Notas iniciais
Demorei, mas aqui estou com um novo capítulo! Pra quem não lembra, eu deixei o tadinho do Thayer sangrando no chão. Mas isso tem uma razão, tá? Só não sei o quanto vai levar para ter tudo explicadinho. Mas estou trabalhando para avançar mais a história. Neste capítulo, vocês irão descobrir quem é a garotinha que cortou o Thayer. Espero que gostem :)

Quando alguém está segurando um objeto cortante, dificilmente irá parecer amigável. Principalmente se o objeto em questão estiver sujo de sangue fresco. E quanto mais eu olhava aquela garota baixinha, mais forte era a ideia dela como uma boneca assassina de filmes de terror. Seus grandes olhos impossivelmente negros cintilavam enquanto ela mantinha aquele enorme sorriso para mim.

Dei um passo para Thayer. Eu não conseguia sentir sua dor. Nossa ligação estava entorpecida por alguma razão. Era como se ele não sentisse nada.

E quanto mais fraca a energia dele ficava, mais claro era que a garota não tinha energia. Oca como uma boneca russa.

Nunca ouvi falar sobre alguém sem energia vital. Era impossível.

—Quem é você? —perguntei, me impedindo de jogá-la longe e cuidar de Thayer. Ele estava perdendo sangue, e eu sabia que seria perigoso me aproximar deles enquanto aquela garota sustentasse os olhos em mim. —Me deixe cuidar dele.

Mais um passo para frente e ela fez mais um movimento para me interceptar.

Frustração me encheu, embargando minha voz. —O que fez com ele?

—Foi necessário. —sua suave voz ressoou.

Aquela voz… Esta voz. Uma voz melodiosa, tão agradável e calmante. Exatamente como aquela voz feminina que eu havia escutado ao morrer. Se meus olhos se ampliando não indicou o bastante, minha respiração o fez.

—Finalmente me reconheceu? —ela fez mais daquele sorriso que não chegava aos seus olhos.

—Você é a morte. —respondi sem hesitar. Eu nunca havia esquecido sua voz.

—Me chame de Murtie. Há quanto tempo, Cat! —ela continuou com a conversa descontraída enquanto eu não podia impedir meus olhos de conferirem Thayer. Sangue deslizava lentamente dos cortes em seus pulsos. Murtie acompanhou meu olhar. —Oh, bem, você já pode cuidar dele.

Graças a D-… —Obrigada.

Murtie não se afastou nem um passo enquanto eu me ajoelhava ao lado de Thayer. Eu corri meus dedos pelos seus braços, procurando mais danos, mas só havia um corte em cada pulso. Linda não havia me dado qualquer roupa decente que eu pudesse rasgar para conter o sangramento.

Usando as mãos, eu apliquei pressão sobre os cortes.

—Thayer… —eu chamei em um sussurro, implorando. —Thayer.

Sem aviso, sua energia voltou ao normal. Uma respiração funda fez seu barulho auditível por todo o beco escuro, e ele abriu os olhos.

Não pensei que eu pudesse ficar tão aliviada e emocionada com isso.

Com um sorriso, eu encostei minha testa em seu peito, escondendo meu rosto, com medo do que eu podia mostrar. Finalmente minha mente voltou a funcionar direito. Por todo este tempo, eu nem havia notado a música que transbordava do clube. Thayer se soltou do meu agarre, já curado, e segurou meus ombros.

—O que foi? —sua voz transbordava de preocupação. Logo ele, que estava quase morrendo segundos atrás. —Cat, você está bem?

—Ah, eu estou muitíssimo bem. Mas parece que você não limpou seu braço.

Olhando para seu próprio braço, vi a compreensão passar pelos olhos de Thayer, como se ele lembrasse agora do que aconteceu. Seu braço estava sujo não apenas com a minha bebida, mas também com sangue.

—Eu estava indo para o banheiro, mas ouvi um senhor me chamar. Ele estava com a mão no peito, parecia sentir dor. Eu tinha que ajudá-lo, e…

—Num passe de mágica, ele se tornou uma pequena garotinha com um estilete. Uma garotinha que não tinha problemas no coração, e que cortou os seus pulsos, e blá, blá, blá. —Murtie completou. —Eu não mataria você depois de todos os problemas que me meti para te ajudar.

—Talvez eu precise de algumas explicações? —Thayer murmurou.

—Ou apresentações. Thayer, esta é a minha chefe, a Morte. Murtie, este é-…

Murtie estalou a língua, me interrompendo. —Oh, eu sei bem quem ele é.

Até agora, eu não havia questionado Murtie sobre o que ela fez, eu estava ocupada pensando no que eu faria para ter Thayer acordado, mas agora… —Murtie, você poderia me dizer seus motivos para quase matar Thayer?

—Poder eu posso. Mas não vou. —ela riu, o que a fez parecer louca já que eu e Thayer nos mantivemos sérios. Tentei manter meu olhar suave quando virei minha cabeça para ela. —Você não funciona bem com muitas informações. Deduza. Eu pareço alguém que quer te ajudar, ou te atrapalhar?

Olhei para o sangue em suas mãos. —Isso é uma pegadinha?

Ela espanou o ar com sua delicada mão. —Não tome decisões precipitadas.

Com um passo rápido, ela foi embora.

—Sua chefa faz aparições de matar. —Thayer brincou.

—Nossa, como você é engraçadinho. —estreitei meus olhos para ele. —Ela não quis explicar seus atos, e não foi nada divertido te encontrar sangrando no chão.

Thayer olhou para seus braços sujos de sangue. —Não senti dor. Lembro-me dela cortando meus pulsos, mas era como se aquela faca atravessasse a minha pele para tocar algo mais. O que você acha que ela queria com isso?

—Já ouvi falar de facas que cortam mais do que pele. Elas podem cortar muitas coisas. Eu não posso dizer do que aquele estilete era capaz só de olhar.

—Ela pediu que você não tomasse conclusões precipitadas. —Thayer lembrou.

—Isso significa ignorar a imagem dela segurando um estilete com seu sangue?

—Significa que devemos pensar sobre isso antes de julgar.

Tomei uma respiração profunda. —Agora além de limpar a bebida de você, teremos que limpar o sangue de nós dois. Linda deve estar pirando lá dentro se já houver notado nosso desaparecimento. E não queremos que ninguém nos veja assim neste beco. Você precisa de ajuda para se levantar?

—Não. Eu estou bem. —ele garantiu, se apressando em levantar para estender o braço para mim. Aceitei sua ajuda com um sorriso modesto. —Você está mais leve?

—Você acha? —perguntei, olhando para baixo, para o meu próprio corpo.

—Os sintomas da falta de alimentação surgem antes da semana acabar?

—Não sei. Eu nunca passei tanto tempo sem me alimentar.

Um vinco surgiu entre as sobrancelhas dele. Nem precisei de nossa ligação para saber o quanto ele ficava confuso com aquilo. Thayer não queria que eu morresse de fome, mas também não queria que eu me alimentasse de outro, e nem podia ser meu alimento por não ter maldade em sua alma.

Elevei minha mão para desfazer aquele vindo com o polegar.

—Depois que fica duro, o sangue não é nada fácil de limpar. —falei.

—E todo o sangue no chão? —Thayer perguntou, olhando para baixo. Estava escuro, e eu sabia que ele não via mais do que uma umidade, assim como eu sabia que Murtie era a Rainha da Camuflagem. Ela nunca faria algo que não soubesse como limpar depois, então eu não me preocuparia com isso.

—Ignore. — seguro a mão de Thayer e guiando-o de volta ao clube.

***

Sair do carro sem mostrar demais foi complicado. Mais complicado ainda havia sido voltar para casa de mãos vazias, ou melhor, estômago vazio. Eu podia beber todo o álcool do mundo há tanto tempo, que só conseguia notar o quanto eu estava embriagada em momentos como este, em que eu cambaleava.

Thayer sempre estava lá para segurar meus ombros.

—Você está bêbada. —ele apontou. —Linda disse que você estaria suscetível a desidratação nestes últimos dias de alimentação. Isso significa que o seu corpo dá sinais como qualquer corpo humano. Você precisa beber mais.

Ergui meus braços, soltando uma risada. —Vou começar com a vodca.

Um sorriso discreto surgiu nos lábios dele. —Beber mais água.

—Estou começando a achar que a Linda me mandou vir para sua casa para que você pudesse cuidar de mim. —estreitei meus olhos. —Mas eu não quero brincar de médico. E eu estou velha demais para uma babá, não acha? Isso é ridículo. Você vai dar me dar água na boca, também?

Sem sair do lugar, eu consegui tropeçar novamente.

Ao invés de apenas me sustentar como das outras vezes, Thayer moveu o meu corpo como se eu pesasse nada mais do que uma pena, mantendo um braço sob meus joelhos e outro nas minhas costas e me carregando para dentro da casa.

—Brincar de médico? —os olhos dele brilharam de diversão. —Eu irei adorar recordar suas palavras quando você estiver sóbria. Se segure em mim.

Tive que envolver meus braços em seu pescoço para que ele abrisse a porta.

Sua casa estava deslumbrante como sempre, pelas janelas de vidro que iam do teto ao chão, eu podia ver seu gramado ser iluminado pelos primeiros raios de sol de hoje. Linda havia demorado a admitir que não encontraríamos nada nesta madrugada, e antes do sol nascer eu já estava exausta.

Para ser sincera, Thayer não havia sido o único aliviado com o fim da expedição.

Encostei meu rosto mais firmemente contra seu pescoço. —Sono.

—Você é uma bêbada muito fofa. Isso é perigoso. —Thayer disse quando me depositou sobre sua cama e afastou algumas mechas de meu cabelo que estavam no meu rosto, aproveitando para acariciar minha bochecha.

Estalei a língua. —Você é o garoto-bonzinho. Não há perigo com você.

—Garoto-bonzinho? —ele riu. —Cat, você superestima meu controle.

—Promessas, promessas.

Olhei em seus olhos e senti a guerra de sentimentos dentro dele.

Sim, eu estou com muito sono, e até eu precisava reconhecer que o álcool havia me afetado, mas eu não estou morta. Péssima colocação de palavras.

O fato é que Thayer estava com o seu corpo muito próximo do meu, seu rosto era tão belo que podia fazer meu coração falhar em uma batida, eu sentia mais daquele sentimento cálido que sempre transbordava dele, nós estávamos em sua cama, a mesma cama em que eu nós havíamos… nos conectado.

E o seu maravilhoso cheiro estava em tudo ao meu redor.

Eu queria aquele cheiro em mim também.

Os macios lábios de Thayer beijaram minha testa, minhas pálpebras, e até o canto da minha boca. —Você, garotinha bêbada, precisa dormir. Eu queria que você pudesse ser sempre assim, mas algo me diz que todas essas palavras estão sendo libertadas pelo álcool. Eu desejo que seja você dizendo elas para mim. E amanhã eu ainda vou estar aqui, do seu lado. E depois também.

—Sério que você vai fazer isso de novo? —fechei meus olhos.

—Desta vez você realmente está bêbada. —ele riu.

E foi tudo que eu ouvi antes do sono de levar.

***

—Entendo… Tive uma conversa sobre isso com a equipe de contabilidade… —a voz de Thayer era baixa, mas atravessava a porta aberta. Eu sentia como se tivesse dormido por dois dias e ainda estivesse cansada, mas sabia que tinha que acordar. —Eu mesmo conferi isso… Claro, você pode enviar as planílhas por e-mail?

Levantei da cama, sentindo tontura, uma garganta ardendo e dor de cabeça.

Uma puta dor de cabeça.

Apoiei uma mão na parede apenas para garantir, e segui firme pelo corredor até chegar ao arco da cozinha. Thayer estava de costas para mim, falando no telefone e preparando alguma coisa no fogão ao mesmo tempo.

Ele sibilou e sacudiu a mão, levando um dedo para a boca. Eu ri.

Ouvindo minha risada, ele se virou para me olhar por sobre o ombro.

—Eu te ligo depois. —ele disse apenas, desligando logo em seguida.

—Fazer duas coisas ao mesmo tempo nem sempre dá certo. —eu sorri.

—Bom dia. —ele responde, vindo na minha direção. —Eu já te disse o quanto eu gosto de ver você pela manhã? Seus cabelos ficam uma bagunça, você tem uma marca de lençol no rosto, e continua linda.

Passei a mão pelo cabelo e pelo meu rosto, tentando me arrumar.

A mão de Thayer parou a minha. —Eu disse que continua linda.

—Vai queimar. —eu apontei para o fogão.

Não deu tempo nem de amaldiçoar. Thayer voou para o fogão, desligando o fogo e abanando a panela, para depois suspirar de alívio. —Achei que teria que começar mais uma vez.

Arqueei uma sobrancelha. —Começar mais uma vez?

—Café da manhã especial para você. —ele sorriu, afastando-se um pouco para que eu pudesse enxergar os pratos no fogão. Todos eles faziam parte dos meus pratos prediletos.

—Você tem se comunicado muito com a Linda.

—Sim. Eu tenho me comunicado bastante esta manhã.

Soou como se ele quisesse dizer mais, por isso eu pressionei. —O que você quer dizer com isso?

—Sente-se. —ele pediu, esperando que eu me sentasse à mesa para servir o café da manhã e continuar falando. —Enquanto você dormia eu recebi uma ligação da Claire. Ela marcou um encontro comigo ao anoitecer.

—O quê? —guinchei, me levantando da cadeira.

—Eu a conheço, Cat. Ela não é perigosa. E ela me prometeu que se eu fosse, ela não te machucaria de forma alguma.

—Ah, você a conhece. —cruzei meus braços, sorrindo apesar de não aparentar alegria com a notícia. Era um sorriso de ironia. —Você não pode estar falando sério.

—Você não precisa ficar preocupada. Ela está possuída pela Vida, mas ela ainda é a mesma garota que…

—Não acredito nisso. —o interrompi, massageando minha têmpora.

—Cat, eu não sou tão frágil quanto você pensa. —Thayer disse, calmamente colocando café em sua xícara.

—Não, você é pior. Você é humano. —me debrucei sobre a mesa, segurando seus punhos para conseguir sua atenção. —Quer parar de agir como se estivéssemos discutindo negócios? Isso é sério!

—Mas eu não estou agindo como se estivesse em negócios. —seu tom cheio de sinceridade me atingiu assim como seus intensos olhos cor de mel. —Eu só... Não há nada que você possa alegar que venha a me dissuadir. Eu vou me encontrar com a Claire hoje. E ela pediu que eu fosse sozinho.

Soltei uma risada de deboche. —Claro que ela pediu! Ela também citou que você deveria ir em uma bandeja? Você não vê, Thayer? Ela está tentando te atrair para uma armadilha! Sabe lá o que ela planeja fazer com você.

—Okay, então. —Thayer disse, respirando fundo e deslizando suas mãos para que envolvessem as minhas. —Suponhamos que Phil entrasse em contato com você e marcasse um encontro, ameaçando alguma garota caso você faltasse. Independente do que eu lhe dissesse, você ainda iria?

—Isso é muito diferente da sua situação.

—Não, não é. —ele sorriu levemente, erguendo uma das minhas mãos até os seus lábios para um beijo suave. —Eu não gosto de como me sinto fraco. Antes, eu costumava ter o necessário para proteger aquilo que é importante para mim, e hoje eu descubro que existem coisas sobre-humanas com as quais eu não posso lidar. Se o único que eu posso fazer é te proteger assim, eu farei. E sua comida vai esfriar.

Ponto final.

Se eu era cabeça dura, isso fazia dois de nós. Toda tentativa de voltar para este assunto foi habilmente esquivada por ele, fosse com novas porções de comida ou com seus sorrisos. E eu não sei o que era mais delicioso.

Quando nos sentamos juntos no sofá para assistir uma maratona de uma série televisiva, eu me senti normal novamente. Era fácil me sentir humana enquanto Thayer se recusava a deixar de tocar minha pele, sempre voltando para me acariciar ou apenas me tocar, quase como se achasse que eu podia me dissolver no ar a qualquer momento.

Eu queria lhe dizer que eu não ia a lugar algum. Mas eu não podia.

O que eu faria uma vez que a semana de alimentação acabasse? Uma vez que eu encontrasse uma maneira de quebrar nossa ligação?

Apenas alguns dias atrás eu teria a resposta na ponta da língua. Iria embora. Pediria uma transferência para outra cidade, quem sabe até outro país.

Mas alguma coisa havia mudado.

Só não sabia se isso era algo bom ou ruim.

Notas finais
Um final bem tranquilo, né? O que vocês acham que irá acontecer no encontro de Thayer com Claire? E será que a Cat vai aceitar isso?