Morena na Banheira
1 A primeira vez que nos falamos
Notas iniciais
Mais um dia agitado graças a esses jovens desocupados que ficam tentando me evocar nos banheiros. Será que não percebem o risco que correm? Uma pena que eles tenham sorte e nunca realizem o ritual direito. Estou louca para acabar com a raça de alguns que me chamam quase diariamente em vão.
Olho para a lista de relatórios completos e enviados, para o contador de intenções de chamado marcando zero e agradeço pelo meu turno já estar acabando. O relógio no canto mostra que faltam apenas 30 minutos. Por favor, ninguém me chame. 20. Isso! Só mais um pouquinho. 10. Sinto um formigamento familiar. Droga! Tinha que ser tão perto do fim? Lá vou eu para mais uma hora extra. Malditos humanos.
O formigamento aumenta, paro de sentir meu corpo, sou transportada para o local do trabalho, fico momentaneamente confusa, mas logo passa. Anos e anos convivendo com essa sensação e ainda não me acostumei, acho que nunca irei.
Olho ao redor tentando me localizar. As paredes e o piso são cobertos por azulejos brancos deixando o cimento aparecer nos lugares de onde se desprenderam ou racharam. No lado esquerdo uma privada amarelada, cheia de pó e desgastada pelo tempo está ao lado de uma pia com as torneiras e canos enferrujados. O espelho quebrado e sujo reflete uma porta de madeira escura e bem adornada ao lado de uma espécie de armário que aparenta já ter tido portas de vidro, embora vidro nenhum reste ali, com frascos de perfume trincados dentro.
No lado direito uma banheira enorme, limpa e nova contrasta com todo o resto do ambiente. A luz da lua que passa pelas grades da janela pequena e incide exatamente sobre ela faz com que pareça uma miragem ou algum tipo de armadilha. Arrepiei-me inteira. Que tipo de lugar é esse? Se a pessoa estava procurando o local mais assustador possível para me evocar conseguiu. E como se não bastasse todo esse cenário bizarro está completamente vazio e silencioso.
Esse negócio do mundo espiritual ter uma linha temporal diferente da do mundo dos humanos é péssimo às vezes, mas como a maioria dos erros de envio se dá por poucos minutos de diferença eu relevo.
Ouço vozes vindas de algum lugar. Parecem sussurros de tão longe que estão. Saio do banheiro em um corredor que se alonga até perder de vista em ambos os lados. O contorno de várias molduras se destaca sem que eu consiga ver as pinturas que estão emoldurando. O som parece vir da esquerda. Caminho e passo por mais portas, quadros, relógios e espelhos do que esperei encontrar em qualquer lugar imaginável.
Vejo uma luz tremeluzente saindo por uma porta entre-aberta e vou até lá. É uma sala grande, com teto alto, em que a maioria dos móveis se encontram cobertos por panos amarelados. A tintura das paredes é toda descascada, o piso de madeira range sozinho, o vento passa por buracos deixando uma espécie de assobio constante. Várias cortinas de veludo encontram-se fechadas e uma escada de madeira leva ao que, imagino, é o segundo andar.
A lareira acesa ilumina algumas partes da sala e faz sombra em outras. Na frente dela, sentados em um sofá amarrotado, dois jovens conversam tranquilamente. Uma moça com cabelo ondulado cujo rosto não consigo ver e um jovem com cabelo liso cujo rosto meio iluminado e meio na sombra dá um efeito sinistro ao seu sorriso.
Se eu tivesse que apostar, diria que ele foi a grande besta que me trouxe aqui em vão.
“Agora que já terminamos as marcações tá na hora de pegar os corpos, preparar o sangue e espalhá-los” diz o menino.
“Deixa que eu cuido do sangue, o Drew ficou responsável pelos corpos e eu prefiro não ter contato com ele nunca mais” emenda a menina.
Ok. Eu sou um espírito que passa a morte matando pessoas porque vendi minha alma em vida e mesmo assim o papo desses dois consegue ser mais macabro do que eu estou acostumada. Tomara que isso acabe logo e eu possa voltar a atacar pessoas normais.
“Nossa, eu tinha esquecido do que ele fez da última vez, desculpa. Deixa que falo com ele então. Acha que consegue se virar sozinha e lidar com a saudade ao mesmo tempo?”
“Sem problemas, eu queria ter esquecido também para ser bem sincera. Olha, vai ser difícil, mas vou tentar segurar as lágrimas durante sua ausência.” Abre um sorriso enquanto finge segurar o choro.
“Isso. Seja forte por mim. Estarei de volta em três dias.” Ele sorri junto, abraça-a e vai embora.
Olhando agora nem parece que estavam falando de corpos e sangue segundos atrás.
A menina se levanta, acende a lanterna do celular e caminha pelo caminho que fiz até o banheiro. Que tipo de pessoa termina sabe-se lá o quê numa casa assustadora no meio da noite e sente vontade de evocar espíritos? Essa menina não tem juízo?
Sigo-a para dentro. Ela ilumina o local e encontra o interruptor a alguns passos da porta. Vai até lá, ergue o botão e acende a luz. O botão cai e a escuridão volta. Repete o ato. A luz volta a apagar. Tira então um rolo de fita vermelha do bolso, desenrola um pedaço e deixa o resto em cima do armário. Ergue o botão, tem-se luz, deixa-o escapar fazendo-a apagar brevemente, retorna-o para a posição e o cola de forma que não caia de novo. O banheiro fica iluminado.
Ué, ela não vai fazer o ritual?
Com a iluminação consigo vê-la melhor. Devo admitir que eu estava esperando encontrar um visual bem dark e talvez algumas tatuagens com o livro das sombras ou pentagramas e não aquela sua regata estampada com um pug usando óculos escuros. A pele morena, o shorts jeans com um sol pequeno bordado no bolso e tênis com desenho de doces e formigas subindo por eles foram outra surpresa. O corpo era daqueles que ficam entre o “morro de malhar na academia” e o “considero subir um lance de escadas exercício”, bem normalzinho, mas não deixava de ter curvas bonitas. O cabelo é ondulado e vive caindo em seus olhos também castanhos o que a obriga a tirá-lo de lá, de vez em quando.
Vai até a porta, tenta fechá-la, mas algo a impede. Tenta de novo. Em vão. Tenta com mais força. Não funciona. Finalmente bate-a e tranca. Ela destranca e se abre. Bate a porta com a intenção de usar a fita de novo, porém nota que está muito longe.
“Puta que pariu! Qual a dificuldade de fazer uma porta que funcione? Caralho vou gastar a porra da fita toda desse jeito” resmunga indo pegar a fita e dando um jeito de trancar a porta.
Ah não. Me diz que ela não está fazendo isso sem querer.
Senta na privada, faz o que tem que fazer e quando termina puxa o fio da descarga que prende e faz pouco efeito. Puxa de novo e assim que solta o fluxo de água se interrompe.
Por favor não puxa de novo senhorita. É só um pouco de xixi, essa privada já viu coisas piores.
Ela, obviamente, não me ouve. Puxa uma terceira vez e segura até que a água esteja cristalina. Ou tão cristalina quanto é possível.
Na pia há duas torneiras. Ela abre a primeira. Só sai um fiapo de água. Fecha. Abre a segunda. Caem gotas alaranjadas.
“Ótimo. Temos a opção pouca água ou a muito pouca água colorida. Por que eu achei que algo funcionaria nesse lugar?” pergunta para o seu reflexo e sorri sarcasticamente. Seus dentes são brancos e bem alinhados, parece até que fez clareamento recentemente. Fecha e volta a abrir a primeira torneira finalmente lavando as mãos.
Centenas de pessoas tentando me evocar todos os dias sem sucesso e ela consegue sem nem tentar. Confesso que nunca senti tanta pena de uma pessoa antes. Pobre menininha azarada. Ela fecha a torneira e sinto meu corpo ficando sólido e visível. Só mais um último requisito e o ritual estará completo.
Seu olhar cai em mim pelo espelho e ela se vira confusa. Assim que me vê a confusão da espaço a… preocupação!? Ela corre até mim me abraçando apertado. Oi!? O que está acontecendo?
“Meu deus. Você tá bem? Calma. Nada mais de ruim vai te acontecer.”
Quem ficou confusa depois disso fui eu. Como assim, senhor? Ela vê um espírito no banheiro e ao invés de se assustar age como se tivesse encontrado uma criança perdida no mercado? Quem é ela?
Em toda minha pós-vida de assombração eu já presenciei milhares de reações, mas nunca, e eu repito, nunca mesmo tinham me abraçado e perguntado se eu estava bem. É a primeira vez também que eu não sei o que fazer. Quer dizer, é óbvio que eu devo desfazer o abraço. Não é uma boa ideia me apegar a alguém que logo morrerá. Só que ela me aperta firme contra seu peito de forma que o calor que emana de seu corpo parece aquecer o meu. Seu coração bate tranquilo em seu peito e eu consigo sentí-lo. É quase como se eu tivesse um coração de novo. Percebo que já estamos a tempo demais assim e volto a me concentrar no que devo fazer. É então que sinto as batidas acelerarem, seu corpo ficar tenso e ela começa a pensar com tanta intensidade que consigo ouvir seus pensamentos.
“Ela está tão fria, parece até morta. Espera… Eu estou em um banheiro. Em uma mansão abandonada. A porta está trancada e nem uma galinha passaria pela janela… Da onde essa criatura apareceu?”
Quanto mais agitada a mente de uma pessoa mais fácil é de escutar o que ela pensa. Essa sempre foi uma das partes que eu mais gostei desse negócio de ser um espírito assassino.
“Ah, droga. Eu estou abraçando um fantasma não estou?” Solta-me e se afasta bruscamente.
Não acredito que ela me confundiu com um fantasma. Vou fazer ela engolir esse absurdo antes de matá-la. Eu sou um espírito, onde já se viu tamanho desrespeito?
“Tá. Age naturalmente. Agora pensa. Quem é o fantasma que aparece nos banheiros mesmo? Será que a Maria Sangrenta é loira? Pouco provável.” Encara-me e faz caretas ao mesmo tempo.
Além de me chamar de fantasma ainda me confunde com a Irritadinha Sangrenta? O mínimo que se espera de quem te evoca é que a pessoa saiba seu nome oras. Já chega, ela vai ter uma morte lenta e dolorosa ou então não me chamo Loira do Banheiro.
“Vamos lá! Se concentra. Ela é loira, tá com algodões nas narinas, sangue na roupa e no rosto… Qual era aquela outra lenda que apareceu quando eu já não brincava mais dessas coisas? Isso! A loira do banheiro. Ela já não devia ter me matado a essa altura?”
Outra lenda? Ela conseguiu me irritar. Deu dessa palhaçada.
“Como você aparentemente não queria me chamar te dou um minuto de vantagem para fugir à vontade” falo fingindo-me de boazinha.
Anda logo desgraça. Abre essa porta para eu poder acabar com isso.
Ela olha desconfiada e se aproxima da porta. Já estava com a mão na tranca prestes a tirar a fita quando outra torrente de pensamentos me invade.
“Ela vai me deixar fugir? Isso não faz sentido. Ela não pode ser tão sádica a ponto de me deixar sair só por gostar de perseguir os outros, ou pode? Tem algo errado nessa história.” Olha para mim.
“Se ela está aqui é porque eu chamei. O que eu fiz desde que cheguei nesse banheiro?” Olha para a fita prendendo o interruptor, para a pia, para a privada e termina olhando para a porta.
“Acendi e apaguei a luz três vezes. Bati e tranquei a porta, abri e fechei a torneira e dei descarga o mesmo número. Mas só destranquei a porta duas vezes. Será que é isso? Ela não pode fazer nada enquanto algo estiver incompleto? Isso! Ainda há esperanças”
Droga. Mil vezes droga. Não acredito que vou perder meu horário de descanso esperando até uma humana aceitar que vai morrer de um jeito ou de outro.
Ela dá um meio sorriso alternando o olhar entre eu e a porta.
“Tudo bom? Eu sou a Carol. Desculpe-me te decepcionar, mas não posso destrancar essa porta ainda” fala como se realmente sentisse muito por isso.
Cínica.
“Sabe o que é? É que eu sei que isso vai me matar e não estou pronta para morrer ainda, entende?” Fixa seus olhos nos meus como se esperasse uma resposta.
Eles ficam um pouco mais claros nessa luz e distância. Estão muito perto. Nunca tinha percebido o quão bonitos olhos castanhos podem ser… Tá. Foco. Ela está esperando uma resposta minha, tenho que parar de me desconcentrar.
“Quanto mais você demorar para destrancar a porta mais do nosso tempo você estará desperdiçando” digo suspirando.
Ela acha o quê? Que eu não tenho mais nada para fazer?
“Olha. Fazer isso rápido talvez te economize algum tempo, mas só tira o meu. Então, me perdoe, mas você vai passar a noite aqui comigo.”
Lança-me um olhar divertido.
Por que, diabos, humanos sempre tem que ser tão apegados á própria existência? Não é como se eles fizessem grandes coisas com ela.
“Não se preocupe. Garanto que posso ser uma excelente companhia.”
Ela sorri abertamente pela primeira vez e aquele sorriso parece me hipnotizar. Tanto que nem ouvi o que falou a seguir.
“Olá! Mundo para espírito. Você tá aí? Vai mesmo me deixar no vácuo?”
Sua pergunta me tira do transe e fico mais confusa ainda quando vejo sua mão estendida. O que está acontecendo?
“Quando um humano fala seu nome e lhe estende a mão é educado responder com o seu e apertar de volta, sabia?”
Ah. Então é isso. Ela acabou de se apresentar. De novo. Será que realmente está esperando que isso funcione? Não é possível que eu esteja passando por isso. Queria ser capaz de sonhar para poder fingir que isso é só um pesadelo.
“Não. Não faremos isso de fingirmos sermos amigas. Você já sabe quem eu sou. Me recuso a levar isso mais longe do que o estritamente necessário.”
Fui grossa? Fui. Não tenho a obrigação de fingir bom humor para alguém que só está me fazendo perder tempo a toa. Não é como se ela tivesse alguma chance de sobreviver ou algo assim. Humanos tem sede e fome, uma hora ela vai ter que desistir dessa palhaçada.
“Nossa! Alguém acendeu o incenso errado para você foi? Sem problemas. Estou acostumada com grosserias.”
Ela revira os olhos, vai até um canto do banheiro onde uma mochila cinza estava jogada e a leva até a banheira. Retira uma barrinha de cereal e uma garrafa de água de seu interior e depois entra na banheira, se movimenta um pouco, provavelmente procurando por uma posição confortável, até parar e dar uma mordida no alimento.
Jura? Ela trouxe comida e bebida? Maravilha. Isso vai demorar mais do que eu imaginava.
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