Morrer de Amor
22 Capítulo 22
Notas iniciais
—Thayer, vá ver a garota. Deixe que eu cuide disso. —sussurrei.
Dei um passo adiante, mas Thayer me segurou. —Ele quer matar você.
—Que cena linda! —Phil ironizou, finalmente parando de brincar com a tampa de garrafa que tinha nas mãos. —Se eu não odiasse tanto cenas melosas, talvez eu até testasse até onde vai a pieguice desse garoto. Mas o meu maior plano desta noite não era ver minha propriedade aos beijos com um pequeno inútil.
—Ela não é sua propriedade! —Thayer usou um tom baixo de ameaça.
Phil ergueu as sobrancelhas, ainda o achando divertido. —Ouvi um rosnado?
—Apenas não a deixe morrer. Você pode salvá-la. —eu insisti, apertando a mão de Thayer antes de tirá-la do meu braço. Voltei meu corpo inteiramente para Phil, para que ele soubesse que tinha minha atenção. Se ele pensasse o oposto, as coisas poderiam ficar bem mais complicadas. Fiquei aliviada quando Thayer se afastou de nós, ainda que contragosto, e foi assumir o papel de médico. —Então seus planos consistem em tornar minha vida um Inferno? Eu já fui atualizada disso.
—E você continua tentando ter longos diálogos comigo em situações críticas. Mas desta vez, eu sei que tenho o controle da situação.
—Assim como eu também sei disso. —rebati, com a voz calma.
—Sei que você quer salvar aquela garota. —ele usou o queixo para apontar a ruiva encostada na parede. —Eu posso deixar seu pet fazer isso. Pouco me importa. Mas você deverá vir comigo. Sua vestimenta está perfeita para o que eu planejo.
Meu estômago revirou. —Ótimo. Eu vou.
Ondas nada amigáveis de energia irradiavam de Thayer. Ele parecia a ponto de explodir, mas continuava cuidando da garota pelo que eu podia enxergar.
—Fácil assim? —Phil estreitou os olhos pálidos.
—Não sou boba. Eu não me alimentei, tenho mais a perder caso você seja contrariado, eu estou sozinha e você está no comando. —e Linda está atrasada. Olhei ao meu redor, usando a conversa como desculpa. —Para onde você quer que eu vá?
Uma risada maníaca escapuliu de Phil. —Ir? Não, eu não posso ir para onde a ruiva maluca pode me encontrar. Ficar aqui é uma ótima opção. Você já parou para pensar o que me alimenta agora? Você é perfeita para ser minha nova peça… As outras quebravam muito fácil. Talvez eu possa fazer seu garoto nos observar…
Ele se referia friamente às garotas, como se fossem peças de decoração.
Porém, mesmo que seu descaso me enojasse, que o vazio da noite fosse preenchido pelos sinais de dor da garota que só conseguia responder Thayer com gemidos sofridos ou gorgolejos de sangue, e ainda que a demora de Linda me enervasse, eu devia prolongar a conversa o máximo que eu pudesse antes do bote.
—Então, eu sou seu novo alimento e a… ruiva maluca não irá te encontrar aqui… na rua em frente a casa do Thayer. —ecoei.
—Dentro da casa, e não na rua. —seu sorriso doentio pareceu ainda mais amplo quando seus olhos resvalaram pela curva do meu seio. —Você sabe, tive bastante coisa interrompida na noite em que você me matou. Coisas que eu não acharia especialmente melhores na rua. Não sou do tipo exibicionista. E seria melhor que seu pet parasse de grunhir e iniciasse um bom temperamento ou eu pensarei melhor e não cumprirei a parte do contrato que inclui manter a cabeça dele sobre seu pescoço, não importando o quanto a ruiva-em-miniatura possa bancar a maníaca.
Ruiva-em-miniatura. Essa seria a Claire? —Se a ruiva de quem você fala for a mesma que eu recolhi no seu porão na fatídica noite de sua morte, então posso garantir que ela não é do tipo que apenas banca a maníaca.
Phil moveu para longe o cabelo que caía em seus olhos, parecendo tranquilo.
—Enquanto eu mantiver minha parte do acordo, ela será inofensiva. —foi o que ele disse, sua expressão revelando o que ele planejava fazer comigo. —Ela não tem razões para não me apoiar. O que eu quero faz parte do que ela quer.
—E isso seria…? —instiguei.
Escutei um ofego mais agudo da garota que ainda agonizava apesar de estar aos cuidados de Thayer, e meu olhar periférico focou em tempo de enxergar um brilho de algo metálico nas mãos dele, que não hesitou em esconder o que quer que fosse. Sentindo que minha atenção havia mudado, os olhos sagazes de Phil seguiram até a garota como se ela fosse um inseto à beira da morte.
—Você deveria prestar mais atenção em mim. —Phil resmungou para mim.
O corpo magro de Linda surgiu do escuro tão furtivamente que mesmo eu só a notei quando ela já havia se lançado nas costas de Phil. Segurando a cabeça dele entre suas mãos, ela colocou seus lábios mais próximos do ouvido dele. —E você, garoto, devia prestar mais atenção em seus arredores. E nem pense em qualquer movimento brusco ou eu quebro seu pescoço.
—Por que ainda não quebrou? —ele desafiou, assumindo uma postura mais tensa, que contradizia com seu tom de despreocupação.
—Por que nós sabemos que isso não te mataria em definitivo. —ela retrucou.
—Thayer… —comecei, me voltando na direção da garota ferida.
—Ela vai ficar bem. —ele respondeu a pergunta que nem precisei fazer. —Já extraí a lâmina que estava cravada, e esta era a parte mais crítica. Aqui está muito escuro, mas acredito que está tudo certo. Vou precisar levá-la para dentro…
—Pretendem me manter como estátua? —Phil questionou.
—Você pode contê-lo sozinha? —me dirigi a Linda, ignorando seu cativo.
Em resposta, ela revirou os olhos, firmando melhor seus braços por debaixo dos de Phil, pensando em mantê-lo bem imobilizado. —Não me trate como uma iniciante.
—Apenas mantenha um olho no braço esquerdo dele. —indiquei. —Ele está tentando movê-lo, então deve ser seu braço mais forte. Eu vou ajudar Thayer com a garota e então voltarei aqui para resolvermos isso. Seja lá como for.
—Eu posso carregá-la. —Thayer afirmou, erguendo a garota em seus braços e direcionando as mãos da mesma para pressionar seu ferimento. Seu rosto não mostrava nenhum contentamento, apenas concentração médica.
—Okay. —murmurei, sentindo como se estivesse pisando em uma ponte instável. Há alguns minutos estávamos com emoções interligadas e estonteantes. Agora, a emoção de Thayer estava distante. E ele estava preocupado.
—Cat. —ele chamou antes de se afastar muito, aproximou sua mão da minha com a clara intenção de me passar a lâmina que tinha em mãos. —Cuidado.
—Ficarei bem. —garanti, com um sorriso leve,aceitando a lâmina quente.
No instante que ele dobrou a esquina em direção à uma entrada de sua casa, eu me senti mais aliviada. Não pela distância entre nós, mas pela distância entre ele e Phil. Talvez ele estivesse um pouco mais seguro assim.
O restante aconteceu tão rápido quanto um piscar de olhos.
Quando me voltei para Phil, ele puxou o corpo de Linda para frente dele, usando-a como escudo. Pelo barulho do fundo da garganta dela, ele fez algo em seus braços que poderia tê-la fraturado de alguma forma. E sua mão conseguiu envolver todo o pescoço delgado dela, segurando-a firmemente.
—Bem, agora que o garoto está distante o suficiente para não tentar nada heroico, podemos ser mais realistas aqui. —Phil começou. Sua mão adquiriu um aperto de ferro em Linda, bloqueando a respiração dela. —Nenhum de nós pode realmente ser morto, e poderíamos chegar a um impasse interminável e sangrento. Ou… poderíamos concordar que eu sou mais forte que qualquer uma de vocês duas, e eu sei disso por que tenho informações do quanto vocês se alimentaram, e seguindo este raciocínio, Cat poderia vir comigo, docilmente, como a boa garota que é. E eu não machucaria sua amiguinha. O que acham?
—Deixe-a respirar. —pedi, vendo como Linda tentava soltar seus pulsos do agarre de uma única mão de Phil. —E podemos conversar.
—Você não está em posição de pedir nada. —Phil rosnou.
Todos esses anos depois da iniciação e eu não havia tido um desafio.
Durante minha iniciação, os testes eram duros e eu não podia contar quantas vezes fui derrotada e machucada, mas tudo o que me esperou depois da reposição em Terra eram homens durões, que não representavam perigo. Nenhum Ceifador. Jamais.
E agora havia Phil, e não tinha ideia de quão poderoso ele era.
Provavelmente, não muito, pois ele tinha um pouco de dificuldade em manter Linda quieta pela forma como ele se movimentava com os impulsos dela. E se mantê-la era duro, fazer isso enquanto esquivava de meu contrataque seria ainda pior.
Apertei o cabo da lâmina o mais firme que pude e avancei levemente.
—Deixe-a ir, e eu irei com você. —prometi.
—Vou precisar de uma pequena precaução, se me permite. —Phil usou um tom zombatório. Puxando a cabeça de Linda para trás brutalmente pelos cabelos, ele obrigou Linda a manter seu queixo erguido e se inclinou como se fosse beijá-la. O último que eu imaginava que ele faria. Porém, a intenção dele não era essa.
Mesmo no escuro, o brilho de uma alma era evidente.
Os olhos de Linda se ampliaram quando o fluxo das almas que ela havia ingerido começou a sair dela em direção a Phil, e ela começou a se debater mais.
Sem conseguir pensar em momento melhor, eu avancei contra Phil da forma mais rápida que pude, fincando a lâmina em seu pescoço e pressionando-a ali até que o ferimento foi profundo demais para ele prosseguir perto de nós.
O urro que veio dele foi gutural, cheio de dor, enquanto eu sustentei Linda e ainda sentia o calor do sangue dele em minhas mãos e na lâmina que segurei.
Eu esperava um ferimento normal, e consegui muito mais.
Uma luz começou a brilhar justo de seu ferimento, como se seu sangue escondesse uma lâmpada. O local em que estávamos já não era escuro, e eu esperava que não tivéssemos nenhuma plateia apreciando o festival de luzes.
A boca de Phil abriu em um grito que não ressoou. E então a luz que vinha se seu interior o consumiu, como se o queimasse, até que eu tive que desviar o olhar e cobrir meus olhos com o braço. E quando a luz se extinguiu, Phil não estava mais lá.
—Desgraçado! —Linda murmurou, afagando seu próprio pescoço.
—Seja sincera, quanto ele pegou? —perguntei enquanto a analisava.
—Bastante. Mas eu tive um banquete neste último contrabando de mulheres. Eu vou ficar bem. —ela disse, com a voz baixa e rouca, e tentou se manter sozinha sobre seus pés, mas não conseguiu. Quando a sustentei segurando seus braços, ela gemeu de dor. —Porra! Meus braços estão doendo!
—Devem estar no lugar errado. Devo fazer as honras? —sussurrei.
—Oh, querida, você é sempre tão doce… —ela brincou.
Mas eu não podia rir. Não enquanto sustentava minha – muito quebrada – amiga. E muito menos quando tive que reajustar seus ossos no lugar.
—Eu vou ficar bem. Me dê alguns minutos. —ela ofegou, fechando os olhos com força. Eu sabia que ela queria gritar uma bateria de palavrões, só não entendia a razão dela ainda não estar esquentando os meus ouvidos.
—Vamos lá. Precisamos entrar. —minha voz soou sem emoção enquanto eu abraçava Linda e a ajudava enquanto entrávamos na casa.
Thayer estava fazendo um curativo na garota desacordada sobre a mesa. Logo que entramos, seus olhos estavam em nós, repletos de preocupação. —Mas o que…
—Aquele imbecil me atacou, Cat deu um jeito nele. Fim. —Linda resumiu.
—Linda não gosta de ser tocada por homens, mas, Thayer, você poderia dar uma olhada nela? Nós nos curamos muito rápido e eu não tenho certeza que se seus braços estão no local correto.
—Claro. —Thayer limpou um pouco do sangue em seus mãos antes de vir até onde eu e Linda estávamos. Olhando diretamente para onde Thayer a tocava, ela não fez caretas de dor, o que me pareceu um avanço. —Obviamente, seria melhor com um raio-x, mas pelo o que eu posso sentir, está tudo correto.
—Você sempre foi boa nestas coisas. —Linda comentou com humor.
—Todas aquelas fraturas da iniciação serviram para alguma coisa, afinal. —dei os ombros, deslizando meus olhos até a garota. —Ela desmaiou?
—A dor foi bem forte. —Thayer acompanhou meu olhar por alguns instantes antes de ter sua atenção toda sobre mim. —A parte complicada foi apenas retirar a lâmina. A membrana pleural dela está intacta e ela está respirando bem.
—Não deveríamos levar ela para um hospital? —inquiri.
—Parece tentador, mas que explicação você daria? —Linda foi minha voz da razão, erguendo uma sobrancelha para mim. —Ei! Minha amiga aqui tropeçou nos próprios pés e estava segurando uma faca. Trágico. Aliás, ela dirá que foi um assassino frio e absurdamente forte, mas é claro que isso não é verdade. Hehe.
Estreitei meus olhos para ela. —Qual sua proposta, senhorita irônica?
—Eu já liguei para meu hospital. —Thayer disse, parecendo receoso em nos interromper. —Eles estão esperando que eu chegue lá com uma garota que foi esfaqueada nas proximidades da minha casa.
—E eles compraram essa? Fácil assim? —Linda se espantou.
—Eu sabia que ter um hospital seria útil um dia. —Thayer brincou, seus olhos nunca deixando os meus por muito tempo. —E quanto a você? Está bem?
—Sem ferimentos. —respondi prontamente enquanto ele se aproximava.
—Não foi exatamente isso que eu perguntei. —ele murmurou, acariciando meu pescoço com o polegar enquanto me analisava abertamente.
Linda pigarreou. —Eu ainda estou aqui. E a menina em cima da mesa também.
Em outra ocasião, eu poderia ter sorrido amplamente com aquilo, porém meu sorriso foi muito sutil. —Vou me vestir. E você também precisa trocar de roupa, Thayer. Tem respingos de sangue por todo seu corpo.
Notei que Linda queria me dizer algo pela forma como ela apertava suas mãos enquanto eu vestia minha calça que ainda estava na sala. Ela apenas abriu a boca quando o som de Thayer abrindo uma porta soou pelo corredor. —Você precisa encontrar a Ivy. Ou a Morte, se você puder fazer isso diretamente. Depois de conhecermos a maneira que Phil se alimenta…
—Eu sei. Estou desprotegida por não ter me alimentado propriamente.
—Não. É mais do que isso. —Linda olhou para o corredor por sobre o ombro. —Nós não sabemos onde estamos pisando. Você aparentemente se alimentou de Thayer, mas ele ainda está vivo. Quanto este “lanche” poderia proteger você? Isso é o que precisa perguntar para ela.
—Se ela pudesse, já teria me alertado sobre tudo isso, não acha?
—Eu vou com Thayer, e você veste sua blusa e vai encontrá-la. —Linda comandou, buscando minha blusa e jogando-a em mim sem cuidado. —Seja rápida. Você já tem pessoas o suficiente pensando em impedi-la, sem a adição do…
O suave som dos passos de Thayer se aproximando a interrompeu.
—Estou pronto. —os olhos castanhos de Thayer demonstraram que havia algo errado com minha expressão, mas o que quer que fosse, ele interpretou errado. —Não fique preocupada. Ela está fora de perigo. Precisamos levá-la ao hospital apenas pela possibilidade de infecção. Mas não há febre. Tudo está sob controle.
—Desculpe. —entrei no papel, massageando minhas têmporas. —Não posso me impedir de ficar preocupada depois de ver tanto sangue deixando-a.
—Pode retirar o carro? —ele pediu, entregando-me a chave.
—Claro. —sorri, assistindo-o atenciosamente enquanto ele se movia para checar o ferimento da ruiva desconhecida, com a clara intenção de carregá-la em seus próprios braços. Baixei meu tom de voz para que apenas Linda me ouvisse. —Você está bem o suficiente para acompanhá-lo?
—Mais alguns minutos e meus braços estarão novos em folha. —ela girou um ombro, como se atestasse aquilo que dizia.
Coloquei a chave do carro em suas mãos. —Encontro vocês dois mais tarde.
Trocar a blusa de Thayer por aquela que Linda havia passado às minhas mãos não me parecia tão bom negócio. A blusa dele ainda tinha seu cheiro… mas uma hora eu tive que fazê-lo, e tive que ser rápida.
Linda suspirou. —Lembre-se, aquele que está sendo caçado aqui é você.
—Cuide-se também. —pisquei, jogando meu cabelo para longe dos olhos e saindo em direção ao escuro da noite que já me conhecia tão bem.
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