Mosaico

1 Capítulo único


Desta vez, os brinquedos não estavam guardados. Eu me lembro da última vez que Amarelo me ajudou a guardá-los, de como ele parecia preocupado e relutante de me contar alguma coisa ao chegar em casa. “Azul”, ele dissera, se aproximando de mim com cuidado e olhando para o carrinho na minha mão por alguns segundos, “...Acho que não podemos mais adiar.”

Eu sabia do que ele estava falando. Eu não podia mais ignorar que não era mais uma criança, e os adultos esperavam que eu começasse a fazer coisas de adulto. O mesmo valia para Amarelo, mas mesmo que ele brincasse comigo, ele conseguia agir como alguém crescido. Eu o admirava por isso, mas quando eu dizia o quanto o achava incrível, ele fazia uma cara amarga e dizia que não era algo bom.

Segundo ele, as crianças passam a agir como adultos porque é a forma de sobreviver neste mundo, mas não conseguem parar porque se tornam adultos. Amarelo tem medo que não consigamos parar. Mas esse é um jogo inevitável que geralmente só pode acabar de duas formas: viver como os outros, ou morrer por não se ajustar.

E eu queria viver com Amarelo. Se fosse com Amarelo, se continuássemos juntos, então independente do que acontecesse lá fora, sempre poderíamos voltar pra casa e brincar como se nada tivesse acontecido. Tomar chocolate quente, passar da hora assistindo um filme e dormindo em nossa cabana improvisada de travesseiros.

Se fosse com Amarelo, ficaria tudo bem. Porque eu acreditava firmemente nisso, eu concordei com a cabeça, coloquei o carrinho na minha mão de volta na caixa e dei meu melhor sorriso decidido pra ele. Ainda assim, não consegui controlar que algumas lágrimas caíssem de meus olhos. Ah, eu não queria chorar na frente dele, mas não consegui evitar... Porque no fundo, eu tinha medo de não ver mais graça na nossa cabana, de estar preocupado demais com o mundo lá fora e achar assistir filmes uma perda de tempo, e de preferir o gosto amargo de bebidas ao nosso chocolate quente caseiro.

Os olhos dele estavam semicerrados como se ele quisesse chorar também, mas não pudesse. Ele provavelmente não podia. Porque, se Amarelo chorasse, iria desmoronar de vez, e ele ainda precisava me consolar. Eu, covarde. Eu, medroso. Eu, infantil.

Amarelo me abraçou. Não pude mais ver seu rosto, mas por mais que meu ombro onde sua cabeça se apoiava continuasse seco, eu podia sentir seu corpo tremendo. Enquanto isso, eu soluçava e chorava bem alto, sem me importar com barulho. Ficamos assim até minha voz ficar tão rouca e meus olhos tão inchados que tive que me acalmar.

— Você, como está agora, não vai conseguir lidar com o mundo lá fora. — Ele dissera, numa voz pequena e quase sem ânimo para ter algum volume. — Azul, você pode continuar do seu jeito. Eu vou cuidar de tudo por nós dois.

Não sei dizer o que senti primeiro quando ele disse isso: alívio ou culpa. Mas uma parte de mim pensou, “Se Amarelo está dizendo isso, vai ficar tudo bem”, e meu único protesto foi soluçar mais um pouco. Ele afagou meu cabelo como consolo, me ajudou a guardar os outros brinquedos espalhados pela sala e me colocou para dormir.

Nesse dia que mudaria nossas vidas para sempre, eu tive um último pensamento antes de dormir. Quando Amarelo soltou minha mão, provavelmente para voltar para a sala e pegar suas coisas que tinha deixado lá embaixo, eu abri um pouco os olhos. Não o suficiente para ele perceber quando olhou para trás, mas o suficiente para eu ver sua expressão e pensar: “Amarelo deve querer muito que alguém o protegesse do mundo lá fora também”.

Nos dias que se passaram, eu ficava em casa enquanto Amarelo estava lá fora. Algumas vezes eu saía para aguar o jardim ou estender roupas, e pessoas conhecidas passando falavam comigo. Mas eu não sabia encantar as pessoas como Amarelo, então elas logo desistiam de me cumprimentar e passavam a agir como se não me conhecessem. Isso só me fazia mais e mais inseguro quando alguém ainda falava comigo.

O mesmo acontecia com as visitas. Eram raras, mas alguns amigos tocavam a campainha e perguntavam se estava tudo bem. Eu não sabia o que dizer. Parecia que qualquer resposta que eu desse seria errada e faria me abandonarem, como os amigos que deixei entrar e julgaram meus brinquedos, ou me ouviram explicar e disseram que eu estava fazendo drama, ou só disseram que iriam ajudar e nunca mais voltaram.

No final das contas, eu só tinha Amarelo. Quando eu vi, não tínhamos mais visitas, e ninguém me cumprimentava mais também. Eu corria pros braços de Amarelo quando ele chegava em casa e tentava fazê-lo esquecer do mundo lá fora. Se esse tão pouco era difícil pra mim, eu não conseguia imaginar como deveria ser para ele.

— Azul, você não deveria confiar nas pessoas. — Ele afagou minha cabeça, enquanto eu ainda estava agarrado em seu tronco. Algo na voz dele me fez me ajustar para ver que cara ele estava fazendo, e quando vi, seus olhos estavam desfocados. — As pessoas lá fora estão o tempo todo apunhalando as outras pelas costas, às vezes até literalmente. O mundo está um caos tão grande...

— O que isso quer dizer? Então eu não deveria confiar em você? — Eu o sacudi em meus braços, fazendo birra.

Amarelo apenas sorriu ambiguamente. Um sorriso de adulto.

— Amaaaareeeelo, diiiiiiiz!

Amarelo começou a se arrastar pela sala, e eu fui arrastado junto como um macaco se agarrando em uma árvore.

— Aaamaareeeeeelooo!

— Desça Azul. — Ele tentou tirar minhas pernas que eu tinha agarrado em volta dele. Eu me colei ainda mais e ele suspirou.

— Não, você não pode ficar se fazendo de misterioso o tempo todo! — Fiz bico.

Ele desviou a atenção de mim e olhou em volta da sala. Amarelo então parou de se arrastar.

— Você deixou seus brinquedos espalhados de novo. — Ele disse, com uma voz tão fria que tremi. Amarelo deve ter percebido, porque conseguiu suavizar um pouco quando continuou: — Vá guardar antes do jantar.

Obedeci sem dar um “piu”. Os passos dele se afastaram e eu soube que ele estava indo para a cozinha, mas não olhei para trás. Tive medo. Mas medo do quê? Por que eu iria ter medo de Amarelo, que era quem mais se importava comigo?

Mesmo não entendendo, eu não tive mais coragem de estar na sala brincando perto da hora dele chegar. Algumas vezes ele chegou mais cedo por imprevistos, e eu me perguntei se o que eu estava vendo nos olhos dele era realmente desprezo. “Quando foi que eles começaram a me ridicularizar?”, eu pensava, guardando os brinquedos cada vez mais cedo. Eu não queria ouvir a voz fria de Amarelo. Eu queria que ele afagasse minha cabeça, e fizesse guerra de cosquinhas comigo pra que qualquer cara feia que um de nós dois estivesse fazendo se desmanchasse.

Foi no dia que eu hesitei de sequer abrir a caixa que me dei conta.

A cada dia, parecia que ele me achava mais estúpido por me fazer de ignorante, de só olhar o mundo pela janela e não querer ver nada além de beleza, de continuar no mundo dos sonhos sabendo que a cada dia ele cortava mais o próprio coração para que o meu permanecesse intacto.

E ele me achava estúpido porque estava a virando adulto.

Eu, uma criança que não queria crescer, não tinha valor pra alguém vivendo na realidade. Eu estava indo contra o mundo, e se nem de conforto eu servia mais, então eu só podia ser inútil nos olhos dele.

Pensar nisso me fez perder a força nas pernas. Antes que eu caísse no chão, me agarrei na caixa de brinquedos, e ela virou, espalhando eles sobre mim, agora esparramado no tapete. Pensei no quanto eu queria ajuda naquele momento, e isso só me lembrou do quanto Amarelo devia querer também. Eu sabia que ele sofria agindo como adulto. Eu sabia das incertezas que se criavam dentro dele a cada mentira que ele contava pelo bem da convivência com as pessoas lá fora. O quanto ele se sentia sujo de não poder afastar as pessoas com corações podres. Eu sabia que “Me ajude, eu ainda sou só uma criança” era algo que ele não podia mais dizer, porque ele não era mais uma criança, porque dizer essas palavras e pedir ajuda derrubariam o castelo que ele havia construído, e ele seria soterrado debaixo de todos os tijolos.

Eu sabia que uma vez que ele já tinha passado pelo inevitável, fazia mais sentido ele me abandonar que eu o abandonar. Mas eu agia como se eu não soubesse.

Diferente dele, eu podia chorar, mas não tinha direito. Eu não queria carregar o peso das responsabilidades de Amarelo, nem sabia como... mas deveria. Eu não passava de impostor, peso morto. Sempre azul, sempre azul, sempre me sentindo azul...

Não sei quanto tempo fiquei ali.

Por fim, a porta rangeu, e Amarelo ligou as luzes. Os meus olhos queimando foi o que me fez perceber que antes eu estava no escuro.

Típico de Amarelo, me tirando do escuro. Foi assim quando nos conhecemos também.

— Azul, mas o que... — Ele deixou sua bolsa no chão e se aproximou de mim. Minha visão estava borrada, mas acho que vi seu rosto se distorcer. Desgosto? O que eu vi em seu rosto foi desgosto? — Você está chorando?

— Estou...? Deve ter sido a claridade.

Ele se agachou perto de mim.

— O que você está fazendo no chão, coberto de brinquedos? — Ele perguntou. Por mais que soasse preocupado, sua mão não se mexeu para me ajudar a guardá-los.

— Eu... — Tentei sorrir, mas meus lábios tremeram e eu os mordi numa tentativa tola de disfarçar, enquanto mais lágrimas escorriam de meus olhos.

“Eu ainda sou só uma criança, então não me abandone”, era o que eu queria dizer. Seria muito cruel da minha parte.

Amarelo me observava, paciente. Por alguma razão, por alguns segundos o imaginei como um urubu, observando um animal agonizando.

— Eu sou inútil, não é? — Por fim disse, e chorei mais.

Senão por meus soluços, a sala ficou completamente silenciosa.

Amarelo se levantou, foi até a cozinha e voltou com uma faca.

— Se você realmente acredita nisso... — Ele colocou a faca na minha mão. — Então vamos acabar com isso aqui e agora.

“Ele está... dizendo pra eu me matar?”, pensei. A faca na minha mão balançava muito. A sala parecia estar sacudindo. Se eu não estivesse acostumado a tremer, acreditaria que é o fim do mundo.

— A-amarelo... — Gaguejei.

—-- Você só vai crescer se eu não existir, Azul. Eu faço tudo por você, mas se você puder por um fim no meu sofrimento... — Ele fechou os olhos e respirou um pouco. Duas lágrimas caíram de seus olhos. — Ser adulto é horrível. Eu não lhe desejo isso, mas não podemos continuar como estamos agora. Não podemos ficar juntos.

“Não, não...” Muito pior, ele queria que eu matasse ele.

Me levantei num pulo, deixando a faca de lado e lhe agarrando pela camisa.

— E-então! Vamos morrer juntos! Até que a morte nos separe, não é isso o que dizem lá fora?! Então conosco... Pode ser até que a morte nos junte...

Eu estava chorando inconsolavelmente. Ver Amarelo chorar partiu meu coração e me lançou num desespero que eu nunca tinha conhecido antes.

— E quem vai realizar nosso sonho? — Ele finalmente olhou pra mim. Ele devia estar vendo uma criança que não sabe de nada falando do mundo como se soubesse de tudo.

— Você acha que vamos lembrar de coisas como sonhos depois de morrer?!

Ele sorriu ambiguamente. Mais uma vez.

Eu engoli em seco, como se estivesse engolindo meu coração de volta, e lhe soltei. Peguei a faca, dessa vez com firmeza.

— Tudo bem. — Sussurrei, não sei para quem. — Tudo bem. Então não pode existir nem mais nem menos que um de nós, Amarelo? Tudo bem. Tudo bem, tudo bem, tudo bem...

Não estava tudo bem. Eu queria viver com Amarelo. Como eu poderia não chorar pensando nos dias que não poderíamos mais passar juntos? O pior é que ele estava certo. Nós já mal brincávamos juntos, se as coisas continuassem assim, nossos dias seriam destruídos, todas as memórias boas manchadas pelos últimos momentos ruins.

Não que um de nós morrer fosse muito diferente. Viver com a memória de alguém que você ama morrendo na frente de seus olhos não é algo fácil.

Ele afagou meus cabelos.

— Sim, tudo bem. Eu nunca gostei muito de verde mesmo.

“Mas se for por amarelo...”

Eu também sorri. Deve ter sido uma visão horrível, com meu rosto todo coberto de lágrimas, suor e meu nariz escorrendo. Mas se Amarelo ainda tinha um pouco do Amarelo que conheci, que me acolheu quando eu estava fazendo uma cara parecida, ele deve ter achado essa última visão adorável, como um cachorrinho maltratado pedindo pra você adotá-lo.

E então eu enfiei a faca com toda força no meu pescoço. Não sei descrever a dor, mas ao me afogar nela, pensei que o vermelho cobrindo Amarelo não combinava nem um pouco com ele. “Nessas horas, seria bom se a história do sangue azul fosse verdade...”

A forma como eu estava me desmanchando nos braços dele me lembrou uma aula de artes muito tempo atrás, quando eu ainda ia para a escola. “Formar algo novo usando algo despedaçado é a beleza por trás dos mosaicos”, a professora tinha dito.

“Se for um feito por Amarelo, com certeza vai ser lindo”, pensei.

Notas finais
Duas músicas me inspiraram a escrever isso.
A primeira, é mais um meme de animação: https://www.youtube.com/watch?v=VaalMc4iRVk
E a segunda: https://www.youtube.com/watch?v=1_lap6dzSUc
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!