More Than That
6 Logan - Let's Have A Party
Notas iniciais
Ele tinha partido. Ele acordou antes de mim e saiu silenciosamente sem fazer barulho para eu não acordar. Tio Nash era tão atencioso, generoso e muito carinhoso comigo. Cuidava de mim, porém sabia que eu tinha que andar com minhas próprias pernas, como no dia em que meu pai apareceu e ele não interferiu.
Então... Eu o amava. Eu o amo. E não só como sobrinho. Era algo mais.
Ele suspeitava que talvez fosse a carência, coisa que eu já havia descartado quando dormimos juntos. Aquela vontade de tê-lo por perto, de fazer de tudo só para estar ao lado dele só aumentava. Não era carência. Era um tipo de fogo. Paixão? Talvez. O único jeito de descobrir seria apostando em nós dois juntos. Eu estava disposto, nunca liguei para regras mesmo, mas ele... Aquilo foi uma surpresa para mim.
“Podemos descobrir juntos”
Eu ri. Ele parecia uma menina do colegial insegura.
A campainha da casa deu-me um susto. Levantei-me mesmo de pijamas e fui atender à porta. Uma mulher baixinha, com cabelos negros encaracolados caídos sobre os ombros. Tinha o rosto fino e olheiras. Devia ter chorado por dias e estar sem dormir também. Não parecia estar com paciência. Tia Mary nunca fora muito paciente.
– Logan?
– Tia Mary.
Tia Mary era exatamente do jeito que eu me lembrava. Era menor do que eu, magra, o cabelo encaracolado jogado sobre os ombros, estava vestindo uma camisa xadrez e uma calça jeans. Pelas olheiras, devia ter ficado noites sem dormir após separar-se do meu tio. Aquilo acabou com a alegria daquela manhã. Me senti sujo, me senti desconfortável de uma tal maneira que comecei a ficar acanhado perto dela.
– Hei. Uh... Sinto muito pela sua mãe. – Eu assenti e segurei meu braço. Ela estava sendo tão simpática. Por que ela tinha que ser tão simpática? – Você está bem?
– S-sim.
– Seu tio está? – Ela perguntou receosa – Eu não vi o carro dele, mas... não sei...
– Não. Ele... uh... Ele saiu. Não sei ao certo aonde ele foi. Sinto muito.
– Nah! Tudo bem. Posso entrar? Eu vim buscar algumas coisas minhas que ficaram aqui desde que... bem...
– Claro. Vem...
Tia Mary entrou. Ela ficou um pouco constrangida ao entrar no que antes já fora sua casa. Fitava cada canto, cada móvel, cada poeira. Pela expressão em seu rosto e com os olhos brilhando de tristeza, devia estar sentindo falta, ou talvez algum tipo de repulsa. Eu nunca saberei.
Ela subiu as escadas e foi buscar suas coisas. Enquanto isso fui até a cozinha preparar um café para oferecê-la. Ela estava sendo gentil comigo apesar de tudo. Se bem que... Ela não sabia.
Ela não sabia que eu havia beijado meu tio. Ela não sabia que eu havia dormido com meu tio, seu ex-marido. Ela não sabia que eu desenvolvi sentimentos por ele e ele por mim. Ela era a vítima.
Espera... Vítima? E se não foi ela quem começou toda essa história de divórcio? E se a culpa toda de meu tio estar sofrendo não era dela?
Eu balancei a cabeça em negação no instante em que ela entrou na cozinha. A água já estava fervendo enquanto eu babava perdido em meus pensamentos.
Mas e se?
– Você cresceu. – Ela comentou sorrindo levemente. Meu coração acelerou. – Como está o Shazam?
– Ele está ótimo. Ficou com a minha vó quando eu vim para cá. Pelo menos até eu arrumar um lugar para ir. – Eu menti. Eu não estava mais procurando um lugar para ir, mas me sentiria mal caso ela soubesse que eu ficaria ali com meu tio. Estava começando a me sentir como se estivesse fazendo a maior besteira de toda a minha vida – Aqui está seu café. – Falei colocando um pouco de café numa xícara e oferecendo-a.
Nós sentamos e conversamos por um bom tempo, porém não foi tão ruim quanto eu achava que seria. Ela ficou comentando sobre acontecimentos do passado relacionado à nós dois. Apenas uma vez... ela perguntou sobre meu tio.
– Ele está bem? – Ela perguntou, após um longo silêncio – Ele não é o tipo de pessoa que esconde o que sente. Deve ser difícil ficar com ele aqui choramingando pela casa. – Nós dois forçamos um sorriso. Percebi que, assim como eu, ela não queria deixar-me ou ficar desconfortável sobre o assunto.
– Sim – Respondi.
Nas primeiras semanas, tio Nash parecia ter absorvido meu superpoder de esconder o que sente. Descobri alguns dias depois que dormimos juntos naquele dia, mas ele disfarçou bem.
– Está ficando tarde – Ela disse, levantando-se de um salto.
Tia Mary aproximou-se de mim, depositando um beijo suave e um pouco trêmulo em meu rosto. Bagunçou o meu cabelo e caminhou até a sala, para pegar a caixa com alguns pertences seus.
– Quer ajuda? – Perguntei
– Você é muito gentil, mas obrigada. Eu posso carregar.
Nós nos encaramos ao ouvir um barulho de carro vindo do lado de fora. Era um barulho comum à nós dois. Me aproximei da janela para confirmar minhas suspeitas, que infelizmente, eram verdadeiras. Meu tio acabara de chegar.
Meu coração batia acelerado. Minha respiração estava alta. Eu estava congelado. Não conseguia me mover. Não tive reação.
Tia Mary, no entanto, simplesmente abaixou-se pegando a caixa com seus pertences e foi em direção à porta, me pedindo para abrí-la para ela. Foi quando eu despertei de meus pensamentos e meus pés voltaram a responder os comandos do meu cérebro.
Eu tremia todo, e acho que tia Mary também – eu não estava prestando muita atenção nela, visto que minha mente estava ocupada, imaginando no que aconteceria quando meu tio e ela se cruzassem na saída — Ela me deu uma última olhada, assim como eu também dei uma rápida olhada nela e abri a porta.
Tio Nash estava sério, aproximava-se com algumas pastas sobre o braço e as chaves do carro na mão. Ele já deveria imaginar que tia Mary estaria ali pelo carro estacionado no lado de fora.
– Mary! – Ele disse – Veio buscar o resto das suas coisas?
– Sim.
– Você pegou tudo ou precisa que eu lhe ajude com algo?
Tia Mary o encarou suspirando. Ela virou-se, fitando-me. Tio Nash também me encarou. Por que eles estavam fazendo toda aquela pressão em mim? O que eu tinha a ver com isso?
– Você precisa dele. – Ela falou abrindo um sorriso.
Tio Nash continuava a me olhar, sem piscar, encarando meus olhos, fazendo meu coração acelerar. “Será que ele diria algo à ela”, pensei. Eu estava com medo, com medo de fazer um dos dois (ou os dois) sofrerem, estava com medo de machucá-los, simplesmente por estar ali.
– Sim, eu preciso. – Tio Nash sorriu enquanto tia Mary caminhava até o carro em que viera. Provavelmente emprestado.
Tio Nash entrou e foi até a cozinha. Eu o acompanhei. Assim que ele deixou suas coisas sobre a mesa eu corri até ele e o abracei forte. Ele levou um susto, visto que demorou alguns segundos até processar que eu havia corrido para ele. Senti seus dedos em meu cabelo, acima da nuca. Seus braços me envolveram e seus lábios tocaram minha cabeça levemente.
– Está tudo bem – Ele disse.
– Eu não sei se consigo – Desabafei – Eu quero estar com você, nunca me senti tão bem, tão vivo... Mas nosso relacionamento vai machucar algumas pessoas.
– Provavelmente – Tio Nash engoliu em seco, pressionando ainda mais nossos corpos – Por isso preciso de você.
Ele segurou meu queixo de leve, inclinando minha cabeça para trás. Tio Nash sorriu de lado e lentamente depositou seus lábios carnudos, porém macios, em meus lábios. Suas mãos moviam em minhas costas, subindo até a nuca e descendo até meus quadris enquanto nossas linguas se entrelaçavam.
Queria que nossos lábios ficassem sempre selados, porém já estava perdendo o fôlego. Não queria acabar com o beijo. Este beijo que parecia durar horas, quando na verdade era questão de segundos.
– Hey... Logan.
– O que?
– Hora da festa.
Então ele abriu um largo sorriso, o que me fez sorrir também.
A noite chegou rapidamente e com ela, os convidados da nossa reunião. Tio Josh, Tia Chloe e Chace chegaram primeiro. Minutos depois, minha avó e minha amiga Rachel, chegaram de táxi e trouxeram até o Shazam! Que saudades que eu estava do meu gato!
Chace e Rachel estavam conversando isolados em um canto mais escuro da sala. Provalvemente meu primo já estava investindo nela. Não podia ver um par de seios fartos e já ia logo arrumando um jeito de alcançá-los. Me aproximei pra infelicidade de Chace, que revirara os olhos ao me ver chegando.
– Sério, primo? – Ele disse irônicamente
– Rachel, você quer transar com Chace?
– Não. – Rachel estava se comportando, mas eu sabia que por dentro, ela estava rindo horrores. – Desculpe, Chace.
– Você podia, pelo menos, falar isso no começo da conversa!
– É, porque você realmente iria se enturmar com os outros. – Falei ironicamente. Chace não tinha paciência para idosos, portanto não ficaria com nossa avó, conversando. Ele esteve a vida inteira junto dos pais, então era normal querer um pouco de distância naquele momento. Tio Nash e Chace nunca foram tão chegados assim. Eu e ele sempre fomos tratados igualmente, mas desde pequeno, durante as reuniões de família, tio Nash parecia ser mais carinhoso comigo – Me lembre de manter o Shazam longe de você!
– Há, há. Engraçadinho – Chace suspirou – Vou ali já volto.
– Não fique chateado, você é bonitinho. – Rachel falou fazendo Chace sorrir para ela.
– Sério? – Perguntei quando meu primo virou pelo corredor. Deve ter ido ao banheiro. – Chace?
– Ele é bonitinho. Ciúmes? – Rachel sorria balançando o corpo. Estava feliz e isso me fazia feliz. Nós dois sofremos no passado por pessoas próximas. – Você sabe que eu estou namorando.
– Eu não estou com ciúmes. Estou apenas fazendo o meu papel de melhor amigo e protegendo você.
– Chace não parece ser o tipo de pessoa do qual eu precise de proteção – Eu engoli em seco, mas sorri para disfarçar. Se ela soubesse o que eu Chace fizemos... – Além disso, você não faz o tipo “protetor”.
– Ah não? E que tipo que eu faço?
– Hm... Deixa eu ver... uh... Que tal rebelde!?
Nós dois rimos. Uma clara referência ao meu passado. Rachel estava bem nostálgica hoje. Me fazendo lembrar dos anos passados com ela e mais dois antigos amigos nossos. Eu a encarei. Será que ela estava fazendo aquilo de propósito? Será que, de alguma forma, ela queria que eu lembrasse de algo? Bom, nada disso importava. Eu e ela éramos grandes amigos devido às mágoas do passado e, apesar de toda a dor, eu não trocaria aquilo por nada.
– Você está me encarando.
– Você está linda hoje – E de fato estava. Rachel estava usando uma jaqueta marrom, uma camisa rosa por baixo, calça jeans e botas. Todo o seu visual combinava, não só com seu corpo, mas com seu cabelo preto com cachos para o ar. E tinha também aquele ar de menina doce e inocente, mas com um olhar provocador e sensual – Se não fôssemos amigos e não estivéssemos namorando, certamente investiria em você.
Rachel revirou os olhos, me fazendo rir. Ela sempre reclamava quando eu dizia coisas do tipo.
– Você e essa sua política de que amigos não podem namorar... Vai, pelo menos, me dizer quem é a afortunada?
– Eu disse que não era uma menina.
– Hm... Tudo o que você está dizendo sobre esta pessoa que você está namorando, está levantando todos as bandeiras vermelhas. Sinal de perigo.
– Mas eu não falei nada dessa pessoa!
– Exatamente!
Nós dois rimos.
– Não estou pronto para que as pessoas saibam quem é meu namorado – Eu ri novamente – É tão estranho dizer essa palavra no masculino. Nunca pensei que diria isso referente à mim.
– Há muitas coisas nessa vida que não entendemos... Luke veio te procurar essa semana.
– Acho que você mencionou isso ontem, pelo Skype. Ele que se dane! Você perdoou ele?
– Sim... E acho que você deveria fazer o mesmo.
Eu encarei Rachel nos olhos. Ela estava sendo sincera comigo e eu sabia que precisava perdoar meu amigo, mas só de lembrar dele transando com minha ex no banheiro daquela festa...
– Rachel, eu... Preciso ir ao banheiro. Chace deve ter saído de lá e se não tiver saído, eu mesmo farei com que ele saia.
Rachel riu, mas não me acompanhou. Juntou-se à minha vó e à minha tia Chloe, que estavam sentadas no sofá maior, com Shazam deitado aos pés delas.
Passei pelo corredor e, portanto, pela cozinha, onde meus tios conversavam. Tio Nash me viu passar e abriu um sorriso enorme e radiante. Tio Josh, que estava com uma garrafa de cerveja em mãos, acenou para mim.
– Fico feliz que esteja bem, Logan. – Disse Tio Josh – Eu tive um pouco de medo por você.
– Eu também. Não sabia o que fazer com a minha vida, mas Tio Nash e eu estamos trabalhando nisso.
– Isso é muito bom. Ele precisa de alguém também — Tio Josh falou sorrindo.
– Chace ainda está no banheiro?
– Não. – Tio Nash respondeu e após, tomou um gole da cerveja em sua mão – Ele está no jardim dos fundos.
– Você tem um jardim?
– Mary gosta de flores – Ele disse dando de ombros, fazendo-me rir.
Revirei os olhos e saí andando. Passei pela copa, que era adjacente à cozinha devido à um pequeno balcão. Abri a porta para sair, mas antes dei uma última olhada em meu tio. Ele estava conversando alegremente com tio Josh. Estava distraído... e feliz. Ótimo.
Chace estava encostado à parede com uma garrafa de cerveja na mão encarando as estrelas. O Jardim era pequeno, como eu havia imaginado. Haviam quatro canteiros com flores que eu jamais saberia seus nomes, divididos por uma trilha de pedras. Do outro lado do jardim, havia um pequeno – minúsculo, na verdade – quarto e, ao lado, uma rede. Era tudo muito bem organizado e limpo. Bem no estilo de Tia Mary.
– Seu pai sabe? – Perguntei referente à cerveja em sua mão.
– Sim. Ele não liga muito. – Chace sorriu
– Olha... Me desculpe por te atrapalhar com Rachel. Eu não queria. Às vezes eu não consigo evitar por o Luke... Bom, você sabe da história.
– Está tudo bem... E você devia deixar isso para lá. Esquecer.
– Quando seu melhor amigo transar com a sua namorada, pessoa que você mais ama no mundo, me diga como você fará para esquecer.
– Você me entendeu. – Chace disse sem paciência – Você se esqueceu?
– Sobre o que fizemos?
– É.
Por que Chace havia tocado “nesse” assunto? O que isso tinha a ver com a minha história com Luke?
Eu não tinha mais coragem para encarar Chace. Abaixei minha cabeça e encostei-me na parede ao lado do meu primo. Eu queria responder “não” à ele, mas como eu poderia? Vi pela sombra no chão, que Chace virou seu rosto em minha direção.
– Você está me perguntando se eu lembro de termos ajudado Tracy abortar um filho que poderia ser de um de nós? Sim, eu me lembro. Bem que eu queria esquecer – Falei cerrando os punhos com força. Por quê? Por que me fazer lembrar daquilo?
– Vocês dois fizeram o que?
Eu ouvi a voz de tio Josh, mas quando levantei minha cabeça em desespero para confirmar se era mesmo ele, tio Nash estava ao seu lado. Os dois nos olhavam profundamente e naquele momento eu quis estar junto de minha mãe.
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