Morrer de Amor
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Saltei de surpresa quando os braços de Linda me rodearam. Não foi um abraço desesperado, ela apenas apertou seu pequeno corpo contra o meu. Quando ela se afastou, suas bochechas estavam coradas, eu não sabia se era de raiva ou de vergonha, e seus lábios estavam pressionados em uma linha.
—Como você esconde algo assim de mim? —ela explodiu. —Será que você não entende? Ele tem o poder de transformar sua vida em um inferno. Isso é muito grave, Cat! Você acha que o inferno é divertido?
—Não acha que eu já vivi muito para me importar com isso? —cruzei meus braços. Estávamos sozinhas em uma sala do hospital providenciada por Thayer para que tivéssemos privacidade, e mesmo assim eu me sentia muito exposta. —É exatamente isso que ele procura. Me atormentar. Eu não posso demonstrar nada!
—Isso vindo daquela que voou para o hospital em busca da garota do noticiário. —Linda bateu palmas para mim.
Revirei os olhos. —O que mais eu podia fazer?
—Procurar a morte. É a coisa mais sensata a se fazer. Sei o quanto ela gosta de pactos. Talvez haja algo que você possa oferecer em troca da extinção deste tal Phil.
—Simples assim. Procurar a morte. —eu zombei.
—Em menos de uma semana você conseguiu encontrar um puro, uma Ceifadora da mesma iniciação que a sua, alguém sob possessão e um maníaco para angustiar sua vida. Estou esquecendo alguma coisa?
—Também encontrei um bar muito simpático com um palco para cantores-…
—Vou me lembrar de passar por lá quando não estiver tentando livrar o traseiro da minha amiga de problemas. —Linda respondeu em tom de escárnio e esfregou as mãos contra seu rosto, exasperada. —O que você disse sobre… essa ceifadora que conhece a morte?
—Ivy? Ela não me ajudaria. Na verdade, ela foi a responsável por boa parte destes problemas. Sem falar na vontade dela de provar o Thayer.
—Espera. —Linda ergueu uma mão. —Esse Phil… Ele sabia sobre o Thayer. Ele escolheu a sua vítima com base nisso, por causa da conexão entre as famílias e tudo mais. Então quais motivos ele teria para não atacar o Thayer ao invés de atacar uma garota que você não conhece?
—Ele pode ter imaginado que isso me atingiria mais. Afinal, eu comecei o meu trabalho para que outras garotas não sofressem o que eu sofri.
—Você não vai tentar me enganar dizendo que não liga para o Thayer, vai?
Eu já tentei enganar até a mim mesma…
—Você acredita mesmo que o que eu sinto por ele é mais forte do que aquilo que me motivou durante todos esses anos? —aquela pergunta era para mim também.
O meu interior respondeu da mesma forma que Linda. —Sim.
***
Sair daquela sala foi libertador. Linda era minha melhor amiga – minha única amiga, mas ela ainda sabia ser sufocante quando queria.
Parecia estranho, mas eu podia sentir onde Thayer estava. Seguindo aquela intuição, eu o enxerguei pela janela de vidro do quarto em que Eren estava. No momento em que dei um passo na direção da porta, vi que ele não estava sozinho.
Acompanhando ele havia um casal com expressões tristes. O homem estava estático, enquanto a mulher usava óculos de sol e exclamava tão alto que eu podia ouvir sua voz irritada através da parede.
—Ela devia estar com você! Não com aquele lunático! Olhe o que ele lhe fez!
—Calma, Senhora Khor. Ainda não conhecemos o culpado. —Thayer disse.
—Todos aqui estão cuidando muito bem dela. Não há como agradecer, Thayer. —a homem falou, mas baixo que sua mulher, mas eu pude ouvir por que prestava mais atenção agora. Os olhos de Thayer passaram pela janela e me encontraram.
—Eu pedi uma atenção especial para ela. —Thayer disse, desviando seus olhos de mim apenas depois disso. —Saibam que vocês não são os únicos que a querem melhor. A medicação foi reduzida para que ela acordasse em breve. Vocês podem ir ao refeitório, comer um pouco e se recompor antes de falar com ela.
—É o melhor. —o homem concordou, envolvendo os ombros da mulher com um braço e se despedindo com um aceno de cabeça antes de sair do quarto.
Thayer os seguiu, mas ao invés de continuar pelo corredor, ele veio até nós.
—Houve uma perda de sangue, mas ela já recebeu uma transfusão. Os ferimentos nos braços e os cortes no rosto são as coisas mais graves. Ela não foi abusada sexualmente. São lesões superficiais, e quem os fez queria que eles fossem visíveis. —ele me informou quando estávamos próximos.
—Só lesões superficiais. Então por que você está tão pálido? —Linda instigou.
—Estou preocupado com a Cat. —Thayer começou. —Ela parece não se importar com nada disso, mas eu quero que ela fique bem. E o Phil é muito perigoso. O que ele fazia com as garotas… Se ele sequer tocar na Cat depois disso…
O silêncio atravessou todos nós. O que Thayer faria? O que ele podia fazer?
Atacar não era uma opção. Se Phil era mau em vida, ele podia ser ainda pior em morte. Agora, ele tinha a força que nós ceifadores tínhamos.
Evasiva, olhei para a janela. —Quando anoiteceu?
—Os dias não duram para sempre, baby. —Linda brincou. —Aliás, isso me lembra de que você precisa de uma noite de alimentação. Você me disse que não havia se alimentado ainda, e a diminuição de peso começa a ser aparente, isso é ruim. Que tal a ajuda de verdade, desta vez?
Thayer ficou tenso e eu não sentia sentimentos liberais em nossa ligação.
—Nós não devíamos falar isso na frente dele. —eu murmurei.
—Ora, não vai me dizer que você não admite a alimentação. —Linda olhou para Thayer como se ele estivesse prestes a dizer que amava de tricotar. —Você sabe o que ela é e o que ela precisa fazer, não é mesmo?
—Saber e gostar são coisas distintas. —Thayer argumentou.
—Assim como gostar e apoiar. —ela rebateu. —Espera que ela morra de fome?
—Você não precisa ir conosco. Não precisa ver. —eu sugeri para ele. —Mas eu preciso fazer isso. E nunca escondi de você.
Thayer levou a mão até sua testa, franzindo o cenho como se sua cabeça doesse. —Eu devia pedir para que você vá em frente e durma com o pior tipo de homem que encontrar? Isso é… Eu não posso fazer isso.
—E então, o que vai ser? —Linda perguntou, fingindo estar impaciente.
—Eu vou com vocês. Eu vou me manter quieto. —Thayer prometeu por fim.
—Claro, e eu vou me tornar a Jennifer Lopez! —Linda sorriu, apontando para o seu próprio rosto. Sua expressão sorridente caiu tão rápido quanto veio. —Uma coisa eu posso afirmar, Thayer. Eu não vou deixar a Cat morrer. Seja por esse louco que está a perseguindo, ou mesmo por falta de alimentação. Não importa o que eu tenha que fazer.
—Ótimo. Por que o último que eu quero é vê-la morta. —ele respondeu.
No caminho de saída, o silêncio alimentava o clima pesado. Thayer parecia perdido em pensamentos, seu rosto pacífico não escondia seus sentimentos conflituosos de nossa ligação. Aparentemente, minha alimentação era um tópico proibido agora. Eu precisava fazer alguma coisa. Estar em um elevador com Linda e Thayer seria ainda mais difícil.
—Poderíamos ir pelas escadas? —pedi antes de chegarmos ao elevador. —Eu gostaria de conhecer um pouco dos andares abaixo.
—Dois deles são apenas estacionamentos. —Thayer anunciou, sua expressão se iluminando com a ideia de um passeio pelo hospital. Ele era como um garoto mostrando sua coleção de brinquedos quando conferimos o andar mais próximo: a área de recuperação e fisioterapia.
Até mesmo Linda estava animada com o passeio pelos corredores.
Porém, no último andar que visitaríamos, eu congelei. Senti aquela energia estranhamente estável, aquela que se assemelhava a um fluxo sereno de água.
—O que foi? —Thayer foi o primeiro a notar minha quietude.
—Eu sinto a energia dela. Claire. —murmurei.
Linda olhou ao nosso redor. —Onde?
—Vinda dali. —eu apontei para uma parede próxima a nós.
—Da maternidade? —Thayer perguntou, parecendo confuso. —Só médicos e grávidas estão autorizados a entrar ali. O que ela faria lá?
—Cat, eu não sinto nada de estranho vindo dali. —Linda alegou.
Meu queixo caiu. —Desde quando autorização barra alguém? E, Linda, você não sente essa energia arrepiante? Ela parece não se conter em um lugar só. Ela envolve tudo agora mesmo. Ela é esse… fluxo. Como uma corrente de água.
—Essa era a energia que você sentiu na garota? —Linda indagou.
—Quer dizer que você conhece essa energia? —perguntei ainda mais confusa.
—Se eu conheço? Bem, pode-se dizer que sim. Todos nós já conhecemos um dia. Possessão exige muito de poder, mas eu não imaginei que ela pudesse ser a responsável por essa Claire… Cat, essa energia que se parece com uma correnteza que você fala é simplesmente a energia da irmã da nossa chefa. É a energia da vida.
—Espera. A vida é uma entidade? —Thayer questionou.
—Ao menos eu sei que não deveria ser. —falei.
—Não devia mesmo. Isso foi uma das coisas que aprendemos em nossa iniciação. Você tem certeza que essa é a energia na garota? —Linda conferiu.
Acenei com a cabeça. —Claro que tenho.
Linda massageou o próprio ombro. —Devemos encontrar a morte agora mais do que nunca. E precisamos estar fortes. Se a vida está quebrando as regras, algo de errado está acontecendo.
***
Havíamos combinado de nos encontrar no bar no Mynt. Nostálgico.
Usando todo seu profissionalismo, Linda conseguiu me ter pronta para a noite em tempo recorde. Eu nunca teria pensado em usa o meu cabelo daquela forma tão sexy, ou mesmo conseguido fazer aquela linda maquiagem que realçava meus olhos. E as roupas! Linda sempre tinha as melhores roupas.
A regata preta tinha um decote em v modesto que mostrava um pouco de pele e a saia tinha paetê bronze, dourado e preto, mas estava além de curta.
—Eu não vou poder me sentar. —eu disse, enquanto entrávamos no clube.
Linda revirou os olhos. —Você está usando calcinha, não está?
—Aquele pedaço minúsculo de pano que você trouxe de onde Judas-perdeu-as-botas? Yeah! Mas eu não sabia que podia classificar aquilo como peça íntima.
—Reclama, e mesmo assim vestiu. —Linda sorriu, vitoriosa.
Soltei um suspiro de cansaço. —Não vou discutir com você.
—Isso por que nós duas sabemos a razão de você ter aceitado todas as minhas exigências. E a tal razão está sentada no bar, nos esperando. E, diga-se de passagem, ele tem uma bunda deliciosa.
No instante em que ela disse aquilo, mais da familiar energia borbulhante tomou conta do meu corpo. Eu sabia exatamente onde olhar.
Em pé, próximo ao bar, estava Thayer, de costas para nós. Seus cabelos loiros estavam bagunçados, como se ele tivesse corrido a mão por eles mais de uma vez. Sentindo nossa aproximação, ele se virou para nós, olhando diretamente para os meus olhos, antes de me lançar um olhar nada discreto.
—Última chance de desistir, garotão. —Linda propôs.
—Vocês aceitam uma bebida? —ele perguntou. Suas emoções pareciam muito leves para alguém que estava tão cabisbaixo ao nos deixar em casa.
Aproveitei quando Linda sorriu e andou para mais perto do bar, segurando o braço de Thayer para que ele me ouvisse. —O que você está tramando?
Ele apenas me olhou por alguns segundos. —Não estou tramando nada.
—De repente, você está se sentindo bem com a minha alimentação, é isso?
—Você prefere que eu continue com a birra?
Minha boca se abriu, mas a resposta não veio. Eu me sentia bem com ele mais tranquilo, não me sentia? Então por que minha primeira reação foi pensar que ele estava planejando me atrapalhar? Seria por que eu não queria me alimentar?
Rá! Isso seria a maior loucura! Um suicídio!
Mas encarando seus olhos cor de mel, eu questionava a mim mesma.
—Sex on the Beach? —ele tentou adivinhar uma bebida para mim. Pressionei meus lábios juntos e assenti, trazendo um sorriso aos lábios dele.
Porém, sua expressão gelou quando ele olhou para alguém atrás de mim. Olhei por sobre o ombro, curiosa para ver o que havia sugado seu humor. Não havia nada incomum atrás de mim, apenas diversas pessoas dançando.
—O que foi? —perguntei, analisando seu aspecto ainda glacial.
—Vem comigo. —ele disse, passando o braço possessivamente pela minha cintura e me guiando até o único banco disponível do bar, ao lado de Linda.
Uma suave risada veio da minha acompanhante. —Típico.
—O quê? —me dirigi desta vez a Linda, sentindo ainda mais minha estupidez.
Linda se aproximou de mim para que eu pudesse ouvi-la. —Ele te fez sentar para que o outro cara finalmente tirasse os olhos de sua bunda. Como o adversário não tinha os nossos requisitos, então eu deixei rolar. Mas, Thayer, você não vai poder ficar segurando ela a noite toda.
—Ele estava olhando direto para o traseiro, como se desejasse comer ela. —Thayer rugiu, olhando para onde estávamos antes, provavelmente procurando o cara.
—O traseiro dela é bonito! Até eu já olhei, e não desejei comer ela. —Linda rebateu.
—Já que você não tem um pau, eu não me preocuparia. —Thayer respondeu.
—Wow, wow. —ergui minhas mãos. —Estão percebendo como esta conversa está ficando suja? Independente de quem olha para o meu traseiro, com um pau ou sem ele, o problema é apenas meu. Sou dona do meu próprio traseiro. Obrigada.
Um barman parou do outro lado do balcão e pigarreou. —Bebidas?
Essa vai ser uma longa noite.
E foi uma noite muito longa. Linda se afastava de nós, nos deixando em uma área escura para que pudéssemos ficar juntos sem mais problemas. Depois de algumas bebidas, eu me sentia diferente, mais alegre. Talvez eu estivesse um pouco sensível ao álcool graças a minha má alimentação. Tudo o que importava era como os lábios de Thayer pareciam tentadores enquanto eu estava assim.
Sentada em seu colo, eu ficava na altura perfeita para lhe beijar.
O problema é que eu esqueci que estava com uma bebida na mão, e agora o braço de Thayer cheirava a Sex on the Beach. Combinava com ele.
—Opa! —ele sorriu, segurando a mim e a minha bebida. —Preciso limpar isso.
—Você continua cheirando bem com um pouco disso. —comentei.
—Eu diria que você está um pouco bêbada se não te conhecesse melhor. —Thayer brincou. —Mesmo assim, eu ainda preciso me limpar. Espere um pouco.
E eu esperei. Provavelmente cinco minutos, mas me pareceram cinco horas.
Por que ele demorava tanto?
Olhei para onde Linda estava e segui a direção contrária, não me afastando do lugar de onde a energia de Thayer vinha. Aquele não era o caminho do banheiro.
Encontrei uma saída de emergência ao invés da porta do sanitário.
Sua energia estava fraca. Senti um aperto. Algo estava errado.
—Thayer? —perguntei, abrindo a porta.
Finalmente enxergando no escuro do beco da saída de emergência, vi Thayer deitado no chão, pálido, sangue em seus pulsos – sangue dele. E havia uma garota ajoelhada ao seu lado. Pele tão pálida quanto a dele, cabelos de um loiro tão claro que podia ser branco. Ela parecia uma figura saída de um filme de Tim Burton.
Havia um estilete em sua mão. Ele estava manchado de sangue.
Ela olhou para mim. Seus olhos escuros como a noite.
Ela sorriu.
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