Mosaico
1 Capítulo único
triangles are my favorite shape
three points where two lines meet
(...) my love it's very late
'til morning comes, let's tessellate
Helena gostava de ver Vanessa tocar. Ela tinha mãos finas e dedos delicados, e mesmo assim segurava firme o arco do violino, tocando impecavelmente. Helena já havia segurado uma vez; era muito mais difícil do que ela imaginava.
Vanessa tocava enquanto Helena desenhava. Era como elas faziam. Mas hoje Helena havia suspendido o lápis e olhava para Vanessa. Ela tocava de olhos fechados, os cabelos cacheados emoldurando o rosto harmonioso de pele negra, nos lábios um sorriso tranquilo. Helena gostava de vê-la assim. Era o momento em que ela estava em seu próprio mundo, feliz consigo mesma, e isso bastava.
Helena queria fazer parte desse mundo.
A música baixou e o arco cessou. Vanessa encarou os olhos de Helena, e o sorriso tranquilo se desfez numa expressão um pouco insegura.
- Não ficou tão bom. Preciso ensaiar mais.
- Imagina, ficou muito bom – Helena sorriu e tentou encorajá-la, mas apenas saiu um sorriso tímido, quando na verdade ela queria sorrir abertamente, abraçá-la e dizer que toda música que saía das mãos dela era perfeita.
Ela era perfeita, era o que Helena queria dizer.
Vanessa deixou o violino de lado e foi se sentar junto com Helena.
- Deixa eu ver o que desenhou.
- Hã... eu nem reparei muito no que estava fazendo – como um reflexo, colocou os cabelos para trás da orelha e já estava arrumando para prendê-los num coque.
- Não, deixa eles soltos... você prende sempre, fica mais bonito assim – Vanessa mexeu nos cabelos longos de Helena, espalhando-os pelas costas da garota.
Helena sentiu um leve arrepio e baixou os olhos para o caderno para esconder que estava vermelha. O que eram os cabelos dela, nem lisos e nem cacheados, sem forma, comparados com a linda juba de cabelos de Vanessa?
- Triângulos? – Vanessa perguntou.
Helena se deu conta que ela olhava para o desenho que acabara de fazer. Um mosaico de triângulos que tomava a folha toda do caderno, encaixando-se perfeitamente, sem nenhum espaço entre eles.
- É, eu gosto de triângulos. São os melhores mosaicos para desenhar, eles sempre se encaixam de algum jeito...
- Que romântico – Vanessa riu.
Helena sorriu, meio boba. Adorava vê-la sorrir assim. Ainda mais quando era ela a culpada.
- É, acho que sim...
Um silêncio caiu sobre elas depois daquelas reticências. Helena começou a ficar nervosa. Será que ela tinha entendido que...? Mas Vanessa não parecia de forma alguma intimidada pelo silêncio.
- Você devia assinar. Toda obra de arte tem que ser assinada.
Helena riu, pois não achava que aquilo era realmente uma “obra de arte”.
- Ok, vou assinar. Quer uma dedicatória também? – riu.
- Sim, uma dedicatória seria legal – Vanessa riu também.
Helena ergueu a mão para pegar o lápis, e Vanessa acompanhou o gesto com os olhos.
- Gosto das suas mãos, sabia?
- Minhas mãos? – Helena olhou para a mão direita, suja de grafite, além do fato de ter as unhas muito curtas que deixava por causa do desenho, e raramente pintava. – O que há para se gostar nelas?
Vanessa segurou a mão de Helena, suja de grafite mesmo.
- Elas revelam que você ama aquilo que faz.
Helena congelou. Não sabia o que responder. Era uma das coisas mais bonitas que alguém já tinha dito para ela, e ela não fazia ideia de como reagir. Sentiu-se idiota por isso. Vanessa continuou a conversa por ela.
- O que você mais gosta em mim?
Aquela pergunta era ainda pior. Mas para essa ela sabia a resposta. Só precisava ter coragem o bastante para dizê-la.
- Não tem nada que eu não goste em você – murmurou.
Vanessa pareceu pega de surpresa pela resposta. Mas seu sorriso estava sempre preparado. Ela se aproximou mais de Helena, encostando-se nela, encaixando a cabeça na curva do pescoço da outra.
- E como vai se chamar? – perguntou, referindo-se ao mosaico.
O coração de Helena batia rápido, mas essa era a primeira vez que ela sabia todas as respostas. Ela sorriu e passou um braço pelos ombros de Vanessa.
- “Nós.”
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