Morte do Para Sempre
2 Antes: Aniversário em Branco
Notas iniciais
14 de julho
Querido diário,
Hoje é o meu aniversário de 17 anos e ninguém desta casa falou-me parabéns, nem ao menos cumprimentou-me, não há um mero resquício de educação nesse casa. Não sei o que esperava, não ganho nenhum presente desde meu aniversário de 13 anos, antes da morte de meu pai faz séculos. Quando digo séculos, quero dizer séculos, pois cada vez que uma pessoa no mundo lê minha história, diário, você sabe o que acontece, sou obrigada a viver minha vida novamente desde o princípio e esquecer o que aconteceu, mas ainda assim sabendo que já vivi aquilo. Isso acontece há, aproximadamente 250 anos e infelizmente não sei em qual ano estou realmente.
Uma das coisas piores do que ser órfã e ter visto o pai morrer, é ter visto isso acontecer incansáveis vezes e chorado até esgotar todas as força,lembrando-se de todas as vezes que isso tinha acontecido. Agora encontro-me trancada no quarto minúsculo que me é reservado, na cama de lençóis gastos, como fico toda noite, dessa vez, porém amaldiçoando meu pai por ser tão burro de casar-se com essa bruxa que me cria.
Meus dedos estão esfolados, portanto, não repare se as páginas ficarem manchadas com sangue. Lavei toda a roupa da mansão hoje, esta madrugada terei que passá-las.TODAS! São muitas roupas. Tudo isso porque toda a “família” vai para a casa de veraneio amanhã. Mesmo que eu tenho de trabalhar muito duro lá, eu aprecio a paisagem inovadora e adoro desenhá-las. O que realmente gosto de lá é o espaço ao ar livre, onde posso treinar nos momentos de folga, sem as vielas malcheirosas de Paris.
Pela manhã, Louise, minha madrasta já estava pestanejando sobre as roupas que não estavam passadas e nem ao menos lavadas, enquanto Anastácia e Drizela ordenavam-me a fazer aqueles pés horrendos. O mais curioso e frustrante, porém era que não eram elas que me irritavam mais. O narrador. Aquela criatura miserável fica sempre me dizendo o que fazer e insinua a todos que sou uma pobre Gata Borralheira castigada e injustiçada, que faz os serviços calada ou triste.
Esse é um problema dos contos de fadas, as protagonistas são sempre boas, mas eu sinto raiva, ódio, rancor, amor e mesmo sabendo que é proibido para mim, eu sonho em viver um romance e quem sabe fugir para bem longe, tão longe que o narrador não consiga me encontrar.
Falando nele, está dizendo agora: “Cinderella encaminha-se para a lavanderia onde, com seus cabelos louros, passaria a noite com as roupas e o ferro como únicas companhias”, portanto tenho que ir, caso contrário os ajudantes do narrador aparecerão aqui e eu prefiro não encontrá-los. Mas, eu juro que encontrarei algum modo de me livrar disso, diário, não se esqueça.
Boa noite!
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