentamente, passos um tanto fracos e desritmados, com certeza passos de alguém que se aproximava com cautela e receio, talvez afirmar que tinha medo entre um passo e outro não seria uma suposição completamente errada.

-Jules – o dono dos passos se aproximou e começou a falar, num tom levemente nervoso, assim que ele pôde ser visto na entrada do cômodo sentiu a incômoda e completamente assustadora sensação de ter algo passando à milímetros do seu rosto.

Um baque quase inaudível confirmou a sensação de congelar o coração. Na parede
às suas costas, estava a arma que à poucos segundos a garota usava para se divertir. No local, presa pela grande força e precisão com a qual fora lançada, a kunai descansava prendendo um fio de cabelo loiro do homem.

Ele ficou parado olhando assustado para ela, pequenas gotas de suor se formaram na sua testa e ameaçavam escorrer por seu rosto, não tinha coragem de falar, talvez, mesmo se tivesse coragem, naquele momento não conseguiria falar nada.

-Um mosquito – ela disse se levantando e caminhando lentamente até ele. Um movimento muito desconfortável para o homem, que viu a garota sair daquele lugar mais iluminado e ser envolta pela penumbra de uma maneira quase perturbadora – você demorou – reclamou parando à menos de um metro dele, evidenciando o quanto era mais baixa que o homem, mesmo que não tivessem nem mesmo sete anos de diferença de idade.

Ele sentiu um estranho calafrio percorrer suas espinha quando ela esticou o braço e tocou seu rosto com seus dedos gelados. Percorreu por alguns segundos sua bochecha, e quando ela abaixou a mão sentiu uma leve ardência no local que ela tocara.

-O mosquito estava mais perto do que eu previ – ela deu de ombros e olhou para a parede – acho que o Boss não vai gostar de mais um furo na parede – colocou o indicador nos lábios pensativa.

-Eu dou um jeito – ele murmurou depois de analisar a parede, era apenas um furinho de nada, talvez o Chefe não reparasse.

-Ótimo – ela puxou a arma com o indicador e o dedão e a colocou entre ela e o homem.

Ele observou a lâmina, mesmo na penumbra pôde ver perfeitamente o pontinho preto transpassado pela arma. Sentiu por alguns segundos uma certa pena do pobre inseto, estava no lugar errado, na hora errada, antes tivesse sido morto por um tapa.

Sentiu novamente os dedos gelados dela, mas dessa vez eles seguravam gentilmente seu braço chamando a atenção do homem para ela que sorria – vamos, quero uma boa explicação sobre sua demora.

-E eu quero uma boa explicação sobre sua tentativa de me matar de susto mais cedo – ele retorquiu enquanto começavam a andar para fora do cômodo.

Ela apenas encolheu os ombros – eu te disse, tinha um mosquito querendo te picar.

-Vou fingir que acredito – ele passou lentamente os dedos pelo pequeno risco avermelhado na sua bochecha que agora insistia em arder.

-Próxima vez eu uso um mata mosca – ela garantiu soltando uma risada sádica.

Ele sentiu novamente o corpo estremecer e imaginou um mata-mosca batendo com força contra seu rosto, ela com certeza não pouparia a força, especialmente se ele demorasse novamente. Mais um longo arrepio passou por sua espinha, o fazendo prometer para si mesmo, mais uma vez, que nunca mais demoraria a chegar.

Ouviu um pequeno zumbido passar pela sua orelha e viu um pontinho preto passar à frente dos seus olhos. Segundos depois, sentiu os dedos da garota se afastarem de seu braço e ouviu o forte e estalado som de duas palmas se encontrando com força. Não havia mais zumbido, ou pontinho preto.

Um dia ainda iria descobrir o que tanto aquela garota tinha contra os mosquitos.

Notas finais
Hey, espero que gostem
e não se esqueçam das reviews
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!