Mortuário
1 Prólogo - No pátio da escola
Primeiro dia na quarta série. Já conhecia boa parte dos rostos de meus colegas de tempos anteriores, desde a primeira série. A turma se manteve quase que constante ao longo dos anos, com uns poucos a menos ou a mais. Não obstante, não conversava muito com eles. Fui uma criança muito tímida e introvertida, conhecido na turma por não muito mais do que apenas meu nome. Eu, longe de achar isso ruim, tirava proveito de minha falta de carisma para observar atentamente a tudo e a todos sem que me enchessem o saco.
Nessa manhã específica, como em todos os anos, analisava os novatos.
Vejam bem, eu era uma criança estranha; pouco conversava ou tinha vontade de conversar com os outros, mas via grande diversão em observar cada um deles, especialmente desconhecidos. Formava as mais diversas conjecturas acerca de suas vidas, sobre como poderiam ser, do que gostavam, o que sentiam, esse tipo de coisa… Mas bastava eu conhecer a pessoa de fato que o interesse tendia a morrer, salvo exceções (que vieram a se tornar meus amigos, com o tempo). Aliás, fazendo jus a mim mesmo, sou assim até hoje. Encaro a experiência de conhecer a maioria das pessoas como descobrir o truque por trás de uma grande mágica; a arte da coisa morre, e fica apenas o raso da descoberta. Eu gosto do mistério, e na maioria das vezes prefiro mantê-lo. Não sou muito sociável, desculpem-me.
Bom, assim sendo, passei os olhos pelas caras novas na sala. Como de praxe, o semblante geral dos novatos era feito de ansiedade e agitação. A inquietação costumeira de quem quer se enturmar, quer conhecer os outros, mas não sabe muito bem como fazer isso, portanto, esperando a interação por parte dos veteranos. Já esperando por isso, tive pouco interesse em quase todos esses, excetuando-se por um garoto.
De tez clara, e com cabelos negros que caíam em curtas ondas sobre sua cabeça, estava num dos cantos, e parecia se importar com os veteranos tanto quanto eu. Não fazia nenhum esforço para ganhar a atenção das outras crianças, absorto com algo que escrevia ou desenhava no caderno à sua frente.
(Quero conversar com ele), pensei, surpreso comigo mesmo. Como dito antes, gostava do mistério e de deduzir as pessoas sem o contato em si, mas este garoto em especial trazia algo que me puxou de um jeito diferente. Eu não queria deduzi-lo, pois não havia o que deduzir; ele não fazia nada.
Assim como eu.
Então tinha de conhecê-lo.
À hora do recreio me vi, como de costume (e para meu contentamento, devo acrescentar), sozinho. Em meu canto típico, encostado a uma das grades fronteiriças do pátio, procurava pelo menino de antes, e logo o encontrei sentado à escada de acesso entre o pátio e o colégio. Trouxera seu caderno ao pátio, e mantinha a postura da sala de aula; quieto e concentrado, sem dar atenção ao redor.
Por algumas vezes outras crianças tentaram se aproximar para conseguir algum contato, talvez tentar estabelecer alguma relação agradável para com o aluno novo, curiosos como eu acerca de sua personalidade solitária. Falharam com maestria, como pude perceber. A postura indiferente – mas educada – do garoto parecia não fazer nenhum esforço para reforçar os diálogos; ele erguia os olhos quando lhe dirigida a palavra, e respondia, mas não fazia mais do que isso. Com o tempo, os alunos desistiram e o abandonaram à sua reclusão voluntária.
Resolvi que iria me aproximar agora.
Fui até a escada, cauteloso, seguindo os passos dos outros. Ao me aproximar, temia alguma reação de sua parte, talvez uma mostra de cansaço depois de ser abordado algumas vezes, mas ele sequer levantou a cabeça. Fiquei parado encostado a um dos corrimãos, com meu lanche (sanduíche de ovo com banana, o melhor), procurando a maneira certa de falar.
Fiquei um bom tempo assim.
O garoto não deu sinal de impulsionar um diálogo em nenhum instante desde que me aproximei, e isso me deixou bastante nervoso. Nunca fui a pessoa de puxar a conversa, sempre esperei que viessem até mim; não por orgulho, mas por pura insegurança. Quase nunca sabia o que dizer, e o medo de me perder na trivialidade de uma conversa rasa inibia as raras ocasiões em que eu tentava promover um diálogo.
Ou seja, ou eu não falava por não saber o que falar, ou não falava por achar que falaria bobagem.
Estava prestes a sair dali, a passos rápidos, abraçando a vergonha de não conseguir dizer uma única palavra, quando uma tentativa fraca mas plausível de início de conversa me veio à cabeça. Antes que meu cérebro pudesse colocar essa tentativa por terra, me dizendo para largar de ser idiota e procurar um jeito decente de conversar, falei.
— Que tipo de nome é Pluto?
O garoto pareceu reduzir o movimento das mãos no papel, e pude ver, pelo canto do olho, que de fato era um desenho, coberto suficientemente pelo braço para que não pudesse ver o que era. Logo o garoto voltou a desenhar normalmente.
— Quer zombar de mim, é? – Disse, com naturalidade e indiferença assustadoras, ainda sem me olhar.
“Pluto Mortt, Daven”, chamara a professora, na primeira aula, passando os olhos pela lista de frequência dos alunos da turma. Uma mão se ergueu numa das fileiras do canto, e uma voz baixa respondeu,
“Aqui”, para logo em seguida voltar ao silêncio. A professora procurou a criança, e, com um breve sorriso simpático, continuou,
“Bem-vindo, Daven. Espero que esteja gostando.”, ao passo que foi ignorada pelo aluno, já absorto em qualquer coisa que estivesse fazendo em seu caderno. Ela não percebeu tamanha indiferença, e voltou à chamada.
E agora o garoto estava aqui no pátio, tratando-me com o mesma falta de interesse com a qual tratou a professora.
— N-não, cara, relaxa, não quis te zoar. Só achei seu nome diferente, só isso. – Respondi, enrubescido. Que bela maneira de tentar se aproximar de alguém, tirando sarro do nome da pessoa.
— Hm. É, é um nome engraçado mesmo. Nunca sei se meus pais pensaram primeiro no planeta ou no cachorro. Espero que no planeta.
Fiquei meio sem saber o que responder. Não achei que ele fosse falar de uma vez, ainda mais concordando comigo. Tive medo de que me respondesse de forma brusca, e fiquei num sentimento que chamo de aliviado-mas-não-sei-como-proceder-agora. Dei uma risadinha de leve.
— É, deve ter sido. – Mais um risinho nervoso. – Meu nome é Edward. Pode me chamar de Eddie, ou Ed, se quiser.
— Sim, eu sei seu nome, eu estava na sala quando a professora disse na chamada.
— Ah. Pois é. – Disse, consternado, sem saber o que fazer. Tentei continuar:
— O que você tá desenhando aí? Eu posso ver?
Me estiquei um pouco ao lado dele na escada, virando mais o rosto, mas tentando não ser tão invasivo. Achei que estava dando certo, apesar de tudo. Até ele fechar o braço mais para dentro, obstruindo toda a visão do caderno e responder:
— Não, obrigado. – E continuou a desenhar, sem olhar pra mim.
(Caramba, que moleque chato), lembro de ter pensado, subitamente irritado e pesaroso. Poxa, eu só queria conversar naturalmente, mas ele sequer olhou para mim uma única vez. Até para os outros garotos ele olhara, mas para mim, apenas o total desprezo. O que eu estava fazendo de errado?
Estive prestes a sair dali e mandar tudo pro inferno; que se dane o novato, não quer conversar, não converse.
Que fique sozinho, isolado, para o resto do ano. Merda.
Mas não saí dali. Alguma coisa, talvez vontade de provocar e mostrar que não me abalava pela indiferença, ou simplesmente a vontade íntima e que eu insistia em esconder de ter um amigo, me manteve ali. E mais ainda, me fez mais ousado.
— Tudo bem… Posso sentar aqui do seu lado, então? Juro que não vou ficar te olhando.
O garoto foi lentamente parando de desenhar, outra vez, e agora (finalmente) levantou a cabeça e me olhou. Seus olhos eram de uma cor acastanhada bastante escura; dois buracos infinitos.
E, por um momento, me senti travado; era um olhar intenso, muito mais intenso do que qualquer outro olhar que já tinha confrontado. Muitos sentimentos pareciam voar simultaneamente em seus olhos: apatia, desconforto, desconfiança, receio, curiosidade, todos expostos, mas, ao mesmo tempo, parecendo se afogar no poço interno dos olhos do garoto, escondidos. Não sei explicar muito bem o que vi ali, era como uma mistura de expressividade intensa contrastando a uma solidez opaca. Um garoto incógnito.
Esperei sua resposta, certeiro de que pediria que o deixasse em paz. E o que veio foi:
— O.k. – E voltou a atenção ao caderno.
Sobressaltei-me, e fiquei sem reagir por um instante. A irritação por sua postura fria me abandonou de uma vez, e me vi calmo novamente. Então me sentei ao seu lado. Pude ouvir o som do grafite do lápis arranhando a superfície do papel, contínuo como ondas no mar.
(E agora?), pensei, sem saber se devia ou não tentar algo mais. Optei por não tentar. Eu sentia que não precisava, não agora, e que talvez isso pudesse, enfim, aborrecer o garoto.
Por ora, apenas sentados.
E lá ficamos.
Engraçado como a amizade funciona, às vezes. Minha amizade com Daven nasceu e se pautou majoritariamente até o fim no silêncio mútuo e no entendimento que tínhamos um do outro apesar disso.
Ao dia seguinte, vi Daven sentado novamente à escada, e não sabia se devia voltar lá ou não. Remoí por um tempo, e fui. Senti medo de que ele talvez não me quisesse ali outra vez, mas (de forma tão característica a ele, como tive de aprender a me acostumar), Daven não se moveu e não deu sinal de insatisfação com minha presença.
Não conversamos, apenas ficamos sentados.
Nos dias seguintes, a mesma coisa.
Com o tempo, o cenário foi mudando, claro; se de início não falávamos absolutamente nada, apenas dois garotos sentados à escada do pátio em silêncio, com os dias correndo fomos nos abrindo um com o outro.
Primeiro, conversas à toa (as tão temidas conversas rasas, que percebi que não eram tão desconfortáveis com Daven). Depois, conversas maiores e mais íntimas, nós dois nos conhecendo mais e mais. Daven inclusive chegou a me mostrar seus desenhos, o que eu considerei como o passo final para a amizade. Na maior parte do tempo, o silêncio ainda prevalecia, mas mesmo este foi se tornando amplamente suportável e agradável. Não precisávamos conversar para nos conectarmos, nos entendíamos como ninguém mais nos entendia, e estávamos bem assim. Foi como nos tornamos melhores amigos.
No ano seguinte, na mesma escada.
E nos anos seguintes a este.
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