Ao acordar senti um mal estar horrível. Meu quarto estava fedendo, não o arrumava há dias, talvez alguns meses. Restos de pizza debaixo da cama. Meias, cuecas, calças e camisas espalhadas pelo chão. Tudo o que eu tinha parecia estar ali, e a união não fazia a força neste caso. Para começar a arrumar tirei o lençol e a fronha de cima do meu colchão, que pareciam sujos demais. Eu mataria o Jack se os tivesse usado em suas safadezas.

Minha falta de habilidades não permitira que eu conseguisse lavar o lençol, é muito grande. Esperaria o dia que eu fosse visitar meus pais, eu não sentia falta deles mesmo. Viajar para o interior do Rio Grande do Sul e ficar longe de todas essas buzinas e loucuras de cidade grande para lavar um lençol?!

A minha diversão do dia era brincar de fechar e abrir o portão eletrônico enquanto minha vizinha tentava sair. Gostava de seu corpo pouco coberto abaixando para ver se era o motor que estava estragado. Parecia melhor do que inventar diálogos para as novelas da televisão.

Podia também estar indo a uma festa incrível, se não faltasse dinheiro. Sem TV a cabo e um filme medíocre passando na madrugada, esta seria minha única companhia. Um colchão perdido na sala de estar com pipocas espalhadas por todo o chão. Dormir no meu quarto depois de toda a arrumação que fiz pela manhã chegava a ser um abuso.

Quando senti que eu finalmente conseguiria dormir, as vozes da televisão já soavam como canção de ninar e pude ouvir um ruído grotesco. Uma chave conduzida por uma pessoa certamente bêbada que não conseguia encontrar a fechadura.

Alguns risos acompanhavam a entrada de Jack, notei que estava acompanhado. Uma garota loira que parecia muito com minha prima, a mais nova. Ele foi ao banheiro e ela ficou parada a minha frente esperando que eu falasse algo.

- Meu nome é Verônica! — Estendeu a mão e exibiu um sorriso tão grande que pareceu ser forçado.

- Que diferente seu nome. — Pensei em dizer que era o nome da faxineira da minha escola, mas achei melhor não. — O meu é Pedro. — Apertei sua mão.

- É um nome internacional, sabe?

- Pedro?! — Já me falaram que é bíblico, mas não é a mesma coisa que internacional.

- Não, Verônica.

- Ah é? — Sem nenhum entusiasmo.

- É até nome de queijo ralado na Argentina! Nome de amante vadia em novela mexicana, banda americana de gente que toca mal, seriado ruim americano.

- Unh. — Sorri esperando que ela percebesse que nada daquilo me surpreendia e que parecia cada vez mais com a minha prima pirralha.

- Eu descobri anteontem que guitarra tem seis cordas!

- Surpreendente! — Estava pronto para ligar a polícia, Jack só podia ser pedófilo.

- É que eu amo muito o Sid Vicious a ponto de ser necrofólica!!

- Bah. — Mal sabia limpar as fraldas e já podia falar tanta besteira. — Já terminou? — Aproveitei ao observar que ela estava quieta retomando o fôlego para falar sem parar.

- O quê?

- Nada. — Pensei em perguntar se terminara de falar feito uma desvairada, ou se o pai dela sabia que sua criança estava saindo com um bêbado.

- Victoria, vamos? — Jack surgiu da mesma forma que eu desejava que as mulheres das propagandas de cerveja surgissem. A diferença é que elas nunca aparecem.

- Meu nome é Verônica! — Quase berrou.

- Ah. — sorriu cinicamente.

- Vou embora! — Ameaçava ir embora para ver se ele pedia perdão, agindo como uma criança.

- Tchau, baby! — A forma como Jack dizia as palavras podia fazer com que qualquer pessoa se apaixonasse.

Em instantes a garota deixou o apartamento.

- Pegou na creche?

- Não, ela me seguiu depois que saí do ensaio. — Sentou ao meu lado tentando ver a que filme eu assistia. — Que filme de gente velha!

- Vai se ferrar! — Joguei um pouco de pipoca sobre ele.

- Vamos fazer algo melhor! — Foi para a cozinha.

- Mais pipocas? — As de manteiga e de presunto são melhores.

- Isso. — Sorriu maleficamente mostrando uma caixa de ovos.

Abrimos a grande janela que dava frente para a rua e começamos a jogar ovos nas pessoas e nos carros.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!