Morrer de Amor
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Manhattan, Nova Iorque
Inverno de 1961
Flocos de neve atingiam meus cílios de uma forma muito desagradável. Já estava difícil manter meus olhos abertos sem mais aquele empecilho. A poça de meu sangue sob a qual eu estava já não me aquecia, mas não estava tão fria quanto meu coração.
Olhei para o céu. Nunca havia observado as estrelas e agora eu não era capaz de enxergá-las em meio à escuridão do céu sem lua. Era como um sinal do tudo que havia me abandonado, e minha consciência seguia o mesmo caminho.
Sem conseguir manter meus olhos abertos por mais tempo, a mansidão da noite me tomou, acolhendo-me. Era bom. Levava o frio e a dor embora.
Não há saída. Não há ninguém para quem voltar. Me deixei ir.
Direto do centro do escuro, uma luz começou a brilhar, como um farol de um carro. Mas eu sabia que não era isso, eu estava distante de qualquer estrada. A luz se aproximou até que era tudo o que eu podia enxergar.
—Você quer uma saída? —uma voz feminina perguntou, vinda da luz. —Vingança. Ela brilha de você como um sol. Eu posso lhe conceder vingança, assim como sua vida de volta.
Havia um gigantesco “porém” explícito em cada palavra dela.
Sua suave risada ressoou. —Claro, existe uma condição. —logo, senti um toque em minha bochecha, mas ainda não via mais do que uma imensidão de branco. —Você foi uma ótima garota, Cathleen Stanford. Poderá ir para o paraíso pela porta da frente. Minha proposta é: desista disso, de um depois. Aceite o agora e trabalhe para mim. Você viverá mais. Muito mais. E terá sua vingança.
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Miami, Flórida
Dias atuais
O Mynt Lounge estava como o usual, completamente lotado. Como o esperado de um dos Clubes Noturnos mais procurados de Miami. Eu até podia encontrar alguns rostos famosos e sabia que estava no lugar certo. Então, por que ainda não havia encontrado o que eu estava procurando? Este não é nem meu primeiro clube da noite.
A alta música pulsou pelos meus ouvidos, ditando os batimentos do meu coração, enquanto eu segui para dentro do clube, desviando de diversas pessoas.
Este é o meu padrão durante o prelúdio das semanas de lua nova. Eu entrava sozinha, seguia para o bar e bebia como um peixe, sem conseguir ficar bêbada, até que algum cara soltasse a informação que eu precisava, querendo ou não. Até que eu finalmente desanimei. O que era fácil de acontecer se você considerar que uma hora depois, rodando pelo clube inteiro, vendo garotas com roupas que gritavam “Foda-me” – tudo bem, roupas não gritam, a expressão delas tinha boa parte de culpa – com silicone demais nos lábios – ou em qualquer outra parte –, elas fariam roupas de freira parecerem indecentes, e garotos secando meus seios – muito mais verdadeiros do que o volume em suas calças. Ninguém exalou sequer uma pontinha da maldade que eu procurava. Nada mais do que intenções sujas. Insuficiente.
Comecei a dar a volta para sair quando a familiar fisgada me atingiu.
Aprendi durante minha iniciação a reconhecer uma alma tomada por um único sentimento, e não estava muito longe. Tudo o que eu podia esperar enquanto me voltava em sua direção era que tal humano fosse homem.
Deslizei meu olhar por pessoas dançantes e outras nem tanto, até que o encontrei. Homem. Graças a… Ainda bem.
Ele estava no alcance das luzes coloridas. Seu cabelo brilhava como ouro e seu rosto parecia algo que estaria estampado na capa de uma revista. Sua roupa era simples e escura, destacava seu belo corpo alto e pele clara, completando o pacote de “garoto-bonzinho”.
Um sorriso largo veio aos seus lábios com algo que um de seus amigos disse até que seus olhos encontraram com os meus. Seu sorriso se esvaiu aos poucos, tornando-o o retrato de um deslumbrado.
Ao longo do tempo eu havia desenvolvido certa preferência. Eu gosto dos garotos maus que parecem bonzinhos. Gosto de como posso surpreendê-los quando não sou tão boazinha. Mas, enquanto não mostramos nossa verdadeira face, gosto de parecer a idiota inocente que eles procuram.
Baixei meus olhos, fingindo timidez. Quando os ergui novamente, ele ainda me encarava, ignorando completamente seus amigos.
Voltei ao bar, sabendo que ele me seguiria.
—Devia ir com calma, moça. —o barman disse, preparando-se para atender ao meu pedido de soda com um pouco de álcool.
—É o que eu estou fazendo. —sorri de leve para ele.
—Não posso permitir que uma linda dama como você pague por isso. —garoto-bonzinho disse, pagando minha bebida logo que a recebi. —Ou que… permaneça desacompanhada?
Era para ser uma afirmação, mas soou como uma pergunta para mim. Ri baixinho antes de concordar. —Sim, estou sozinha. Minhas amigas furaram. E obrigado pela bebida. Mas, parece que você não está desacompanhado.
—Vim com alguns amigos, mas posso estar sozinho, basta você querer.
—É que eu odeio beber sozinha.
—E eu adoraria acompanhá-la. —ele sorriu fazendo um rápido pedido ao barman mais próximo. —Muito prazer. Meu nome é Thayer.
Segurei a mão que ele estendeu e senti um choque. —Cat.
Ele sorriu. —Uma abreviação de…
Meus ombros caíram. Eu não gostava de dizer meu nome completo para as presas. Era exatamente o nome que meu assassino recitava enquanto levava minha vida de mim. Era uma bobagem, até por que eu planejava ter o garoto-bonzinho morto antes do nascer do sol.
—Cathleen. Mas eu prefiro apenas Cat.
—É um belo nome. —ele discordou, bebericando sua bebida estupidamente pouco alcoolizada, como a minha. Mas isso foi rapidamente remediado. Alguns copos depois e ele já não ligava mais se eu ditava as bebidas.
Gradativamente aumentei o teor de álcool enquanto conversávamos. Garoto-bonzinho havia vindo ao Mynt em comemoração a algo que ele não especificou. Tinha 23 anos, solteiro, e encenava como um ator profissional.
Foi bobo da parte dele me deixar escolher, mesmo enquanto eu bebia o mesmo. Seu rosto ficou corado, mas ele não aparentava nada mais. Ele não era um bêbado falante, nem um sentimental… apenas um curioso. Enquanto eu tentava obter mais informações sobre ele, tudo o que ele queria era saber coisas bobas sobre mim, como se a cor do meu cabelo era natural. Ele foi até mesmo sensato, como provou quando recusou mais um copo.
—Ah. Cansou de minha companhia? —fiz beicinho.
—Muito pelo contrário. Mais bebidas me fariam apreciar de menos sua companhia, o que eu não posso permitir.
Quantas pessoas de 23 anos de idade falam como vitorianos?
—Se não vamos beber, não deveríamos ficar no bar. —sugeri, tentando soar o mais inocente possível. Joguei um pouco de cabelo por cima de meus ombros, descobrindo meu colo e atraindo seu olhar por um momento. —E está tarde.
—Eu posso lhe levar para casa. De táxi. —ele explicou como se devesse soar bonzinho o suficiente para não dirigir bêbado. Me fez sorrir.
Para minha casa? Rá. Eu não seria idiota o suficiente para mostrar onde eu moro. Não era o lugar mais adequado para o que eu planejava fazer com ele. Sutilmente, aproximei minha coxa da sua, tentando soar mais enfática.
—Ir para minha casa não soa tão atraente. —atestei.
Ele piscou como se não soubesse o que fazer em seguida e me olhou em silêncio por alguns segundos, segundos que me desarmaram. Será que eu fiz algo errado? Hoje era a última noite antes da semana de lua nova e eu não havia encontrado ninguém além dele, se eu o espantasse, não haveria volta. E apenas uma semana de lua nova sem uma alma para me abastecer…
—Podemos ir para a minha casa? —de novo uma meio afirmação, meio questão.
Não perdi tempo e me levantei, meu movimento espelhado no dele. Estávamos próximos demais e o choque entre nossos corpos me fez cambalear para trás. Eu não iria cair no chão de qualquer modo, mas ele me segurou, firmando-me.
Esse garoto estava realmente bêbado?
Seu toque enviou um choque pelo meu corpo. Isso nunca havia acontecido antes com os outros, mas deve ser um bom presságio uma vez que eu não me senti desconfortável – de maneira alguma.
—Me desculpe ter sugerido algo tão indecoroso. —ele murmurou.
—Não. Eu concordo. —passei de perdida a interessada em meio segundo. Ele não soava apenas promissor. Soava bom. Como jantar de primeira classe.
Um táxi não demorou muito e não havia trânsito quando era tão tarde – ou tão cedo, depende de como você analisa. Ainda seguindo o pacote garoto-bonzinho, ele abriu a porta do táxi para mim e notei que ele morava em um bairro nobre. Podia significar alguns problemas para mim, mas quem liga?
Meu corpo cantarolava de antecipação e eu analisava o depois em segundo plano. Minha mente fixa no momento imediato.
A casa dele era o que eu chamaria de quarteirão. Uma comparação com o lugar que eu moro me fazia pensar que eu dormia na casinha do cachorro. E havia um mínimo procedimento de segurança, algumas senhas e chaves. Outro problema. Fingi estar bêbada e despreocupada ao me jogar no seu sofá.
Tirei minha sandália enquanto ele ia até a jarra de água ao meu lado.
—Então, Cat, talvez você queira um pouco de água para-…
Joguei meu casaco ao meu lado. Como uma bêbada, eu podia ser um pouco mais agressiva uma vez que, ao ritmo dele, levaríamos o resto da eternidade para chegar até a próxima base. Comecei a desabotoar minha camisa e ele perdeu a atenção sob a água e o que quer que ele estivesse sugerindo.
Sob minha camisa, eu tinha um corset que podia ser usado como um top se não fosse tão sensual. Agi com indiferença ao ficar apenas com ele.
Garoto-bonzinho bebeu o copo de água em sua mão, sedento.
—O que você estava dizendo? —perguntei, inocentemente.
—Eu… estou meio enferrujado na hospitalidade. —ele coçou a nuca. —Então, bem… Tem algo que você queira?
—Que se aproxime mais. Não sou contagiosa. —sorri.
Pegando um pequeno controle, ele fez seu caminho para sentar ao meu lado enquanto ajustava o nível de luz e ligava o ar-condicionado.
—Eu não gosto de frio. —informei imediatamente, minha voz séria.
—Ah, desculpe. Achei que teríamos uma temperatura mais amena. —ele mudou a temperatura para algo mais ameno. Sim, bem melhor. —Então parece que está no lugar certo. Não me lembro de uma Miami gelada, e olha que eu vivo aqui desde que nasci.
—Sim. Foi uma das razões pela qual eu vim.
—Então, não é daqui?
Informação demais. —Não.
—E de onde-…
—Nossa. Esse aquecedor realmente funciona! —me abanei, cortando sua pergunta. Minha saia era justa, então o movimento do meu quadril para me aproximar fez com que a saia subisse um pouco, revelando mais de minhas coxas.
Garoto-bonzinho ficou atônito ao olhar para baixo. A vista tinha direito ao topo redondo dos meus seios e agora, quase toda pele de minha coxa.
—Talvez seja todo aquele álcool. Um pouco de água-…
Lambi meus lábios. —Tenho ideias melhores.
Com uma mão em seu ombro, me aproximei mais, ficando quase de joelhos sob o sofá. Seus lábios descenderam e nossos lábios se encontraram.
Foi como se ele estivesse carregado de uma energia que meu corpo necessitava. Não com um choque, mas meu corpo se aqueceu e se arrepiou quando seus lábios tremeram nos meus.
Já não estávamos mais sendo suaves.
As mãos dele foram até minha cintura e me puxaram um pouco, de forma que meus joelhos estavam em ambos os lados de seu quadril. Meus lábios se abriram e sua língua deslizou sobre a minha. O impulso aveludado funcionou melhor do que qualquer aquecedor e, de repente, minha pouca roupa era roupa demais. Parece que ele sentiu o mesmo.
Suas mãos deslizaram para minhas coxas e tentei reprimir um gemido sem muito sucesso. Sua energia que crepitava por sua pele estava me hipnotizando, mas no fundo eu não me importava.
Senti seus lábios quentes deslizarem até meu pescoço para depois traçar uma linha de fogo até meu ouvido.
Apertei as lapelas de sua camisa e estremeci involuntariamente, sentindo seu fôlego na parte sensível atrás da minha orelha. Quando seus lábios recapturaram os meus, eu me apertei mais contra ele. Não podia lembrar a quanto tempo eu não me sentia assim. Nem sabia se já havia o feito.
Grudei todas minhas partes a ele e senti seu desejo. Ele soltou um gemido rouco.
—Cat.
Fiquei surpresa quando ele passou os braços pelos meus joelhos e me levantou para caminhar pelo corredor, me mantendo de costas. Eu não sabia para onde ele estava me levando, mas parecia tão irrelevante enquanto ele mantivesse seus lábios nos meus.
Consegui abrir alguns botões de sua camisa mesmo enquanto estávamos tão unidos e deslizei minhas mãos pelo seu peito plano logo antes dele abrir uma porta. Suas mãos apertaram minhas coxas antes de me depositar gentilmente sobre a cama.
Sua mão havia desfeito os laços de meu corset e agora sua mão deslizava pelas minhas costas nuas, retirando-o por completo, mas não antes de levar seus lábios para a curva dos meus seios. Mordi meu lábio e arqueei minhas costas quando seus lábios acolheram a pele exposta. Enrosquei minhas mãos pelos seus cabelos macios.
Levei minhas mãos para desfazer os últimos botões de sua camisa, mas ele foi mais rápido, jogando sua camisa longe. Ele segurou minhas mãos e as levou para seus ombros.
Nossos lábios estavam unidos novamente e minha saia já estava tão enrolada em meus quadris que não representava barreira alguma. Levei uma mão para o cós de sua calça, deslizando um dedo pela borda antes de chegar até o botão, abrindo-o para…
—Espera. —ele sussurrou se afastando um pouco da minha boca. —Tem uma coisa que eu tenho que te contar.
—Hunrum. Pode dizer. —mordi seu lábio inferior.
—É que tá meio complicado me concentrar agora. —ele sorriu um pouco agarrando meus ombros, me impedindo de segui-lo e mantendo-me numa posição sentada na cama. —Você está bêbada. Eu estou bêbado. Acho que seria errado fazer isso assim. Eu quero. Acredite em mim, eu quero muito. Mas não quero que você se arrependa amanhã.
—Você tecnicamente está se referindo a hoje, e eu não estou me arrependo de nada. E não estou tão bêbada assim.
Tentei me aproximar de novo, mas ele me depositou de volta para a cama e manteve uma distância casta entre nós.
—Não se preocupe, você pode dormir aqui. Eu vou dormir em outro quarto. Não vou fazer nada, juro. E amanhã, sóbrios, podemos conversar. —ele me deu um beijo na testa e se afastou.
—Mas eu não estou bêbada!
Que frustrante. A minha afirmação mais sincera da noite mais intensa que posso recordar e minha presa não acreditava em mim.
Garoto-bonzinho saiu da cama e sorriu para mim ao abrir a porta. Ele só disse mais uma coisa antes de deixar o quarto.
—Boa noite, Cat
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