More Than That

21 Logan - Poster Girl


A movimentação e a barulheira do escritório era demais. Minha cabeça parecia estar prestes a explodir. Eu fechava os olhos e massageava as têmporas na tentativa de manter a calma, mas estava difícil.

Eu estava sentado, à frente de uma enorme mesa, esperando por Franky. Eu fui até o setor de Recursos Humanos da empresa para pedir transferência para lá e fui aceito. Agora precisava apenas acertar algumas coisas com Franky, já que ele era meu chefe até então, e estava tudo certo.

O problema era que Franky estava demorando muito. A secretária comentou que ele não estava se sentindo bem, mas não imaginei que fosse demorar tanto assim.

Já com raiva de tanto esperar, saí da sala que, mesmo de porta aberta, não recebia o impacto da barulheira que vinha do lado de fora. Estava um caos no escritório. Pessoas indo e vindo – quase correndo – de um lado para o outro.

A secretária, Jaqueline, não estava lá. Por sorte, Lisa estava por perto e consegui chamar sua atenção.

— O que está havendo? — Perguntei logo de característica

— Você não faz ideia, não é? — Lisa suspirou antes de continuar – Franky está passando mal. Acho que foi infecção e estão achando que é da comida que oferecem lá da cozinha durante o horário de almoço. Além disso, estourou um cano lá no banheiro e sem o Franky, Jaqueline está perdidinha. Eu já mencionei que temos dois clientes lá embaixo totalmente insatisfeitos porque foram atendidos pela Jaqueline e não pelo Franky? Já explicaram pra eles que o chefinho está passando mal, mas eles gostam de negociar com o Franky.

— Devem mandar alguém de algum outro setor. Posso entrar em contato com o pessoal do RH se isso ajudar em algo.

— Acho que o tal de Gilbert já foi resolver isso. Mas você me chamou. Queria algo?

— Além de saber o que está acontecendo, queria falar com Franky para resolver algumas coisas da minha transferência.

— Ah! É mesmo! Você é de lá agora! Por isso se ofereceu para falar com o RH.

Ela estava completamente aérea. Algumas pessoas a chamaram umas duas ou três vezes e ela nem se deu conta. Se eu não tivesse dito nada, ela não teria percebido.

— Eu tenho que ir. Espero te ver mais vezes.

— Com certeza – Falei com um sorriso no rosto, tentando ser gentil – Se o Franky está passando mal, deve ter ido embora. Até mais então!

Eu estendi a mão para que ela apertasse e assim o fez, porém, seguido de um inesperado beijo no rosto. Eu fiquei ali parado, alisando minha bochecha enquanto ela corria para atender as necessidades do escritório.

Não tenho certeza se ela me beijara de propósito ou se fora apenas uma maneira carinhosa de dizer “até qualquer hora”. Saí dali tentando disfarçar que aquilo havia me incomodado, mas… Por que aquilo havia me incomodado? Não fazia sentido.

O elevador fechou-se, porém consegui olhar rapidamente para o escritório antes de senti-lo descer enquanto meus pensamentos pulavam de um lado para o outro no meu cérebro. Imagino que seja devido ao fato de ela sentir algo por mim – ou ter sentido algum dia. Não tenho certeza se ela ainda nutre algum tipo de sentimento que vá além da amizade sobre mim – É. Talvez fosse a culpa por deixá-la na “zona da amizade”, mas o que eu podia fazer? Eu amo meu tio e minha relação com ele já é complicada demais.

O elevador abriu-se e fui caminhando até a portaria da empresa de cabeça baixa, na tentativa de que ninguém me reconhecesse e, dessa forma, poderia sair dali o mais rápido possível.

Felizmente não fui avistado lá dentro e, caminhando a passos largos, tratei de sair dali. Agora só faltava mais uma aula de Plano de Cargos e Salários na faculdade e depois eu iria para casa, ficar com o amor da minha vida. Era tudo o que eu mais queria naquele momento e, se minha nota naquela matéria não estivesse tão baixa, eu até faltaria àquela aula sem problema nenhum, mas… Fazer o que?

— Logan!

Eu ouvi alguém me chamando. Virei-me na intenção de descobrir quem era e minha vontade foi de me esconder em qualquer bueiro da cidade apenas para não ter que encarar tal pessoa.

— Ed! — Falei sorrindo. Não queria parecer rude, mesmo não estando afim de conversar com ele… aliás, de onde ele veio? — Quanto tempo.

— Sim. Desde aquela vez.

— Me desculpe. E-eu não queria ser rude…

Há um tempo atrás Edward me procurou pedindo dinheiro. Disse-me que era para a sua mãe que estava no hospital. Foi quando resolvi abrir o jogo com ele e disse que sabia que ele mexia com drogas.

A reação dele era exatamente como eu esperava: surpresa total, mas bem disfarçada para não comprometer-se. Ele ainda aproveitou-se de que eu sabia que ele era um subtipo de traficante e emendou tal história a história de sua mãe doente. Ele dizia dever um dinheiro ao traficante-chefe – ou seja lá como funciona a hierarquia no tráfico – e que este não queria saber da história de sua mãe.

Eu sabia que a história da mãe era mentira, pois Hanna já havia me contado coisas da vida de Edward, com isso, eu disse que não tinha o dinheiro. Edward não insistiu e desde então mantivemos distância. Era raro nos vermos até mesmo no campus da faculdade.

Eu estava preocupado por ele. Às vezes ficava imaginando se ele apareceria por lá ou não. Imagina coisas horríveis como uma morte encomendada por ele não ter o dinheiro que deveria.

Mas por outro lado, eu também fiquei um pouco aliviado. Não por ele usar drogas – até porque nem sei se ele usa mesmo – ou simplesmente traficá-las, mas por uma questão de autopreservação e, sinto em dizer, medo.

E em meio a essa divisão de estar aliviado e preocupado por estar afastado de Edward, eu também me sentia culpado. A minha vida ao lado do meu tio era maravilhosa, mas sabíamos que não seria como nadar num mar de rosas… aliás, nunca gostei muito dessa expressão, já que, rosas têm espinhos.

— Está tudo bem. Eu queria dizer algo a você, mas sinto que não vou ser bem recebido – Ele comentou olhando para baixo.

— É dinheiro, não é?

Edward fitou-me enquanto suspirava. Ele já sabia qual seria a minha resposta e ainda assim veio atrás de mim. Bom, isso é mais um sinal de que ele talvez estivesse me esperando em alguma esquina até o momento em que saí do prédio onde passarei a trabalhar.

— Dessa vez é diferente. Eu sei que você sabia que a minha mãe não estava doente, assim como você sabia que eu sou traficante. Eu fui até um pouco estúpido por achar que você me daria dinheiro por aquilo.

— Eu não te dei o dinheiro porque não tinha – Falei, tentando consola-lo, mas só depois é que fui perceber meu erro. Deveria ter ficado quieto. Os olhos de Edward pareceram brilhar por um instante como se dissesse “então se você tiver o dinheiro agora, você vai me dar!?”. Me arrependi amargamente de ter dito aquilo.

— Eu já te contei a história da garota do pôster?

— Não – Falei me tremendo da cabeça aos pés. Aonde ele queria chegar com toda aquela conversa?

— Bom, quando eu era adolescente… Mais jovem. Lá pela faixa dos treze anos. Eu tinha uma “queda” insana por uma modelo. Ela era loira, tinha um rosto e corpo perfeitos e deixava qualquer “cara” louco.

“Naquela época eu também era racista, homofóbico, transfóbico e alimentava vários tipos de preconceitos ridículos que são construídos e fortalecidos diariamente pela sociedade. E como todo hétero babaca, eu tinha o meu grupinho, então o bullying rolava solto quando nos juntávamos.

Por algum motivo eu comecei a perder o sono sempre que pensava no que fazíamos. Eu não me sentia feliz, não me sentia melhor. Ao invés disso eu me sentia sujo e, mesmo que não estivesse, um pouco sufocado. Não estava entendendo o que era aquilo e comecei a fazer “brincadeiras” cada vez mais agressivas pra ver se esse sentimento passava. E passava, era momentâneo pois quando o bullying acontecia eu me sentia poderoso e forte, mas logo a seguir eu me sentia um balão de ar murchando.

Eu só fui entender o que estava acontecendo quando conheci Hanna. Pois é. Eu não era diferente daqueles “caras” que você socou no primeiro dia de aula. Hanna quase foi uma vítima minha e do meu grupinho. A única coisa que me impediu de agir foi a garota do pôster.

Não sabia como isso era possível, fiquei abismado. Paralisado com uma transexual tão linda quanto a modelo que tirava meu ar e me deixava excitado. Naquele dia eu não dormi mesmo.

Eu fui conversar com Hanna. Pedi-lhe desculpas, mesmo sabendo que não apagaria nada do que fiz no passado. Eu só… Senti que devia fazer aquilo. Eu não esperava que Hanna me perdoasse então fui sem esperança alguma de que isso aconteceria, mas ela me perdoou e naquele momento eu me senti forte, confiante e poderoso novamente, porém dessa vez de um jeito bom, sabe? De um jeito que o bullying não me fazia sentir. Claro que logo a seguir a vergonha dominou meu corpo e minha mente.

Aos poucos eu fui aprendendo sobre muita coisa e percebi o quão idiota são certos preconceitos. Por isso, mesmo achando errado, tentei não jugá-lo quando nos apresentou seu tio, Logan. Não era da minha conta, não é a minha vida e eu não tenho o direito de impedir que você seja feliz mesmo achando que esse tipo de relação é errado.

Eu mudei bastante por causa da garota do pôster, mais por causa de Hanna e agora mais ainda por sua causa.”

Quando Edward terminou de contar ele ainda acrescentou um “obrigado” ao final, me deixando sem reação. Provavelmente eu devo ter ficado pálido porque não sentia o sangue em meu rosto e… Que história!

— Entende agora? — Ele continuou – Ele está ameaçando a Hanna.

Se eu já estava pálido antes, agora eu devia ter alcançado um nível de transparência jamais alcançado por qualquer ser humano.

O pior era que não dava para dizer se a história e/ou a ameaça eram verdadeiras ou não. A única coisa que consegui formar numa frase foi:

— De quanto você precisa?

— Quinhentos mil – O QUE AQUELE DESGRAÇADO FEZ PRA DEVER ISSO TUDO? SERÁ QUE ELE É ALGUM RETARDADO MENTAL? — Eu tenho quase quatrocentos mil que venho juntando à algum tempo, mas…

— Ainda falta – completei tentando segurar minha raiva.

Eu não tinha o dinheiro, mas poderia arrumar. Eu não queria ajudá-lo, mas a vida de Hanna estava em jogo. Eu não conseguiria me perdoar se soubesse que ela fora ferida porque meu orgulho não permitiu que eu ajudasse Edward.

— Ok… — Comecei a falar após um suspiro – Eis o que vamos fazer…

Os olhos de Edward brilhavam cheios de esperança novamente, porém toda esperança sumiu para dar espaço ao pavor ao ver um trio de policiais se aproximando.

— Meus jovens, recebemos uma denúncia bem específica quanto à mochila que este aqui está usando – Um deles falou, referindo-se à Edward – Podemos dar uma olhada.

Edward nem hesitou. Na mesma hora entregou a mochila ao policial. Um outro, parceiro deste, se aproximou de mim e, imaginando que ele fosse pedir a mesma coisa, entreguei-lhe a mochila.

Minha mochila não era algo duvidoso. Eu sabia disso, porém na mochila de Edward…

— Você não é um traficante muito bom, não é? — O policial disse sorrindo enquanto pegava as algemas para colocá-las em Edward que não lutou ou questionou – Você tem o direito de permanecer calado. Tudo o que disser pode e será usado contra você no tribunal…

Enquanto o policial ia prendendo-o e dizendo-lhe seus direitos, eu pus minha mochila nas costas e já me virava para ir embora, até ser abordado novamente.

— Aonde você pensa que vai, “jovenzinho”!? Você também vai dar umas voltas conosco.