More Than That

12 Julia - Lights On (Parte III)


Ela já chegou, tio?

Deve estar vindo por aí.

Eu escutei um barulho de porta abrindo será que é ela?

Tomara. Ela vai acabar atrasando toda a história!

A nossa história já é bem grande e com ela atrasando não vai ajudar em nada. “Timming do pai”, é? Ela chega tão atrasada quanto você!

O que tem eu?

Ah, chegou!

Estou muito atrasada?

Não... Bom, está um pouco. Mas pode começar a contar quando você quiser.

Tudo bem... Onde vocês pararam?

Tio Nash contou a parte em que você nos viu no corredor fazendo... Você sabe. A porta no quarto onde você estava, ficou entreaberta.

Oh! Ok. Vamos lá!

Quando meu pai e meu primo me acompanharam, juntamente de Marcus ao meu quarto, fui tomar um banho para esquentar-me. Se a intenção do meu pai era me fazer sentir frio, bom, ele conseguiu.

Quando Marcus percebeu que saí do banho, ele entrou. Fiquei deitada em minha cama lendo Harry Potter e a Câmara Secreta enquanto esperava por Marcus. Quando este saiu do banheiro, ficamos sentados conversando até que o sono chegou para ele.

Olhei para o relógio e percebi que passaram-se apenas alguns minutos. Achei que a conversa havia durado mais tempo. Resolvi acessar minhas redes sociais para atualizar meu status e comentar no meu blog sobre a minha viagem, porém a internet não funcionava. Com muita raiva, fui até a recepção e pedi que fizessem algo a respeito. O jovem atendente — que aliás era bem gatinho – discou algum número no telefone e pediu que desligassem o roteador e o religassem, só que ele havia usado outra palavra que agora não me lembro.

Ao voltar para o quarto para verificar se a internet havia voltado, deixei a porta do quarto entreaberta, mas não havia percebido naquele momento. Instantes depois, escutei a voz do meu pai e de Logan.

Os dois falavam baixinho no corredor, como se estivessem contando segredos. Eu não deveria prestar atenção, mas a curiosidade falou mais alto. Eu tentei não levantar da cama, deixando o notebook de lado para ver o que os dois estavam dizendo e fazendo, mas não consegui.

Me aproximei da porta e espiei rapidamente. Os dois estavam de mãos dadas como um casal adolescente. Algo me dizia que aquilo era estranho, porém tentei não me importar, afinal, meu pai havia sido baleado. Talvez tivesse acontecido alguma coisa.

Até que Logan entrou no quarto em que dormiriam tirando sua roupa. Senti minhas bochechas ficarem quentes, o que significava que eu estava corando, mesmo que não houvesse motivos para isso. Talvez ele só estivesse indo tomar banho, da mesma forma que eu fui.

Logan voltou à porta e beijou meu pai na boca.

A minha vontade era de gritar com o susto que levei, mas rapida e instintivamente levei minha mão à boca, para que isso não acontecesse.

Meu pai? Beijando Logan? Será que os dois estavam bêbados? Seria possível, visto que ambos pareciam ter voltado de algum lugar. Talvez os dois não tivessem ido dormir quando eu e Marcus nos retiramos e... Não. Não era possível.

Mas sim, os dois aparentemente eram um casal. Isso se confirmou quando meu pai olhou rapidamente para a porta que eu fechava lentamente para não fazer barulho. E ele não estava bêbado. Eu sabia disso porque nenhum dos dois haviam deixado cheiro de álcool no ar e eu já fui obrigada a conviver com um padrasto alcólotra, então eu saberia disntinguir, apenas não conseguia aceitar.

Meu pai estava namorando meu primo.

Como eu conseguiria dormir com a visão perturbadora de agora à pouco? Como eles conseguiam dormir juntos sabendo que eram da mesma família!? Ao mesmo tempo em que nada fazia sentido, tudo fazia sentido e isso me deixou muito confusa.

Os olhares, o modo esquisito que um tratava o outro, a ligação que eles tinham, o namoro que meu pai fazia questão de esconder... Tudo estava ficando claro agora.

Mas eles são sobrinho e tio! A mãe de Logan era irmã do meu pai Nash! Como isso era possível!? Como os dois conseguiam se beijar sem sentirem os calafrios que eu sentia agora!? Eu não ligaria que meu pai ou Logan fossem homossexuais, mas um namorar o outro!? Não. Isso era demais para mim. Eu não consegui dormir, pois tentava organizar meus pensamentos redundantes. A única coisa que eu conseguia pensar era “como”?

Quando olhei para a janela, o dia já estava nascendo. Era possível ver a claridade começar a invadir a estação. E com a manhã vieram novos pensamentos do tipo “como farei para encarar os dois agora que sei do romance secreto deles?” ou “conto para Marcus ou não!?”. Eu estava perdida, e quanto mais o Sol se exibia, mais eu me desesperava.

Quando Marcus levantou, ele fitou-me estranhando meu olhar distante envolto de grandes olheiras enquanto eu segurava minhas pernas dobradas junto ao corpo e o cabelo no ar de tanto passar a mão no mesmo.

– Bom dia... Você está bem?

– S-sim.

Respondi sem encará-lo. Como poderia? Ele era meu melhor amigo e eu teria que mentir para ele. Não tinha como eu dizer à ele que meu pai e meu primo estavam num relacionamento que parecia estável. Não podia.

“Mas também não posso mentir”, pensei.

Engoli em seco enquanto Marcus ainda me encarava, curioso para ver o que eu diria.

– Eu... Preciso te dizer algo – Falei pausadamente – Preciso falar isso com alguém. Não vou conseguir manter isso em minha mente.

– O que houve? Você parece abalada.

– É porque estou! Eu vi uma coisa ontem... Eu vi... – Suspirei fundo, buscando todo o ar para meus pulmões – Meu pai e Logan estão namorando!

Falei a última frase tão rapidamente que nem eu entendi direito o que havia falado.

– Meu pai e Logan estão namorando – Falei pausadamente, mais para mim do que para Marcus.

Era a primeira vez que dizia aquilo em voz alta, o que tornava a situação ainda mais assustadora.

Fitei Marcus, na esperança de ver o mesmo desespero em seu rosto, mas ao invés disso encontrei a expressão de desapontamento.

– Parece que você descobriu mais cedo do que eu imaginava – Ele falou numa simplicidade assustadora.

– C-Como é!? – Não... Será que ele já sabia? Não...

– Eu já sabia – Ele suspirou e cruzou os braços. Sempre fazia isso antes de me explicar algo, portanto, aguardei para saber o que ele me diria – Eu escutei. No dia em que ele teve a ideia de fazermos esta viagem. Você estava com sua mãe no telefone e ele e seu pai estavam se beijando. Seu pai disse algo como “Vamos para de beijar porque Julia está aqui, preciso atender à porta”. Depois disso as coisas ficaram mais nítidas para mim. O comportamento estranho dos dois, por exemplo...

– E você não achou que seria importante me dizer uma coisa dessas?

– Como eu disse: Não achei que você descobriria tão cedo. Deve ser estranho saber que seu primo e seu pai namoram. Como é o sentimento?

– Bem... É... – Eu tentei explicar mas as palavras simplesmente não saíam – Eu não... Não sei – Foi o que consegui naquele momento.

Marcus, encarou-me nos olhos enquanto dizia que eu deveria conversar com meu pai. O único problema era que talvez meu pai não quisesse falar sobre isso, caso contrário ele já teria dito algo à essa altura, certo?

Os minutos se passaram, porém meu desespero ficou. Marcus não estava contente com isso, visto que eu havia me tornado uma pessoa muito chata, mas eu não conseguia pensar em outra coisa. Eu e ele chegamos a discutir sobre isso e sobre o incesto de uma maneira geral.

Enquanto Marcus fazia sua higiene matinal, eu pesquisei alguns casos conhecidos de incesto através do mundo. Um dos mais comentados era fictício, fazia parte de uma história chamada “As Crônicas de Gelo e Fogo” onde uma rainha trai o marido com seu irmão e com este tem alguns filhos, mas que o rei acredita serem seus, ou quase isso. Fiquei horrorizada, não com a história do incesto em si, mas com a naturalidade que as pessoas falavam daquela história de amor entre irmãos.

Em outros casos – sendo estes, casos reais – os comentários das pessoas eram de ódio e preconceito. Condenando o amor que as duas pessoas de uma mesma família sentiam um pelo o outro.

Aquilo não me ajudou nem um pouco. Se eu já estava confusa antes, agora piorou. Talvez Marcus estivesse certo. Talvez eu devesse falar com meu pai. Eu não conseguiria ficar ali o dia todo com ele e com Logan do meu lado fingindo que nada aconteceu.

Com isso em mente, achei que quanto mais cedo eu falasse sobre o assunto, melhor seria para todo mundo, por isso resolvi esperar até terminarmos o café da manhã.

Como eu havia imaginado, foi bem difícil ficar perto dos dois enquanto tomávamos café. Principalmente quando estes se encaravam trocando sorrisos. E o pior nem era isso. O pior era que eu não sabia como me sentir. Meu coração estava divido entre o que eu achava certo e o certo que haviam me ensinado desde sempre. Eu queria acreditar que havia nada demais no namoro dos dois, mas ao mesmo tempo eu sentia uma sensação estranha, como se estivesse presa num espelho e ninguém notasse a minha presença, exceto por Logan e meu pai.

Assim que nos levantamos para finalmente começarmos o dia com passeios, chamei me pai no canto, que me encarou preocupado. Disse à ele que havia algo que precisava ser discutido antes de começarmos. Ele ficou preocupado e o tempo todo olhando para Logan. Creio que ele já suspeitava que eu havia descoberto.

Voltei com Marcus para nosso quarto, mas desta vez, Logan e meu pai foram conosco. Marcus achou que deveria sair assim que percebeu que eu falaria sobre isso, mas eu pedi que ele ficasse.

– Eu sei

Falei em alto e bom som para que todos os três escutassem. Estranhamente me senti liberta de algo e pela primeira vez naquele dia, pude respirar sem sentir um aperto no coração. Não que este não voltaria segundos mais tarde, mas naquele momento, me deixou.

– Sabe do que? – Meu pai falou enquanto jogava um sorriso pela boca para disfarçar o nervosismo – Julia, o que aconteceu?

– Eu sei. Eu sei sobre o relacionamento de vocês. Eu sei que vocês transaram ontem, assim como imagino que tenham feito isso durante meses. Eu sei. Eu sei. Eu sei. Eu... Sei!

– Julia... – Foi tudo o que meu pai conseguiu dizer enquanto eu encarava ele e Logan.

– Você nos viu ontem? – Perguntou Logan, recebendo um olhar severo de meu pai

– Sim – Respondi – Eu estou desconfiada desde que ele levou um tiro por você.

– Entendo... Bom... – Logan suspirou – É verdade.

– Logan!

– Que foi? – Logan encarou meu pai, mas ele não estava triste. Estava sorrindo – Eu te amo. E é tão estranho para nós quanto é para todo mundo, nós deixamos isso bem claro quando começamos.

– Achei que fosse estranho apenas para quem estava de fora da história – Comentei. Aquele seria o melhor momento para finalmente poder entender.

– É claro que é estranho para nós – Meu pai finalmente falou – Eu vi Logan quando este era apenas um bebê, eu escutei histórias de sua infância a partir de minha irmã. Eu e ele conversamos sobre ex-namoradas que tivemos em festas antes mesmo de tudo isso pelo que viemos passando nos últimos meses após a morte de Lily.

– No início eu achava estranho. Me sentia errado, mas ao mesmo tempo não conseguia manter longe o pensamento de que precisava do meu tio.

– Acreditávamos que era apenas um momento de carência em nossas vidas, porém nossa relação tornou-se algo maior que isso. Hoje eu levaria um tiro por Logan. Vocês sabem disso.

– E não pensem que vejo as coisas de forma diferente que meu tio.

– Uma vez tivemos uma longa conversa sobre nossa relação incestuosa e sobre os seres humanos de uma maneira geral.

– Percebemos que se você ama alguém, independente de quem seja ou como essa pessoa se pareça, não há problema nenhum nisso.

– Se para amar esta pessoa, você não está passando por cima das vontades de quem ama ou ferindo alguém, qual o problema nisso?

– Ainda não sabemos se contamos aos outros ou não justamente por isso. E porque não queremos romper nossos laços familiares ou de amizades.

Aquilo me assustou. O sincronismo dos dois me assutou. O olhar de insatisfeito da parte de Marcus me assustou. Estar numa boa em relação à isso tudo me assustou.

Ao contrário do que aconteceu segundos atrás, a sensação de estar com o coração apertado me deixou. Algumas lágrimas escorreram involuntariamente de meus olhos, porém logo pararam.

– Uh... Julia... – Meu pai ia dizer algo, mas eu pedi que parasse com um gesto de mão.

– Eu não me importo – Falei deixando todos surpresos, inclusive eu mesma – Ou pelo menos tentarei não me importar. Não ligo que vocês sejam gays, mas é meio estranho ver meu primo e meu pai namorando. Estranhamente fico feliz por não me sentir estranha sozinha. Se vocês se acostumaram, talvez eu me acostume também. Não quero romper nossos laços. Acabei de ganhar um pai e um primo maravilhosos então... Vocês podem ser namorados perto de mim.

Para a surpresa de todos, Logan me abraçou. Meu pai se aproximou e nos abraçou também.

– Obrigado, Julia.

– Está tudo bem. Não queria que as coisas fossem estranhas para a gente, mas agora percebo que isso é impossível – falei sorrindo.

– Marcus, está tudo bem por você? – Logan perguntou

Marcus respondeu com um aceno de cabeça. Estava feliz por finalmente termos encerrado aquele assunto. Eu com certeza teria que compensá-lo mais tarde, porém isso podia esperar. Agora eu estava livre, assim como minha nova família.

Notas finais
E - infelizmente - por hoje é só! Espero que vocês tenham gostado de acompanhar um pouco da relação do Logan com Nash sob a perspectiva da Julia. Esse foi o fechamento de "Lights On" e de mais uma parte da história dos dois, mas ainda não acabou, afinal, estamos apenas começando. O próximo capítulo trará de volta o modo antigo de narrativa, isto é, será narrado por Logan ou por Nash e a mudança de narrador não é algo que vai tornar-se comum, porém não prometo que não vai acontecer novamente. Então... É isso! Vou ficando por aqui. Até a próxima!! Gostou do capítulo e tem alguma sugestão, correção, reclamação ou dúvida? Sinta-se à vontade para comunicar-me! :D