Morrer de Amor
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Custando o último centavo dentro de meus bolsos, cheguei ao meu destino.
Era bastante afastado da área repleta de clubes noturnos que eu geralmente frequentava. A maior diferença era a iluminação. Enquanto as ruas que eu estava acostumada a ver eram ladeadas por boates de ambos os lados, com luzes piscantes e letreiros coloridos, a rua pela qual eu andava agora tinha iluminação suave e branca provinda dos altos postes – porém, nada de luzes piscando em efeitos sombrios.
Parei frente ao grande portão de ferro negro abaixo do arco de letras trabalhadas onde se lia: “Cemitério Middle River”. A indicação não era necessária. Qualquer um com olhos podia enxergar a pieguice do cemitério. Toda falta de iluminação interna, cruzes e grandes anjos esculpidos em mármore.
Desejei ter um casaco comigo. A temperatura estava desconfortavelmente baixa, causando até uma névoa rasa que flutuava entre as lápides.
O cemitério ainda estava aberto, mas eu não enxergava ninguém.
Uma boa notícia, afinal. Público nunca foi a minha especialidade.
Abraçando minha cintura em busca de calor, adentrei no cemitério, seguindo o caminho de pedras e procurando por qualquer pessoa que pudesse me informar onde o coveiro do cemitério se escondia. Durante nossa conversa hoje mais cedo, Murtie havia informado que seria o zelador do Middle River.
Os barulhos que passariam despercebidos em uma cidade tão movimentada como Miami, eram notáveis aqui. As cigarras cantando, meus passos sobre o carvalho, e até a minha respiração, porém, nenhuma outra alma viva.
Já envolta pela escuridão do cemitério, decidi chamar por alguém. —Olá?
Grilos e farfalhar de folhas secas ao chão foram minha maior resposta. Bem, isso até eu esbarrar em uma pá de metal que fez mais barulho do que achei possível.
—Droga! —xinguei, me inclinando para apoiar a pá na lápide em que estava.
—Cuidado para não acordar os mortos. —a voz rouca avisou.
Se eu estivesse viva, aquilo teria assustado o inferno fora de mim, mas, dadas as consequências, eu apenas me afastei alguns passos da voz que parecia vir diretamente de cima do meu ombro e lhe dirigi um olhar estreito.
Entretanto, eu já o conhecia.
Aquela versão da Murtie estava vestindo uma camisa de uniforme da Middle River e calças folgadas que faziam seu decrépito corpo parecer ainda mais esquelético. Na verdade, aquilo tudo era bem preocupante. Como se seus ossos fossem partir ao meio com o vento ou coisa assim.
—Sinto muito. Os mortos já estão acordados e operantes. —lhe fiz sorrir.
—O que a traz aqui? —ele perguntou, continuando uma caminhada que em nada combinava com suas condições físicas. —Sei que não veio visitar uma cova.
—Espero não precisar fazê-lo tão cedo. —respondi, batendo uma mão na outra para retirar a sujeira vinda da pá. —Eu vou ser direta. Hoje, no apartamento de Ivy, você me disse muita coisa. Me indicou o caminho certo. E o primeiro passo seria me alimentar corretamente. Eu… me alimentei. Thayer.
—Também lhe aconselhei que fosse discreta. —Murtie acrescentou.
—Ora, e não é o que estou sendo? Buscando respostas e correndo ao seu lado em um cemitério que parece esquecido por D-… todos.
—Em nossa concepção, eu e minha irmã somos opostos. Opostos que se complementam. E uma das coisas que minha irmã pode fazer e que eu não posso, é interferir no rumo que todos trilham em sua existência… E por não poder ser como ela neste aspecto, eu não pude lhe dizer onde procurar alimento.
—Está querendo me dizer que-…
—Thayer é sua nova fonte de força. Se souber tomá-lo com moderação, ele se tornará uma fonte inesgotável de força vital. Você está ligada a ele.
Moderação? Achei que a conexão que eu tinha com Thayer era mais do que compartilhar sentimentos, mas não imaginava que eu tinha o reduzido a alimento. Sim, eu o via apenas como isso no início, mas nem parecia que fazia tão pouco tempo. Eu conhecia mais dele agora. Conhecia o suficiente para me sentir mal pelo que fiz.
—Mas esta não é uma alimentação normal. —murmurei, meu tom de voz espelhando meu humor baixo. —Eu sempre matei minhas presas.
—Não pensei que se preocuparia com o normal depois de tudo.
Finalmente paramos, frente á uma lápide elaborada. —O que é essa ligação?
Um suspiro cansado saiu de seus lábios enrugados. —Certas coisas não foram criadas por mim, ou mesmo pela Claire. Existem… forças além de nós. Eu não pensei que poderia haver esta brecha na condição de alimentação imposta aos Ceifadores. Mas a natureza já me provou ser mais sábia. Diversas vezes.
—Ivy me disse uma vez que me alimentar novamente de Thayer me tornaria muito humana aos olhos da “narureza”. Que isso poderia me matar.
—Você está morta, querida. —Murtie se inclinou sobre a lápide branca na nossa frente, sua pele ainda mais pálida sob a luz tímida do cemitério. —Entendo o que você quer dizer, mas esta sua conexão não está sob meu controle. Talvez, isso possa ser mais simples do que pensa.
Baixei meu olhar até minhas mãos. —Se eu morrer… isso pode afetar ele?
O silêncio do cemitério se estendeu enquanto eu esperava sua resposta e eu podia sentir seu forte olhar sobre mim, mas eu não ergui meus olhos.
—É muito bonito que esteja preocupada com ele.
—Eu estou sendo caçada. Acredito que já saiba disso. E eu não tenho a menor ideia de como acabar com meu perseguidor. Sei que você não pode interferir, então, isso não é exatamente um pedido de ajuda. Eu só… Thayer não está em seus domínios enquanto estiver vivo. E eu quero que ele permaneça assim.
—Não se preocupe. —a voz de Murtie soou ainda mais rouca. —Eu já protegi Thayer outras vezes. Não destruiria todo este trabalho.
—Murtie, —procurei seus olhos, que quase pareciam ser completamente negros pela forma que a luz incidia em seu rosto. —Ele se alimentou de uma ceifadora. Ele… sugou as almas que ela havia adquirido nesta semana de alimentação.
—Isso não é tudo que você quer me dizer. —Murtie sorriu.
Soltei a respiração, planejando dizer tudo em um só fôlego. —Eu assassinei Phil com minhas próprias mãos, enquanto o eclipse solar estava em curso. Porém, ele nunca foi alguém puro. Como você pôde admiti-lo como Ceifador? Eu sempre pensei que você fosse muito seletiva com este tipo de coisa.
—Ele está sob domínio de minha irmã. Os dois estão juntos. O que quer dizer que eu não sou a criadora dele. Você sempre teve suas respostas, Cat.
Soprei uma risada. —A ironia é que eu não sei como descobrir estas respostas.
—Porque você está procurando apenas perguntas. —enxerguei seu esforço para empurrar a tampa de mármore branca da lápide branca. —Na próxima vez que pensar em como se livrar deste seu perseguidor, pense em como o fez anteriormente. E se alimente mais, da maneira tradicional. Se ele é capaz de sugar almas de Ceifadoras, você deve estar preparada para seu ataque. Agora, se me der licença…
E, como mais fluidez do que eu pensei que aquele corpo poderia ter, Murtie se deixou cair para dentro da lápide. Mas não houve barulho de queda.
Quão fundo aquilo poderia ser?
Alguns passos para frente e eu enxerguei o vão escuro que era o interior daquela sepultura, o qual não dava dica alguma de para onde Murtie havia ido.
No final das contas, eu teria que encontrar uma forma de voltar para casa.
E o zelador de Middle River não trabalhava tanto quanto devia.
***
A carona que eu consegui veio de um senhor barbudo com uma mente suja demais e uma mão que insistia em viajar “casualmente” da marcha do carro até minha coxa. Isso impediu que eu conseguisse me manter em seu carro por muito tempo e minha última alternativa foi andar por alguns quarteirões até em casa.
Eu não sabia de onde havia surgido tanto pudor, mas o calor daquelas mãos encrespadas passeando pela minha calça se sentia além de nojento.
Me perguntei se seria capaz de seduzir uma presa novamente.
O resultado da caminhada estava na dor dos meus pés quando me joguei no sofá da sala apertada do apartamento que Linda me emprestava, e o festival de suspiros que eu despejei até ter meus pés finalmente descalços.
Havia tanto o que pensar. Eu sequer lembrava se havia dito que encontraria com Linda em algum lugar especial, ou se eu podia apenas deitar aqui e…
Um barulho de algo se mexendo no quarto atraiu minha atenção.
Imediatamente, prendi a respiração e me sentei mais ereta no sofá. Eu não era ingênua o suficiente para pensar que havíamos assustado Phil, mas eu pensei que aquele ferimento pudesse detê-lo por um tempo.
Talvez eu estivesse enganada.
Não seria a primeira vez que ele entraria no meu quarto, porém, eu só podia pensar que ele não me traria uma azaleia desta vez. E eu não ainda não havia seguido o conselho de Murtie. Minha alimentação não era segura o suficiente para me manter capaz de fugir se Phil decidisse me atacar agora.
Sendo assim, minha melhor opção seria fugir enquanto ele estava distante. Mas era difícil de acreditar que ele não haveria notado que eu estava aqui.
Erguendo-me da forma mais silenciosa que pude, tentei sentir a energia de quem quer que estivesse no quarto. E eu senti a energia de alguém… muitíssimo satisfeito. Phil não sentiria prazer em estar ferido, sentiria?
Ignorando o ditado: “a curiosidade matou o gato”, decidi me aproximar.
O que encontrei no quarto era, no mínimo, surpreendente.
A energia que me envolveu no momento em que atravessei a porta do quarto era uniforme da forma que somente um humano muito bom ou muito mau poderia ser. Mas isso não foi o que me fez levar a mão até minha boca, e sim a forma como aquele homem estava amarrado na cama e vendado com um lenço branco, sua única pele coberta. Sobre este lenço, estava um papel dobrado onde lia-se: “Bon Appétit”.
Mesmo sem ver seus olhos, eu tinha certeza que não reconhecia seus cabelos curtos e negros ou mesmo seu cavanhaque que contrastava profundamente com sua pele clara cheia de marcas e tatuagens.
Retirei o papel do lenço e notei que havia algo mais escrito nele.
Já que a minha primeira trégua não funcionou bem, veja isto como uma segunda tentativa. Pule as cordialidades e vá direto ao que interessa.
A menos que tenha outras ideias.
Xoxo, Ivy
Apesar da careta que seu bilhete me trouxe, alguma parte de mim sentia a necessidade de lhe agradecer. Uma parte muito pequena e tola.
—Sua amiga disse que você ia demorar. —a voz do homem estava embargada e o seu sorriso torto era malicioso da forma mais suja. —Para mim pareceu uma eternidade de qualquer forma. E então, você vai me castigar mais?
A forma que o corpo dele respondeu me mostrou que ele gostava de ser “castigado”. Ele moveu as pernas, tratando de afastar os lençóis e mostrar isso.
—Desculpe, cara. Não sou uma dominatrix. —falei, me inclinando sobre ele.
Percebendo a maneira que o colchão estava afundando enquanto eu me aproximava, o sorriso dele ampliou de forma repulsiva.
Seja lá o que Ivy havia feito juntamente com o “castigo”, funcionou muito bem em deixá-lo satisfeito. O fluxo de sua energia começou da forma mais plácida, sem resistências, e não haviam dúvidas que aquele vulto prateado tão semelhante com fumaça pertencia a alguém de essência maligna.
Próximo do fim, ele começou a notar algo errado, e tentou se afastar.
Pressionei seu corpo contra o colchão usando uma mão e o seu último sopro de vida o abandonou. Instantaneamente, senti uma força se expandir de dentro de mim, percorrendo todo meu corpo como um arrepio.
Era como me aliviar de algo que eu não sabia que incomodava tanto.
Suspirando, eu caí ao lado do corpo inerte sobre a cama. As formas certas de descarte de corpos envolviam mais ação do que eu estava disposta a fazer.
Mesmo assim, deixá-lo nu na minha cama não era uma opção. E, pensando melhor no assunto, eu preferia que Ivy tivesse amarrado ele em outro lugar. E esperava com ainda mais vigor que ela não tivesse o satisfeito em meus lençóis.
Apenas o pensamento daquele ato me fez querer incinerar a colcha de cama.
Depois de me livrar do corpo do homem que eu nem sabia o nome e levar com a ponta dos dedos cada lençol posto na cama até o pequeno cômodo anexado à cozinha que usávamos como lavanderia, eu me senti ainda mais pesada e permiti finalmente descansar como eu planejava ao atravessar a porta principal.
Natural seria que eu estivesse extasiada pela alimentação. Mas não estava.
No sofá, abraçando uma almofada de retalhos e analisando um noticiário qualquer de televisão, eu perdi a noção do tempo.
“…se recupera bem dos ferimentos. Apesar da discrição da família, fontes seguras informam que a vítima, Eren Khor, se nega a receber visitas de seu noivo, que ainda é o principal suspeito do crime e já foi visto brevemente por nossa equipe algumas vezes na área externa do hospital Oswald Hasting. Voltamos ao estúdio…”
Como se marcasse o fim da reportagem, o telefone ao meu lado tocou.
—Alô? —suspirei, apoiando o telefone entre meu ouvido e meu ombro.
—Encontrei. Ela está no nosso apartamento… —o tom da voz de Linda ao telefone mostrava que ela falava com outra pessoa, mas logo mudou para uma irritação contida. —Hey, Cat! Você nunca pensa em avisar aos outros onde está? Sabe, pode parecer louco, mas existem pessoas que se preocupam com você!
—Desculpe. —eu murmurei, brincando com um fiapo da almofada.
Provavelmente notando meu tom de voz, pude ouvir a respiração de Linda diminuir de ritmo enquanto ela se acalmava. —O que aconteceu?
—Bem, por onde começar…? —suspirei, apoiando o telefone entre meu ombro e meu ouvido para que eu pudesse ter minhas mãos livres para puxar linhas soltas da almofada ou trilhar seus relevos. —Fui ao cemitério, encontrei a Morte, tivemos uma breve conversa antes que ela sumisse dentro de um túmulo – sumir, tipo evaporar no ar. Depois, ao voltar para casa, encontrei um presente de Ivy sobre a minha cama. Para ser mais específica, um homem ridiculamente nu que poderia muito bem ter um laço vermelho nas partes íntimas. Ao invés disso, ele tinha um bilhete que me desejava bom apetite em francês. Você sabe, apenas o habitual.
—Claro que algo aconteceu com você também. —Linda suspirou.
—Eu deveria me questionar sobre esse também?
—Ah, não foi nada demais. —Linda pareceu decepcionada por perder a ação. —Seu garoto de ouro liderou a equipe de médicos que faria as coisas clínicas com a garota que trouxemos. Ela está perfeitamente bem. Thayer também mentiu para um pessoal que parecia ser da polícia. Acho que foi a primeira vez que ele mentiu, e isso me fez sentir como um acúmulo de sujeira… Estão investigando o que eles intitulam como o serial-killer de Miami. Sabe, pelos padrões.
—Então… você ouviu algo sobre a primeira garota, Eren Khor?
—Na verdade, não. Thayer me deu um passe livre da área de lazer. Eles têm serviços incríveis. —eu praticamente pude sentir o sorriso triunfante dela. —Você sabia que existe uma área destinada apenas para relaxamento? É como um SPA adjacente. Os drinks daqui são incríveis. Existe um espaço de massagem reservado para cada sexo, até massagistas homens são restritos aqui e o shiatsu…
—Okay, Linda. Só não abuse. —massageei minha testa. —Venha para casa.
—Hmm, eu acho que não. —ela riu suavemente.
—O quê? —perguntei de forma calma, quase cansada. —Eu não vou deixar você seguir com esse plano que provavelmente está formado em sua cabeça. Você não está falindo o hospital de Thayer com seus luxos. Traga já seu traseiro para cá.
—Não é isso. Quer dizer, ser liberada pelo dono do pedaço tem lá suas vantagens. Todos estão me tratando como se um erro fosse despedi-los. —ela riu com esta parte, como se fosse componente da diversão. —Mas Thayer tem seu próprio plano arquitetado e isso inclui me manter aqui, quietinha e relaxada.
Pela forma como ela esticou a última palavra, ela se sentia bem com o plano.
—Aliás, abra a porta. Pela maneira como Thayer saiu daqui, ele estará irrompendo dentro do apartamento em pouco tempo. —e com mais alguns pedidos que provavelmente foram destinados a uma massagista, Linda desligou o telefone.
Ao que parecia, o tal plano incluía me manter quieta.
Encostando a cabeça no sofá, segui com minha aura desanimada, assistindo televisão e suspirando bastante. Eu me perguntava o que Thayer planejava. E se eu podia acreditar que Ivy não planejava nada ao me pagar o jantar.
Fale com o autor