Morrer de Amor
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Emoções agudas me bateram antes mesmo de eu abrir os olhos. Dor. Raiva. Seriam emoções minhas, ou ecos das emoções de Thayer? Olhando ao meu redor eu não reconheci nada, desde a cama king size sobre a qual eu estava até as cortinas pretas. E mesmo assim, não estava preocupada comigo. Meu único desejo era que aquela dor fosse minha, e não dele.
Aquela corrente… aprisioná-lo era o plano da Vida. O tempo inteiro.
—Oh, você acordou. Finalmente. —ouvi uma voz feminina dizer. —Pensei que você dormiria para sempre. Talvez eu tenha exagerado no sangue.
Espere. Eu reconheço essa voz. —Ivy?
—Cinco dias sem se alimentar, e eu ainda esperava que a grande Cat não estivesse tão fraca. —ela continuou, fingindo não ter sequer escutado minha voz. Ela estava andando despreocupadamente pelo quarto, usando um robe de seda preta e fazendo um coque elaborado com seus cabelos. —Você sabe que sua resistência a sangue de ceifadora está como a de um humano? É deplorável.
Sangue de ceifadora não devia funcionar em outra ceifadora. —Você me deu seu sangue? Como você sabia que iria funcionar? Você está do lado da vida?
—Não fale bobagens. A vida é uma vadia. —ela soou ultrajada com meu palpite. —Digamos que o sangue que eu te entreguei tem um toque da morte nele. Sim, ela sabia que eu iria estar lá, assim como todos sabíamos que você estaria. Se você tivesse continuado lá, a vida teria dado cabo de você.
—Assim como fez com Thayer? —indaguei friamente, controlando minha voz.
—Ela nunca o mataria. —foi tudo que ela respondeu.
—Todos sabiam também que ela levaria uma corrente para atá-lo a ela? Todas nós ceifadoras sabemos muito bem que tipo de corrente é aquela. Do tipo que pode transformar um humano como Thayer em um escravo da Vida por toda a eternidade! —minha voz falhou no fim, me forçando a parar e respirar pela boca. —Ele não terá mais livre arbítrio e funcionará sempre em prol dela. Se não está do lado da vida, por que me parou quando tentei salvá-lo?
—Primeiro: porque seria suicídio! Você não tem chances contra a vida, mesmo que esteja morta. Claro, você sempre pode tentar, mas não é aconselhável. E depois, aquela corrente não funcionará no Thayer.
Esperei que ela continuasse, mas ela não o fez. —Ivy… Não estou no clima para seus joguinhos agora, então, apenas diga tudo o que sabe de uma vez.
Ela revirou os olhos. —A morte me disse que usou uma adaga celestial nele. Adagas celestiais cortam mais do que a pele, e blá-blá-blá. Ela cortou qualquer ligação que a vida tinha com o Thayer quando colocou o espírito dele neste mundo.
Adaga celestial. Rá. Aquilo parecia mais um estilete transmissor de tétano.
—Thayer ainda é um humano que precisa da vida.
—Ela nunca irá voltar as costas para ele. Ela é completamente fissurada no garoto. Honestamente, eu até entendo o que as faz tão apaixonadas. Não apenas o corpo espetacular. É o garoto por dentro daquilo e o corpo espetacular. —Ivy brincou, mordendo o lábio ao delinear no ar o que parecia ser o corpo de Thayer.
—Mesmo que Claire não tenha o machucado, eu preciso vê-lo. —eu disse.
—Você deve esperar Murtie. Ela estará aqui logo. —Ivy analisou as unhas.
—Acho que você não entendeu. Eu preciso ver o Thayer. Agora. —me levantei da cama, me sentindo um pouco tonta ao fazê-lo. Espere um pouco. Ivy havia dito que faziam cinco dias que eu não me alimentava? Alarmada, fui até a janela e abri as cortinas escuras. Iluminando uma vista incrível da cidade a provavelmente mais de 20 andares, estava o sol quase a pino. Era dia.
—Quem não está entendendo é você, Cat. —Ivy estava bem ao meu lado, e cruzou os braços. —Nossa incrivelmente poderosa chefa quer ver você, que está há muitos dias sem se alimentar e está fraca demais para alguma disputa comigo, que me alimentei duas vezes esta semana. Está seguindo o raciocínio?
Virei para olhar em seus olhos. —Sempre se pode tentar, não é mesmo?
—E nem sempre é aconselhável. Agora, seja uma boa garota, e se deite novamente. Você está começando a parecer fraca demais até para ficar de pé e esse sentimento de preocupação é tão estranho para mim que me espanta.
Sentei na beira da cama, me sentindo tão fraca quanto parecia.
—Onde estamos? Eu posso saber pelo menos isso?
Ela abriu os braços teatralmente. —Meu lar doce lar. Sinta-se em casa.
—Você mora numa cobertura? —ergui as sobrancelhas.
—Sempre gostei de luxo. E a pessoa que morava aqui não vai sentir falta. Nem todas nós desperdiçamos as oportunidades da morte como você. —ela riu, voltando se para um espelho e analisando seu próprio reflexo. —Quando se tem a faca e o queijo na mão, é uma ofensa ao destino desperdiçar. E sim, eu estou falando do seu queridíssimo Thayer.
—Eu me sinto meio em desvantagem. —eu disse, me ajustando na cama para ficar de frente para ela. —Você sabe muito sobre mim, mas eu não sei sobre você.
—Papinho de pijamas, sério? Pensei que fossemos velhas demais para isso.
Dei os ombros. —Não planeja esperar Murtie em silêncio, não é?
Com um suspiro exagerado, ela voltou-se para o espelho como se falasse consigo mesma. —Eu conheci a Morte quando eu tinha doze anos. Eu era um tanto maluca e cortei meus pulsos, mas antes de perder sangue o suficiente para morrer eu vi uma garota pálida olhando para mim. Não era como se ela me julgasse, era como se ela estivesse decepcionada. Aquela garotinha era a Murtie, mas eu não sabia o que ela era na época. Ela pareceu surpresa quando falei com ela. Pedi que ela me ajudasse. Que eu não queria morrer. Só quando estive a beira da morte, reconheci que a vida havia sido muito cruel comigo, e, mesmo assim, eu não havia tido o bastante.
Não fiquei com medo no momento em que descobri quem ela era. Ao contrário de você, eu não precisei ser assassinada para me tornar uma Ceifadora. A morte foi muito mais gentil comigo do que a vida jamais foi. Ela me confortou quando meu cachorrinho morreu. Ela me acolheu quando eu escolhi abandonar a vida. Deu-me um emprego e a chance de vida eterna. E eu estava curiosa para conhecer o mundo em 2000. Todos acreditavam tanto que seria o apocalipse, mas ela me garantiu que não.
—Você ainda não esqueceu aquele cachorro? —a suave voz da morte questionou. Quando eu me voltei para olhá-la, eu me assustei. Aquela não era a garotinha que eu havia conhecido, ou mesmo o velho que enganou Thayer.
A morte parecia-se com uma mulher de aproximadamente 40 anos, pele escura e usava um crachá de funcionária de funerária. Ela estava parada na porta, e sua silenciosa presença era de dar arrepios, assim como seus olhos escuros que pareciam não ter fundo. Mas eu sabia melhor. A morte não é má. Ela salvou Ivy. Ela me salvou. E agora, salvou Thayer.
—Ele foi o meu melhor amigo. —Ivy justificou, sorrindo para Murtie.
—E nunca foi este mar de rosas que você faz soar. Ele tentava acasalar com tudo o que se movesse. E fez xixi nos meus pés. Duas vezes. —Murtie fez cara de nojo, como se revivesse a memória. Ela sorriu ainda mais largamente para mim, provavelmente notando minha surpresa. —Minhas formas diferentes lhe assustam? Essa, a garota de cabelos claros e o senhor são as que eu uso mais, então, você não terá novas surpresas. —ela levou a mão ao cabelo dramaticamente fixado em ondas e o ajustou. —E me desculpe a demora. É que hoje era o meu turno e eu não queria faltar novamente ao trabalho.
Não pude deixar de achar aquilo estranho. —Você trabalha?
—Mas é claro que sim. Tem ideia de como é cansativo viver a eternidade apenas recolhendo almas mortas e admitindo novos funcionários? O que me lembra que eu preciso de um novo Lanterna. Um que funcione, desta vez. Lanternas são muito mais complicados do que vocês, Ceifadores. Nunca fazem seu trabalho direito.
—Lanternas? —Ivy interrogou, ajustando um grampo solto no cabelo.
—Lidam com o caminho inverso do de vocês. Ao invés de lidar com almas podres, eles escoltam as almas boas para o céu. Tiveram sorte de não chegar neste ponto, mas almas podem ficar bem perdidas quando sobrecarregadas de emoções. Se houver muito ódio, ou amor, ou o que quer que seja que os prenda aqui, os Lanternas resolvem. Na maior parte das vezes.
—Os Lanternas estão falhando. Isso dava uma ótima piada. —Ivy riu.
—Não exatamente falhando. Alguns Lanternas ficam envolvidos demais com a situação de pessoas perdendo vidas. Talvez até comovidos com as almas que escoltam. É natural, pois eles já foram humanos. É aí que o problema reside. —Murtie explicou. Eu sempre soube que ela era minha chefa, mas só agora eu notava que as coisas eram maiores que os meus problemas.
Se está difícil ser uma Ceifadora envolvida com um puro, imagine ser a Morte e ter que comandar todas estas profissões do além.
Percebi que Murtie havia se aproximado apenas quando senti seu toque em meu rosto. Ela segurou meu queixo e virou meu rosto para os lados, analisando-me. —Você está começando a parecer desnutrida.
—Isso é muito gentil da sua parte. —brinquei.
Murtie abriu a boca, seus lábios se moveram, mas sua voz não saía. Ela fechou os olhos, e soltou a respiração, sorrindo. —Eu não posso interferir no destino. Tantos anos trabalhando e ainda consigo me esquecer de coisas tão básicas. Mas, pelo visto, você conheceu minha irmãzinha, que pode fazer estas intervenções.
—Sim, conheci. Muito agradável, a sua irmã. Minha última lembrança dela é o momento que ela tenta acorrentar a vida do meu namorado para si e transformá-lo em seu servo para a eternidade. —falei em tom de escárnio.
A risada de Murtie ressoou alta. —Ah, sim, isso é bem a cara dela. Mas não se preocupe, ela não obteve sucesso. Ivy, que tal assistir um pouco de TV?
—Entendi. —ela disse, saindo imediatamente do quarto.
Murtie começou. —Possivelmente você recorda que cortei os pulsos de Thayer.
Sorri. —Possivelmente. Ivy contou a razão disto.
—Ela não saberia da história inteira. Isso é muito mais antigo do que alguns dias, Cat. —Murtie uniu nossas mãos e, quando olhei para baixo, eu já enxergava pequenas e pálidas mãos segurando as minhas. —Minha função desde a criação é levar as almas embora. Renovar o ciclo. Já a minha irmã é a responsável por colocar almas neste mundo. Acima disso, existe a regra de nunca separar almas que foram feitas para se completarem. Regra que só vale para a Vida. “Até que a morte os separe”. Vocês chamam estes de almas gêmeas, mas pessoalmente eu não gosto deste termo.
—Vários solitários que não encontraram sua metade estão zanzando por aí, então eu diria que esta regra não serve de muita coisa.
—Controlar a localização de uma alma é complicado. O único que se pode fazer é ajustar o momento que essa alma virá. —Murtie esclareceu. —Foi com este ajuste de tempo que minha irmã separou certo par de almas. Ela se encantou com uma delas e, com inveja daquela que estava destinada a seguir ao seu lado, as separou o máximo que pôde. Pior do que isso, deu as costas para a pobre alma que invejava, que perdeu todos aqueles que amava e foi condenada a ter um companheiro cruel. Sabe de quem eu estou falando?
—De mim. —minha voz nunca havia soado tão frágil.
—Sim. Estou falando de você. E de Thayer. Agora, com a conexão entre vocês — coisa que ela tentou impedir por muito tempo, a sua única saída era se aproveitar se seu cargo e forçar Thayer a estar ao seu lado. Mas não funcionou.
—Minha oferta de emprego não faz parte de nenhuma briguinha entre irmãs, faz? Por que eu ficaria sinceramente decepcionada em saber que o propósito de minha existência é baseado em alguma rivalidade desse tipo. —falei, tentando olhar em seus olhos sem sentir calafrios.
—Afastar vocês foi errado. Eu me senti mal em ver você perder a vida daquela forma por causa da inveja de minha irmã, então eu lhe dei a vida de volta. E assim que Thayer estava enfim fixado nesta cidade, eu terminei sua iniciação e lhe mandei para a ativa em Miami. —meu queixo caiu. —Fiz você pensar que havia escolhido essa cidade. Mas não foi bem assim.
—Quer dizer que a minha vida está sendo controlada por vocês duas pelo simples fato que ela quer o Thayer? Sério? —averiguei. —São duas vidas! Três, contando com aquela garota que está sendo possuída pela Vida.
—Claire é apenas um receptáculo. Não há alma nela. Nunca houve.
—Oh, bem, isso me faz sentir bem melhor. —ironizei.
—Amo meus empregados. Alguns mais, outros menos, mas gosto de todos. É por isso que eu digo, Cat. Se você vai agir como uma criança, você não tem direito algum de acusar a imaturidade da minha irmã. Ela está errada, mas surtar e usar ironia em cada frase não é o caminho certo.
—E qual é o caminho certo? —pressionei.
—Primeiro: —ela ergueu o dedo indicador, enumerando. —Se alimente. A falta de almas vai deixar você cada vez mais rabugenta ao ponto que somente o santo Thayer vai te querer por perto. Segundo: seja mais discreta. Se você atrair muita atenção do submundo, os meus chefes vão começar a aparecer para te colocar alguns freios. Acredite em mim quando digo que você não vai querer isso. Terceiro: é tentando resolver seus problemas que você mete os pés pelas mãos, e arranja mais problemas. Será que não notou isso? E, por último: fique viva até o final dessa semana, e as coisas vão começar a se resolver sozinhas.
—Me manter viva. Ótima sugestão. —recebi seu olhar gelado e ergui as mãos. —Desculpe. Foi o último resquício de sarcasmo. Esse tinha que sair.
—Eu já disse demais. Apenas pense nesses conselhos. —ela se levantou.
—Você vai embora? —eu perguntei.
—Sou a Morte, eu tenho muito trabalho para fazer. E também sou zelador do cemitério Middle River esta noite. —bem em frente aos meus olhos, ela se tornou o magro velhinho que havia enganado Thayer. A roupa que estava bem na corpulenta senhora e folgada na garotinha, ficou estranha naquela versão da Morte.
—Okay. —murmurei meio sem jeito, acenando um adeus.
Ouvi Murtie trocar algumas palavras com Ivy e sair. Alguns instantes depois, Ivy entrou no quarto que eu estava e me chamou com o dedo indicador.
—O que é? —perguntei usando um tom desinteressado.
—Explicar me faria parecer uma subordinada sua, mas quero que mantenha em mente: eu estou fazendo isso pela Murtie e não por você. —Ivy começou, seguindo um caminho pelo corredor repleto de obras de arte até que estávamos na cozinha. Uma torta vermelha no centro de uma mesa antiga me chamou a atenção. —Coma um pedaço desta torta, e então poderemos ir embora.
—Por que eu iria a algum lugar com você? Ainda tenho que encontrar Thayer.
Ela riu em resposta. —Coma logo. Murtie deixou esta torta especialmente para a ocasião. Não custa nada, e eu posso ser bem persistente.
Foi complicado deixar de lado a sensação de que a hora do lanche escondia segundas intenções, mas eu não precisava me preocupar com Murtie tentando me prejudicar. Eu tinha mais daquela confiança cega quando se tratava dela. Senso assim, eu peguei uma pequena faca e me servi.
Assim que terminei de comer, Ivy segurou meu cotovelo, me ajudando a me erguer e me enervando enquanto me guiava como se eu fosse uma criança.
Em uma situação normal, eu teria gritado. Mas eu me sentia mais… calma.
Não reclamei quando fui levada até um carro, ou questionei para onde íamos. Nem comentei sobre o fato dela ainda estar vestida com o robe preto que devia ser usado apenas dentro de casa. Havia um sentimento borbulhante em meu peito que se assemelhava a um misto de felicidade e nervosismo. Algo que se intensificou quando reconheci onde estávamos. A linda casa de Thayer já era visível, e ele já estava esperando por nós.
Os braços dele me envolveram logo que pus meus pés no chão e imediatamente meu corpo relaxou.
—Tenham um dia divertido. —Ivy riu e sumiu da minha vista com seu carro.
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