Mordidas de Morcego
6 Capítulo 6 - O Mundo Lá Fora.
Notas iniciais
Adorei esse capitulo pq pela primeira vez conheceremos quem é a Emily.
Espero que gostem *.*
Emily se sentia uma idiota. Não se lembrava de ter se sentido tão estúpida antes na vida.
Por que diabos ela havia corrido de Chen quando ele a beijou?
Tinha plena consciência de suas inabilidades sociais, mas não esperava que fossem precárias a esse ponto. Afinal de contas, que idéia foi aquela do Chen a beijar? Ela não estava apaixonada por ele nem nada, estava?
- Aahh! – ela gritou e atirou qualquer coisa contra a parede para ver se a raiva de si mesma passava.
Tudo bem que ela, de forma psicopata, observava Chen há meses, se preocupava com ele e tudo o mais. Mas isso não significava que ela seria mais uma dessas garotinhas apaixonadas retardadas! Mas ao se lembrar de sair correndo do cemitério daquele jeito sentia-se como uma. Ela que se achava tão esperta.
A garota ficou tão confusa pelo próprio comportamento que passou alguns dias sem aparecer no cursinho, apenas para não ter que encarar o oriental novamente. Cogitou a possibilidade de sair do curso de uma vez, afinal, não estava aprendendo nada a não ser sobre um garoto oriental perturbado chamado Chen.
Passou o fim de semana pensando sobre tudo que aconteceu apenas nesses poucos dias em que teve contato com o garoto. Não se sentia tão viva há muito tempo! A maior parte do tempo sentia-se como um zumbi cambaleando entre os humanos. Por muitas vezes achava que não pertencia a lugar nenhum naquele mundo, e que a morte seria um lugar bem mais agradável. Por isso o cemitério lhe era tão confortante — ela se sentia em casa.
Mas então ela se apegou ao japonês idiota que se sentava há algumas carteiras de distancia dela. Ele parecia tão...sozinho. E tão cansado, e tonto ao tentar entrar naquela máquina de produção em série que era o mundo lá fora, o qual ela havia se negado a participar há tempos.
Emily tinha uma necessidade protetora por aquele menino, via que ele era uma marionete quebrada, mas que não conseguia se livrar de suas cordas e sair daquele mundinho, daquele planejamento insano para o futuro quando ainda eram tão jovens, de ser obrigado a sentir-se feliz quando nada o fazia senti-lo mais.
Entendia o garoto sentado molemente naquela cadeira, como se não quisesse estar ali, já estivera lá e sabia que não era fácil, mas realmente, não havia nada que ela pudesse fazer. Continuou apenas o observando a cada noite que passava, notando suas olheiras se tornarem mais profundas e seu desespero tornar-se contagiante. Por Drácula! Ele era japonês, era óbvio que ia passar no vestibular! Pra quê se preocupava tanto com ele?
A verdade era que preocupar-se com ele, fazia esquecer-se de se preocupar consigo mesma. E a fazia sentir como se não estivesse naquela sozinha, como se não fosse o último zumbi perdido no mundo dos humanos. E isso a fazia sentir algo parecido com... esperança.
Talvez realmente estivesse apaixonada por Chen todo esse tempo e não soubesse, ou talvez apenas quisesse ser amiga dele quase desesperadamente, chegando a sê-lo por telepatia.
Certa noite notou que o garoto não estava se sentindo bem, e não conseguiu conter-se. O seguiu tentando não ser notada, até ter certeza que ele chegaria em casa vivo, afinal naquele estado ele podia facilmente desmaiar, ser atropelado, ou cair num buraco negro, quem sabe?
Mas Chen a notou e falou com ela. Foi rude é verdade, e por um momento achou que estivesse enganada esse tempo todo, que ele não era como ela, que era um simples humano com suas cordas de marionete intactas. Mas estava decidida a levá-lo a salvo.
E no pouco tempo que passou junto a ele nessa caminhada percebeu que ele era exatamente o garoto que ela observava tão cuidadosamente há tanto tempo. Era apenas um menino de no máximo 18 anos, carregando muito peso nas costas, desesperado para que alguém dissesse que estaria tudo bem se ele falhasse, que haveria outras chances.
Foi assim que se apegou a ele de uma vez. Ele fora quem estivera tão assustado por todo esse tempo. Por que ela foi quem saiu correndo assustada na outra noite?
Decidiu-se por fim a falar com ele, explicar-lhe que talvez ele tenha confundido as coisas, que talvez ela tenha confundido as coisas e que precisava de tempo pra entender seus sentimentos em relação a este.
Porém, Chen não apareceu no cursinho na segunda-feira, nem na terça, ou quarta, ou todos os dias da semana que se seguiram. Decidida, e preocupada que o tivesse feito sentir rejeitado, no sábado foi até a casa dele. Lembrava-se do caminho daquela noite, havia o marcado na memória tão fortemente embora só houvesse percorrido uma vez. Assim como Chen a havia marcado também, embora só houvesse falado com ele poucas vezes.
Já em frente ao portão cinza, Emily respirou fundo e apertou a campainha. A espera pareceu eterna, sentia que o seu coração queria pular pela boca, afinal, ela não era um zumbi, nem uma vampira, embora ela gostasse de pensar que era.
Uma mulher japonesa magra de óculos que aparentava ter uns 50 anos atendeu a porta.
- Sim? – perguntou a mulher, olhando um pouco torto. Roupa gótica realmente não costuma causar uma boa impressão na maioria das pessoas.
- O-oi, meu nome é Emily, sou amig...conhecida do Chen. Será que ele está em casa? – perguntou ela reunindo todas as habilidades sociais que possuía naquelas palavras.
A mulher hesitou um pouco a responder, Emily achou aquilo estranho. A japonesa olhou pro chão evitando olhar para a menina. Emily sempre achou contato visual muito importante.
- Por favor, eu preciso falar com ele. – Emily insistiu, mesmo que a mulher não tivesse dito nada.
- Lamento querida, mas isso não será possível. – a mulher disse, finalmente a olhando, gentilmente. – Chen faleceu na semana passada.
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