Morte no Condomínio Morgue
1 Morte no Condomínio Morgue
Notas iniciais
As descrições gráficas dos corpos foram levemente inspiradas num ataque de um chimpanzé de estimação a uma mulher que aconteceu nos Estados Unidos.
Enquanto escrevia a história fiquei pensando se colocaria um chimpanzé como o autor das mortes, mas acabei optando em deixar o macaco do conto original.
Lúcia chega ao condomínio Morgue e antes de se aproximar, vê que a frente do lugar está tomada por jornalistas, enquanto os carros da polícia garantem a entrada apenas de moradores e funcionários do lugar.
Lúcia aproxima o carro da entrada e mostra a identificação de detetive particular a um dos policiais responsáveis que vai questiona:
— O que você quer aqui, moça? Aqui não é pra gente de fora da polícia, não.
— Pode deixar, eu chamei a moça aqui. Diz o chefe da investigação.
O chefe da investigação, um sujeito alto e magro, de pele bronzeada e cabelos e bigodes loiros cumprimenta Lúcia:
— Olá, Lúcia. Como é que vai? E como é que tá o japa?
— Eu e o André Kenshiro vamos muito bem, graças a Deus. E você, Gonçalo ? Como vão a Maria e as crianças? Eu tô bem surpresa de você ter me ligado no meio de uma perícia. Diz Lúcia.
— A Maria e as crianças vão bem. Te chamei aqui, porque preciso da sua ajuda na perícia e na investigação. A cena do crime é a mais horripilante que eu já vi na minha vida e você sabe o quanto de coisa ruim a gente vê nesse trabalho. Eu nunca vi um troço daqueles antes. Mataram um velho de oitenta anos e a cuidadora dele. Diz Gonçalo.
— E onde fica a casa? Pergunta Lúcia.
— Há duas quadras daqui. Eu vou no meu carro e você me segue até lá. Vai ser fácil de achar por causa das viaturas na frente.
— E quem encontrou os corpos?
— Uma vizinha ouviu o barulho de vidro quebrando e uns gritos e chamou a PM. Segundo a tal vizinha, a coisa toda demorou quase meia hora, porque a PM levou um certo tempo pra chegar na casa. Os soldados ficaram muito abalados com o que viram, um deles até vomitou no local do crime. Diz Gonçalo.
— As vítimas têm algum parente próximo?
— A filha do velho tava viajando a trabalho e chega hoje de tarde. E o marido e a irmã da cuidadora estão lá fora. Tenho até pena só de pensar no que essa gente vai ver. Comenta Gonçalo indo para o carro.
Alguns minutos depois, Lúcia vê o isolamento policial na rua do condomínio e estaciona o carro atrás do carro de Gonçalo. Ambos descem de seus respectivos veículos e Gonçalo avisa a Lúcia:
— A gente vai seguir a pé daqui.
Lúcia segue o chefe da investigação até uma casa, com plantas arrancadas pela raiz e os vidros das janelas completamente quebrados.
— Pensei que todas essas casas tivessem vidros blindados. Comenta Lúcia.
— Nem todas têm. O corpo do velho tá na cozinha e o da cuidadora na escada. Só que o do velho tá mais estragado. Comenta o chefe da investigação.
— E roubaram alguma coisa? Inquire Lúcia calçando as luvas.
— Aparentemente não. Encontramos um cofre intacto e uma boa quantia em dinheiro no armário. O sujeito mexeu a adega e bebeu um monte de vinho caro e também mexeu na geladeira e comeu bastante e deixou muita comida e frutas mordidas espalhadas. Diz Gonçalo.
Lúcia respira fundo e entra na casa e a primeira coisa que vê são os sofás rasgados e quadros rasgados com as molduras quebradas e muitos cacos de vidro e louça pelo chão.
— Céus! Isso não parece coisa de um ser humano! Comenta Lúcia.
— Pois é. E você ainda nem viu os corpos.
Os peritos da polícia continuam trabalhando sem se importar com a presença de Lúcia e Gonçalo.
Lúcia respira fundo quando caminha até a cozinha e vê os primeiros respingos de sangue e o que parece um pedaço de couro cabeludo no chão. Ela desvia o olhar o mais rápido que pode ao ver o cadáver com o rosto e as mãos mutilados no chão da cozinha.
— Eu disse que era uma cena horrível. Diz Gonçalo.
Lúcia respira fundo e toma cuidado ao se aproximar do corpo e começa a observar o melhor que pode.
— Parece que o rosto dele foi dilacerado por um animal selvagem. E a mandíbula do bicho é poderosa, mas só um veterinário ou um legista pra dizer exatamente que bicho fez isso. Diz Lúcia.
— Pois é. Será que realmente foi algum bicho? Tem uns doidos que fazem umas coisas horríveis. Comenta Gonçalo.
Lúcia percebe as frutas espalhadas pelo chão e vê um melão pela metade, com marcas de uma mordida muito grande e comenta com Gonçalo:
— Esse melão tem que ser catalogado como prova, pela marca se percebe que isso não é a dentição de um ser humano.
A detetive olha para o chão e nota um fios de cabelo longo e diz:
— É melhor pedir aos seus peritos pra darem uma olhada nesses fios de cabelo.
— Certo.
De repente um policial militar chega na cozinha e diz:
— Doutor, a gente achou uma jaula lá na garagem da casa.
— É melhor você ver isso também, Lúcia. Diz Gonçalo indo na frente para a garagem da casa.
Lúcia vai logo em seguida e não pode deixar de notar mais algumas gotas de sangue e lixo espalhado pelo chão. Até que a detetive percebe uma foto no meio da bagunça. Na foto uma mulher aparentando uns quarenta anos e um senhor de aparência bem conservada sorriem com um orangotango no colo.
— Esse na foto é dono da casa? Pergunta Lúcia.
— Deve ser não tem como reconhecer o coitado que tá morto lá na cozinha.
— Eu tenho um suspeito e só vai precisar da confirmação do legista.
— De quem você tá falando?
— Do orangotango da foto. Ele é o nosso criminoso. É bom acionar a ambiental pra capturar esse bicho.
— Tava muito melhor quando o suspeito era um ser humano. A imprensa vai encher o saco com isso.
— É só um palpite meu, mas só o legista pode confirmar isso. Cadê o outro corpo.
— Primeiro vamos ver a tal jaula. Diz Gonçalo.
Gonzalo caminha com Lúcia até a garagem ampla e sem nenhum carro e logo percebem as grades de uma jaula relativamente grande.
— Pensei que fosse contra as regras do condomínio colocar grades nas janelas ou nas portas. Diz Lúcia observando que a janela da garagem está gradeada por dentro e fica encoberta por um arbusto.
— É sim. E pelo que alguns vizinhos comentaram, o morto lá na cozinha era contra a de jogadores de futebol e artistas morando no condomínio e também não se dava bem com a maioria dos outros moradores. Com todo o respeito, mas o cara parecia um chato. Talvez algum vizinho tenha feito isso. Diz Gonçalo.
— Poderia ser, mas aquele ferimento no rosto da vítima não foi feito por um ser humano. Insiste Lúcia.
— Essa teoria do macaco não vai convencer a imprensa. Já imaginou aqueles urubus pegando no pé da Polícia chamando a gente de incompetente e blá,blá? E ainda tem aquele povo que gosta de bancar os protetores de animais. Vai ser um fuzuê. Diz Gonçalo num tom de cansaço.
— É possível que alguém tenha entrado na casa e matado o senhor e o animal atacado depois, mas não acho provável. Um bandido teria roubado os objetos de valor ou com armas mais comuns. Qual é mesmo o nome dele? E o da cuidadora?
— Josué Lourenço. Ele é primo de um juiz. Da cuidadora, uma vizinha disse que é Cida. Diz Gonçalo.
— Acho que o rebuliço em cima do caso vai ser grande, ainda mais envolvendo ataque de animais, vai ser muito grande. Comenta Lúcia.
— Se for mesmo o bicho que matou o velho e a cuidadora, vai ser um inferno. Quer saber? Quando esse caso acabar, vou precisar de um feriado prolongado. Diz Gonçalo.
Lúcia examina a grade por dentro e encontra um grande número de fios ruivos.
— Seu suspeito deixou vestígios pra todo lado. Comenta Lúcia.
— Você tem que ver o outro corpo. Lembra Gonçalo.
— Eu realmente preciso ver o outro corpo. O do senhor está terrível. O outro como está?
— Também tá muito estragado.
Lúcia e Gonçalo vão se aproximando do local onde está o outro corpo e encontram um dos peritos ainda examinando.
— Encontrou alguma coisa interessante? Pergunta Gonçalo ao perito.
O perito tenta não olhar para o corpo com a expressão de horror por causa dos olhos esbugalhados e um grande rasgo na bochecha de onde pode ver o músculo enquanto faz o trabalho e comenta:
— É a mesma coisa do outro corpo, chefe. Não parece coisa de um ser humano. Nenhum ser humano tem um dente forte desse jeito.
— Porque não foi mesmo. Foi um orangotango criado pelo dono da casa que fez tudo isso. O legista vai confirmar tudo. Diz Lúcia ao perito.
— Então eu acho que bicho atacou a coitada a mordidas, mas por algum motivo parou e fugiu. Diz o perito.
De repente Gonçalo recebe uma mensagem no celular e diz:
— Parece que você acertou, Lúcia. Os bombeiros e a guarda ambiental foram chamados pra recolher um orangotango que tá inconsciente num parque a quinhentos metros da daqui.
— Deve ser o orangotango daqui. É bom levar um perito pra tirar as amostras dele.
— Vamos até lá.
Dois homens chegam na casa e um dele avisa:
— A gente veio pra levar os mortos pro IML.
Cinco minutos depois, Gonçalo, Lúcia e alguns peritos chegam ao bosque onde a Polícia Ambiental encontrou o macaco.
— O bicho tá morto, doutor. Diz um dos policiais. Os dedos do bicho estão sujos de sangue.
— É melhor o senhor mandar o veterinário fazer uma autópsia nesse bicho e mandar os resultados pro IML. Vai confirmar as minhas suspeitas e as dos seus peritos.
— Tá bem, leva o bicho pro doutor Maurílio e pede pra mandar as amostras pro doutor Lucas lá no IML. Diz Gonçalo.
— Acho que eu já vou pra casa. O senhor pode enviar um PIX quando a teoria for confirmada.
— Pode deixar. Você devia voltar a trabalhar na polícia. Precisamos de mais peritos como você, Lúcia.
— Muito obrigada pelo convite, mas não tenho mais paciência pra acatar ordens. O senhor tem excelentes peritos ao seu dispor. Até mais. Despede-se Lúcia entrando no carro.
Gonçalo observa a ex-subalterna e ir embora e comenta muito mais para si mesmo do que para o policial a sua frente:
— Às vezes eu acho que essa mulher é mais bruxa que uma perita treinada.
Quinze dias depois, os resultados da pericia são divulgados na mídia que discute sobre a criação de animais exóticos de maneira ilegal, pois foram encontradas grandes quantidades de álcool no sangue do animal, que morreu de coma alcóolico.
Gonçalo manda a secretária vir ao seu escritório e diz:
— Diga aos jornalistas que eu saí numa grande viagem e que só volto daqui a quinze dias. Aproveite e envie o PIX da senhorita Lúcia de Assis.
— Eu já enviei o PIX da senhorita, senhor.
— Ótimo! Sabe do que eu preciso, Dona Gertrudes? De um feriado prolongado. E vou começar hoje mesmo.
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