More Than That

16 Nash - Memories


Com os olhos fixos na estrada e a mente dividida entre as ações manuais para controlar o carro e meu namoro com Logan. A frase “estive pensando em me separar de você” conectava minha mente à imagem de Logan. Não o Logan que eu conhecia, mas um inseguro e triste.

Um rapaz montado em uma moto passou ao meu lado buzinando e o som me despertou dos pensamentos, felizmente no momento certo, permitindo que fizesse a primeira entrada à direita descendo a via pela lateral.

Suspirei forte e profundamente voltando a pensar em Logan. Eu queria estar com ele neste momento, mas ele havia pedido para eu vir “receber” meu amigo Brian. Na verdade, a palavra “insistido” caberia melhor nesta frase. Eu sabia que ele estava a agir desta forma por causa da briga com Josh. Ele queria que eu não fosse privado das minhas outras relações que não estivesse relacionada à ele e isso também incluia meus amigos.

Enquanto um sorriso formava-se em meu rosto ao pensar no autrísmo de Logan, viro a esquina e entro no estacionamento de um enorme prédio. A entrada era escura, mas logo as luzes iluminavam o caminho. Ainda assim, tomei um leve susto com a inclinação, pois o estacionamento era no subsolo.

Com o carro devidamente estacionado, direcionei-me à recepção do hotel através das escadas do estacionamento e pedi que me anunciassem para Brian. Assim que recebi o cartão de acesso ao elevador – era um hotel bem chique – subi até o quinto andar. Passei por um corredor enorme e vários quartos beirando a casa dos quinhentos.

Quinhentos e quinze! Finalmente!

Eu bati na porta três vezes, mas esta não fora aberta. Ao invés disso, ouvi uma voz masculina – era Brian gritando lá de dentro – dizendo para usar o cartão. Ao lado da porta havia um painel onde usei o cartão. Uma luz azul piscou fraca e rapidamente até que a porta moveu-se para trás uns cinco centímetros.

— Brian? – Eu o chamei entrando devagar

— Pode entrar.

Terminei de entrar no quarto – que, honestamente, me pareceu um pouco pobre em relação à sofisticação que eu havia enfrentado até agora – à procura do meu amigo.

Era um quarto enorme, com uma cama de casal, televisão, ventilador de teto, ar condicionado e um pequeno refrigerador. As paredes eram altas e brancas, sendo apenas uma delas, pintada de vermelho. As cortinas voavam pelo quarto devido ao vento que entrava através da sacada, que tinha vista para os fundos do prédio – no caso, era a enorme área de lazer (piscinas, parques, jardins e afins).

A porta do banheiro se abriu e dele saiu aquela figura masculina, ligeiramente mais alto do que eu, de cabelo castanho raspado, quase careca, e músculos definidos e cobertos por uma camada rala de pelos .

Munido apenas de uma toalha enrolada ao corpo, Brian sorriu assim que me viu e me abraçou sem se importar se estava molhado ou não. Eu o abracei de volta. Foi um abraço apertado e longo. Mas eu estava morrendo de saudades do meu amigo e, ao que parecia, o sentimento era recíproco. O abraço terminou com tapas nas costas de ambos.

— Quanto tempo, cara! – Brian disse sorrindo.

Sua expressão agora era exatamente a mesma que fazia quando estava rodeado de pessoas que gostava. Brian sempre fora previsível. Era possível ler suas expressões e prever suas atitudes facilmente. Agora, por exemplo, ele estava mais do que tentado a me dar outro abraço. Não parava de sorrir, nem se tentasse.

— Vocês me abandonaram por aqui! Me deixaram sozinho com Franky.

— Imagino o castigo – Ele respondeu enquanto tirava duas latinhas de cerveja do refrigerador – Como tem passado?

— Bem. Um pouco estressado do trabalho, mas bem – O estresse não era bem do trabalho, mas eu não queria trocar o maravilhoso clima de alegria.

— Estresse uma ova! Você mais trabalha em casa do que outra coisa.

Brian abriu as cervejas e me deu uma. A seguir sentou-se em uma poltrona, enquanto eu me ajeitava na cama, já tirando os sapatos como se estivesse em casa.

— Você diz isso como se tivesse algum trabalho em mandar em todo mundo.

— Se você soubesse o trabalho que dá mandar nos recrutas. Nem têm pentelho no saco e já acham que são homens.

— Mas você sabia com seriam as coisas. Entrou para a Força Aérea porque quis.

— Eu não sabia que essa nova geração seria tão chata assim... Pelo menos onde eu fico não tem apenas sacos. As mulheres lá são bem bonitas.

— Se te conheço bem, deve ter apanhado de todas.

— Sim – Ele disse rindo como se eu tivesse feito alguma piada. Eu havia falado sério e ele sabia disso. Parecia estar lembrando de algo, pois olhava à esmo – Rita chegou a deixar marca. Acho que te contei...

— Você me contou um caso ou outro, sim. Mas mesmo assim, eu daria tudo para ver a cena delas batendo em você.

— Não precisa. Já viu muito isso quando íamos para a cabana do seu pai.

— Não é cabana... As meninas daquele lugar eram muito agressivas mesmo.

— Por falar em mulheres... – Pronto. O assunto chegou cedo – Como estão as coisas com o seu coração?

— Complicadas.

— Se tratando de você... Quando é que não são?

— Verdade — Logan não foi exatamente o meu primeiro caso de amor no qual eu tive problemas. Katy e Mary estão aí para provarem isso — Hei, te contei que agora eu tenho uma filha? – Eu queria mudar de assunto rapidamente.

— Santo Deus! Quase que me esqueço! – Brian levantou novamente e pulou na cama em cima de mim, comemorando – Parabéns papai – E me deu um beijo no rosto como uma brincadeira. Ele costumava fazer isso quando éramos menores apenas para me irritar. Hoje em dia isso não funciona mais, porém, foi engraçado.

Logo Brian voltou-se à poltrona e estava mais sorridente do que antes (se é que isso era possível). Eu, no entanto, levantei-me e fiquei próximo à sacada.

— Você me contou por e-mail e eu levei uns dias para acreditar nessa história toda.

— É. Minha vida virou de cabeça para baixo depois que a Lily morreu.

O sorriso no rosto de Brian desapareceu instantaneamente e este se juntou à mim, na sacada do prédio. Brian era meu amigo, mas ele conhecia minha família e isso incluia Josh e Lily.

— Sinto muito.

— Tudo bem. Já faz um tempo.

— Eu quero dizer... Sobre o Josh. Primeiro a sua irmã e agora seu irmão.

— Ah! – Tinha me esquecido que havia comentado com Amara no telefone sobre a minha briga com Josh. Claro que eu não havia mencionado Logan. Dei um desculpa de que havia sido por causa da herança da Lily. Como toda família costuma brigar por coisas do tipo, achei que iria disfarçar um pouco – Como eu disse: muita coisa aconteceu. Meu sobrinho veio morar comigo, ganhei uma filha, levei um tiro, briguei com meu irmão no natal e estou num relacionamento muito complicado.

— Que vida cabulosa!

Brian comentou e aquilo me fez rir. Ele deixava qualquer um confortável para se expressar usando gírias e falando besteira o tempo todo.

— Sabe... – eu aproveitei para dizer algo à ele. Algo que venho guardando desde sempre – Eu já sabia antes disso, mas naquele dia eu tive certeza. Eu... Sou bissexual, Brian.

Meu pai, famoso em uma vila onde passou a maior parte da vida, tinha uma pequena cabana. Bom, ele dizia que era um chalé, mas as verdade é que realmente era uma cabana. No meio da floresta, porém perto desta vila. Havia um rio que passava lá perto onde eu, meus irmãos e meus amigos brincavam. Foi durante uma das muitas férias de verão que passei lá.

Eu e Brian estávamos sozinhos enquanto nos banhávamos no rio. Fazia um tempo que as meninas da vila já não queriam mais compromissos com nenhum de nós. Josh, Brian, Franky e Otto – acompanhados por mim, é claro – ficaram conhecidos entre a mulherada por não assumirem um compromisso e naquela época isso era algo muito sério. Então sem mulheres e com muitas brincadeiras de agarramento enquanto seminus, acabamos por ficar excitados.

E foi quando aconteceu.

Eu e ele trocamos algumas carícias apenas para... relaxar. E, mesmo após todos esses anos, nunca tínhamos tocado nesse assunto novamente.

— É, eu imaginava – Ele respondeu sem parecer surpreso. Apoiou se na grade da sacada e encarou a paisagem enquanto continuava a me tranquilizar – Você foi o único homem que tocou nas minhas bolas e continuará sendo até que eu morra. Não ligo que você seja bivolt.

— Obrigado. Senti que precisava esclarecer isso à você. Afinal, você é meu melhor amigo – Falei após terminar de rir do comentário com o trocadilho ridículo e sem sentido que Brian havia feito – E... Você não se importa de ficar de toalha aqui fora?

— Não. Pra que negar esse paraíso para as damas lá embaixo?

E o sorriso voltara a ocupar nossas faces enquanto retornávamos ao quarto deitando na cama. Brian pegou um controle remoto e ligou a televisão. Eu achei que ele colocaria algum filme ou programa, mas na verdade, estava escolhendo alguma música.

— Mais cerveja? – Ele me ofereceu. Eu balancei a cabeça negando mais e ele, talvez por preguiça, também não levantou – Você ficou com mais algum homem depois que eu me mudei? — Estávamos a encarar o teto enquanto tocava uma música qualquer na rádio que Brian havia escolhido.

— Só um.

— É ele quem você está namorando?

— Sim.

— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, certo?

— Eu sei é que... Não posso fazer isso sem ele.

— Eu entendo.

— Entende?

— Um pouco – Brian suspirou. Provavelmente me contaria algo que eu nunca soube. Como eu mencionei antes: ele era previsível – O nome dela é Opala. Ela é linda, maravilhosa. Virou meu mundo de ponta cabeça e eu queria dizer isso à todos. Esfregar na cara do primeiro bastardo que eu visse na minha frente que eu tinha ao meu lado a mulher perfeita... Ou quase.

“Ela não queria que eu revelasse nada a ninguém. Nem à vocês. Por isso briguei com Amara uma vez. Ela descobriu e ficou muito chateada por não ter contado à ela nem ninguém.

Sinto muita falta da Opala. Ela tinha esse jeito único de me fazer sentir a melhor pessoa do mundo quando estava ao lado dela e a pior pessoa do mundo quando estava próximo à vocês.

Ela nunca me revelou o verdadeiro motivo de querer esconder nosso namoro de todos, mas eu não aguentava mais e me separei dela. Dava uma desculpa de não querer estragar tudo por causa de pessoas invejosas, mas eu nunca acreditei nisso. À princípio achei que um de vocês – talvez Franky – tivesse algo com ela antes de mim, mas fiz meu dever de casa e ela não tinha nenhuma relação com nenhum de vocês.

Isso vai ser sempre uma icógnita na minha vida... Mas me marcou pra sempre. Nunca mais eu vou deixar outra pessoa me manipular dessa forma”

— Nossa – respondi quando ele finalizou a história com um suspiro e um sorriso irônico — Deve ter sido bem intenso.

— Você não tem ideia.

Bom, eu estava nesse relacionamento incestuoso com meu sobrinho e algumas pessoas haviam se afastado de nós por causa disso. Tínhamos Júlia, Franky e aquela tal de Hanna (amiga do Logan) do nosso lado, mas... É. Eu estava num relacionamento bem – como Brian havia dito – cabuloso.

— Na verdade, eu tenho.

A história de Brian com Opala me fez refletir naquele momento enquanto eu encarava o teto ao lado de Brian, se valia realmente continuar escondendo meu namoro dos meus amigos.

Foi fácil contar à Franky porque ele sempre esteve presente. Amara, Otto e Brian se mudaram para longe e com isso me senti mais confortável em contar à Franky. Além disso, no começo eu achava que poderia ser apenas aquele fogo por estar carente. Felizmente, Franky não reagiu contra, mas também não reagiu à favor. E se os outros reagissem da mesma forma?

Talvez eu devesse conversar com Logan quando chegar em casa...

— Saudades de quando as coisas eram mais simples.

— Minha vida nunca foi simples – respondi

— Verdade. Você sempre foi o exemplo para Amara e Otto.

— Pra você não?

— Sim, mas foi muito mais para eles. Você me fez abrir os olhos apenas, mas moldou um futuro para os dois... Se lembra de como nos conhecemos?

— Sim – falei sorrindo.

Brian era um pequeno ladrão de doces e balas quando eu o vi pela primeira vez. Para a infelicidade dele, eu o reconheci porque estudávamos na mesma escola e ele era cercado de amigos, então era fácil notá-lo e imaginar que ele não faria algo do tipo. Eu ficava sempre com Lily, pois ela tinha perdido um amiguinho que se mudara para outra cidade.

Eu me aproximei de Brian na tentativa de descobrir mais à respeito dele antes de decidir se contaria à alguém ou não. Não sei porque, mas aquilo ficou na minha cabeça e eu precisava saber mais. Talvez pelo fato de eu não estar acostumado com pessoas quebrando regras ou se rebelando de alguma forma... Foi um pouco difícil de me aproximar devido à sua popularidade, mas com a ajuda de Josh, eu consegui.

Brian continuava roubando uma loja ou outra de vez em quando e sumia com os doces. Até o dia em que eu resolvi seguí-lo. Ele se escondeu num canil abandonado e eu fui logo atrás.

Eu não achava que ele estivesse sozinho nessa história, mas ao surpreendê-lo lá dentro eu é quem fui surpreendido. Na minha cabeça ele roubava aqueles doces para comer sozinho ou partilhar com alguns amigos, mas o que eu não havia considerado até então, era que esses amigos fossem órfãos desprovidos de lar.

Sem lar, dinheiro, comida ou qualquer outra necessidade básica ainda por realizar, Amara e Otto passaram a ser meus amigos também. Brian parou de roubar doces e, comigo, passou a trazer comidas saudáveis para os dois.

Quanto à moradia, eu conversei com minha mãe sobre os dois sem dar muitos detalhes ou entregar Brian. Ela conversou com as amigas e uma delas estava tendo problemas para engravidar e resolveu adotar os dois.

Mas o problema ainda não estava resolvido. Os dois precisavam de um modelo, precisavam aprender a andar com as próprias pernas e lutar por seus sonhos e ideais – sim, meus amigos, desde pequeno eu já tinha pensamentos utópicos.

Por serem negros e adotados, sofreram muito com preconceito na escola chegando a abandonarem às vezes e foi aí que vi a necessidade de mostrá-los como crescer na vida e acabei tornando-me mentor dos dois.

Abri mão de muita coisa em minha vida por causa disso e da minha família – mas isso já é outra história – desviando de tal caminho pela primeira vez quando eu estive com Katy. Eu ia abandonar meus estudos e meu futuro para criar nossa filha...

Suspiro

Agora, olhando para trás... Minha vida sempre foi complicada mesmo e por isso eu queria tanto que as pessoas ao menos respeitassem meu namoro com Logan, mas ainda assim, não conseguia mais continuar a esconder aquele relacionamento dos meus amigos.

— Eu vou falar com ele – comentei quebrando o silêncio – Eu não quero esconder isso de vocês.

— Eu não ligo, mas... É meio chato porque poderíamos sair juntos ao invés de ele ficar se escondendo.

— O motivo é forte, mas... Não dá pra ficar nas sombras pra sempre e é melhor saberem por mim do que descobrindo de alguma outra forma.

— Isso eu concordo.

— Se ele concordar... O encontro no sábado será... Cabuloso.

Brian sorriu para mim e eu sorri de volta, mas por dentro as dúvidas vagavam como fantasmas desnorteados. O jeito era torcer para que tudo desse certo durante o encontro.