Morada

3 Efeito Rachel


Notas iniciais
Mais um capítulo saindo do forno.

Depois de quase não ter conseguido dormir por conta de todas aquelas coisas que vagavam por minha cabeça, sobre meus sentimentos por Rachel, chego à escola com a aparência de um zumbi. Meu humor não está dos melhores e como se não pudesse piorar, recordo que as duas últimas aulas de hoje são de história, o que significa dizer que estarei na mesma turma que Rachel.

Logo depois do intervalo, saio do refeitório e vou direto à sala de aula. É claro que quando entro na sala Rachel já estava lá. Por fora eu estava completamente normal, com a expressão de sempre... Ice Quinn, como costumam chamar. Mas por dentro meu coração estava batendo como se eu estivesse acabado de realizar um salto junto as Cheerios e tudo porque eu havia acabado de vê-la.

Passo por Rachel e aceno levemente com a cabeça. Apenas um cumprimento por gentileza. Ela lança um sorriso quase imperceptível, como se dissesse “Oi pra você também, Quinn”. Me sento em uma das fileiras do meio. Daqui consigo ver perfeitamente Rachel, seu encantador suéter de bichinhos e a tiara azul combinando perfeitamente com as meias que se estendem até os joelhos. Olhando desse ângulo, posso ter quase que certeza que a saia de Rachel está cada dia mais curta... Droga!

A professora anuncia que devemos nos direcionar a sala de vídeo. Pego minhas coisas e caminho em direção a saída, quando passo por Rachel e ela me faz sinal para espera-la e é claro que mais uma vez meu coração bate em ritmo alucinado. Já do lado de fora, me encosto próximo aos armários esperando que ela venha até mim.

– Quinn, eu sei que já tivemos inúmeras brigas por conta do assunto que quero tratar com você, mas não há como evitar. Eu acho super legal o rumo que a nossa amizade está tomando agora e ser sua amiga é algo que eu jamais acreditei que aconteceria, mas aconteceu e, para que tudo fique as claras e para que não aja mais desentendimentos, quero saber quais são sua intenções reais com Finn. – Ok, depois de divagar sobre esse lance de amizade a pergunta vem em torno de Finn? Fala sério! Essa garota se supera cada vez mais.

– Nenhuma. – Anuncio de forma rápida ao mesmo tempo em que a olho nos olhos, para que ela veja o quanto estou certa daquilo que falo.

– Como nenhuma? Você sempre o quis de volta. Nós sempre disputamos o amor dele. Como que de uma hora para outra você já não o quer mais? – Consigo perceber a surpresa estampada na face dela. Dado os fatos que aconteceram no passado, talvez fosse realmente complicado acreditar que eu havia estendido a bandeira branca em sinal de paz.

– Não foi de uma hora para outra, Rachel. Eu simplesmente não o vejo mais da mesma forma que antes, por isso, ele já não me desperta nenhum outro sentimento que não seja o de amizade. – Falo enquanto começo a caminhar ao lado dela na direção da sala. – Você está com o caminho totalmente livre para reatar o namoro com ele. – Digo isso mesmo sentindo algo dentro de mim se contorcer me causando uma espécie de dor... que estranho!

– Oh!!! – Ela pronuncia de forma a deixar evidente o seu total estado de surpresa. — Bem, você deve saber, eu não sou como você... quero dizer que não há muitos garotos indo atrás de mim. Eles não me disputam como fazem com você. Finn é único que demonstra gostar de mim de verdade e isso é importante, você sabe... isso de se sentir desejada por alguém. – Ela fala em um tom mais baixo. Já estamos entrando na sala de vídeo. Procuro um lugar e sento com o Rachel ao meu lado.

– Você pode ter certeza que Finn não é o único que deseja você. – Falo no automático. Só depois percebo o que acabei de pronunciar e no mesmo momento sinto meu rosto em brasas. Agradeço aos céus por as luzes terem sido desligadas nesse preciso momento, afinal, seria embaraçoso se Rachel estivesse vendo o quanto meu rosto está vermelho por conta do que eu acabei de dizer.

Ainda assim, noto os olhos castanhos vidrados em mim. Como se ela quisesse identificar o que havia por trás daquilo que acabou de ouvir. Rachel é curiosa, sei bem disso, assim como também sei que ela virá com inúmeras perguntas sobre o que ela acabou de ouvir.

A professora explica que veremos um documentário sobre algo que envolve a ocupação do território leste da América. O vídeo inicia e não me sinto nem um pouco a vontade estando tão perto de Rachel. A sala está escura e silenciosa. Todos prestam atenção no que é exibido no projetor de imagens, enquanto eu só consigo sentir o cheiro maravilhoso que vem de Rachel. Merda! Por acaso admiti que ela tem um cheiro maravilhoso?

Não consigo nem mesmo manter uma mesma linha de pensamento. Vou ter grandes problemas se essa situação continuar do jeito como está se desenvolvendo. Eu nunca me senti assim por ninguém, nem mesmo pelos meninos com quem fiquei que dirá por uma mulher. Ok, eu sempre prestei mais atenção nas meninas, na forma como elas andam, como se sentam, como estão vestidas, mas isso é normal, não é? Eu preciso saber como elas esses detalhes sobre o comportamento feminino, afinal, eu sou a líder das Cheerios, ou seja, o exemplo a ser seguido pelas garotas da escola.

Ahhh... nem sei mais o que estou pensando. Só sei que agora Rachel aproximou mais a sua cadeira da minha. Nossos braços estão em contato direto. É normal sentir arrepios por conta de um simples roce de pele? Quer dizer, estou com o casaco das Cheerios, por isso nem sinto a pele dela. Mas é como se sentisse. Essa aproximação toda não está me fazendo bem.

Olho para baixo e vejo de relance que as pernas dela estão cruzadas. A saia deve ter encolhido enquanto andávamos de uma sala a outra, só pode. Eu sinceramente acho que os pais dela devem chamar atenção dela por conta dessa roupa cada vez mais curta.

– Está frio. Você tem sorte por estar vestindo esse casaco. – Ela fala um tom tão baixo que mais ninguém poderia escutar. E agora me dou conta de que nunca havia escutado a voz dela tão próxima assim. Sinto novos arrepios por todo o corpo. Talvez esse não seja o efeito de Rachel em mim, mas sim uma febre que esteja chegando para me deixar enferma por uns dias. Melhor acreditar nisso.

Não consigo responder nada. Apenas olho para ela e sorrio, mesmo sabendo que mal conseguimos ver nossos próprios rostos. Então como se a situação não pudesse ficar mais embaraçosa para mim, sinto Rachel se aproximando e enlaçar um de seus braços ao meu. No mesmo segundo eu fico dura como uma estátua. Ela apoia a cabeça sobre meu ombro. E no mesmo momento vem a imagem de Santana e Brittany sentadas desse mesmo jeito na sala do coral.

– Tudo bem se eu ficar assim? – Sinto que ela tira a cabeça de meu ombro para me olhar enquanto lança essa pergunta.

– Sem problemas, Berry. – É a única coisa que consigo dizer agora que o cheiro do cabelo dela está tão próximo que mesmo que eu passasse anos sem senti-lo, eu ainda o reconheceria. Rachel tem um cheiro tão bom.

O documentário continua a ser exibido e eu continuo divagando com os pensamentos que giram em torno de certa morena que está quase sobre meu corpo. Eu sempre notei que Berry era afetiva demais, ao contrario de mim que sempre fui mais reservada, mesmo com aqueles que considero amigos mais próximos. Rachel estava sempre abraçando Finn, Kurt, Puck ou qualquer um que ela considerava amigo.

O braço dela em contato com o meu me fazem sentir a temperatura agradavelmente quente de nossos corpos juntos. Acho que ela também percebe isso, pois ela se aconchega mais ao meu corpo. É uma sensação muito boa de tê-la tão perto de mim. Mas ao mesmo tempo é agoniante. Me sinto nervosa. Tenho certeza que se ela aproximar a cabeça apenas alguns centímetros de meu peito, ela poderá ouvir meu coração batendo de forma acelerada. Isso seria constrangedor demais.

O documentário termina e antes que as luzes se acendam só consigo pensar no quanto eu gostaria de passar mais uns minutos tendo Rachel tão perto de mim... impossível que isso ocorra novamente. Quando as luzes se acendem, noto que ela está com uma carinha fofa de quem está sonolenta.

– Vejo que alguém estava a ponto de dormir. – Brinco sobre a aparência dela ao mesmo tempo em que ela se espreguiça de leve.

– Que culpa eu tenho se descobri que seus braços são extremamente confortáveis? – Ela fala enquanto sorri.

– Confortáveis? Tenho braços confortáveis a ponto de você quase dormir durante a aula? Espera! Confortável pode ser o mesmo que ser fofo, então... Por um acaso está insinuando que sou gorda, Berry? – Lanço um olhar intimidador, mas sei bem que ela entendeu aquilo como uma brincadeira.

– Ahhh, Quinn. Sabemos que a dramática sou eu. Assim como sabemos que você está longe de ser qualquer coisa que não beire a perfeição. Você é linda, Quinn. Mas não é como se você não soubesse disso. – Ela fala de forma simples aquele elogio. Eu já sabia que ela pensava isso sobre mim, mas nunca tivera o mesmo efeito que teve como agora. Minhas pernas quase falharam quando Rachel proferiu esses elogios a mim.

Antes de sairmos da sala a professora explica que teremos que fazer uma resenha do documentário assistido. Com um pequeno detalhe: a resenha deve ser feita em dupla.

– Podemos, Quinn? – Eu a olho nos olhos de forma intensa, não consigo evitar. Percebo que ela não fica tão a vontade com isso. – A resenha. Podemos formar a dupla para fazê-la?

– Claro que sim. Por que não poderíamos? – Pergunto ao mesmo tempo que caminhamos em direção a saída da escola.

– Bom, você sabe... nossa amizade começou de fato recentemente. Antes disso mal nos falávamos. Agora eu quase não acredito que já conseguimos manter um dialogo que não tenha ofensas vindas de você. – Ela começa a falar sobre nossa recente amizade e noto enquanto caminhamos que algumas pessoas ainda estão surpresas por nos ver caminhando e conversando, afinal, todos naquela escola sabiam que erámos inimigas declaradas até pouco tempo, mas ainda assim não me sinto intimidada diante o olhar curioso daquelas pessoas. Ao contrário, uso de minha pose de Ice Quinn para mostrar a eles que Rachel Berry é minha amiga e que o melhor seria que ninguém ousasse fazer qualquer brincadeira que venha a machucá-la. Qualquer ofensa, qualquer agressão cometida contra ela, deveria ficar enterrada no passado.

– Rachel, vou falar por uma ultima vez: Acredite que as coisas mudaram. Não sou a mesma de antes. O que sou agora com você ou com qualquer outro nessa escola é o que eu realmente sou, sem mascaras, sem segundas intenções, sem nenhum jogo. Você entendeu? – Pergunto enquanto já estávamos no estacionamento. Ela acena com a cabeça como se estivesse assentindo aquilo. – Você está de carro? Se não estiver posso te levar em casa.

– Ainda não sei dirigir. Meu pai ficou de vim me buscar. Na verdade, ele já deveria estar por aqui. Não se incomode comigo. Pode ir para casa.

– Vamos! Eu te levo sem problema algum. No caminho poderemos combinar sobre como faremos a resenha, se é que você não estava realmente dormindo durante o documentário. – Brinco enquanto a empurro em direção a porta do passageiro. – Ligue para seu pai e diga que não precisa ele vim te buscar.

Enquanto ela faz a ligação eu saio do estacionamento, não sem antes ligar o som para deixar o caminho para casa mais descontraído. Rachel desliga o telefone e imediatamente começa a acompanhar de forma divertida a música que tocava no rádio. Eu não consigo ficar séria enquanto ela faz uma performance hilária da música “Walking on a dream”.

– Eu juro que nunca imaginei você cantando algo que não fosse Barbra ou qualquer clássico da Broadway. Quem diria que Rachel Berry escutaria músicas desse tipo. – Falo divertida enquanto ela faz uma cara de quem estava realmente ofendida.

– Quinn Fabray, você está muito enganada a meu respeito. – Ela diz enquanto aponta o dedo na tentativa fracassada de me intimidar. – Sei muito sobre várias músicas, afinal, uma estrela deve conhecer um pouco de cada coisa do mundo artístico, isso inclui essas músicas que agora sei que você gosta.

– Diva! Você é tão diva quanto Mercedes. – Falo e ao mesmo tempo noto o lábio inferior dela se contorcer como se estivesse profundamente magoada com o que acabei de dizer. Ela me lança um pequeno tapa no braço direito, como forma de me punir pelo o que eu havia dito. – Ai! Você está louca? Estou dirigindo aqui se você não notou. Quer nos matar? – Pergunto em meio a risadas que agora nós duas compartilhamos.

– Você não está louca de interromper o caminho perfeitamente planejado daquela que será a futura estrela da Broadway. – Os risos se intensificam e só então percebo que já estamos na rua em que ela mora.

– Está entregue, Srta. Estrela da Broadway. – falo enquanto paro na frente da casa dela. – Agora diga quando você tem um tempo livre para fazer a resenha com essa pessoa aqui que já pode ser considerada sua primeira fã. – Rachel ri do que eu acabei de falar. Noto também que ela fica levemente corada. Impossível não dizer que ela fica adorável com aquele pequeno rubor na face.

– Como temos o dia complicado, você no treino das Cheerios e eu com as coisas do balé, do Glee e dos outros grupos que faço parte... – Como que ela consegue se dividir entre tantas atividades? Só as Cheerios e o Glee levam quase toda minha energia — Acho que podemos fazer a resenha no sábado a tarde, se for bom pra você.

– Está ótimo! Estou livre no sábado. – Impossível não rir ao pensar na quantidade de grupos que Rachel faz parte.

– Então você pode vim aqui para casa. Mas acho que devemos ver o filme mais uma vez, assim podemos ver os detalhes que podem ter passado despercebidos.

– Tudo bem, desde que você não durma mais durante o documentário. – Falei em meio a risadas. Descobri nesses últimos minutos que adoro implicar com Rachel.

– Fabray, eu não dormir. Mesmo assim, mantenha seus braços longes de mim que eu prestarei total atenção no filme. – Eu quase me engasgo com minha própria saliva diante aquela declaração. Que baixinha atrevida!

– Ei! Foi você quem veio se aproximando usando a desculpa de que estava com frio. Eu não tenho nada a ver com a sua falta de interesse pelo filme. – Protestei em um tom de seriedade.

– Tudo bem, Quinn. Apenas venha no sábado, ok? Agora preciso ir, pois preciso postar um vídeo novo no MySpace. Aproposito, você deveria ver meus vídeos, agora que somos amigas. – Impossível que o ar não faltasse aos meus pulmões. Ela jamais poderia imaginar que eu já havia assistido a esses vídeos por uma quantidade de vezes absurdas.

– Se eu tiver tempo, talvez assista. Já é demais ver você cantando no Glee. – Falei levando quase simultaneamente dois tapas no ombro. Ok, talvez ela tenha descoberto que gosta de me bater tanto quanto eu gosto de implicar com ela. – Ei! Não se acostume a me bater, somos amigas, mas não sou seu saco de pancadas.

– Então não me dê motivos para te bater que eu não voltarei a fazer. -

– Vou acionar a justiça numa denuncia por agressão física. – Falei, enquanto ela sai do carro, dando a volta pela frente dele e se debruçando na janela que fica ao meu lado.

– Acho que isso compensa esses tapas que você levou. – Ela se inclina para dentro do carro e me dá um beijo no rosto. No mesmo momento sinto meu coração acelerar pela centésima vez no dia, sem falar nas ondas de calor que percorrem meu corpo.

Nesses poucos segundos em que os lábios dela entraram em contato com minha bochecha, sinto toda a ternura que um beijo pode transmitir a alguém. Agora só posso agradecer aos deuses por ela ser tão afetiva assim.

Rachel não disse mais nada e nem me deu chance de falar. Ela simplesmente saiu caminhando em direção a entrada da casa. Dei partida no carro e sigo em direção a minha casa.

Agora, deitada em minha cama, refazendo em minha mente tudo o que me aconteceu desde os pensamentos de ontem até o beijo no rosto de hoje, só consigo chegar a uma conclusão: Estou perdidamente apaixonada por Rachel Berry. Impossível não estar se tudo nela me agrada, se o cheiro dela me faz delirar, se as brincadeiras me fazem rir como nunca, se o calor de nossos corpos parecem estar em uma combinação perfeita.

Eu nunca tive uma aula de história tão divertida quanto aquela. Meu dia que começou péssimo, terminou de uma forma mais que agradável. Preciso dizer que estou mega ansiosa para que sábado chegue logo?

Notas finais
Migos e migas, comentem, please!