Morfeu
3 Rosas e Sangue
Notas iniciais
A dor lasciva das correntes de ferro que prendem o rapaz junto ao piso molhado, invade todo seu corpo fazendo-o urrar. Ele ainda consegue ouvir os risos maliciosos e sádicos dos mestiços imundos ao seu redor, satisfeitos por terem capturado ele com tanta facilidade. Não sabia mais a quanto tempo estava preso, pois não haviam janelas ou qualquer resquício de luz natural na cela imunda em que estava. Tudo que podia enxergar, eram os rostos debochados que o encaravam constantemente através das luz alaranjada das velas.
Azazel podia sentir seus membros arderem em contato com as correntes pesadas. Pareciam impregnadas com algum tipo de feitiço de envenenamento, mas não saberia dizer com certeza. Nunca havia visto algo como aquilo e jamais sentira tanta dor quanto agora. O cheiro de seus próprio sangue emanava pela cela enquanto escorria pelos cortes profundos recém feitos. Ele podia ouvir sua respiração pesada, sentir cada músculos ferido de seu corpo e saborear cada gota do terror que o corroía.
Estava fraco, desnorteado, mas, principalmente, humilhado. Como puderam captura-lo? Ele, um dos Sete? Como podia estar submetido à suas tortura? Ele deveria ser o torturador, deveriam ser eles a gritar e implorar por misericórdia... Mesmo naquela situação, Azazel não podia deixar de imaginar as coisas que pretendia fazer com eles; Ouvir os gritos de pavor, ver as lágrimas escorrem pelos seus rostos pavorosos enquanto dilacerava a carne deles. Gostaria de vê-los apodrecer em alguma cela infernal...
O som dos familiares instrumentos de tortura ressoa através das barras de metal pesadas da cela. O rapaz levanta a cabeça, enquanto encara a jovem de cabelos ruivos que se aproxima. Em suas mãos, Azazel reconhece a maldita adaga que a garota usara para esfolar grande parte da pele e arrancar as penas negras de suas asas...
Sua regeneração acelerada parecia não estar funcionando. Ele ainda podia se curar, porém era lento demais, quase como um maldito humano... Seus ferimentos ainda ardiam expostos à atmosfera pesada e pútrida da cela, enquanto novos eram feitos infindavelmente.
Seus olhos verdes e profundos encaram aquele dourado vibrante dos dela. Estava tão convencida... Orgulhosa de si mesma por ter sido ela a liderar o grupo de mestiços que o capturou. Não deixou que ninguém o tocasse além dela. Era sua torturadora particular.
— Pronto para mais uma sessão? — pergunta a ruiva com um sorriso divertido estampado sob os lábios pálidos.
Azazel devolve o sorriso com outro, sem se importar com o quão patético pudesse parecer.
— Por que demorou tanto? — disse com a voz mais ousada que conseguia fazer. Tentando, de alguma forma, recompor sua postura. — Pensei que tivesse me esquecido...
— Esquecer? — ela caminha até ele lentamente. Era como gostava de fazer as coisas... — Do meu convidado de honra? Jamais seria capaz de tal coisa.
Assim que chega perto o suficiente, a garota leva a adaga até a face de Azazel, deslizando a lâmina pelas maças angulosas de seu rosto. A sensação da lâmina fria deslizando sob sua carne é terrível, porém o rapaz não emite um som sequer. Não daria essa satisfação a ela com tão pouco.
— Sempre difícil de agradar — entoa ela enquanto observa o sangue escorrendo pelo corte recém feito. — Devo ir mais fundo?
Sua voz irritantemente provocante ecoa na mente do rapaz. Essas frases asquerosas... Cada palavra lhe dá ódio. Eram brincadeiras... Afrontas contra ele. Azazel não conseguia parar de pensar no quanto queria dilacerar aquela garganta fina e pálida, silencia-la de uma vez por todas.
— Sabe, isso acaba quando me der o que quero — diz a garota ainda em tom sereno. — Seu sangue tem sido muito útil até agora, mas preciso de mais... Por que continuar resistindo?
— Você se acha tão esperta... — Azazel cerra os punhos. — Gostaria de ver se continuaria tão valente depois que tirasse essas correntes...
Antes que conseguisse terminar, com apenas um movimento, a garota enterra a adaga que empunha no abdômen exposto de Azazel. O rapaz urra de dor no mesmo instante em que a lâmina o perfura deixando a frase perdida.
— Já passamos por isso, querido Azazel — continua ela, levando seus dedos até o lugar do corte e acariciando os músculos doloridos ao redor. — Várias vezes e você perdeu... — ela o acerta mais uma vez com a lâmina, começando uma sequência de golpes repetitivos no mesmo ponto em que fizera o primeiro — E vai continuar perdendo... De novo e de novo. Até se entregar a mim.
De repente os golpes cessam, tão abruptamente quanto começaram. Azazel cospe um boa quantidade de sangue sob o piso, já encharcado com o mesmo. Pode sentir sua respiração ficar fraca... Via sua própria carne exposta em seu peito coberto pelo escarlate intenso de seu sangue. Aquilo doía tanto... Mas não mais que seu orgulho.
Não preocupava-se com a dor, podia senti-la por toda uma eternidade. Só existia isso no lugar de onde veio. Mas a humilhação... Era algo insuportável. Precisava fazer algo contra aquilo, mas, acorrentado como animal do modo que estava, o que poderia fazer? Desarmado, ferido... Não poderia fazer um encantamento sequer naquela situação. Não tinha saída... Exceto, talvez, por uma coisa... Nunca havia tentado com um mestiço, mas tinha que funcionar, afinal, eles são metade humanos também.
— Você é muito boa nisso... — diz Azazel entre gemidos de dor. — Tem certeza que é filha de anjo? Se não fosse esses olhos dourados... Poderia se dar muito bem no inferno.
— Não me insulte, comparando-me com um deles — responde a garota. — Sou tão demônio quanto você... Caído
— Isso é algo que temos em comum — Azazel ri sem tirar os olhos do semblante sádico da garota. — Também não sou um deles. Nem sei porque os estou defendendo tanto... Talvez eu apenas não queira tornar-me mais um Pária.
— Todos somos Párias aos olhos de seres como você — insiste ela deixando seu corpo mais próximo do rapaz sem perceber.
— Para mim não... — as palavras saem como agulhas perfurando sua garganta. Azazel move seu corpo, apenas o bastante para deixar seu rosto a centímetros do da garota.
— Não acredito que esta tentando um truque tão sujo... — diz ela com um sorriso debochado estampado em seus lábios — Acha mesmo que irei cair nas palavras de um íncubos?
Seus olhos permanecem vidrados nos dela...
— Você não quer descobrir como é? — continua o rapaz, sua voz soa quase ofegante. — A sensação...
— Acho que você não esta entendendo — diz a mestiça levando a adaga mais uma vez até a face de Azazel. — Isso não vai funcionar em mim... Sei tudo sobre sua manipulação. Além disso, não está em sua melhor forma para seduzir alguém.
A garota o olha de cima a baixo, desdenhando-o. Observando cada detalhe... Porém, seus olhos pousam ao encontrar a pélvis do rapaz e voltam a encarar seus olhos subitamente logo em seguida
— Sabe, sempre quis saber o que acontece com um membro amputado... — A ruiva desliza a faca pelo abdômen de Azazel, seguindo as linhas de seus músculos, até encontrar o cinto que ainda segurava a calça, mesmo após os suspensórios já terem sido arrancados quando o despiram. — Será que ele cresce de novo? Como um íncubos irá se sair sem seu instrumento mais importante? Que tal descobrirmos?
Azazel deixa um sorriso debochado transparecer.
— Está com medo? — sua voz soa quase como um sussurro nos ouvidos da mestiça. — Acha que não é resistente o bastante...?
A ruiva apenas mantém seu olhar desafiador vidrado nos olhos verdes do rapaz. Pareciam hipnotiza-la, atrai-la...
— Eu também estaria, no seu lugar — Azazel continua. — Não é como se uma mestiça fraca fosse capaz de...
— De quê?
A ruiva o interrompe colocando a adaga em sua garganta. Isso não o mataria, tanto ela quanto ele sabiam, mas, com sua regeneração tão fraca, poderia deixa-lo inconsciente por várias horas... Isto era algo que Azazel não poderia permitir. Sentia-se cada vez mais fraco, cada segundo dentro daquela cela parecia uma eternidade. Algo percorria seu corpo através daquelas correntes, estava envenenando-o aos poucos. Precisava escapar daquele lugar o mais breve possível e faria o que fosse necessário para tal...
— Acha que sou como uma daquelas humanas tolas que se deixam ser manipuladas por você? — suas palavras soavam ásperas, porém seu olhar dizia o contrário. A garota estava tão próxima a ele que Azazel podia sentir o cheiro de sangue demoníaco impregnado nas vestes dela, misturado ao odor suave e angelical que os nephilim emanavam naturalmente.
— Por que não prova? — Azazel a provoca uma última vez, antes de finalmente alcançar os lábios da garota.
O beijo, primeiramente suave e hesitante, torna-se cada vez mais voraz e repleto de desejo. Azazel pode ouvir o som da lâmina que a garota segurava desabar sob o piso enquanto ela levava suas mãos ao seu ombros, entregando-se a ele. Azazel podia sentir o desejo consumindo-a...
☽☼☾
O jovem demônio de asas negras encara o corpo inerte da garota nua estirada sob o piso da cela, enquanto terminava de vestir suas calças. Ela não estava morta, apenas inconsciente, e Azazel não fazia questão de mata-la... Seria muito melhor deixa-la nas mãos de seu próprio povo psicopata. Sentiria prazer em vê-la despertando naquela cela e percebendo que deixara seu prisioneiro escapar. Gostaria de saber como irá explicar o que ocorreu aos outros...
Não foi difícil fazer com que ela soltasse as correntes depois que entrou em transe. Bastou apenas uma ordem sua para que a ruiva cedesse. Era tão estúpida... Não que isso o surpreendesse, todos os mestiços costumavam ser, porém admitia que esperava um pouco mais dela, "a nephilim que o capturou".
Estendendo suas asas negras, tão maltratadas quanto o restante de seu corpo, o rapaz deixou a cela. Ainda podia sentir a fraqueza de seus músculos, a dor lasciva do veneno que ainda o corroía... Não sabia quanto tempo demoraria para dissipar-se completamente e, até lá, não iria conseguir regenerar-se sem alimentar-se. Um mestiço não serviria, suas carnes estavam infectadas com o sangue divino, tinha que ser humano...
Sabendo que não conseguiria lutar contra todos os mestiços que ali estavam, Azazel esgueirou-se pelos corredores do covil silenciosamente. Sentia o cheiro de sangue dentro das outras celas por onde passava. Estavam todas vazias, porém, ainda apresentavam os sinais de luta de seus prisioneiros. O demônio ainda podia sentir o fraco poder da sua espécie impregnado nas paredes. Não passavam de demônios menores, ainda sim, eram fortes o bastante para deixarem suas marcas bestiais por todos os lados.
Azazel perguntava-se o que havia sido feito deles... Não poderiam estar mortos, afinal nada podia matar um demônio. Aquele veneno a que fora exposto não poderia ser capaz disso, poderia? Havia apenas uma arma conhecida capaz de tal, porém estava muito bem escondida, simples mestiços não seriam capaz de encontra-la... Ao menos, Azazel torcia que não.
O rapaz chegou até uma porta de madeira maciça, porém deteve-se antes de abri-la. Ouviu vozes atrás dela. Eram apenas duas, masculinas. Provavelmente, guardas que vigiavam a entrada da prisão. Azazel encarou seu próprio corpo, do modo que estava não seria capaz de conjurar um encantamento poderoso sem uma âncora. Usara grande parte de suas forças para manipular aquela mestiça...
— Nebula somnia — sussurrou as palavras.
Imediatamente, sentiu o impacto que o encantamento causou em seu corpo. Escorou-se contra a parede de pedras naturais atrás de si, enquanto uma súbita fraqueza invadia-o. Observou a névoa que conjurara começar a elevar-se do chão lentamente. Seria quase imperceptível se Azazel não soubesse o que era. A tênue fumaça branca deslizou por debaixo da porta e entre suas dobradiças para o outro lado.
Poucos segundos depois, Azazel escutou uma batida contra porta, indicando a eficácia do encantamento. Não seria o suficiente para desmaiar ambos os guardas, mas seria uma boa distração. O resto dependeria apenas dele. Esperava que não tivesse gasto suas forças em vão...
— Jaremi... — escutou a voz de um dos guardas em tom preocupado. — Jaremi, o que aconteceu?
Recompondo-se, Azazel abriu a porta bruscamente revelando a luz noturna da lua que brilhava sob céu negro aquela noite e, imediatamente, reconheceu o lugar onde estava. Haviam dezenas de lápides moribundas espalhadas por todos os lados do terreno sombrio, acompanhadas de grandes mausoléus de pedras brutas desmanchando-se aos poucos. Ao longe podia ver um portão de ferro, já enferrujado devido ao abandono, caído próximo a uma estatua quase inteiramente coberta por musgo.
Um cemitério abandonado... Muito provavelmente adaptado pelos mestiços como um esconderijo. Deviam ter escavado os mausoléus em ruínas e construído séries de salas embaixo de tudo aquilo, o que explicava perfeitamente a escassez de janelas onde Azazel havia sido mantido prisioneiro. Seu olhar rápido ainda conseguiu captar as letras esculpidas sob uma das lápides próxima aos dois mestiços. Pode reconhecer a escrita inglesa gravada nela.
Ao menos, sabia que permanecia na Inglaterra.
Ao dirigir seu olhar aos dois homens, conseguia ver resquícios da névoa que utilizara para desmaiar um dos guardas, envolvendo alguns dos túmulos ao redor. Era um encantamento simples, porém eficaz. Foi um dos primeiros que aprendeu ao ser exilado no inferno juntamente com metade dos outros caídos.
O mestiço de olhos prateados que tentava socorrer seu parceiro, encarou-o desnorteado. Tentou levar suas mãos até a espada que estava em sua bainha, porém o demônio foi mais rápido. Apenas com um simples movimento, dirigiu a ponta afiada das penas cortantes das enormes asas de corvo em suas costas para o peito do homem que nem teve chance de defender-se do golpe.
Podia sentir a doce sensação de corta-lo através das asas... O sangue do mestiço começou a escorrer pelo ferimento lentamente e Azazel não resistiu em aprofundar ainda mais o ferimento, rasgando-o, até atravessar completamente o peito do daemonis de olhos prateados e fazer o mesmo urrar de dor. Aquele olhar de pavor, aquela agonia... Deliciavam o jovem demônio.
— Solte-o agora mesmo, seu demônio maldito! — Escutou alguém gritar e seu transe desfez-se.
Azazel dirigiu seu olhar para o terceiro mestiço que surgira. O mesmo não estava só, haviam muitos outros ao seu redor. Todos, atraídos pelos gritos... Estavam espalhados por todos os lados, assim como no cerco na cidade. Azazel encontrava-se mais uma vez encurralado... Sentia-se um tolo por não ter previsto algo do tipo.
Disfarçando toda a fraqueza de seu corpo e perturbação que sentia, Azazel lançou um olhar desafiador ao mestiço que o encarava um pouco distante. Um sorriso debochado surgiu em sua face quando percebeu a aflição estampado no rosto de seu oponente. Certamente não estava preparado para uma fuga... Os outros, Azazel percebeu, estavam tão despreparados quanto o primeiro. Provavelmente, preocupados com o que acontecera com sua líder.
— Como queira... — respondeu o rapaz movimentando o corpo em agonia do mestiço preso em sua asa esquerda e arremessando-o em cima de seus companheiros, deixando que seu sangue jorrasse para fora de seu peito e manchasse tudo ao seu redor.
Alguns dos mestiços gritaram, porém a grande maioria sacou sua armas. O brilho de suas flechas lembravam as estrelas que vira antes de ser arrastado até aquele lugar. Tudo parecia repetir-se... Azazel não poderia lutar contra todos eles, já perdera uma vez, não cometeria o mesmo erro de deixar-se ser capturado.
— Não o deixem escapar! — gritou o mesmo mestiço que pronunciara-se antes. — Capturem aquela besta, custe o que custar!
— Conflueverant! — Azazel reconhece o encantamento dito da ultima vez.
A luz das correntes de ferro sendo invocadas surge ao seu redor. Imediatamente, Azazel faz um movimento com as asas para alçar voo e escapar das mesmas, porém a invocação é mais rápida e o captura em pleno ar. O jovem é detido antes que consiga chegar há três metros do chão. O som do ferro perfurando a camada espessa de penas invade seus ouvidos mais uma vez e, em seguida, as chamas o queimam de dentro para fora.
— Arqueiros! — As ordens do mestiços ressoam. — Atirem!
Dezenas de flechas são disparadas contra o rapaz. Azazel sente o veneno invadindo-o mais uma vez conforme é perfurado pelas pontas afiadas. Ele grita, mantendo-se no ar com todas as forças que lhe restavam. O demônio forçava as asas sem parar tentando alcançar os céus, fazendo com que as pontas afiadas das correntes rasgassem as mesmas violentamente.
A dor que sentia era quase insuportável, porém não podia desistir.
Azazel urrava enquanto batia sem cessar as asas para cada vez mais longe do chão, enquanto os mestiços acumulavam-se envolta das correntes para puxa-lo para baixo. Desesperado, o demônio fez um último impulso para cima, arrancando de uma vez por todas as correntes que o prendiam, junto com uma parte de suas próprias asas...
Sabia que nenhuma regeneração poderia trazê-las de volta se as perdesse e, ainda sim, não se importava mais. Apenas queria escapar... Azazel sentiu uma dor como nunca antes quando arrancou quase metade delas de seu corpo. As sentiu sendo completamente despedaçadas... Cada fibra de seu ser gritava de dor a ponto de fazê-lo chorar.
O som das correntes indo ao chão o tranquilizou porém, enquanto subia aos céus de forma precária com o restante delas que lhe sobrara e afastava-se daquele lugar com os olhos repletos de lágrimas e o corpo destruído.
Tentou planar o máximo que pode enquanto ainda conseguia permanecer no alto, para fugir do alcance das flechas, mas, com suas asas praticamente destruídas e fraco do modo que estava, não conseguiria ir muito longe.
Após apenas alguns segundos de voo, Azazel começou a vacilar, não demoraria muito para que caísse e desmaia-se sob aquele chão imundo que o aguardava lá embaixo. Precisava encontrar algum humano, qualquer um que fosse para se alimentar e recuperar suas forças. Tinha que voltar para o inferno, contar a Lúcifer o que vira... Não podia se entregar, se caísse agora, ainda corria o risco de ser encontrado por aqueles mestiços.
Dirigiu suas mãos para uma das flechas presas em seu abdômen. Arrancou-a com simples puxão e um ódio tomou conta dele quando viu o que servia como ponta para a haste de madeira. Era uma de suas penas... Uma das muitas que aquela mestiça ruiva havia arrancado. Azazel cerrou os punhos envolta da flecha e a quebrou ao meio, jogando-a em direção ao telhado velho de uma casa.
O rapaz avistou a velha torre de uma igreja, não muito distante e dirigiu-se para lá. Certamente os mestiços nunca iriam supor que um demônio iria abrigar-se dentro de algo como "a casa de Deus". Ele passou por cima dos muros do jardim já um pouco zonzo devido ao esforço excessivo e desabou sobre uma das dezenas de roseiras que pesteavam o local.
Os espinhos mal o feriram enquanto despedaçava as rosas embaixo de si e tentava pôr-se de pé em meio àquele caos verde e vermelho. Esticou o que restara das asas tentando livrar-se dos pequenos galhos que ficaram presos nas mesmas e ouviu em contraste as badaladas de um grande relógio de pendulo que ficava no alto da torre da catedral. Foram exatamente doze, indicando que já era meia-noite.
Dirigiu o olhar ao redor, ainda um pouco confuso, e seus olhos caíram sob a pequena figura que o encarava horrorizada a menos de dois metros de distância. Era uma jovem humana, tão pequena quanto uma boneca e tão delicada quanto uma porcelana. Uma cria, presumiu. Tinha os cabelos tão negros quanto o céu aquela noite e os olhos tão escuros quanto.
"Teria se tornado uma mulher muito bela..." Pensou consigo mesmo. "Se não tivesse tido o azar de encontrar-me..."
Imediatamente, antes que a garotinha tivesse qualquer chance de gritar ou fugir. O demônio pulou para cima dela, derrubando-a sob outra roseira. Agarrou os pulsos frágeis e mordeu a lateral da garganta exposta da cria humana, deixando que o gosto de seu sangue invadisse seus lábios. Quando o fez, percebeu que aquele era diferente de um sangue humano qualquer... Era doce e possuía um aroma tão similar quanto as rosas naquele jardim.
Azazel afastou os lábios da garganta da garota e encarou-a atônito, enquanto o sangue que bebera percorria todo o seu corpo quase como um êxtase. Sentia aquilo agindo dentro dele, acabando com qualquer dor que fosse... Diluindo completamente o veneno que o corroía até alcançar suas asas feridas.
Ele estava regenerando-se...
☽☼☾
Emma foi acordada bruscamente aquela noite. Sendo tirada de sua cama por um forte empurrão. Sentiu o impacto de seu corpo sendo lançado ao piso de madeira do quarto. Confusa, olhou ao redor e, imediatamente, reconheceu o rosto de pelo menos quatro de suas colegas de quarto. Eleonora, Teresa, Dolores e Elizabeth...
Eram todas mais velhas que ela. Deviam ter quase onze anos. Lembrava-se perfeitamente de quando as vira pela primeira vez dentro do orfanato... Tinha recém chegado, irmã Teresa obrigou-a a apresentar-se para os outros órfãos. Todos já tinham ouvido a história sobre a morte de seus pais e já a consideravam uma besta por ter sobrevivido.
Eleonora foi a primeira que se apresentou, uma garota de cabelos ralos e vermelhos como o sangue. Tinha sardas por todo o corpo e dentes tortos ocultos por uma careta de ódio. Logo em seguida, foi Dolores quem se dispôs. Esta, tinha os cabelos dourados trançados para ambos os lados e bochechas rosadas como uma das bonecas que Emma costumava brincar. Sua expressão era tão desagradável quanto à primeira...
Teresa e Elizabeth, ambas de cabelos castanhos e olhos claros, demoraram mais para apresentarem-se. Esperando que os outros órfãos o fizessem antes. Ficavam mais afastadas resmungando coisas ruins sobre a garota. Desde suas roupas, até seus cabelos escuros. A garotinha ainda podia lembrar-se de algumas das coisas que ouvira.
"Filha do Diabo", "Demônio", "Deveria queimar ao entrar em uma igreja"...
Emma encolheu-se no piso embaixo de si. Com medo do que aquelas garotas pudessem fazer com ela, tentando, de alguma forma, proteger-se. Ouviu elas rirem, enquanto aproximavam-se de forma hostil dela.
— Levante-se — disse a ruiva chutando as costas de Emma -, pequena cria de demônio!
Emma nada fez. Apenas permaneceu encolhida em seu lugar, sentindo as lágrimas formarem-se em seus olhos.
— Eu mandei levantar! — repetiu Eleonora aborrecida com sua desobediência. — Está surda?
Emma recusou-se a obedecer mais uma vez. Seus olhos, por acidente, encontraram os de outra garotinha, deitada debaixo das cobertas encarando-a. Provavelmente, fora despertada pela comoção... Ela apenas assistia a cena em silêncio, sem nem mesmo se mexer. Emma sabia que ela jamais levantaria para impedir o que estava acontecendo, assim como todos os outros órfãos que sempre testemunhavam cenas como aquela.
— Peguem ela — ordenou Eleonora para as outras três, que obedeceram imediatamente.
Sentiu as unhas das garotas enterrando-se sob seus braços e erguendo-a de forma brusca do chão. A garotinha tentou esconder seu rosto choroso delas, mas não obteve sucesso. Elas apenas riram das reações de Emma. Quase que orgulhosas do que estavam fazendo.
— Não tente nos enganar — disse Elizabeth. — Como se um mostro como você tivesse sentimentos.
— Vamos logo com isso — completou Dolores -, antes que aquela freira acorde e venha socorrer ela...
— Espere! — disse Emma tentando livrar-se do aperto das três meninas que ainda a seguravam. — Para onde vão me levar dessa vez? Por favor, não me deixem trancada naquele sótão outra vez... Por favor!
— Calada! — disse Eleonora dando um tapa no rosto de Emma para silencia-la. — Faremos muito mais que simplesmente tranca-la se continuar gritando! Quer que todos aqui acordem?
Emma mordeu os lábios assustada. Sentia seu rosto latejar onde o golpe fora disferido... Por mais que tentasse não conseguia parar de chorar, o que só tornava tudo pior. Encarou o rosto satisfeito de Eleonora, enquanto as outras a arrastavam contra sua vontade para fora do quarto. Não se importando com o fato de a estarem machucando no processo.
Elas a levaram pelo corredor dos dormitórios, enquanto riam e a beliscavam sem parar. Seu corpo estava completamente roxo de todas as agressões que sofrera e, agora, estava certa de que muitas outras marcas iriam surgir para sua vasta coleção de hematomas.
Quando as meninas a levaram para a escadaria, Emma tentou agarrar-se no corrimão de madeira. Obviamente, sua força jamais seria capaz de vencer a das garotas que simplesmente puxaram seus braços para longe do mesmo. Ao fazê-lo Emma sentiu suas unhas partindo-se e não pode evitar de deixar um curto grito de dor escapar.
No mesmo instante, recebeu um soco no estomago, enquanto uma das garotas cobria seus lábios com as mãos. Emma viu pelo menos três das suas unhas ficarem vermelhas, com marcas muito bem desenhadas onde se partiram.
— Se fizer mais alguma coisa — Emma ouviu a voz de Teresa sussurrar em seus ouvidos -, vamos joga-la escada a baixo.
Dito isto, as garotas a fizeram descer a escada até chegar no grande hall de entrada, onde a porta estava entreaberta. Emma podia sentir o vento gelado de outono que invadia o orfanato através dela. Algumas folhas das roseiras do jardim adentravam o mesmo e espalhavam-se pela tapeçaria ao pé da escada.
A garotinha entendeu o que elas pretendiam e entrou em pânico. Não queria ficar lá fora... Preferia mil vezes o sótão ao invés de ter que ficar ao relento e exposta a escuridão da noite. Tinha muito medo do que poderia esperar por ela do outro lado daquelas portas. As imagens da noite da morte de seus pais ainda percorriam seus pensamentos, assombrando-a...
Emma mordeu as mãos de Teresa que estavam em sua boca com tanta força que pode sentir o gosto do sangue da garota. Teresa puxou a mão para si, logo em seguida, gritando. As outras distraíram-se com a amiga e Emma aproveitou a chance para gritar por socorro. Eleonora tentou bater nela, assim como da outra vez, tentando fazer com que Emma se calasse, porém isso só fez com que a garotinha gritasse ainda mais, em prantos.
— Vamos só joga-la para fora! — ouviu Elizabeth dizer por cima dos gritos atônita.
Imediatamente, as garotas voltaram a arrasta-la com toda força que tinham. Atirando Emma contra o piso de terra do lado de fora, logo em seguida. Emma sentiu o chão áspero machucando seu corpo por baixo da camisola branca que vestia. Sem importar-se com a dor, tentou correr para dentro, porém as portas se fecharam antes que conseguisse.
— Monstros não podem dormir em lugares santos. — ouviu Dolores dizer do outro lado da porta, enquanto o barulho das chaves ecoava — Durma com os da sua espécie na escuridão...
Em seguida, os risos das garotas surgiram, enquanto Emma escutava seus passos afastando-se rapidamente. Ela chutou a porta enraivecida e então começou a esmurra-la, tentando chamar por alguém, qualquer um que fosse...
— Por favor! — gritou em prantos. — Não me deixem aqui fora... Não me deixem...
Sentia sua voz falhar enquanto chorava. Deixou que seu corpo caísse, ajoelhado, no chão. Frustrada demais para continuar, ficou apenas ali, junto a porta, sem mover um músculos sequer, torcendo para que aquilo não passasse de um pesadelo.
Rezava em silencio para que alguém viesse em seu socorro...
De repente, um barulho alto e abrupto chamou sua atenção. Emma dirigiu seu olhar para o jardim que ficava no pátio da velha torre do relógio da igreja. Dezenas de roseiras estendiam-se para todos os lados, deixando que seu doce perfume exalasse por todos os lados. Em meio aquele caos verde e vermelho, Emma viu uma figura negra surgir do meio de uma das roseiras.
Duas asas, negras como a noite e tão belas e vibrantes quanto as estrelas que brilhavam no céu, surgiram a sua frente encantando-a. Estavam feridas, pareciam ter se partido, mas ainda sim, eram a coisa mais bela que Emma já havia visto. Ela já ouvira histórias sobre anjos que desceram à terra... Eram chamados de caídos pela bíblia.
Estes serem eram tratados como perversos, corrompidos... Ainda sim, Emma não teve medo daquele belo ser que surgira a sua frente. Um anjo bom ou ruim, não tinha diferença para ela. Afinal, era um ser divino, se pudesse falar com ele... Pedir que a tirasse daquele lugar... Se pudesse fazer isso, estaria tudo bem.
Emma aproximou-se do anjo lentamente, enquanto o observava pôr-se de pé. As badaladas do grande relógio de pendulo da torre começaram a soar, tão altas e claras quanto a imagem que estava à sua frente. Ele parecia com um homem jovem... Tinha cabelos claros, quase brancos, tão prateados quanto a lua. Haviam flechas por todo seu abdômen nu.
Emma nunca havia visto ninguém tão despido quanto este anjo e, muito menos, tão ferido quanto. Pensou em correr para socorre-lo, porém deteve-se quando seus olhos se encontraram. Eram verdes e vibrantes... Havia lágrimas neles, assim como nos seus. Ele parecia ter sofrido algo horrível. Emma queria correr e abraça-lo, tentar consola-lo de alguma forma.
"Como alguém poderia ser capaz de fazer algo assim com um ser tão belo?" pensou consigo mesma.
Mas, antes que tivesse tempo para fazer qualquer coisa que fosse, o anjo a atacou. Ela caiu sobre uma das roseiras enquanto o sentia agarrar seus pulsos. A dor dos espinhos não parecia quase nada perto da dor que sentiu quando os dentes do anjo perfuraram sua garganta. Emma nem ao menos gritou, estava assustada demais para fazê-lo.
Sentiu o próprio sangue escorrer e temeu que o anjo pudesse arrancar a carne de seu pescoço. Mas ele não o fez, invés disso, parou o que estava fazendo tão de repente quanto começara. Emma o encarou confusa, enquanto ele parecia fazer o mesmo. Seu rosto, anteriormente tão pálido, agora parecia começar a ganhar cor... Os ferimentos em seu rosto começaram a desaparecer e, por um instante, Emma pode jurar que viu um sorriso surgir em seus lábios.
— Cavea principalis rosis... — Emma ouviu alguém ao longe pronunciar as palavras.
O anjo olhou para onde a voz vinha, atordoado, porém Emma não tirou seus olhos dele. As rosas ao seu redor, pareciam se mover em direção ao anjo, como que tentando alcança-lo, porém ele foi mais rápido e apenas alçou voo. Emma observou aquelas asas negras distanciarem-se aos poucos... Pareciam estar ficando cada vez maiores, mesmo com a imagem dele ficando menor. Era como se estivessem crescendo e todas as partes machucadas desaparecessem.
A imagem de irmã Teresa surgiu a sua frente, tampando a visão do anjo. Seu rosto parecia estar em pânico, como se tivesse acabado de testemunhar seu maior pesadelo. A freira chamava pelo seu nome, perguntando mil coisas, porém Emma não conseguia compreender suas palavras. Seus pensamentos estavam muito longe para que irmã Teresa pudesse alcança-los.
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