Morena na Banheira

3 Primeira vez que cozinhamos juntas - Sem cozinha?


Notas iniciais
Postei a versão errada, sinto muito, espero que ninguém tenha lido o capítulo ainda incompleto.

“Poxa loirinha, até que enfim consegui arrancar um sorriso de verdade de você, já estava achando que não gostava de mim.” falou sorrindo e terminou com um biquinho.

Reviro os olhos e balanço a cabeça. Essa menina não tem jeito mesmo.

Olho para ela. Seu rosto está sereno, a postura relaxada, não como aquela arrogante e debochada que tinha usado no início e abusado quando havia mais um espírito por perto. Não acredito que vou dizer isso, mas acho que não me teme. Quer dizer, ela está diante da sua futura assassina e não poderia estar mais tranquila em relação a isso ou então é uma atriz de primeira. Está me encarando faz um tempinho agora e começo a me sentir incomodada.

“Uma moeda por seus pensamentos.” digo tentando sair do silêncio incômodo que se instalou entre nós.

“Você tem algum outro nome?” Oi? Essa em dúvidas não era a pergunta que eu estava esperando. Tanta coisa acontecendo, a morte se aproximando, vários assuntos para refletir e ela pensando no meu nome, vê se pode. Nos seus olhos vejo apenas curiosidade então não vejo porque deixá-la sem resposta.

“Já tive há muito tempo, mas não o uso mais.”

Ela tem algo que, não sei, inspira confiança. Tipo os bartenders e os psicólogos. Aquele desconhecido que você olha e já decide: você é o estranho que vai me ajudar a colocar minha vida nos eixos ou então morrer de tédio me ouvindo tentar fazer isso sozinha.

“E você não se incomoda com Loira do banheiro?”

“Não, eu fiquei tanto tempo sendo chamada assim que nem me lembro mais do nome com o qual fui batizada. E sim, eu fui batizada, não precisa fazer essa cara.” emendo ao ver sua cara de descrença.

“Foda-se o batismo, a outra parte é que importa. Posso até aceitar o esquecimento do nome, quer dizer, vai saber a quanto tempo você virou um fantasma, não é mesmo?”

Espírito! Revirei os olhos e contei até 10 para não dar uns tapas nela.

“Mas agora aceitar ser chamada de Loira do Banheiro já não tem como defender.”

A olhei um pouco confusa, qual o problema com meu nome?

“Tipo, se eu não soubesse da lenda e me dissessem “vi a loira do banheiro” o que passaria pela minha cabeça seria algo como: tem uma menina loira esquisita que se esconde do mundo no banheiro ou então uma menina malvada e idiota que faz bullying com quem está no banheiro, talvez, no máximo, eu pudesse imaginar que fosse o crush que alguém arranjou no banheiro, mas nunca, nunca mesmo, algo que me desse medo ou que me convidasse a te invocar entendeu? Não tem apelo, não tem brilho, não tem graça.”

Quem essazinha pensa que é? Ninguém pode falar mal do meu nome além de mim.

“Quero ver você fazer melhor, aproveita que vai morrer logo e cria teu nome de assombração então.” Diabo me livre dela saindo por cima nessa.

Uma sombra passa por seu olhar, sua postura muda, ela levanta um pouco o queixo.

“Ah mas isso vai ser muito fácil, qualquer nome que eu escolha já ganha do seu.”

Coloca um dos cotovelos no joelho, apoia seu rosto na mão e dá um sorriso debochado.

“Eu poderia me chamar Carol da brita e ainda meteria mais medo que você.”

Travo meu maxilar abusando do meu auto-controle pra não avançar nela.

Ela tem um sorriso no rosto e fala suavemente, poderia até parecer uma tentativa de zoação amigável e eu teria achado que era se não a tivesse visto conversando segundos atrás. A atitude de agora é mecânica, calculada, com veneno escondido em cada palavra, a mesma que usou comigo quando percebeu que eu era um espírito e com a Maria quando descobriu que ela não poderia machucá-la. Será isso um mecanismo de defesa? Deve ser, isso começou logo após eu tocar no assunto morte. Suspira, olha pela janela por mais um segundo e quando volta a falar a sombra no olhar some e a postura está novamente relaxada. Como alguém consegue mudar assim tão rápido, Belzebú?

“Eu me chamaria morena na banheira obviamente” termina a frase com um sorriso de canto retomando o assunto anterior como se nada tivesse acontecido. Nem tenta, eu percebi suas mudanças queridinha, não importa quão discretas elas tenham sido.

“Morena na banheira? Foi o melhor em que conseguiu pensar? É quase idêntico ao meu, seria menos humilhante ter ficado com o Carol da brita mesmo, pelo menos ganharia alguns pontos pela originalidade.” Fui grossa sim, nem ligo, e achei até pouco. Ela zoa o meu nome e ainda escolhe um quase idêntico a ele? Dá licença né.

Ela não se abala nem um pouco.

“Sim morena na banheira, pode até parecer com o seu, mas dá uma ideia totalmente diferente.” Abre um sorriso.

“Pensa comigo, você escuta esse nome e logo vem o que na sua cabeça? Exatamente, uma banheira cheia de água com uma morena dentro e só espuma te impedindo de ver alguma coisa. Posso te garantir que eu vou ser mais popular com os meninos mais novos, no mínimo, mas provavelmente com mais gente também.” O sorriso aumenta enquanto fala comigo como se eu fosse uma criança. Será que dar um soco nela traria alguma punição para mim?

“Fico imaginando a cara de decepção do povo quando a banheira continuasse vazia e eu aparecesse vestida. Ia ser épico!” Ela termina rindo e tenho de me segurar para não sorrir. Consigo imaginar direitinho a cena. É acho que realmente iam querer evocá-la com um nome desses. Odeio quando alguém irritante está certo.

“Diz aí, eu sou um gênio em marketing e publicidade.” Se eu dei meu braço a torcer? Jamais!

“Acho que gênio não é bem a palavra, convencida, iludida ou sonhadora se encaixam melhor. Mas diz aí, Morena na Banheira, quanto tempo você pretende adiar o inadiável?”

“Nada é inadiável queridinha.”

E aí está, a mudança de atitude, o veneno quase imperceptível nas palavras, um leve estreitar de olhos, ela na defensiva de novo.

“Um ser humano pode ficar até 3 dias sem água e ainda mais tempo sem comida, eu só tenho que enrolar até o Bê voltar e então daremos um jeito de eu sair daqui sem destrancar a porta. Você só está perdendo seu tempo aqui comigo.” Ela exala confiança, não se enrola com as palavras, olha-me nos olhos o tempo inteiro como se me desafiasse a contradizê-la. Se eu fosse menos experiente nesse ramo e não soubesse que assim que ela dormir eu atingirei meu objetivo com certeza teria desistido nesse segundo.

“Você está fazendo de novo.” Não me seguro e acabo comentando. Ela arqueia a sobrancelha e vejo nisso um sinal para continuar.

“Está fingindo ser alguém que não é porque o que eu disse mexeu com você.” Agora só falta descobrir se ela fica triste ou irritada quando falo sobre sua morte, acho importante descobrir isso logo porque essa menina é o ser mais imprevisível que já conheci e eu quero estar preparada. Por falar em menina imprevisível ela está me encarando surpresa.

“Por que está me olhando com essa cara de “como você descobriu?” Eu sou um espirito com centenas de anos, tenho experiência em observar o comportamento dos outros, ok?

“Foi mal aí, ô centenária, mas primeiro.” fala levantando um dedo da mão direita.

“Não é um mecanismo de defesa e segundo.” Levanta mais um “Eu não penso mais para mudar o comportamento, logo, não percebo a mudança. Normal ficar surpresa tá?”

“Ah, não é um mecanismo de defesa? Você não mudou pelo que eu disse então? Foi só uma coincidência?” Olho descrente para ela, para né, até parece.

“Conta outra vai, já que você vai me obrigar a ficar aqui até sabe-se lá quando o mínimo que pode fazer é não mentir.” ela revira os olhos

“Eu não menti, não é por defesa que isso acontece.”

Nesse momento sinto uma onda de emoções saindo dela, seu pensamento está tão focado em uma imagem que consigo vê-la: um homem ruivo, grande, com calça em estilo militar, rosto vermelho e barba por fazer está a poucos centímetros de mim. Ele berra, gotas de saliva me atingem, o bafo é puro álcool, a expressão de ódio, tento me afastar, mas sua mão segura meu braço que naquela situação mais parece um graveto prestes a se quebrar do que parte de um corpo. Eu sou uma criança, estou morrendo de medo, mas não choro em momento algum. “Monstros não só sentem o seu medo, eles desejam isso. Não dê a eles o que querem e logo lhe deixarão em paz” era a frase que ficava se repetindo em minha mente com a voz de uma mulher. A imagem some quando ela balança a cabeça.

“Não mais pelo menos, é só um hábito difícil de perder mesmo.”

Intensidade demais, rápido demais. O que capetas eu acabei de ver?

Ela sorri e uma vez mais me pego admirando seu sorriso. É daqueles que iluminam a pessoa, o ambiente e quem está por perto, sabe? Como se só por ele aparecer eu já tivesse um motivo pra sorrir também, sei lá, passa um calor bom e difícil de ignorar.

Mas então lembro da imagem. Aquilo não era só imaginação, era uma memória. Olho para a menina em minha frente, parece apenas mais uma adolescente comum, mas age diferente de qualquer outra pessoa que já conheci e obviamente tem uma história da qual não sei nada. Quantos monstros ela esconde em seu armário?

“Tudo bem, eu acredito em você, sinto muito por ter te chamado de mentirosa.” disse realmente me arrependendo de minha atitude. Eu não devia ter tirado conclusões precipitadas e… Espera aí. Desde quando eu ligo se o que falo ou faço para alguém é justo ou não? Olho-a pronta pra ser uma grossa estúpida e consertar meu breve lapso de personalidade quando percebo sua atenção focada totalmente em mim e perco o foco encarando seus olhos. Tão simples, tão comuns, mas ainda assim tão únicos no modo de se expressarem.

Logo parou de me olhar se distraindo com algo como se nem tivesse passado os últimos 3 ou 4 minutos me fitando. Ao escutar o barulho vindo de sua barriga entendo o que foi.

“Com fome Carol? Acho que você vai aguentar menos tempo do que o imaginado hein.” falo, mas ela me ignora.

“Loira, acabei de ser informada por meus assessores que está se aproximando do horário da janta. Você aceita cozinhar comigo?” diz com uma voz polida e mais formal. Mais essa agora, cozinhar o quê, meu demônio?

“Claro, só destranca a porta ali pra gente ir pra cozinha.” Vai que ela cai nessa, não posso perder a oportunidade, né?

“Ha, ha, ha. Engraçadinha. A gente não precisa de cozinha pra cozinhar, chega mais, vou mostrar pra ti.”

Ela me puxa para mais perto e começa a mexer em sua mochila. Tira de dentro um pacote de bolacha água e sal, duas bananas, duas barrinhas de cereal que estavam em uma sacola longe das outras, ketchup, queijo ralado e um potinho com pequenos tomates cereja. Além de um pacote de Tang de morango e mais uma garrafa de água.

Fico abismada com a quantidade de comida que sai dali e não me contenho.

“Fala sério, você sabia que ia ficar presa no banheiro né?”

Ela me olha um pouco perdida, segue meu olhar até os ingredientes saídos da mochila e então solta uma risada. Uma risada muito gostosa de se ouvir, devo dizer.

“Que nada, foi tudo sorte. Tudo que precisamos para fazer o sangue falso está aqui então decidi deixar todo o resto das minhas coisas também.” ela aponta para o canto do banheiro e consigo ver mais algumas malas, mochilas e sacolas empilhadas.

Não to acreditando na minha desatenção para ter deixado de notar aquele amontoado de coisas ali desde o inicio. O que tá acontecendo comigo? E que sorte a minha cair para assombrar logo a pessoa mais preparada para ficar trancada em um banheiro hein. Certeza que é Satanás me castigando por alguma virtude.

“Então tá menina sortuda. O que planeja fazer com seus ingredientes?”

Acredito zero por cento na capacidade de uma comida decente sair dali, mas é aquele ditado né, se não pode com eles junte-se a eles. Ou algo nesse estilo. Se ela vai fazer isso é melhor eu ajudar, vai que resolve demorar séculos de propósito de novo. Tenho paciência para isso não.

“Esse é o espírito, Loira!”

Ah, agora ela usa a palavra espírito. Humana irritante.

“O primeiro passo é lavar as mãos, não queremos mais germes na nossa comida do que o estritamente inevitável.”

Foi até a pia e lavou as mãos. Mais de 3 minutos foram gastos só nisso, não é possível. Ainda não satisfeita pega álcool gel e esfrega até evaporar. Então me olha em expectativa. Bufando faço o mesmo, com bem menos entusiasmo devo dizer, e ela se dá por satisfeita.

“Boa noite meninas, tudo bom? Hoje vou ensinar como fazer um prato delicioso com as comidas que você esqueceu na mochila e ingredientes típicos da fabricação de sangue falso, tá? Mas antes disso não esquece de dar like no vídeo e se inscrever, isso ajuda muito o canal.”

Não consigo colocar em palavras o que está fazendo com sua voz, só posso dizer que é incrivelmente irritante e um pouquinho cômico ao mesmo tempo. Ela continua sua atuação.

“Primeiro vocês vão precisar de algo onde colocar a comida para ela não encostar em nada, eu sugiro pratos ou potes, mas como não tenho nada disso no momento eu vou usar papel higiênico mesmo.”

Pega um pedaço grande de papel higiênico e dobra deixando-o grosso. Vai fazendo isso até ter uma superfície do tamanho que queria. Depois pega algumas bolachas, um canivete e o ketchup e os deixa próximo a si.

“Agora a gente vai espalhar o molho de tomate na massa, ou o ketchup na bolacha, tanto faz. Tem que cobrir bem, tá meninas? Essa parte é bem importante no resultado final. Ó Loira, tenta também para ver como é fácil.”

Me passou algumas bolachas e o seu canivete enquanto continuou o trabalho usando uma tesoura. Como ela conseguiu fazer aquilo com a tesoura sem se cortar eu não sei, mas essa menina é boa.

Depois de termos várias bolachas cobertas com o pseudo molho de tomate ela pegou o queijo ralado e trouxe para mais perto. Assim como as bananas e as barrinhas.

“Quando já tiver coberto a quantidade de massa desejada é hora de colocar o queijo. Eu gosto do tipo ralado, mas sintam-se livres nessa parte. O importante é colocar o suficiente para que derreta bem.”

Ela espalha o queijo e cruzando todos os limites de falta de noção começa a derretê-lo com um isqueiro. Em. Cima. Do. Papel. Essa criatura quer começar um incêndio, é isso? Bom, quem sou eu para impedí-la não é mesmo?

Vou espalhando o queijo enquanto a piradinha cuida de derretê-lo bem. Quando terminamos o serviço em todos ela dá uma mordida e sorri. Se você nunca viu bolacha com ketchup e queijo derretido por cima devo dizer que não está perdendo nada.

“Uhmmmmmm” fala exageradamente.

“Ficou divino. Bom, você assistiu eu, a Carol, e se não toquei sua mente espero ter tocado o coração, tchauzinho.” Acenou para uma câmera imaginária encerrando a brincadeira e riu.

Mestre do inferno, essa menina é muito idiota. Mas bem que essa idiotice te agrada não é? Agrada nada. Então por que você está com esse sorriso idiota na cara? Ah pronto, agora minha mente tá contra mim. Agrada nada, quero só a morte dela. Uhum, sei. Não enche.

A menina me estende uma das bolachas enquanto coloca o pó do Tang dentro da garrafinha e chacoalha e fico estática.

“Ahn, eu não como, muito obrigada.”

Seu olhar para mim é de desafio.

“Pois hoje a senhora come sim. Não passamos todo esse tempo cozinhando para eu comer sozinha. Eu sou humana, não aguento toda essa quantidade de comida bebê.”

Como alguém pode usar senhora e bebê para se dirigir a mesma pessoa? Fiz careta para os apelidos, não curti nenhum.

“Eu não como, tipo, desde que morri, não adianta.”

Reviro os olhos e, ao abrir a boca para falar algo mais, acabo sendo pega desprevenida com ela colocando um pedaço daquilo dentro. Tento fechá-la, mas não consigo a tempo o que só me faz mastigar um pouco a bolacha. O gosto não está tão ruim o que me deixa surpresa. Eu achava que não era mais capaz de sentir gostos.

Ao olhar para ela vejo uma expressão de incerteza e certo medo. Como uma criança pega fazendo arte. Uma fofa, da até vontade de morder.

Dou uma mordida no pedaço que ficou em sua mão e vejo alívio em sua face. Comemos em um silencio confortável, tomando do nosso suco e quando a última bolacha acaba ela volta a se pronunciar.

“Hora da sobremesa então.”

Sua fala é tão animada que quase me animo junto. Quase.

Ela tira os tomates de dentro do pote e os coloca em uma sacola então descasca as bananas e as amassa com o canivete. Abre as barrinhas de cereal, daquelas feitas realmente só com cereais, e as despedaça ali dentro.

“Voilá, espero que goste de banana.”

Faz colheres com as embalagens e me entrega uma.

Apesar de simples estava muito bom. Até que ter ficado presa todo esse tempo com ela valeu um pouquinho a pena.Mesmo assim acho que ainda preferia ter tido minha horas de descanso.

Notas finais
Em caso de erros é só avisar