Morrer de Amor
18 Capítulo 18
Notas iniciais
—Por que você desligou a TV? —perguntei, envolvendo meus cabelos molhados com uma toalha. O silêncio era estranho e eu podia ouvir o som dos meus pés molhados contra o chão.
—Não estava passando nada de bom. —Thayer sorriu, mas suas emoções não coincidiam com seu rosto despreocupado. Ele havia estado divertido mesmo que eu estivesse cada vez mais tensa com a proximidade do anoitecer, e seu humor havia sido ainda melhor enquanto ele escolhia uma roupa sua para eu vestir depois do banho.
Ergui uma sobrancelha, desafiando ele a continuar mentindo.
Seu sorriso desabou com um suspiro pesado. —Houve um novo ataque. Desta vez a garota está ainda pior do que Eren. Os cortes em seu rosto quase perfuraram a bochecha por completo. Mesmo que ela esteja fora de perigo, seu corpo está muito ferido. Não é algo que você deva ver.
—Oh, meu… Isso tem que parar. —sacudi meus cabelos úmidos para trás.
—Eu sei. —ele disse, se erguendo do sofá e andando até mim. Sua aproximação era agora um gesto automático. —É por isso que eu tenho que falar com a Claire hoje. Ela me disse que podia-…
—Thayer, —eu sussurrei colocando as pontas de meus dedos sobre seus lábios para impedi-lo de prosseguir. —Eu bem sei que ela pode ter prometido um mundo de coisas. Ela é a vida, afinal. Imagino que ela seja bem persuasiva, e nem consigo calcular tudo o que ela é capaz de fazer. Mas…
—Ela pode me partir como um palito de fósforo. —ele completou.
—Sim, ela pode. Mas não era isso que eu ia dizer. —como eu explicaria para ele minha teoria de que a vida era uma cadela? —O que te faz pensar que ela é boa? Isso é tão preconceituoso. O branco é a cor do bem, o preto do mal… Quem estabeleceu esses parâmetros? Tudo o que eu sei é que a morte foi aquela que me estendeu a mão quando eu precisei, não a vida.
—Então é disso que se trata? Proteger sua chefa? —Thayer rebateu, nossos rostos tão próximos que eu podia sentir seu fôlego quente. —Achei que fosse apenas um pouco do seu lado superprotetor.
Dei um passo para trás, me apoiando na parede. —Você não está levando isso a sério.
—Eu estou levando muito a sério. —ele respondeu, colocando o antebraço contra a parede que eu estava encostada, bem próximo da minha cabeça e voltando a aproximar nossos corpos. —Você sequer notou que minha maior preocupação é com o seu bem-estar?
—Se preocupe com você mesmo e já estará de bom tamanho. —eu retruquei, jogando em seu ombro a toalha que eu usava para secar meu cabelo e desviando de seu corpo alto.
Antes que eu me afastasse da parede, ele segurou meu pulso, sorrindo. —Será que você gostaria de brincar de médico agora?
Olhei para outra parte dele que não fossem seus olhos, me sentindo envergonhada. —O álcool me afetou um pouco ontem. Não use isso contra mim.
—Você disse que não havia perigo comigo, por que eu sou o garoto-bonzinho. —ele sorriu.
—Okay. Provavelmente o álcool me afetou mais do que um pouco.
Minhas palavras serviram apenas para ampliar seu sorriso.
Sua mão livre veio para meu queixo, erguendo meu rosto para que nossos olhares se encontrassem. Era quase como se seu olhar, assim como seu toque, tivesse calor, me deixando quente por onde passava.
—Você consegue sentir isso? Esse sentimento que toma conta de mim quando eu estou perto de você? —ele perguntou, afagando meu queixo com o polegar. —É a melhor coisa que eu já senti na vida.
Coloquei minha mão sobre a mão dele que segurava meu queixo e fechei os olhos. —Thayer, não.
—Depois do que aconteceu quando voltamos da praia, eu pensei que estávamos bem. Você até disse que éramos namorados.
—Nós estamos bem. Mas você sabe que nossa relação não vai ser fácil, com todos os problemas que vem surgindo esta semana… Eventualmente eu terei que me alimentar, e acho que você não vai gostar disso. Mesmo assim, eu terei que fazê-lo. Então, o mais sensato a se fazer é manter distância.
—Manter distância pra quê se eu já estou envolvido? O mais sensato ao meu ver é você tentar se alimentar de mim. —Thayer sugeriu, como se nunca tivéssemos tocado no assunto.
Suspirei, cansada. —Não vamos falar disso de novo.
Tentei me afastar novamente, mas ele apenas me sustentou contra o seu corpo. —Cat, me ouça. Vamos apenas fazer um acordo. Se o último dia da sua alimentação chegar e você não conseguir encontrar um alvo, eu quero que você se alimente de mim.
—Isso é “estar bem” para você? Fazer um acordo que implica sua morte?
—O que é “estar bem” para você? Se deixar morrer sem tentar comigo? Nós nem temos certeza do que aconteceria se você sequer tentasse.
—Bem, eu tenho uma suspeita: você morreria. É uma suspeita muito catastrófica para arriscar. Como você pode oferecer a vida para mim? Eu não mereço. E você mal me conhece.
—Não apenas te conheço, como também sinto que essa é a coisa mais correta que eu poderia fazer. Nesta escolha entre nós dois, eu sequer tenho alguma chance. —não apenas seu tom de voz era sedutor, mas seus olhos cor de mel cintilavam, me chamando para mais perto. —Você nunca sentiu isso? Essa certeza sem razão?
—Nunca fui tão louca.
Era uma mentira. Eu havia me sentido desta maneira uma vez. Quando eu aceitei a proposta sussurrada em voz melosa da morte.
Ele riu. —Já devia saber que você não admitiria.
Um momento de silêncio surgiu e a cada instante eu ficava mais consciente que estava prensada contra a parede pelo — belo — corpo de Thayer. Minha respiração ficava mais ruidosa e irregular, e me envergonhava que ele podia notar isso também.
—Vamos ficar assim por muito tempo? Sua parede não é muito confortável. —quebrei o silêncio.
Thayer ergueu uma sobrancelha. —Não pareço tão inofensivo agora, pareço?
—Meu medo não é do que você faz. —e sim o que você provoca em mim. Mas esta última parte era desnecessária. Olhando em seus olhos, eu senti o quanto ele estava convicto de que aquele acordo era a coisa certa a se fazer. Eu não planejo deixá-lo morrer, nem mesmo por mim, mas como negaria uma tentativa? —Sobre o acordo: minha exigência é que você não nos acompanhe em noites de caça. Eu irei fazer isso apenas com Linda. E mais importante: se algo der errado, se eu sentir que sua alma está te deixando de vez, eu vou parar e não há nada nesse mundo que me convença a tentar novamente.
—E minha exigência é que você me ligue se algo estiver errado, e que eu seja sua escolha caso não encontre nada até o último dia da semana.
—Ligar para você? Sem chance. —sem saber o que fazer com as minhas mãos, cruzei meus braços. —E lembre-se que se eu não encontrar nenhuma alma ruim até o período crítico da semana, não vai ser sua alma que irá me salvar.
—Seria uma tentativa. Você não pretende se deixar morrer, não é?
—Você é um suicida, sabia disso?
Seus lábios tocaram brevemente minha testa. —Essa tentativa não me parece em nada com um suicídio. Vou tomar um banho. Tem mais água para você na geladeira e também deixei lá um pouco mais daquela comida que você gostou.
—Por que você está me dizendo isso? Você vai tomar banho nesta casa, não do outro lado da cidade.
—É que depois do banho eu vou sair. E eu esperava que você ficasse aqui até eu voltar.
Engoli em seco. —Ah… Okay.
—Não haverá nenhum perigo. Eu conheço Claire desde que éramos crianças e… Espera. Você disse "okay"? —os belos olhos cor de mel piscaram para mim em surpresa. —Eu não esperava que você concordasse tão fácil.
—Eu não concordei. Apenas cedi. —constatei. —Gostar e apoiar são coisas diferentes, lembra?
Um meio sorriso esticou os lábios de Thayer e ele fez seu movimento para se afastar. Foi quando eu desejei tocá-lo, ou que ele me tocasse. Eu nem tinha certeza que aquele sentimento era meu ou se era dele – talvez fosse de ambos. Independente disso, ele não foi concretizado. Thayer apenas se afastou e seguiu em direção ao corredor.
—Desculpe se eu não consegui apoiar sua alimentação da forma que você precisava. —ele disse, olhando para mim por sobre o ombro. —A ideia de você nas mãos de alguém tão perigoso me aterroriza mais do que qualquer coisa. Mas se é o necessário para ter você bem, eu vou entender.
O canto do meu lábio subiu involuntariamente em um sorriso.
Seu sorriso em resposta foi bem mais consciente que o meu. Bem mais belo, também. E foi tudo o que eu tive antes que ele desaparecesse no corredor.
Quando o som do chuveiro começou, comecei a pensar na melhor forma de parecer inocente. Thayer era observador, mas eu não queria que ele descobrisse que eu estava tramando alguma coisa, então peguei uma fatia da sobremesa que ele havia feito para mim, me sentei no sofá e pus minha cabeça para funcionar.
Segui-lo seria fácil. Mas e quanto a Claire, ela me notaria?
Saber tão pouco de sua capacidade era ruim. Minha melhor informante seria, talvez, a Ivy, mas eu não sabia se ela realmente me ajudaria, ou se sequer era capaz de fazê-lo. E, pensando nisso agora, eu não tinha como encontrá-la. Sempre havia sido ela que vinha até mim – ou melhor, até o Thayer.
Cogitei várias possibilidades até o momento que Thayer surgiu, com os cabelos ainda molhados e parecendo bem como sempre.
Mesmo que eu não bancasse a solitária, ele parecia culpado em me deixar só.
—Eu ajustei a temperatura, mas se você ainda achar frio, você pode mudar naquele controle, ali. —ele apontou mais uma vez, como se estivesse deixando uma criança em casa. —Qualquer coisa que você precise, não se incomode em pegar. E eu vou levar meu celular. Pode ligar a qualquer momento.
Revirei os olhos. —Estou bem, papai. Agora vá.
—Ainda sinto como se não estivesse tudo bem. —ele comentou.
—Deve ser um pouco do seu lado paranoico falando.
Thayer sorriu levemente, mas seus olhos se estreitaram em desconfiança. —Sim, deve ser. Esperamos que o pôr-do-sol refresque um pouco este meu lado para que eu volte menos paranoico e o mais rápido possível.
O tilintar das chaves dele me fez querer pará-lo, mas mesmo todo meu empenho não o aplacaria, eu sabia. Mas havia algo que podia me acalmar.
—Thayer, espere. —eu chamei. —Posso ter um abraço de despedida?
A emoção quente borbulhou em nossa ligação. —Você ainda pergunta?
Cortei nossa distância rapidamente, me sentindo pequena quando envolvi sua cintura com meus braços. No mesmo instante, ele me abraçou de volta, com um braço envolvendo meus ombros e o outro acariciando meus cabelos. Apenas aquele contato com ele me confortou.
—Manter distância vai ser complicado. —ele soou um pouco rouco.
Encolhi os ombros, ainda abraçando ele. —O que não é complicado?
—Tem razão. —ele levou os lábios até minha testa, com demorado e suave beijo. —Fique bem.
—Essa era para ser minha fala. —minha voz foi abafada pelo corpo dele.
Rindo baixinho em resposta, Thayer se afastou e voltou a sacudir as chaves, como se quisesse me dizer algo mais, ou fazer algo mais. Mesmo que eu tivesse essa impressão, ele não hesitou, apenas seguiu até seu carro, como observei do batente da porta, e dirigiu seu carro para fora da minha vista.
Assim que eu não era capaz de ouvir seu carro, corri para o telefone.
—Atende … —murmurei impaciente. —…Linda! Preciso de sua ajuda.
Expliquei o mais rápido que pude do que eu precisava. Fazê-la entender a urgência não foi difícil já que eu falava como se estivesse narrando uma partida de futebol. Não tão rápido quanto eu desejava, mas ainda antes do necessário, Linda chegou, e não estava nada contente com o suspense.
Batucando no volante enquanto eu me contorcia no banco de trás para vestir minha roupa, Linda semicerrou os olhos para mim. —Te trouxe roupas escuras e um carro. Que tal me explicar agora o que diabos está acontecendo?
—Eu realmente estou sem tempo agora. —eu estiquei o braço para abrir a porta do motorista e induzi-la a sair dele. —Na volta, eu te explico tudo. Só preciso que você fique aqui, e preste atenção no telefone. Qualquer ligação do Thayer, responda com mensagens de texto. Faça-o acreditar que eu estou em casa. E… que carro é esse?
—Você não quer saber. —ela sorriu enigmaticamente, enquanto eu me posicionava frente ao volante.
Como eu não estava em posição reclamar, me contive a balançar a cabeça em negação e pisar no acelerador.
No começo, apenas uma fraca intuição que me guiava pelo caminho certo. Acelerando pelas ruas, logo eu sentia como se estivesse seguindo o caminho de casa. Era estranho, mas eu sabia que eu estava cada vez mais próxima do Thayer.
Os caminhos eram mais escuros e desertos quando senti sua energia firmemente. Era hora de desligar o carro e procurá-lo a pé. Thayer era mesmo muito ingênuo se pensava que qualquer encontro entre galpões e no escuro era amigável.
O primeiro que eu avistei foi o carro de Thayer, reluzindo na escuridão bem ao lado de um galpão abandonado, ainda com o motor quente. Fazia pouco tempo que ele havia chegado. Agora com roupas escuras, eu conseguia me camuflar bem, mas eu temia que Thayer pudesse sentir minha presença como eu sentia a dele.
De dentro do galpão, a voz de Claire ecoou. —… Não quer dizer que ela seja a única para você! Acredite em mim, eu sei. Eu te amo, Thayer, antes de você ter um corpo físico. Tudo o que eu fiz foi por você. Por nós.
Segui a sua voz baixa, conseguindo enxergá-los de lá por uma pequena janela.
Thayer estava em pé, parecendo atordoado sob a meia luz. Eu não podia decifrar seus olhos com toda a distância entre nós, mas era possível detectar a confusão de seus sentimentos. Ele também sentia raiva, mas eu não sabia por quê.
Meus olhos deslizaram para Claire apenas depois. Ela estava mais iluminada pela luz, então foi fácil notar uma peculiaridade. Dos pés à cabeça, ela espelhava como eu parecia quando conheci Thayer. Cada detalhe. Seus cabelos, o top que eu pensei ter perdido, e até minha maquiagem.
— Você perdeu o seu tempo. —a voz de Thayer soou fria. Seja lá o que aconteceu, realmente o irritou. —Realmente acredita que eu posso olhar para você depois do que você me disse?
—Venho esperando por esse momento durante décadas. Esperando você estar preparado. —ela suspirou. De onde eu estava, vi ela puxar uma corrente escondida em suas costas, que brilhava sobrenaturalmente. Eu sabia o que aquela corrente era. —Você não entende tudo o que eu abdiquei, todas as regras que quebrei? Eu nunca havia desejado viver até que desejei viver com você. Eu não a matei. Apenas a abandonei. Para que você fosse meu. Para sempre.
Foi como se tudo se encaixasse.
Meus olhos se ampliaram e eu me ergui, pronta para entrar lá de algum jeito.
Uma mão me puxou para baixo e colocaram algo na minha boca.
Um gosto metálico. E eu apaguei.
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