More than the stars
1 Coming Home
Notas iniciais
21 anos atrás
Abby ajuda Clarke a colocar seu vestido preto. Ela tem quase certeza que nunca o tinha usado.
— Preto é feio, mamãe, não quero usar essa roupa sem graça — A pequena e fina voz de Clarke enche o quarto.
— Você não tem que querer, Clarke — Responde Abby, quase imediatamente.
— Mamãe?
— O que foi, Clarke? — Abby pergunta, impaciente.
— Por que não posso usar meu vestido de estrelas?
A garotinha de apenas 5 anos aponta para a blusa colorida que está pendurada em um cabide fora do armário. Ela ama aquela blusa. Bom, ela ama qualquer coisa com estrelas. Ou baunilha, ela ama baunilha. Se ela pudesse, usaria sua blusa todos os dias. Mas Abby faz questão de separar a roupa que Clarke vestirá pra ir à escola um dia antes, deixando a combinação pendurada do lado de fora do guarda-roupa. E enquanto Clarke olha para o cabide que contém uma calça cor de rosa e sua blusa preferida, ela não pode evitar a decepção que toma conta dela por não ter ido à escola no dia anterior. E nem entende porque não foi à escola hoje. Ou porque tem que usar esse vestido feio.
— Eu não me importo. Você não pode ter tudo o que quer — Abby explode.
Os olhos de Clarke se enchem de lágrimas e antes que elas possam rolar pelas suas bochechas gordinhas e coradas, ela escuta a voz de seu pai.
— Precisam de ajuda?
— Seria ótimo, obrigada — Abby responde, e enquanto sai do quarto, suspira, aliviada.
Clarke ama sua mãe, muito mesmo. Mas seu pai tem esse jeito diferente com ela, uma conexão inexplicável. Sua relação com Abby é ótima, mas nem sempre é muito fácil. Jake costuma dizer que é porque são muito parecidas.
— Vamos lá, pequena estrela. Vamos colocar seus sapatos — Jake diz, com um sorriso amigável.
— Papai?
— Sim, querida.
— O meu vestido é feio — diz Clarke, com um biquinho, enquanto a respiração pega em sua garganta.
— Seu vestido é lindo, assim como você. Você é a minha estrela, lembra?
Então Jake espera a confirmação da filha enquanto acaricia as ondas loiras e rebeldes que são o cabelo da garotinha. E Clarke acena, enquanto se inclina ao toque do pai, já sorrindo.
— E o que as estrelas fazem, Clarke?
— Elas brilham.
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Clarke acorda com a luz do sol entrando pelas janelas do apartamento de Lexa. Enquanto os últimos vestígios de sono deixam-na, ela vira o próprio corpo na tentativa de chegar mais perto do calor convidativo que emana do corpo da mulher adormecida ao seu lado, entrelaçando suas pernas. Ao aninhar-se no pescoço de Lexa, seus cabelos escuros fazem cócegas em seu nariz e Clarke respira pesadamente ao lembrar da sensação deles balançando através de suas coxas na noite passada.
A noite passada. Certo. Quando Lexa entregou as passagens para o voo com destino a sua cidade natal. Está tudo bem. Voo em que elas terão que embarcar em um dia. Não há necessidade para pânico. E desembarcarão cerca de 9 horas depois em Arkadia.
Seus devaneios são interrompidos pelos movimentos leves de Lexa, como se o sono fizesse seu caminho para fora de seu corpo lentamente. Não que seja uma novidade pra Clarke, o jeito como Lexa acorda, porque ela tem acordado ao seu lado quase todos os dias desde que foram morar juntas, há seis meses. Há seis meses e um dia, pra ser exato. Mas sempre a surpreende. A calma, leveza e doçura que tomam conta de Lexa sempre que estão sozinhas. Ou quando estão juntas. Porque em qualquer outra situação, ou ao redor de outras pessoas, a mulher é um furacão. Sempre tem uma postura séria, mas gentil. É firme, mas divertida. Reservada, mas sociável. Em seus 26 anos, Clarke não achava possível encontrar as mesmas características em alguém. Em alguém além de seu pai.
— Bom dia — Lexa diz, ainda com os olhos fechados.
— Bom dia — Clarke sorri, enquanto muda sua posição para olhar pra ela.
Lexa abre os olhos, que fixam-se quase que imediatamente na boca de Clarke, e coloca a mão em seu rosto enquanto se inclina para beijá-la. Ela retribui imediatamente e tira a mão de seus lados para colocá-la entre os grossos fios de cabelos escuros. O beijo demora mais do que o esperado, mas Clarke não se importa, e enquanto sua língua entrelaça-se com a de Lexa, sente o gosto de pasta de dente e vinho caro que beberam na noite anterior.
— Alguém acordou com um bom humor — Clarke fala, sorrindo depois de se afastar.
— Isso é algo ruim? — Lexa sorri, provocando-a.
— Na verdade, eu acho um ótimo jeito de acordar.
— De bom humor? Ou com um beijo?
— Depende — Clarke provoca.
— Do que, Clarke? — Lexa acentua o "k" intencionalmente, levantando as sobrancelhas.
— Do que você vai fazer depois de me beijar, Lexa — Clarke copia o gesto.
— Por que você não me diz o que quer que eu faça, então?
— Eu acho que é mais fácil se eu te mostrar — Clarke inclina-se, como se fosse beijá-la, mas para, esperando uma resposta.
— E eu acho que uma demonstração é um ótimo jeito de aprender.
— Ao julgar pela noite anterior, você não precisa aprender.
Clarke dá um beijo rápido em Lexa e sente o sorriso presunçoso da morena contra seus lábios enquanto se afasta alguns centímetros para olhar pra ela.
— Você claramente já sabe.
Lexa fecha a distância entre elas e o gosto de vinho e pasta de dente inunda a língua de Clarke novamente.
:::::
— Você podia ter me falado antes — Clarke diz enquanto liga o chuveiro.
— É. Mas eu queria que fosse uma surpresa, sabe? Um presente pro nosso aniversário de 2 anos — Lexa diz, como se fosse óvio.
Clarke acena em concordância, enquanto passa o shampoo de baunilha pelos cabelos.
— Você vive dizendo o quanto sente falta de casa então pensei que você ficaria feliz em voltar, agora que as coisas mudaram — Lexa continua.
— Eu estou feliz.
As duas ficam em silêncio por um instante, até que Lexa fala novamente.
— O que há de errado, Clarke?
O tom de preocupação na voz de Lexa faz Clarke se arrepender de trazer o assunto à tona. Ela planejou absolutamente tudo, desde as passagens até o flat em que iriam ficar, mesmo Clarke duvidando que Abby vai deixá-la ficar em qualquer outro lugar que não seja sua casa depois de 3 anos sem vê-la, mas ela não disse nada à Lexa, até porque ela não teve tempo pra isso. Enfim, foi um gesto incrível, e agora parece que ela está reclamando. Mas ela não pode simplesmente falar qual é o problema.
— Sim, claro que eu gostei. É só que você realmente me pegou de surpresa, queria um tempinho pra me preparar.
Pronto. Isso parece acalmá-la.
— Não se preocupe, eu planejei tudo, lembra? — Lexa responde, com a voz abafada pela espuma da pasta de dente.
Clarke acena novamente, e deixa a água fluir em sua cabeça, tentando impedir que as memórias de casa se instalem em sua mente.
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Clarke está sentada com seu vestido preto ao lado de Bellamy enquanto come um sanduíche, e dá as casquinhas pra ele, que é sua parte favorita do pão. Só porque ele está triste, claro. Senão, ela não daria. Porque ele vive implicando com ela. Mas Bellamy está com o rosto inchado e tem lágrimas nos olhos e mesmo com sua pouca idade, ela sabe o que significa. Ele estava chorando. Abby disse que é isso que as pessoas fazem quando estão tristes. Ela odeia estar triste. E odeia chorar, mas às vezes acontece. Quando sua mãe briga com ela, ou quando ela cai e se machuca no jardim. E principalmente no dia em que seu pai lhe disse que nunca mais veria a Pipa, sua hamister. Aquele foi o dia mais triste de toda a vida dela. Até hoje.
Hoje, Abby e Jake contaram para Clarke que sua melhor amiga Octavia e o irmão dela, Bellamy, morariam com eles agora. E quando ela perguntou se a tia Aurora também viria, eles a explicaram porque ela estava usando um vestido preto.
— Mas se ela está num lugar mais feliz, como a Pipa, por que vocês estão tristes?
— Porque sentiremos saudades — Abby respondeu, com um sorriso triste no rosto.
— Então não podem ligar pra ela? Como a gente faz quando eu sinto falta do Wells?
Wells e Clarke eram melhores amigos desde sempre. E um dia, depois que a sua mãe foi pra um lugar mais feliz, ele disse que iria pra um lugar bem longe, tão longe que não dá pra ir de carro. Ela também ficou muito triste naquele dia, mas sempre que ela sentia saudades de seu melhor amigo, sua mãe ligava pra ele e eles ficavam conversando sobre os desenhos que assistiram e os brinquedos que ganharam pelo telefone. Pelo menos Octavia e Bellamy não vão pra um lugar bem longe. Eles vão estar tão perto, que não vai dar pra sentir saudades.
— Não é assim que funciona, filha. Não podemos falar com a Tia Aurora. E não vamos mais vê-la. Ela está no céu agora — Abby diz.
— O céu é o lugar mais feliz?
— Sim, Clarke, o céu é o lugar mais feliz que existe em todo o mundo — Jake fala.
— Mas o que eu vou fazer quando eu sentir falta dela se eu não posso ligar?
— Você vai deitar na cama, colocar seu cobertor até a sua cabeça, fechar os olhos e se esconder do mundo — Jake aconselha, enquanto coloca um fio de cabelo loiro pra trás da orelha de Clarke.
— E então vou ver ela? De verdade?
— Sim, minha estrela, você vai vê-la.
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Ela está colocando seu camiseta quando recebe uma chamada de vídeo de Octavia. Ela atende, ajeitando a toalha na cabeça.
— Octavia! — Clarke a cumprimenta, com um sorriso brilhante estampado em seu rosto.
— Você não vai acreditar no que aconteceu. Está ocupada?- Octavia diz, apressada.
— Olá pra você também!
— Oh! Me Desculpe! Olá senhorita Clarke! Como vai você nessa adorável tarde quinta-feira? — A morena brinca, em tom de sarcasmo.
— Há Há Há! Como você é engraçada! — Ela retruca, usando o mesmo tom.
— Muito obrigada, Clarke, mas não tenho tempo pra elogios, tenho muita coisa pra falar.
— É muito importante? Estou um pouco ocupada.
— Não é importante, mas é muito legal, mas posso esperar se tiver algo realmente importante pra fazer.
Clarke abre a boca pra falar, mas é interrompida pela voz brincalhona de Octavia novamente.
— A não ser que o que você tem pra fazer seja a Lexa, aí você pode esperar, ou melhor, ela, é claro.
— Octavia...
— Lembre-se Clarke, eu te conheço há 25 anos, ela só te conhece há 3.
— Lembre-se Octavia, eu dou múltiplos orgasmos a ela, isso me dá um bom crédito — Lexa diz por trás de Clarke, que apenas cora e sorri.
— Tenho que admitir, você tem um bom argumento. O que são 25 anos de amizade comparados a uns 2 anos de sexo com algun..
— Vocês podem, por favor, parar de discutir minha vida sexual? — Clarke interrompe Octavia, mas não parece nem um pouco irritada.
— Eu praticamente sou sua vida sexual, acho que isso me dá alguns direitos — Lexa retruca, enquanto Octavia faz cara de nojo.
— Por mais que eu esteja amando te envergonhar, realmente quero saber o que está te ocupando.
— Estou fazendo as malas, O — admite Clarke, sem o sorriso no rosto.
— E desde quando vai viajar?
— Desde ontem. Presente de aniversário de namoro.
— Ah, pra onde vão?
Antes que possa responder, Octavia a interrompe novamente.
— E por acaso não pode falar comigo e arrumar as malas? Não estou valendo mais nada mesmo.
— Você sempre foi tão dramática, O. Claro que posso falar contigo enquanto faço as malas, mas você pode esperar umas...23 horas para me contar? — Clarke passa seus olhos do relógio ao lado de sua cama para o rosto confuso de Octavia.
— Como assim, Clarke?
— Caso queira me contar pessoalmente.
— Quer dizer que está vindo pra cá?
— Não comente com a minha mãe, eu ainda não contei pra ela — a loira adverte, sorrindo.
— Clarke, você está falando sério? — diz, séria.
— Sim, O. Meu voo é amanhã de manhã.
— Clarke, isso é incrível! Eu nem acredito — Octavia comemora, entusiasmada.
Clarke não percebe o peso e significado das palavras até elas saírem de sua boca.
— Estou voltando pra casa.
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