Morte

A lâmina metálica lhe cortou a pele. Não um corte muito profundo. Apenas profundo o suficiente para fazer escorrer um filete de sangue de seu suave queixo, como uma lágrima. Suas mãos tremiam tentando conter os braços de sua agressora, que investia contra ela como um tigre tentando fincar seus dentes em outro tigre. Não aguentaria muito tempo mantendo aquela adaga longe de si. A agressora parecia ganhar mais força a cada segundo, tomada pela ira, ou talvez pela esperança de que, naquela investida, conseguisse tirar sua vida.

Não mesmo. Não iria morrer ali. Tinha trabalho a fazer.

Fechou seus olhos com força, e impulsionou para o lado toda força que a agressora impunha sobre ela. Desequilibrou-a, e a atirou para o lado com um chute.

A agressora por sua vez, grunhiu com o impacto sofrido contra a barra de ferro que demarcava a divisória da linha de metrô.

Aquele era um lugar alto, e especialmente naquele ponto, não teriam muitas alternativas caso o metrô resolvesse passar.

Limpou o sangue que escorria pelo seu pescoço, arfando, e tentou se levantar. Sua respiração produzia bolas de fumaça gelada. Levou seus pés à ponta, e ficou a beira do desequilíbrio. Olhou para baixo. A rua estava deserta. As sinuosas vigas metálicas que vinham da base da ponte tinham a ferrugem desmascarada pelo brilho da lua, e convergiam para juntas suportar o peso da enorme ponte de ferro e concreto. Um grande arco que atravessava a cidade. Tinha três ferrovias que se separavam mais à frente para direções opostas.

A garota fitou a adaga em seus pés, e olhou para agressora, que se levantava. Instintivamente ajuntou a lâmina do trilho e a apontou para a mulher.

Estava ofegante, e desejava mais que tudo que ela a deixasse em paz.

A mulher gargalhou. Uma gargalhada digna de um psicopata. — Vai me matar, garota? — ela perguntou com desdém, e parecia pouco se importar com a resposta.

Aquela mulher a estava a perseguindo há dias. Seus olhos pretos estavam marcados ao redor pela insônia, seu cabelo rubro repicado estava bagunçado e jogado por cima de sua testa, colado com suor. Parecia jovem, mas a garota sabia que ela não era. Vestia um sobretudo amarronzado e botas de couro. Sua calça de lã preta estava rasgada, e sua blusa cor-de-vinho amarrotada. Estava suja e exausta, mas com ainda mais raiva nos olhos.

A garota engoliu em seco. Não, ela não a mataria.

Jogou a adaga longe, para os arbustos que desciam da encosta próxima à calçada. Ainda que a mulher resolvesse ajuntá-la, a queda a traria no mínimo uma fratura nas pernas.

– Me deixe em paz. — disse, tentando esgueirar-se pelas bordas dos trilhos.

– Pode desistir. — ela retrucou, andando em sua direção.

A garota não esperou ela dar mais que três passos, e pôs-se a correr entre os trilhos. O que não era uma tarefa fácil, pois os pés tinham de acertar exatamente as barras dos trilhos, para não prender-se entre as frestas.

Enquanto corria, seu sobretudo preto balançava junto de seu cabelo castanho-escuro. Seu rosto estava sujo, e manchado de sangue. O restante de sua roupa era preta. Usava botas pesadas, e luvas. Tinha uma cinta na perna direita que carregava uma pistola, mas não parecia uma opção usá-la. Estava suja e em maltrapilhos, como a mulher que a perseguia.

Os trilhos desciam, e o arco da ponte acabava. Nas laterais apenas mato, e logo depois a esquina da rua dezesseis.

– Maldita! — berrou a mulher, com os olhos cheios e voz trêmula. Lançou-se num impulso ainda mais forte e saltou contra a garota. Agarrou-lhe a cintura, fazendo-a cair.

Rolaram as duas entre os trilhos.

Tomada pela raiva, a mulher ignorou a própria dor, e levantou contra a garota, que ofegava no chão, de cabeça ferida.

Ela sentia o gosto metálico do trilho se misturar ao gosto de seu próprio sangue. Sentia a cabeça latejar, e os músculos da perna fisgarem. Sua vista estava turva, manchada pelo sangue que escorria de sua testa.

Quando se deu conta, a agressora já avançava contra ela. Quanto ódio. A final, era ela merecedora de tanto ódio assim? Apenas desejava cumprir seu trabalho, e nada mais!

Sentiu o joelho da mulher apertar-lhe o estômago, e seu braço esquerdo apertar-lhe o ombro. Estava imobilizada. Percebia o cansaço da agressora, que ofegava, enquanto erguia o punho direito contra ela.

Como uma rocha em queda livre, o punho da agressora caiu contra o rosto da garota. O barulho abafado seguiu-se de gemido e sangue. — Maldita! — ela grunhiu, chorando, enquanto acertava outro soco. E mais um. E outro.

A garota segurou o quinto soco, forçando-se a reagir. Seu corpo queimava pelo desejo de revidar. Cerrou o punho e acertou com força sua agressora, que rolou de lado. Arfando, ela não levantou imediatamente.

A garota se arrastou, buscando alguma distância.

– Espera mesmo me matar? — perguntou ela. Limpou o sangue da boca e sentou, mesmo com a cabeça girando.

– Eu vou matá-la. — a mulher respondeu, fechando com força os olhos, e pondo a mão no flanco. Ela olhou para o céu preto, sem estrelas. Desejava emergir naquela mesma escuridão. Dormir, e talvez acordar sem nenhum hematoma. Sua respiração era pesada, e aquele chão cheio de barras de ferro não parecia um lugar tão ruim para se ficar.

Mas não podia. Seria a primeira a matá-la. Precisava fazer isso, ou perderia aquilo que mais lhe importava na vida.

Girou o corpo, e tentou levantar, mas seus braços tremiam, sem muito sucesso.

A garota levantou, cambaleando. Ficou alguns segundos parada, até que seu senso de equilíbrio se estabilizou. Começou a correr pesadamente na direção da esquina, saindo do trilho. Depois de algumas passadas, sentiu o impacto de um projetil atingir-lhe o ombro. Caiu de joelhos e viu a pedra do tamanho de sua mão rolar para o lado.

Olhou para trás e viu que a mulher se levantava cheia de determinação em seus olhos.

Correu.

A perseguição continuava, e logo as duas alcançaram o lado movimentado da cidade.

Os grandes prédios estavam por toda parte, e o movimento de pessoas e veículos preenchia a cidade com barulhos de todos os tipos. Era uma cidade com vida noturna agitada.

A garota esperava que a presença de outras pessoas inibisse a mulher. Mas ela não se importava. Correram as duas esbarrando nos que encontravam pela frente.

A mulher era mais rápida. Ou tinha motivos tão fortes que a faziam correr além de seus limites.

Segurou o braço da garota por trás, e conseguiu pará-la, com um puxão. Acertou-a um soco, forte o suficiente para derrubá-la.

As pessoas abriam espaço e corriam, assustadas.

A agressora levantou a garota pela gola da blusa, a arrastou para o lado, até encostá-la na parede de uma loja, das que se estendiam ao longo daquela avenida.

Acertou-a outro soco na barriga. E depois outro. Enquanto batia, ela chorava. A garota parecia sem forças para reagir.

Atirou-a no chão.

Ela gemia, e tentava levantar, sem sucesso.

Bruscamente, a mulher abriu espaço entre os que se encontravam na frente da loja. Sua raiva e tristeza eram tamanhas que deviam assustar aquelas pessoas a ponto de coibi-las de fazer algo à respeito daquilo.

A mulher entrou na loja, e encarou o velho por detrás do balcão.

Por um minuto, ninguém disse nada, e só se ouviu o barulho da TV ao lado, e dos carros passando lá fora. Os que os estavam dentro da loja olhavam para a mulher, para o velho e para a garota, perplexos, e sem reação.

A mulher estendeu as mãos, ofegante, e o velho engoliu em seco. Ele olhou para a garota na calçada, tentando levantar e depois para a mulher.

Eles já haviam discutido aquilo. Ele iria ajudá-la, se fosse o caso. Aquela mulher planejara aquilo por semanas, e contatara vários além dele. No fundo esperava que aquela perseguição não chegasse até ali, mas o destino, em fim, acabou envolvendo-o naquilo.

Ele deu uma última olhada ao redor, abaixou a cabeça, e tirou debaixo do balcão o que colocaria fim naquilo tudo.

Com as mãos tremendo, ele entregou a arma nas mãos da mulher. Preta, e pesada. Carregada.

A mulher fez que sim com a cabeça, agradecendo, enquanto limpou as lágrimas de seu rosto. Ajeitou a arma em suas mãos, e andou em direção à garota caída. Apontou-lhe o cano da pistola.

A garota conseguiu sentar. Fitou a mulher, que a ameaçava, e sacou também a arma que carregava na perna.

Com as armas apontadas uma para outra, seguiu-se o silêncio. De fora as pessoas viam a garota, e dentro da loja, a mulher tremia com a arma.

– Veja só você... — disse a mulher, por fim, com voz trêmula. — Tem a cara dela. É idêntica a ela.

– Eu tenho muitas caras. — murmurou a garota, com pesar.

A mulher limpou a garganta e desafiou:

– Você não me matará. Hoje não é meu dia, não é mesmo?

A garota reuniu toda sua força, e levantou, vacilando alguns momentos. Permanecia com a arma apontada para mulher. Estava exausta. No limite daquele corpo.

– Você também não me matará. — disse, por fim. Pigarreou, limpou os olhos, e continuou. — Entende o que aconteceria se me matasse?

– Não me importo! — berrou a mulher, tremendo ainda mais. — Você não vai conseguir o que quer! Vai morrer aqui e agora!

Ela escorregou o dedo por detrás do revolver, carregando-o.

– Esse mundo seria um caos, mulher. — sussurou a garota.

– Eu não ligo. Você não vai continuar o que veio fazer aqui. — ela soluçou.

A garota deu um tímido sorriso e abaixou a arma.

– Tem razão. — disse. — Você não se importa com o que aconteceria com o mundo. — pausou a fala. — Mas não vai atirar em mim. Não enquanto tiver o rosto de minha vítima.

A mulher desatou-se a chorar. A garota tinha razão.

Caiu de joelhos lentamente, e jogou a arma longe. Suas costas eram atacadas por violentos soluços. Olhou para a garota com um olhar que clamava por piedade.

A garota abaixou a cabeça e virou as costas. — Desculpe. — sussurrou.

A mulher chorou. Como nunca havia chorado antes.

A garota seguiu andando pela calçada, de cabeça baixa, abrindo espaço entre as pessoas. Seguiu para concluir o que viera fazer.

Depois de algum tempo, a mulher já havia chorado tudo que tinha. Seu rosto era apático e sem emoção. Saiu da loja e andou, por onde a garota havia andado.

Subiu as escadas do velho hospital.

Entrou pela porta do quarto, com um longo rangido. As luzes estavam apagadas.

Chegou a ponto de ouvir o zumbido final daquela máquina que só mostrava rabiscos, que agora eram uma só linha. Sentiria saudade dos rabiscos.

Sentada na janela do quarto, estava ela, idêntica à sua filha. A garota estava sentada, enquanto o vento balançava seus cabelos junto das cortinas. A fumaça branca escapava pelo cano de sua arma, que estava apontada para cama. Para sua verdadeira filha.

Era uma arma que não deixava sequelas físicas.

Finalmente a Morte desapareceu da janela em meio à névoa branca, com a pesada sensação de dever cumprido.

Talvez a mulher sempre soubesse que não podia vencê-la.

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