Morte na ponte

3 Capítulo 3 - O Acordo


Notas iniciais
Alexis Conrad convenceu Paulina a ajudá-lo em seu novo caso. Ele está convicto de que a jovem é peça fundamental para isto. Por quê? E como será o encontro do investigador paranormal com o espírito vingativo da Desnaturada?

Ponderei um pouco sobre o pedido de Paulina. Ela não queria pisar na ponte, fazia mais que sentido. Era seu instinto de segurança gritando em seu âmago.

– Feito. – Faltava uma hora para o fim do expediente de Paulina. Os 60 minutos passaram com rapidez. Fomos até a ponte no Kadet dela. A estrada era de terra e a lama nos forçava a não ir tão depressa. Ganhei tempo para terminar de costurar aquela colcha de retalhos. Volta e meia Paulina sussurrava uma oração a São Jorge. Depois de 40 minutos na estrada chegamos ao destino desejado. Paulina freou o carro bruscamente assim que viu a ponte velha.

– Mantenha a calma. Fora da ponte ela não te fará mal. – Provavelmente não. – Me dê seu colar, não pergunte nada, ele é minha única proteção contra o ataque da Desnaturada. – Ela não pestanejou. – Agora ouça bem, não grite, não buzine, não acenda o alerta e abaixe os faróis. Se quiser feche os olhos. Faça tudo o que eu mandar. Tudo. Entendeu? – Ela tremia muito. Sai do carro sem olhar pra trás, quando pisei na ponte tive a sensação de que ali a chuva caia mais forte. O frio era mais forte, um bom sinal. O ar ficou mais frio, me arrepiei, era inevitável até mesmo pra mim. Meu relógio, que na verdade é um termômetro, passou a bipar sem pausas. Começou a acontecer o que eu imaginei que ocorreria; um vulto apareceu em minha frente. Em segundos ele começou a ganhar corpo, cor e face. Um corpo ensangüentado usando um vestido rasgado e manchado de sangue. O rosto deformado, sem boca e sem olhos, ambas as partes haviam se tornado uma com a força das pedradas. O rubro sangue parecia descer em suas pernas.

– Antes de me atacar quero que veja isso. – Iniciar conversas com espíritos sedentos por vingança nunca é fácil. Mostrei o colar. O colar que ela usava quando foi morta, que vi em uma das fotos que Jorge me mostrou. Ela urrou. Quase perdi a audição. Mantive a mão estendida para mostrar o colar, o espírito se aproximou e me mantive firme na posição. – Não sei que fez isso contigo... – flutuava em minha direção. — ...mas pessoas que não tem culpa estão pagando por isso. Naquele carro, atrás de mim... – não me virei, dar às costas é pedir pra morrer — ... tem alguém que você procura, que vale mais que sua vingança. Sabe de quem estou falando não sabe? – Ela parou. Sabia de quem eu estava falando. – Sua filha está ali, se me prometer para com essas mortes eu a trago até aqui. – A Desnaturada se afastou um pouco. – Paulina, venha até aqui. Sem medo. – Não tirei os olhos do espírito. Pude ouvir a porta do Kadet bater ao fundo, lentamente Paulina se aproximava de mim, ouvia seus passos nas poças. – Não se assuste, confie em mim, lembre-se de tudo o que te disse no carro. – Ela segurou em minhas mãos e ficou ao meu lado. – Reconhece? Ela tem seus traços não tem? Deve ter, ela é bonita, você também deveria ser. – Urrou violentamente. Seria um choro? Sim, era um choro. – Ela cresceu, pessoas que você matou ajudaram no crescimento dela. Ela é seu fruto, está bem e segura, vale mais que sua vingança, não vale? – O espírito se aproximou novamente, Paulina chorava de medo e emoção com a revelação que eu fizera ali. Aquilo que um dia fora sua mãe tocou seu ombro. Paulina cravava suas unhas em minha mão. – Temos um trato? – A Desnaturada se afastou, deu as costas e flutuou na direção oposta, flutuou para fora da ponte...desapareceu na escuridão. Tínhamos um trato. Ela se foi.

– Você está bem? – Perguntei.

– Min-minha mãe? – Ela estava em choque.

– Sim, quando vi as fotos do corpo dela tiradas por seu pai desconfiei.

– Desconfiou? – Voltávamos para o carro.

– Quando você tirou o avental e vi o colar desconfiei. Somei isso ao fato de seu pai ter sido o primeiro a chegar e tirar fotos da cena, em um delas o colar estava no chão, em outra já não possuía mais colar ao lado do corpo. A polícia ainda não tinha chegado e não tinha registro de outras pessoas com seu pai. A criança não fora jogada no rio, como pensavam alguns, ele a salvou e depois te adotou. Deu-lhe o colar para que você estivesse próxima a sua mãe de alguma forma – Menti, só tive certeza na ponte, quando não fomos mortos. Até então tudo era teoria. Voltei dirigindo o Kadet azul. Hospedei-me em um pequeno hotel no centro de Molinar. Paulina jurou manter segredo sobre o ocorrido e sobre meu ofício. Na manhã seguinte meu carro já estava em perfeitas condições. Encontrei-me com Paulina na lanchonete, fui me despedir.

– Ficarei bem, prometo.

– Sei que ficará bem. Até breve. – Nos abraçamos e voltei para o carro. Quando acionei a chave ouvi um grito.

– Espera! – Paulina trazia algo em sua mão. – Leve esse bolo, um pequeno lanche. Acho que agora não correrá risco de vomitá-lo.

– Com certeza não. – Disse sorrindo, não tenho tanta certeza Paulina, pensei. – Obrigado. – Voltei para a estrada. Som ligado, sol sorrindo e sensação de dever cumprido, as peças foram encaixadas.

Notas finais
Chegamos ao fim de mais uma aventura de Conrad... gostaram? Comentem, enviem Msg e obrigado pela companhia.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!